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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

NATO ANEXA PENÍNSULA BALCÂNICA


Distribuindo democracia desde 1949

A NATO, ou seja, o braço armado do império norte-americano, acaba de engolir mais um Estado europeu, o Montenegro, sendo que para abocanhar toda a antiga Jugoslávia faltam o que resta da Sérvia e a Antiga República Jugoslava da Macedónia.
Em termos formais, trata-se apenas de um “convite” dos falcões do Pentágono ao pequeno Estado banhado pelo Adriático e cercado pela Bósnia, a Sérvia, a Croácia e a Albânia, mas como o presidente montenegrino se declarou “orgulhoso” perante o chamamento este é um dos tais casos em que podem fazer-se prognósticos antes do fim do jogo, sem risco de errar. Com a inclusão do Montenegro na teia de bases militares imperiais formada pelos países da Aliança Atlântica, são já 12 as nações e regiões do antigo “mundo socialista”, com ou sem influência soviética, engolidas pelo expansionismo do Pentágono desde que a NATO ficou sozinha na arena mundial: Albânia, Croácia, Bulgária, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Letónia, Lituânia, Hungria, Polónia e República Checa – mais de 40 por cento do número de membros da estrutura. Não será exagero somar a esta lista os territórios da Bósnia-Herzegovina, do Kosovo, e da região Oeste da Ucrânia, simples protectorados da aliança.
Ouvindo os analistas que tudo sabem dir-se-á que o “convite” ao Montenegro é uma espécie de gesto generoso e de boa vontade dos generais da NATO para com um país minúsculo, montanhoso, economicamente dependente e sem qualquer interesse militar, a não ser representar mais uma espinha cravada nas gargantas da Rússia e da Sérvia. Talvez os estrategos se tenham esquecido de olhar os mapas, ou então fazem deles uma leitura descuidada. A integração do Montenegro fecha o Adriático como lago atlantista, facilita rotas entre o Mediterrâneo e a Europa Central e de Leste contornando agora a Sérvia, tal como já acontecia com a Macedónia (efeito do Kosovo), fecha o conjunto de países formado pela Grécia, Albânia, Montenegro, Bósnia, Croácia e Eslovénia como um arco da NATO. Em termos geoestratégicos liquida-se o que restava da antiga Jugoslávia a favor da aliança expansionista. Milhões de mortos e feridos depois, no seguimento de chacinas sanguinárias resultantes de guerras artificiais e induzidas a partir do exterior, a inclusão de facto do Montenegro na NATO é o passo decisivo para a anexação da Península Balcânica pelo insaciável atlantismo.
Tal como por exemplo o Kosovo – a quem países da União Europeia pedem agora que não sustente e não dissemine o jihadismo, manhoso eufemismo para não dizer terrorismo – o Montenegro de hoje tem tudo para ser membro da NATO. Não consta que o “orgulhoso” presidente Filip Vujanovic se prenda com o formalismo de organizar um referendo popular sobre o assunto, sobretudo depois do susto com a consulta sobre a independência, declarada em 2006 por meia dúzia de votos duvidosos depois de sucessivos adiamentos, por causa das sondagens desfavoráveis. Além disso, o regime escolheu o euro como moeda depois de ter usado o marco durante parte do período em que a Jugoslávia se fragmentou. Também a corrupção praticada pela casta dominante e o governo do primeiro-ministro Dukanovic, sobretudo o chamado “Escândalo Moldavo” – tráfico de mulheres com epicentro no território montenegrino – parece não incomodar os dirigentes atlantistas e dos Estados membros da democrática aliança. O que é natural em entidades que conhecem as actividades do vizinho e islamita Kosovo nos ramos do apoio ao terrorismo, tráfico de drogas e comércio clandestino de órgãos humanos, tudo a bem da liberdade e da democracia.
Não é difícil nem abusivo estabelecer paralelos entre o novo mapa dos Balcãs e o também designado “novo mapa” que membros da NATO, com os Estados Unidos à cabeça, procuram estabelecer no Médio Oriente. O desmantelamento e a destruição de países como o Iraque, a Líbia e a Síria reflecte o mesmo método usado contra a antiga Jugoslávia logo que ruiu o muro de Berlim: declaração de guerras artificiais sem olhar a meios, e muito menos à vida humana, para concretizar os fins da estratégia imperial de expansão e dominação. No Médio Oriente, Afeganistão incluído – onde a NATO deu o dito por não dito e decidiu agora manter 12 mil ocupantes -, o número global de mortos já atingiu quatro milhões; quatro milhões foi também o número de desalojados na antiga Jugoslávia, onde se registaram pelo menos 140 mil mortos.
Enfim, o combate “civilizacional” tem os seus danos colaterais, a tanto monta a defesa intransigente do “nosso modo de vida” assumido pela valente Aliança Atlântica de motu próprio, sem que os cidadãos sejam tidos e achados. O que aconteceu na Jugoslávia é disso uma lição de história moderna.  
 

