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segunda-feira, 7 de março de 2016

NATO DECLARA GUERRA AOS REFUGIADOS





A NATO iniciou no Mar Egeu a primeira guerra declaradamente contra civis desarmados, indefesos, buscando apenas a sobrevivência. Sob comando alemão, forças navais do Reino Unido, Turquia, Grécia e Canadá juntam-se no Mar Egeu para realizar uma operação conjunta contra os refugiados das guerras do Médio Oriente, com o objectivo de interceptar as barcaças onde procuram manter-se vivos, para os devolver aos países de origem.
O primeiro-ministro Britânico, David Cameron, confirmou a operação, “de importância vital”, anunciando o envio de um navio anfíbio equipado com um helicóptero Wildcat. Tudo isto acontece, segundo o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, “no meio de uma crise de nervos provocada principalmente por razões de fraqueza política”. Ficando então a saber-se que os dirigentes europeus não acham melhor remédio para tal debilidade, que é congénita, do que deitar mãos às armas para combater os fugitivos de guerras que eles criaram, e a quem sobra a alternativa de morrerem afogados. Chama-se a isto “guerra humanitária”, preservar “o nosso civilizado modo de vida” e consolidar “os padrões democráticos, depois de se terem multiplicado conflitos para “instaurar a democracia”
A primeira acção partiu da Alemanha, que passou do acolhimento festivo ao envio de três navios de guerra com destino ao Mar Egeu, dotados de meios de intervenção rápida, para agora combater os refugiados como criminosos. Nas mesmas águas estão igualmente navios de patrulha fronteiriça, aos quais se vão juntar meios militares gregos, turcos e canadianos. A Turquia será municiada com dados obtidos pela espionagem da NATO sobre os movimentos das massas em fuga.
O pretexto oficial para esta declaração de guerra contra um exército de seres humanos desesperados é o combate aos traficantes de pessoas, que montaram redes mafiosas à caça de lucros que, segundo dados de organizações de socorro aos refugiados, superam os gerados pelos tráficos de droga e de armas.
Entretanto, os dirigentes da União Europeia voltam a reunir-se para discutir o problema e a sua “crise de nervos”. Sejam quais forem os resultados, conhecemos já o espírito dominante: resolver a crise dos refugiados pela força, com recurso à guerra.
Não é difícil concluir, aliás, que não conhecem outro caminho. Em primeiro lugar, os dirigentes europeus são cúmplices dos comportamentos que desencadearam guerras e a completa desarticulação de países como o Afeganistão, o Iraque, a Síria e a Líbia – aos quais podemos acrescentar as consequentes situações caóticas existentes no Líbano e na Jordânia. Para que tal acontecesse, os dirigentes europeus, tal como os norte-americanos, convergindo na NATO, não hesitaram em fomentar e em articular-se com grupos terroristas sem excepção, o que significa terem as mãos sujas do sangue que a Al-Qaida e o Estado Islâmico fazem correr. Depois, aterrados com a vaga humana de fugitivos gerados por essas guerras, os dirigentes europeus toleraram que, através de toda a Europa, fossem levantadas barricadas em forma de muros, valas, cercas de arame farpado, grupos de assalto e milícias nazis. A seguir, respeitando a incontestada liderança alemã, consentiram que a União Europeia fosse aos cofres, trancados aos europeus mais necessitados, para deles sacarem milhões para o islamismo turco, cuidando que ele – que tanto ajuda as guerras na Síria e no Iraque – travaria os refugiados. Até que – fase em que agora entrámos – os dirigentes europeus organizam uma guerra que, em última análise, atinge as vítimas inocentes das guerras que eles próprios contribuíram para desencadear.
Sendo que a NATO, entidade que, directamente ou por interpostos aliados é parte original e activa nos conflitos no Iraque, na Líbia, no Afeganistão e na Líbia, conduz agora a guerra contra os que fogem desesperadamente dessas tragédias.
Fecha-se o ciclo através da fórmula mágica de lançar uma guerra contra as consequências de outras guerras? Certamente que não. Porque nada no comportamento dos dirigentes europeus denota o senso comum que aconselharia a tentar resolver, com seriedade e respeito pelos direitos humanos, as causas do problema, as guerras que em tempos ajudaram a desencadear. Preferem acolher-se à patranha cultivada pela NATO, que mais parece retirada dos confins da mais negra propaganda goebeliana, de que a Rússia e o regime sírio de Assad se mancomunaram para inundar a Europa de refugiados, tentando assim acabar com a União Europeia.
Não será preciso isso: a União Europeia é inimiga de si própria. O pior é que todos nós, refugiados ou não, sofremos as consequências; as quais, por este andar, ameaçam tomar proporções catastróficas.
 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A “PERSONALIDADE” E AS PESSOAS


