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quinta-feira, 14 de abril de 2016

O MANOBRISMO É VÍCIO INCURÁVEL


 

O presidente do Banco Central Europeu participou na primeira reunião do novo Conselho de Estado da República Portuguesa.
Tal aberração pareceu normal à comunicação social oficial, que há muito perdeu as referências da soberania e cujo sentido crítico está limitado a qualquer beliscadura que seja dada na União Europeia e correlativos. Foi possível, até, detectar uma pontinha de orgulho por alguém tão revelante como o senhor Draghi ter descido do seu pedestal para aceitar dirigir-se a Belém.
O que aconteceu, porém, foi um gravíssimo acto de humilhação dos portugueses sob os próprios narizes, uma ingerência grosseira nos órgãos de soberania da República franqueada pelo “mais alto magistrado da nação” – não era assim que se dizia nos tempos da “democracia orgânica” dos padrinhos do actual chefe de Estado?
Zé Mário Branco, na sua “chulinha” desencantada, aquela em que “o mês de Novembro de vingou”, diria a propósito de mais este triste episódio, que “houve aqui alguém que se enganou”. Mas não: o equívoco é aparente e nada tem de inocente. O fabricante de factos políticos na TV catapultado para presidente da República continua a sua saga de manobrismo que lhe corre nas veias, e daqui em diante será sempre a refinar.
Mario Draghi, um tecnocrata ao serviço do regime de austeridade, veio a Lisboa com a missão de ilibar o governo anterior de todas as malfeitorias que fez aos portugueses, excedendo até Bruxelas nos atentados sociais cometidos; e dizer ao actual governo, aproveitando a porta aberta pelo presidente da República, “estou de olho em vós”, isto é, não caiam na tentação de emendar o caminho que vem de trás.
Foi esta a baixa manobra política organizada pelo presidente da República, em condições de absoluto desrespeito pela soberania de Portugal.
Mario Draghi é um dirigente não-eleito de uma instituição europeia que gere a moeda única dentro dos cânones não-democráticos e ao serviço de uma só potência da União, e que vêm da sua génese. Ninguém perguntou aos portugueses, por exemplo, se queriam a moeda única, se aceitavam os critérios de convergência e demais ingerências que não passam de instrumentos da austeridade.
Acresce que o não-eleito Draghi pertence à dinastia do terrorismo financeiro praticado pelo Goldman Sachs, a tal instituição que provocou a última crise e cujo presidente diz fazer “o papel de Deus na Terra” – pelos vistos a institucionalização da austeridade como regime político.
Draghi não foi um grumete do Goldan Sachs: desempenhou funções de vice-presidente e de director executivo, por sinal numa época em que a empresa martelava as contas públicas na Grécia que estão na origem do terrorismo social que continua a ser imposto ao povo grego, em parte por acção do Banco Central Europeu, presidido agora pelo mesmo Draghi.
Pelas mãos do chefe de Estado, foi este dirigente do submundo opaco das manobras da grande finança internacional que veio dar mais do que simples palpites na reunião inaugural do novo Conselho de Estado da República Portuguesa.
O carácter aberrante do acontecimento passou praticamente em claro aos portugueses, ao que parece entorpecidos de embevecimento com a actividade frenética do afamado politólogo-futurólogo transferido de Queluz para Belém.
O próprio governo, que em dois tempos levou uma rasteira sem bola, parece que nada sentiu.
Mas quem quiser perceber que perceba: o presidente da República Portuguesa tem agenda própria, orientada pela hora de Bruxelas, susceptível de funcionar como manobra capciosa para extravasar os seus poderes constitucionais – e não em benefício dos portugueses. O manobrismo político é um vício incurável.
 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