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O CAOS DESCE SOBRE A EUROPA


 

Olhemos para a Europa de hoje.
Estado de emergência em França pelo menos durante três meses, no país onde a privacidade dos cidadãos deixou de ser um direito fundamental e o chefe de Estado pretende alterar a Constituição invocando a versão mais recente da chamada “guerra contra o terrorismo”, formulação de péssima memória.
Instauração de comportamentos próprios de Estados policiais em vários países da União Europeia, assim se informando os terroristas de que os seus objectivos de intimidação se estendem bem para lá dos atentados, instalando-se pela coacção psicológica e através da atemorização imposta pelos meios ditos de resposta, estratégia em que o comportamento da comunicação oficial alinhada nada tem de inocente.
Reforço das tendências xenófobas, racistas e persecutórias contra minorias, cada vez mais agravadas, e a ritmo exponencial, pela chegada massiva de refugiados e o modo como é encarada pelos governos e respectivos megafones. Vaga de refugiados que chega dos países artificialmente desmantelados com a colaboração de dirigentes europeus e de onde brota também o terrorismo.
Multiplicação de muros e barreiras através do espaço europeu como parte do combate aos refugiados e reforço dos controlos de fronteiras ao compasso da falsa dicotomia entre segurança e serviços de espionagem, absolutizados estes em sintonia com os venenosos sound-bites que pregam a necessidade de um big brother para garantir “o nosso civilizado modo de vida”.
Institucionalização do revanchismo nazi com a cumplicidade da NATO, o que é evidente em países como a Estónia, a Letónia, a Ucrânia – onde o regime foi instalado com a cumplicidade da União Europeia – Hungria, Polónia, Eslováquia, Bósnia, Croácia, território do Kosovo, a par de ameaças concretas de se tornar poder em países como a França.
Desagregação irreversível da União Europeia, enredada na teia de erros impostos arbitrariamente para combater erros, tudo em defesa do austeritário neoliberalismo, da ditadura financeira e de uma moeda cruel num cenário generalizado de catástrofe social que as desumanas políticas governamentais aprofundam.
A lista de factos poderia continuar e está na mente e nas reais inquietações dos cidadãos. Esta é a Europa que temos, nas mãos de irresponsáveis insensíveis, robots tecnocráticos cujas políticas militaristas e de agressão, com recurso comprovado ao terrorismo, estão na origem do ricochete que vitima civis inocentes já de si inquietos com as limitações à sobrevivência num duro dia-a-dia.
Muitos dos poucos que conhecem a “teoria do caos” idealizada nos anos setenta pelo lobista israelita de nacionalidade norte-americana Leo Strauss, depois recriada e aplicada por Paul Wolfowitz, Cheney, Powell, Rumsfeld e outros membros do gang neoconservador, consideram-na o suprassumo da “teoria da conspiração”.
Acham irrelevante que Wolfowitz seja igualmente um lobista israelita de nacionalidade norte-americana; omitem que ele mesmo, como membro da administração Bush filho, ajudou a criar as condições para a invasão e desmantelamento do Iraque; não admitem que esta operação seja a fonte original do caos gerado no Médio Oriente, escorrendo agora para a Europa enquanto os Estados Unidos se barricam contra as consequências.
Recordando: a “teoria do caos” estabelece que nenhuma potência mundial pode ter condições para rivalizar com os Estados Unidos da América, devendo a União Europeia manter-se sob o controlo político, económico e militar norte-americano. Nem que, para tal, seja preciso nela instalar o caos.
No estado a que as coisas chegaram, porém, o menos importante é concluir se estamos ou não perante uma “teoria da conspiração”. Porque poucos terão dúvidas de que o caos desce sobre a Europa perante uma União Europeia em agonia. Os dirigentes europeus foram no engodo e, um após outro, engoliram todos os sucessivos iscos lançados por Reagan, Bushes, Clintons, Obama e demais padrinhos de Washington que daí lavam as suas mãos enquanto continuam a fingir que nada têm a ver com o Estado Islâmico, a Al-Qaida, al-Nusra e outras comunidades de assassinos a soldo onde também pode encontrar-se o dedo sangrento dos serviços secretos israelitas.
 