 
A revista norte-americana “Time”, ponta de lança da comunicação social ao serviço do regime económico, militar e político global, escolheu a Srª Merkel como a “Personalidade do Ano”.
Nada de novo, nada a estranhar, a figura certa para a decisão certa, tanto mais que, de acordo com a definição da revista, o critério da escolha assenta na influência exercida sobre os acontecimentos do ano, que tanto pode ser “boa” como “má” e vice-versa. Por isso, o principal rival da chanceler alemã no concurso foi o sanguinário chefe terrorista Al-Baghadi, líder do Estado Islâmico; e um dos seus antecessores, homólogo e compatriota contemplado com o galardão foi o próprio Adolf Hitler. Tudo nos conformes.
Creio não haver dúvidas quanto ao teor da influência da Srª Merkel que lhe terá valido tão subida honra no país onde os serviços secretos se têm dedicado a devassar-lhe a vida e os telefonemas. Talvez a “Time” tenha tido, por isso, um insólito rebate de consciência numa instituição onde a consciência não pode nem deve beliscar objectividades, arroubo esse susceptível de ter decidido o sprint final de tão cerrada corrida em desfavor do terrorista mais famoso da era pós Bin-Laden.
A Srª Merkel venceu e devem os súbditos europeus orgulhar-se com a decisão, vinda ela de onde vem. A Srªa Merkel, a mais fundamentalista entre os fundamentalistas do défice, a prodigiosa madrinha do Tratado Orçamental e outras medidas da União Europeia para meter na ordem os madraços que desafiam a prodigiosa ordem neoliberal, a chanceler que sem fazer a guerra pela via militar conseguiu vergar toda a Europa ao poder teutónico, coisa que nem Hitler alcançara com a sua máquina infernal de morte, enfim a chanceler que conseguiu agregar 27 Estados federados à Europa depois da compra da RDA por tuta e meia, sem que a União Europeia se assuma como federação, merece, sem dúvida, a honrosa capa da “Time” que também já pertenceu a Bin-Laden e Obama. Por “boa” ou “má” influência? Os mercados, os banqueiros e outros magnatas, os generais da NATO, os dignitários fascistas ucranianos e de outros tugúrios europeus, os trauliteiros e mentirosos que depois de arrasarem o Afeganistão, o Iraque e a Líbia insistem em fazê-lo na Síria, destacadas figuras pacifistas e humanitárias como o Sr. Netanyahu de Israel não têm quaisquer dúvidas sobre a bondade e a clarividência da senhora. Que importam as vagas de refugiados provocadas por guerras que ela contribui para sustentar, mesmo violando a Constituição do seu país? Que mal tem a expansão da pobreza, da miséria e da humilhação na Europa atrelada à austeridade que ela cultiva com o amor de quem extermina as ervas daninhas no seu bem-aventurado jardim? A “Time” nada tem a ver com isso, o seu jornalismo zela apenas pela ordem estabelecida – onde o terrorismo, até o intelectual, cabe a preceito – no fundo a tecnocracia da influência nada tem a ver com o “bem” ou o “mal”. Não sabemos nós, por experiência própria, que o “mal” pode servir de “bem” e vice-versa, tudo dependendo das circunstâncias e dos interesses, digamos, mais influentes?
A “Time” limita-se a escolher a “Personalidade” e não tem a ver com o desprezo dessa “Personalidade” em relação às pessoas. Isso não conta para nada, tal como a opinião dos leitores da própria “Time”, que assim aprendem a comer e calar como democraticamente deve ser.
Para que conste: no processo que culmina com a capa expondo a “Personalidade do Ano”, que anteriormente se chamava o “Homem do Ano – há que acompanhar os aggiornamenti ditados por essas coisas modernas de género – os leitores da “Time” são chamados a escolher os seus ou as suas favoritas. Neste ano, por exemplo, nenhum dos nomes mais votados pelos leitores foi incluído pelos serviços de selecção da “Time” na ilustre “short list” final que conduziu à coroação da Srª Merkel.
O mais votado dos leitores foi Bernie Sanders, um dos candidatos democráticos à Presidência, Senador pelo Estado de Vermont. Bernie Sanders que defende um serviço de saúde universal e gratuito nos Estados Unidos - achando muito curta a reforma de Obama; que foi contra as guerras desde o Vietname ao Iraque, que denuncia as cumplicidades do poder norte-americano com os grupos terroristas, que defende uma reforma da comunicação social de modo a que deixe de ser um mero poder dos grandes grupos económicos, que apoia a energia limpa e se bate contra o aquecimento global, que alerta contra os perigos dos transgénicos, que contesta a política de golpes e de “quintal das traseiras” na América Latina, que tem o atrevimento de sugerir uma auditoria ao Banco Central (Reserva Federal, FED).
Mas em que mundo julgam estar os leitores da “Time” que sugeriram maioritariamente este Bernie Sanders? Um mundo para as pessoas ou o mundo de “Personalidades” como a Srª Merkel ou o Sr. Al-Baghdadi?  
 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A TORTURA COMO SEGREDO DE ESTADO