52 LONGOS DIAS…


 
Parece que Portugal já tem governo. Ou melhor, a lista governativa apresentada pelo primeiro-ministro “indicado” e não “indigitado” – é complexa e retorcida a semântica de Belém – está a ser filtrada pelo senhor Presidente da República em exercício, acção legítima, quiçá, mas jamais divulgada aos cidadãos nestes termos acintosos, dir-se-iam ressabiados. Talvez o senhor Chefe do Estado queira inteirar-se da eventualidade de estar por ali escondida alguma ameaça terrorista, algum “feroz” inimigo da NATO, um sinistro contestatário do euro e da liderança absoluta dos mercados. Espécie de portugueses bastardos, ao que consta.
Nesta manobra se vão perdendo mais uns dias, já lá vão 52 desde as eleições gerais e mais de duas semanas desde os acordos que selaram a existência de uma maioria parlamentar que permite a formação de um governo legítimo, estável e coerente – tudo o que não é garantido pelo executivo demitido mas que tarda em largar o poder.
Cinquenta e dois longos dias em que o senhor Presidente gerou uma cacofonia de conceitos sobre a suposta maldição que assaltou o país através de entendimentos políticos entre partidos que desmantelaram a ilegitimidade do chamado “arco da governação”, espécie de travesti de partido único talhado à medida de financeiros e agiotas globais. Entre figuras e figurões que integraram a romaria dos que o foram aconselhar, de tal competência que muitos deles, há um ano apenas, juravam que a solidez do BES era de betão – o senhor Presidente foi ainda escutar as cagarras madeirenses para finalmente se render à evidência – sem se dar por convencido - de que a melhor prática democrática e republicana é entregar a formação dos governos às maiorias parlamentares.
Antes ainda de se retirar para fiscalizar a lista ministerial que lhe foi entregue por António Costa, o Chefe do Estado Português apresentara exigências, digamos, insólitas para quem tinha a obrigação de conhecer de cor e salteado os acordos de incidência governamental da maioria e também o programa de governo do Partido Socialista deles resultantes. O senhor Presidente apresentou meia dúzia de condições com duas interessantes particularidades: nenhuma delas revelava preocupação com as pessoas, mas sim com os falcões da NATO, os suseranos de Bruxelas, os magarefes das finanças, além de proclamar o absolutismo de tratados que hipotecam a soberania nacional; e quando olhadas uma por uma, nenhuma dessas condições poderia ser cumprida pelo governo ainda em funções, muito menos as de governabilidade, durabilidade e estabilidade, porque não dispõe este executivo de maioria parlamentar, isto é, de base para governar. Tirar uma tal conclusão nada tem de abusivo e especulativo: o senhor Presidente não impôs as mesmas condições ao primeiro governo que empossou, o qual em poucos dias ruiu fragorosamente, vítima da aritmética simples do funcionamento parlamentar. Assim sendo, o conceito presidencial de estabilidade e de durabilidade para quatro anos digamos que é flexível.
Dir-se-ia, através do arrastamento destes processos, que o senhor Chefe do Estado não se importou de deixar o país refém dos seus humores de mau perdedor, do feitio de vingativo que lhe veio ao de cima, por exemplo, no discurso de reeleição. Houve mesmo agentes económicos e até membros da academia de novos feiticeiros conhecidos como “politólogos” que desaconselharam tal comportamento, por ser susceptível de irritar os mercados levando-os a castigar o país – isto é, não o senhor Presidente mas as pessoas, os cidadãos comuns - e a dificultar desnecessariamente a vida ao próximo governo.
E, contudo, Portugal sobreviveu. Os sapientes “analistas” financeiros, outra casta de bruxos em funções, surpreendem-se até que o mais recente leilão de dívida pública portuguesa a dez anos tenha decorrido com juros contidos – dir-se-ia até, pelo tom dos comentários, que desejariam o contrário para não terem de engolir as previsões catastrofistas.
Portugal sobreviveu, mas em cacos, e 52 dias assim desbaratados não lhe dão saúde, muito menos ao coração do país, as pessoas. Agora há que limpar e arrumar a casa e tentar ir o mais longe possível na sua restauração ao serviço dos cidadãos. Infelizmente a varredela do Palácio de Belém ainda tem de esperar até Março.
 