sábado, 21 de novembro de 2015

O NOVO CARLUCCI


 
O sr. Sherman está “preocupado”. Ele que abandonou o seu bem-sucedido escritório de advogados em Boston, que descurou as reuniões do Conselho do Memorial do Holocausto para fazer um tranquilo período de repouso sabático na Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal, onde seria suposto nada ter que o incomodasse, agora encontrou razões para se inquietar. É verdade que antes de se instalar passou uns olhares despreocupados pelas aventuras do chefe da CIA, Frank Carlucci, quando destacado como embaixador neste “jardim à beira mar plantado”. Mas como, desde então, tudo entrou nos eixos e caducaram as intensas mas fugazes razões que sobressaltaram o império, Portugal voltou a ser o redil manso e obediente sempre que as simpáticas ovelhinhas ouvem ordens em inglês ou qualquer coisa parecida.
Contudo, de repente e quando nada o fazia prever, o sr. Sherman confessa-se preocupado, e di-lo bem alto, em rádios e jornais com muito boas referências e preferências na sua terra, para que tais inquietações cheguem ao homem do palácio de Belém antes de tomar uma decisão sobre o próximo governo. Ele – o homem do palácio de Belém – que teve a ousadia de receber uma torrente de sábios doutores, engenheiros e economistas pensando as mesmas coisas e não encontrou hora para acolher também o sr. Sherman.
O sr. Sherman, porém, nem precisa de ir a Belém para se fazer ouvir. Está “preocupado” porque o PS, entidade que até agora nunca dera motivos para preocupações a Sherman e antecessores, foi capaz de fazer acordos de incidência governamental com “ferozes inimigos da NATO”, coisa que é ainda pior que ser terroristas porque estes, como ficou bem explicado nos Balcãs, na Líbia, e não deixa dúvidas na Síria, são pragmáticos quanto baste para fazer serviços, por sinal bem sujos e sangrentos, em aliança com os senhores da Aliança Atlântica. Uma mão lava a outra.
O sr. Sherman ressalva, não haja mal-entendidos, que “respeita as escolhas políticas dos portugueses”, porque são assim os verdadeiros democratas como ele que, sendo conselheiro do Museu do Holocausto é, ao mesmo tempo, cúmplice ideológico de atrocidades cometidas em Gaza, da tortura e assassínio de garotos e adolescentes que são moeda corrente nas prisões e hospitais de Israel.
O sr. embaixador Sherman adverte de Sete Rios, em todas as direcções, que o comportamento do PS “levanta a questão sobre se o compromisso de Portugal, como membro fundador (da NATO), é firme como sempre foi”. Porque, como dizia seu pai, “diz-me quem são os teus amigos dir-te-ei quem és” e os socialistas “fizeram uma aliança amigável com dois partidos anti-NATO”.
Sabemos, como atrás ficou escrito, que o sr. Sherman “respeita as escolhas políticas dos portugueses”. Pelo menos, subentende-se, enquanto forem as escolhas que a NATO pretende. E se por acaso, um dia, as “escolhas legítimas dos portugueses” não agradarem à NATO o que acontecerá? O sr. Sherman chamará a NATO para devolver as “escolhas” à devida ordem? Quem assim nos alerta com as suas “preocupações” nosso amigo é?
O sr. Sherman deve saber – ou deverá ter quem o informe – que apesar de Portugal ser membro fundador da NATO os portugueses nunca foram consultados sobre isso, isto é, nunca puderam escolher. Até porque quando Portugal participou na fundação da NATO era governado por um tal Oliveira Salazar que se sucedeu a si mesmo, mandato após mandato, sem que os portugueses alguma vez o tivessem escolhido, tal como acontece com fazer ou não parte da NATO. A relação de Portugal com a NATO, tal como a submissão dos portugueses a Salazar, nunca teve a ver com democracia. Com essa situação, porém, não manifesta o sr. Sherman qualquer incómodo.
Durante anos a fio, durante as últimas décadas não se ouviu um pio da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa. A Oeste nada de novo, para o império tudo corria sobre rodas. De repente, eis que parece surgir uma ovelha tresmalhada e logo ficámos a conhecer quem ocupa o lugar que há 40 anos foi de Carlucci, chefe da CIA. O mastim do império não dorme, nunca dorme. Mas tal como o embaixador dos Estados Unidos, também os portugueses sabem citar provérbios universais, por exemplo o que diz que os cães ladram e a caravana passa. Assim queiram os portugueses honrar as suas escolhas legítimas, incomodem ou não o sr. Sherman e seus amos.
 