 
Todos sabemos que os Estados Unidos da América são os campeões dos direitos humanos, qualidade que lhes faculta a possibilidade de actuarem como juízes na matéria e promoverem guerras, assassinando milhares de seres humanos e espalhando multidões de refugiados através do mundo, lá onde os direitos humanos são violados sem qualquer pudor.
É sabido que os Estados Unidos nada têm a ver com o desmantelamento de um país chamado Líbia, a fragmentação do Iraque em múltiplos cenários de guerra, a transformação do Afeganistão no Eldorado dos empresários multinacionais de heroína, ou com a destruição de um país chamado Síria e a liquidação massiva de milhares dos seus habitantes. O apego norte-americano aos direitos humanos é tal que os seus dirigentes, com o presidente Obama à cabeça, estão consternados com a proliferação de refugiados na Europa provocada pelos enunciados conflitos, mostrando-se disponíveis – por enquanto apenas em palavras – para acolher um lote de 10 mil enquanto mandam erguer mais muros e cercas para dissuadir uma praga de mexicanos que sempre os ameaça.
Em matéria de direitos humanos os Estados Unidos da América são igualmente um exemplo no combate à tortura, actividade que não praticam e, como diz gente carregada de más intenções, nem voltam a praticar.
Confirmou-se agora, porém, através das repercussões na comunicação social das notas de um advogado de um detido de Guantanamo, esse campo de férias erguido pelo Pentágono e a CIA em território cubano ilegalmente ocupado, que os presos ali confinados são submetidos a sessões de tortura com alguma regularidade. Um deles, de nome Abu Zubaidah, foi vítima de waterboarding – simulação de afogamento até à inconsciência - 83 vezes num único mês, além de ser alvo de continuados espancamentos e tratamentos humilhantes. Zubaidah, preso há nove anos sem culpa formada – norma corriqueira em qualquer catálogo de direitos humanos – já cegou de um olho em consequência de tão generosa hospitalidade.
Notas de outros advogados revelam que as atrocidades são cometidas por indivíduas e indivíduos embriagados, que recorrem ao que estiver mais à mão sejam martelos, tacos de basebol, prosaicos varapaus ou mesmo aos próprios cintos, como qualquer pai disciplinador com mente medieval. Claro que pessoas com estes comportamentos não podem ser da CIA e outras instituições igualmente democráticas e respeitadoras dos valores básicos “da nossa civilização”. Por isso o presidente Obama, os seus ministros e secretários, os seus conselheiros e agentes de censura decidiram que tais actos não podem ser reconhecidos oficialmente, incluindo as notas dos advogados de defesa, que agora vão ter de se haver com a lei apesar de reclamarem que as suas denúncias são feitas de acordo com a Lei e a Constituição.
Há meses ainda vieram a lume, por acção voluntarista de membros do Congresso – certamente quintas colunas do terrorismo universal – algumas denúncias dessa tortura, ainda que poupando os cidadãos à identificação dos esbirros e aos lugares clandestinos onde praticam tortura, embora se saiba que alguns se situam na democrática Europa. As ondas de choque das revelações, porém, terão incomodado a CIA e o Pentágono, consideradas até nocivas para o esforço de guerra desenvolvido pelos denodados destacamentos libertadores.
Agora o presidente Obama e os seus declararam que tais assuntos são confidenciais, uma vez que segredo de Estado deve continuar a ser segredo de Estado, em nome da segurança do Estado e dos cidadãos, mesmo que o Estado tenha deixado de ter alguma coisa a ver com estes.
Ignore, portanto, tudo quanto atrás ficou escrito sobre práticas violadoras dos direitos humanos pelo país que mais os defende. Ignore que a Administração norte-americana gere lugares clandestinos, ou nem tanto, onde se praticam sessões de tortura. Tal não existe; o que é oficialmente escondido não existe. A bem do respeito pelos direitos humanos.
 