sábado, 3 de outubro de 2015

DOS BRAGANÇA AOS BOLIQUEIME




Estará Portugal na alvorada da V Dinastia? Quando um Presidente da República Portuguesa manda dizer aos súbditos que está a pensar e por isso não poderá comparecer nos actos comemorativos dos 105 anos da implantação da República, uma tal hipótese restauracionista ergue-se no horizonte dos tempos nebulosos que atravessamos.
Em verdade, em verdade vos digo que desconheço o que na verdade mais me inquieta, se o facto de o Presidente da República se recusar a comemorar a República ou o acto de o Presidente da República ameaçar que vai pensar. Há 30 anos que conhecemos de ginjeira os resultados dos esforços de cérebro tão saturado, pelo que ai de nós quando ele anuncia a intenção de reflectir. Para pior já basta quando faz jus ao cognome de “imóvel de Belém”, como a plebe o vai conhecendo. Os seus malefícios são imensos pelo simples motivo de existir como Presidente da República. Tornando-se esse Presidente da República um ser pensante, ainda que pelo curto de espaço de um dia, por coincidência o da celebração da República, os augúrios nada têm de prometedor.
E que terá o Presidente assim de tão complexo para pensar? Encarregar o partido com mais deputados na nova Assembleia da República – ou deverei escrever Cortes – de formar governo? Escrevo e sublinho com mais deputados, e não a força mais votada, porque as coligações se desfazem assim que forem apurados os resultados eleitorais, passando os deputados a representar partidos ou a assumir a condição de independentes, no caso de o serem. Ora para decidir em termos de um senso democrático comum bastam conhecimentos rudimentares de aritmética, que não devem faltar ao economista Presidente da República, pelo menos aos seus conselheiros e assessores, ou será mais adequado escrever vassalos?
Há qualquer coisa de enigmático, misturada entre preconceitos óbvios, na atitude do Presidente da República, em tirocínio para D. Aníbal I, quando manda anunciar que vai pensar. O óbvio é que entre o Presidente da República, corta fitas de estátuas de reis, e a República não existe qualquer traço de união. Aníbal não saberá pelo seu punho alinhavar uma elementar definição de República, porque desconhece o espírito de cidadania, acha que os cidadãos só atrapalham a bondade dos números que os representam, entende que a solidariedade republicana deve ser aquilo que as troikas e os seus servidores – entre os quais ele próprio – aplicam aos povos para que o mercado e seus agiotas engordem, enfim de Res publica Aníbal apenas perceberá o que a expressão tem em comum com rés-do-chão.
A coisa enigmática – permitam-me que especule – poderá ser a tentação de estar prevenido para que os resultados eleitorais lhe proporcionem a monarquização efectiva do regime, que de republicano já pouco tem. Entre pensar de vez em quando e nada pensar, ele próprio, por ora Presidente em título, emerge como um rei talhado ao jeito de outros da modernidade, do tipo “por que não te calas?”; Coelho e Portas darão marqueses a preceito. Azar o dos Bragança, ansiando há mais de um século pelo regresso das mordomias: terão de perder por completo as ilusões, porque mais alto se afirmam os brasões dos Boliqueime, eles sim a alma do reviralho reacionário, inspirados há três décadas pelos esfíngicos tabus de D. Anibal.
A plebe, porém, ainda tem pela frente algumas horas para evitar a consumação da tragédia. Sabemos que os definindo-se como socialistas e republicanos engavetaram o socialismo e se esqueceram do republicanismo – a não ser quando chega o 5 de Outubro – contribuindo, sem pudor, para o estado de monarquia latente em que esbraceja este país, ora prestes a finar-se.
Porém, nem todas as oportunidades de evitar o afogamento se esgotaram. Cada cidadão português pode, por uma vez, deixar de ser um simples número para as estatísticas e usar o voto a seu favor. O cenário e os actores são mais do que familiares; para decidir em termos de cidadania e de regeneração republicana basta fazer com que Aníbal e respectivos sequazes em vez de pensar fiquem a falar sozinhos. Basta fazer aos Boliqueime, agora nas urnas, o mesmo que os republicanos fizeram aos Bragança, há 105 anos.
 