 

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

TERRORISMO VERBAL




 
O presidente dos Estados Unidos da América aconselha o presidente da Rússia a “focar-se” nos ataques ao Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh, ou Al-Nusra ou Al-Qaida; o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, propôs que haja uma frente internacional contra o terrorismo.
Disseram-no com ar de grandes estadistas possuidores das soluções para os males do mundo.
Barack Obama queixoso pelo facto de as forças aéreas e navais russas actuando na Síria parecerem “mais preocupadas” em defender o regime de Assad, ao que diz sem poupar os alibis bonzinhos de Washington, Paris, Londres e NATO - a meia dúzia de terroristas “moderados” que servem de interface para abastecer com armas, munições e dólares os terroristas “extremistas”. “Moderação” em que deve confiar-se piamente, sobretudo sabendo que um dos principais fundadores operacionais do grupo foi o chefe em exercício do Estado Islâmico no Magrebe, Abdelhakim Belhadj.
Netanyahu, por seu lado, convencido de que o mundo não conhece a sua generosidade para com o Estado Islâmico ao ceder-lhe os Montes Golã – ocupados à Síria – como rectaguarda, ao facultar-lhe hospitais israelitas para cuidar os terroristas feridos com maior gravidade.
Procurei uma qualificação adequada à gravidade e à irresponsabilidade destas declarações de dois aliados, que se confessam unidos haja o que houver, e só encontro uma: terrorismo verbal. Porque as suas palavras não passam de manobras de diversão que desviam as atenções da essência do terrorismo; porque mentem sobre a realidade gerando propaganda que, em última análise, serve o terrorismo; porque pretendem fazer crer que estes dois seres nada têm a ver com os grupos sanguinários que fingem combater. Obama e Netanyahu aconselham soluções mas continuam a ser a parte essencial do problema.
As forças militares russas colaboram com as forças armadas sírias no combate ao terrorismo? Não existe outra maneira legal de o fazer nos termos da Carta da ONU. A Síria é um Estado soberano, não é um território neutro onde qualquer um pode fazer operações militares quando e como lhe apetece, muito menos invocando argumentos distorcidos. Como é o caso do Pentágono que directamente – agora com tropas no terreno – ou por interpostos terroristas afirma ter como objectivo combater simultaneamente o Estado Islâmico e Bachar Assad, patranha em que nem os autores acreditam porque sabem, melhor que ninguém, que o objectivo é mudar o regime sírio e desmantelar o país. Por isso a “guerra” que Washington e aliados têm alegadamente conduzido contra o Estado Islâmico há mais de um ano deixou os terroristas mais fortes, mais armados, mais endinheirados; à Rússia, porém, bastou pouco mais de um mês para destruir centenas de centros de comando e outros alvos estratégicos do Daesh, libertar aldeias, vilas e aeroportos, estando agora em vias de cortar o eixo terrestre que garante a ligação terrorista entre a Turquia e o Iraque. Até a França, a duras penas, é certo, parece entender que essa é a maneira certa e credível de combater os grupos mercenários, pelo menos tem-no feito nos últimos dias. Sem complexos de coordenar esforços com Moscovo, ou de que tais operações sustentem Assad, na verdade um dos ódios de estimação de Paris. Aliás, a nova opção francesa parece ser a mais eficaz e certeira. Porque, segundo fontes citadas pela imprensa dos Estados Unidos, o ataque gaulês contra o Estado Islâmico lançado no dia seguinte ao dos atentados de Paris, feito ainda em coordenação com sistemas de informações norte-americanos, destruiu várias clínicas e um museu na cidade de Raqqa como sendo assustadores alvos terroristas.
O Obama dos conselhos e acusações à Rússia é o mesmo que contribuiu para destruir a Líbia, que desencadeou a guerra civil na Síria com recurso a mercenários de todos os matizes, que tornou praticamente irreversível o desmantelamento do Iraque. E que agora, de braço dado com Netanyahu, tolera limpezas étnicas no norte do território sírio para criar aí um Estado curdo artificial que lhes garanta o controlo dos manás petrolíferos de uma região que se estende ao país que já se chamou Iraque.
Quanto a Netanyahu e aos seus apelos contra o terrorismo, não há que gastar muito espaço. O mundo sabe que o seu nome se tornou um sinónimo desse mesmo terrorismo.
 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