 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

INTRODUÇÃO À TEORIA DO CAOS


 

É provável que nenhum dirigente da União Europeia ou de Estados membros tenha alguma vez ouvido falar da “teoria do caos”, lançada e burilada no pós-guerra pelo filósofo Leo Strauss, da elite política judia e do establishment dos Estados Unidos, continuada até hoje pelos seus discípulos - e financiada pelo Pentágono. Raros são também os jornalistas que a integram nas suas investigações e análises, sujeitando-se a ser imediatamente rotulados como seguidores lunáticos das chamadas teorias da conspiração.
Em poucas palavras, a “teoria do caos” de Strauss estabelece que a melhor maneira de os Estados Unidos da América impedirem a criação de países ou blocos rivais e beneficiarem de matérias primas baratas e com acesso desregulado é através da instauração de situações de caos governamental e social em diferentes países e regiões, de maneira a que Washington delas possa tirar proveito praticamente exclusivo. Para Leo Strauss, a criação de situações de caos favoráveis aos Estados Unidos deveria ser um fim, nunca um meio.
A “teoria do caos” de Strauss teve desenvolvimentos no início dos anos noventa do século passado, quando Washington tratou de fazer vingar a unipolaridade disfarçada de multipolaridade a seguir ao desmembramento da União Soviética. Por iniciativa de George Bush pai nasceu então a “teoria Wolfowitz”, que deve o nome a Paul Volfowitz, discípulo de Strauss, igualmente membro da elite judia norte-americana, arquitecto da política externa de George Bush filho e da invasão do Iraque. Também foi presidente do Banco Mundial. Regressou à sombra depois de conhecidos os escândalos através dos quais rateava cargos públicos entre os amigos neoconservadores, familiares e namoradas.
Em poucas palavras, a “teoria Wolfowitz – ainda secreta mas parcialmente revelada pelo New York Times e pelo Washington Post em Março de 1992 – estabelece que a supremacia global norte-americana exige o controlo militar, político e económico sobre a União Europeia, para que esta não se torne uma potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Aliada sim, mas nunca em plano igualitário.
Suponhamos então que a teoria de Strauss e a sua sucessora delineada por Wolfowitz não passam de delirantes teorias da conspiração. Suponhamos até que o seu gestor financiado pelo Pentágono, Andy Marshall, não se reformou apenas no ano passado, já com 92 anos, e nunca existiu. Nem foi nomeado em 1973 – sucedendo a Leo Strauss, por morte deste – por Richard Nixon e confirmado por todos os presidentes até Obama.
Ignoremos então esses supostos delírios e olhemos para a Europa, em especial para a União Europeia e respectivo percurso desde o início dos anos noventa do século passado. Reflictamos sobre as consequências do mergulho suicida no neoliberalismo, da submissão à NATO como braço operacional do Pentágono, do envolvimento em guerras desencadeadas pelos Estados Unidos, desde o Afeganistão à Síria e à Líbia, onde aliás as principais aventuras militares foram confiadas à França de Sarkozy/Hollande e ao Reino Unido de Cameron. Observemos o que está a acontecer na Europa, sobretudo na União Europeia, com a tragédia dos refugiados resultante dessas guerras.
Não será disparatado concluir que a hecatombe humanitária, política e económica dos refugiados resulta das situações de caos criadas no Afeganistão, no Iraque, na Somália, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Síria, no Iémen. Antes destas guerras com a marca do Pentágono, arrastando os mais importantes países da NATO em condições de subalternidade, o problema dos refugiados na Europa não atingira nunca uma dimensão sequer próxima da que agora se regista.
A Europa está há longos anos mergulhada numa crise disparada a partir dos Estados Unidos e que se alimenta a si mesma pelos erros sucessivos cometidos pela União Europeia ao pretender ser um espelho do modelo do lado de lá do Atlântico, mas sem voz própria militar e económica. Crise essa que se agrava através da submissão reforçada com o acordo de comércio livre (TTIP) e, sobretudo, com o problema dos refugiados decorrente das situações de caos que estão para lavar e durar nas zonas e países atrás citados. A gravidade da crise dos refugiados é o veículo que transporta o caos para o interior das fronteiras europeias, potenciado de maneira desagregadora pelo recrudescimento do terrorismo nazi-fascista.
A “teoria do caos” será uma miragem, mas o caos real vai provocando os efeitos desejados pelo complexo militar, político, económico e financeiro que domina o mundo sob as bandeiras dos Estados Unidos e da NATO.
 