 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

NAKBA


 
 
Nakba, palavra árabe que significa catástrofe, começou há 67 anos e ainda não acabou. É o holocausto de todo um povo, o povo da Palestina, cometido sem parança pelas décadas fora e vitimando já milhões de seres humanos através de perdas de vidas, bens, raízes, em suma, dos direitos humanos fundamentais.
Há 26 anos, no campo de refugiados palestinianos de Deishe, nos arredores da cidade de Belém, um homem com mais de 80 anos, o patriarca de uma família que nos acolheu por umas horas, ausentou-se sem darmos por isso. A grande actriz Maria de Céu Guerra lembrar-se-á por certo deste episódio, porque também fez parte dele e quem o viveu jamais poderá esquecê-lo. Quando o homem reapareceu trazia em cima de uma almofada uma chave enorme, daquelas que rangem nas fechaduras antigas das memórias das nossas aldeias. Mostrou-nos e explicou: era a chave da casa onde nascera, no princípio do século, na cidade de Yaffa, à beira do Mediterrâneo. Em 1948 ele e a família tiveram de fugir devido à violência de grupos terroristas e militares hebreus. Desses tempos guardava um sonho, o de voltar a usar a chave para abrir a porta de sua casa e o de tornar a sentir o cheiro da figueira do pequeno quintal, que então já só existia na sua memória como uma saudade embrulhada em nostalgia e enrugada pelo tempo. Nunca mais soube desse homem, que pela lei da vida não está entre nós. Levou consigo o sonho, porque os jovens da família, em omissão piedosa, lhe esconderam que nem casa nem figueira existiam mais. A gente selecta da cidade de Telavive que, sobretudo aos fins-de-semana, usufrui daqueles subúrbios agora chiques, jamais terá sabido da existência daquele velho, daquela família, da velha casa, da idosa figueira.
Porque ouvi um dia ao grande e corajoso jornalista israelita Gideon Levi, num encontro em Copenhaga, esta confissão: “vivemos a menos de 30 quilómetros de um outro povo, dos nossos vizinhos, e não o conhecemos, não sabemos quem são, o quanto lhes negamos”.
É assim a Nakba, a catástrofe. Um povo espoliado das suas vidas, dos seus bens, das suas aldeias e cidades pela violência, a arbitrariedade, a ira, a ganância de uma casta que, dizendo-se iluminada e portadora de mandatos divinos, se auto proclamou representante de um outro povo, manchando e ultrajando a memória das vítimas de uma outra catástrofe, o holocausto cometido pelos nazis.
A Nakba é uma limpeza étnica permanente, sistemática, cometida por quem tem a noção absoluta do que está a fazer, isto é, a substituição metódica, fria, de um povo por outro com base em ordens divinas que, em boa verdade, deus algum que hipoteticamente exista pode emitir porque a Nakba é coisa de homens sem escrúpulos, sem alma, sem uma réstia de sentimentos, como um qualquer carrasco de um campo de concentração nazi.
Uma limpeza étnica cometida, hora a hora, dia a dia, ano a ano, sob os olhos complacentes e colaborantes dos senhores que exercem o seu domínio sobre o mundo, chamem-se Estados Unidos da América, União Europeia e outros entes tão bem falantes quão mentirosos, que por isso se equiparam aos que praticam a chacina.
O drama é nosso contemporâneo, contudo não é gritado nas primeiras páginas dos jornais, gorjeado pelas vedetas das TV’s, cantarolado ante os microfones das rádios, e quando há excepções – porque as há – reconheçamos a coragem, a verticalidade, o bem da honra de quem as assume.
O drama é nosso contemporâneo. Não é obra do povo hebreu; não é obra dos povos dirigidos pelos cúmplices dos que se dizem condutores do povo hebreu. Saibamos distinguir os responsáveis e as responsabilidades para que venha a ser feita justiça.
Porque justiça terá de ser feita, se justiça ainda existe. A Nakba existe; é um crime contra a humanidade.