PERFIL DE UM TERRORISTA DOS NOSSOS DIAS


Recebendo homenagens do senador McCain, dos amigos americanos
 
As informações estão em poder da Interpol. Deitar-lhe a mão nestes tempos em que as leis e as fronteiras não são problema para assaltos a vidas, soberanias e privacidades, seria apenas uma questão de, digamos, “vontade política”, não é assim que costuma invocar-se? O seu paradeiro não é certamente segredo para a miríade de serviços secretos que apregoam defender “o nosso modo de vida”: é a Líbia, depois de tão bem democratizada pela NATO, onde ele exerce altos cargos políticos e operacionais no governo dominante, o mesmo que invoca para si próprio “o islamismo puro”.
Nome: Abdelhakim Belhadj. A história da sua vida dava um filme daqueles bem a gosto de Holywood, tanto mais que o seu currículo – em poder da Interpol, repito – corresponde às imagens dos rambos de séries A, B ou C cujos feitos heróicos coincidem com as vontades objectivas dos Estados Unidos e de Israel, países onde os fins e os agentes escolhidos para os executar justificam quaisquer meios e o recurso a psicopatas sanguinários.
Sabe a Interpol que Abdelhakim Belhadj é, no presente, o chefe do Estado Islâmico, ou ISIS ou Daesh, no Magrebe e que, operacionalmente, criou e orienta campos de treino de mercenários assassinos na Líbia, concretamente em Derna, Syrte e Sebrata, além de um escritório do ISIS em Djerba, na Tunísia.
Antes disto, Belhadj chefiou os terroristas do Grupo Islâmico Combatente na Líbia (GICL), que em 2007 mudou de nome para Al-Qaida, mais sintonizado com os tempos. Por quatro vezes, entre 1995 e 1998, tentou assassinar Khadaffi a mando do MI6, os serviços secretos ao serviço do terrorismo de Estado britânico. Perseguido na Líbia mudou-se para o Afeganistão, onde se instalou e agiu ao lado de Ussama bin-Laden, o qual dispensa apresentações.
Como a polícia espanhola suspeita de que foi um dos mandantes do atentado ferroviário em Madrid Atocha, em Março de 2004, foi detido logo a seguir na Malásia. Como se percebe, não terá sido difícil identificá-lo e prendê-lo, porque meia dúzia de dias e milhares de quilómetros mediaram entre crime e captura. Passou então maus bocados numa prisão secreta da CIA para onde foi transferido e onde ficou alojado para experimentar as famosas técnicas de tortura – “condicionamento de comportamento”, chamam-lhe nos Estados Unidos – do professor Seligman, métodos de cujas provas a CIA tentou desesperadamente impedir a divulgação.