sábado, 15 de agosto de 2015

RACISMO À FLOR DA PELE


 
Os grupos declaradamente racistas e xenófobos do Reino Unido, como por exemplo o UKIP, não conseguiram transformar os seus milhões de votos em deputados, mas a mensagem segregacionista não se perdeu e foi tomada em mãos pelo primeiro-ministro David Cameron e respectivo governo. Reeleito de fresco, Cameron soltou a língua e escancarou o que lhe vai na alma a propósito da “ameaça” que a “praga” da emigração representa para a loira pureza britânica.
“Praga” foi a palavra escolhida pelo chefe do governo de Sua Majestade para citar o movimento de refugiados desejando entrar no Reino Unido, onde muitos têm familiares, a partir do porto francês de Calais. Autorizado pela franqueza do discurso do seu chefe, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Philip Hammond, assumiu essa preocupação de maneira mais abrangente, em nome de toda a Europa, durante uma entrevista à BBC. “A Europa não conseguirá proteger-se e preservar o seu estilo de vida e a sua estrutura social se absorver os milhões de imigrantes vindos de África”, disse. E logo a comunicação social tablóide e não só se sentiu encorajada a soltar os impropérios racistas, até agora tão dificilmente recalcados, para associar os refugiados e imigrantes a “pilhagens”, “marés de desordeiros”, “correntes de malfeitores” – enfim, a escalada verbal corresponde a uma desbragada perda de compostura, à libertação da natureza autêntica de quem nela participa e, por este andar, não tardará a passar à fase da acção repressiva e punitiva.
O reaparecimento da insolência racista através da Europa, observável em comportamentos como estes, da construção de vedações, redis e muros anti refugiados e também da instauração de governos de índole fascista, é inquietante.
O que torna ainda mais assustadora a proliferação destas manifestações de desassombro racista é a sua conjugação com a irresponsabilidade política dos dirigentes que as proferem. Enquanto se queixa da “praga” de refugiados, David Cameron defende como uma das panaceias para o problema a restauração da estabilidade política em países de onde chegam os imigrantes, citando explicitamente a Líbia, a Síria, o Iraque e o Afeganistão. Precisamente as nações onde ele mesmo, parceiros, antecessores e aliados instauraram o caos de onde fogem aqueles tudo arriscam, inclusive a vida, para chegarem à Europa. Isto é, queixam-se da “praga” e barricam-se contra ela os mesmos que a criaram. Os mais cegos dos cegos são os que não querem ver.
No caso de David Cameron e respectivo ministro dos Negócios Estrangeiros – que por sinal foi conselheiro avençado do governo do Malawi antes de se dedicar a altas cavalarias políticas – registe-se que tinham o racismo à flor da pele, de tal modo que nem precisaram que o problema assumisse dimensões exasperantes para gritarem o que lhes vai na alma. Os pedidos de entrada no Reino Unido nos primeiros meses deste ano foram da ordem dos 7500, cerca de quatro por cento dos registados em toda a União Europeia, número muito inferior ao de países como a Áustria, Suécia, França, Itália, Alemanha e da própria Grécia, onde o pedido de entradas foi 16 vezes superior. Um valor que representa, aliás, uma ínfima gota de água quando comparado com os refugiados sírios no Líbano (1,1 milhões, um quarto da população do país), na Turquia (1,8 milhões) ou na Jordânia (630 mil), países assim atingidos devido à irresponsabilidade de um governo fazedor de guerras como é o do Reino Unido – entre alguns outros aliados, claro.
Se a Europa “não consegue preservar o seu estilo de vida e a sua estrutura social”, como se queixa o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, então os principais responsáveis são os dirigentes políticos que tomaram conta dos países e instituições da União Europeia.