Abdelhakim Belhadj restabeleceu-se depressa: para ele não se seguiram penas eternas no campo de concentração de Guantanamo, também ele eterno se a este Obama se sucederem outros obamas, coisa mais do que provável. É verdade que ainda foi extraditado para a Líbia, através de um acordo entre os Estados Unidos e o regime de Khadaffi, onde voltou a ser torturado, dessa feita às mãos do MI6 que antes servira. Nestas coisas, a CIA e a sua irmã MI6 são muito ciosas, separam as águas, cada uma quer fazer a sua tarefa ainda que repetindo-se.
Khadaffi libertou-o em 2010, no quadro de uma “reconciliação nacional”, e mal teve tempo para se arrepender. Abdelhakim Belhadj viajou para o Qatar e no ano seguinte estava à frente de grupos de mercenários que, ao lado e protegidos pelos bombardeamentos da NATO – França e Reino Unido, principalmente – derrubaram e assassinaram Khadaffi. Como recompensa pelos serviços prestados, e por recomendação na NATO, o Conselho de Transição nomeou-o governador militar de Tripoli, a capital.
Belhadj não aqueceu o lugar. Ainda teve tempo, porém, para exigir e obter desculpas dos Estados Unidos e do Reino Unido pelas sevícias sofridas noutros tempos, e o que lá ia lá foi. Outras tarefas estratégicas o aguardavam. Partiu em finais de 2011 para a Síria, onde foi um dos principais fundadores do Exército Livre da Síria, os famosos “moderados” tão queridos da senhora Clinton, da NATO, da União Europeia - com destaque para a França - e dos regimes fundamentalistas do Golfo, Arábia Saudita à cabeça. O objectivo era derrubar Assad, mas Assad resiste e já lá vão mais de 250 mil mortos, milhões de refugiados e um país destroçado, massacre cujas responsabilidades nenhum intervencionista ilegal e ilegítimo assume.
Sempre sem perder tempo, Abdelhakim Belhadj regressou à Líbia natal, onde fundou um partido governante, a maneira que encontrou, num cenário de caos, para instalar os terroristas islâmicos no poder em Tripoli.
Na qualidade de figura de proa na Líbia, provavelmente já na posição de chefe do Estado Islâmico no Magrebe, que a Interpol reconhece, Abdelhakim Belhadj foi recebido em 2 de Maio de 2014 no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Paris, tutelado por Laurent Fabius, ministro de Hollande e também um incondicional amigo de Israel.
 Laurent Fabius, exactamente: que é ainda o ministro dos Negócios Estrangeiros de Hollande nestes dias em que continuam a sangrar as feridas abertas pelo assalto às vidas dos parisienses, ao que dizem cometido pela organização de que Abdelhakim Belhadj é um dos chefes máximos.
As informações sobre este terrorista-modelo dos nossos dias e o seu currículo estão nas mãos da Interpol. “Estamos em guerra”, proclama o presidente Hollande com os acenos concordantes do chefe da sua diplomacia. Vamos então esperar pelo que se segue, para ver o que acontece.
 
 

domingo, 18 de outubro de 2015

A VERDADE DA MENTIRA


Orifícios de balas e não a acção de um míssil
A comissão de inquérito institucional ao derrube na Ucrânia do avião malaio que fazia o voo MH17, em 17 de Julho de 2014, anunciou finalmente o que toda a gente já sabia desde o primeiro momento: que o aparelho, com 300 pessoas a bordo, foi abatido por um míssil russo Bulk, operado por serviços especiais russos.
O que poderá não passar de uma grandessíssima peta tornou-se verdade oficial. Não é a primeira vez que isso acontece à escala da propaganda global, e provavelmente não será a última.
As conclusões da comissão de inquérito, de inspiração holandesa e apadrinhada pela NATO e os principais governos desta aliança, esfumam de uma penada todos os indícios susceptíveis de responsabilizar o governo fascista de Kiev pela tragédia. Através de supostas reconstituições informáticas – como se os computadores não respondessem em função dos dados que lhes são fornecidos – desapareceram de cena os aviões Sukhoi ucranianos que escoltaram o Boeing malaio alguns segundos antes de este ser abatido; os orifícios redondos observados na fuselagem, na zona do kokpit, eclipsaram-se da investigação, o que não é de somenos porque remetiam para disparos realizados pelos citados caças Sukhoi; as manipulações fotográficas baralhando tempos e espaços e que serviram de sustentação à tese do míssil transformaram-se em documentos credíveis; as informações dos controladores de voo em serviço em Kiev no momento da tragédia, e que deram conta da presença dos caças Sukhoi e também de um suspeitíssimo desvio de rota indicado ao aparelho, por sinal para um corredor perigoso por causa da guerra civil, foram ignoradas no processo de inquérito.
Enfim, não se fez um inquérito; por artes mágicas, montou-se um quebra-cabeças de supostos dados fidedignos para alcançar o resultado anunciado pelas autoridades de Kiev poucos segundos depois do derrube do avião. De facto, o senhor Anton Gerashenko, um figurão nazi que serve de conselheiro ao ministro ucraniano do Interior, Arsen Avakov, revelou em cima do acontecimento que o avião fora derrubado por um míssil russo Bulk. E fê-lo no momento em que forças especiais do mesmo ministério, manipulado pelo aparelho neonazi ucraniano, tomaram conta da torre de controlo do aeroporto de Kiev e passaram a filtrar todas as informações sobre o sucedido. O assalto da torre pelos comparsas fascistas não provocou qualquer constrangimento aos inquiridores oficiais, pelo contrário, deve ter-lhes facilitado o trabalho para engendrarem uma conclusão que já conheciam quando iniciaram a produção da mentira.
A criação e o funcionamento da comissão institucional de inquérito não passou de um pró-forma com o objectivo de dar credibilidade a uma teoria que não resistiria ao mais elementar contraditório, se este contraditório fosse possível e não esbarrasse numa sinistra barragem de mistificação.
A utilidade de tal comissão não se resume, neste caso, ao que atrás ficou escrito. O seu papel foi apurado através do momento escolhido para anúncio dos resultados, precisamente aquele em que as forças armadas russas tomam a seu cargo, praticamente sozinhas, o desmantelamento do grupo de facínoras que dá pelo nome de Estado Islâmico. Não é por acaso que Anton Gerashenko, o citado conselheiro do ministério do Interior de Kiev, acaba de incentivar o mesmo Estado Islâmico a lançar uma “guerra santa” contra os russos onde quer se encontrem. Os amigos dos nossos amigos nossos amigos são: sendo a NATO unha e carne com o governo fascista de Kiev é natural que este sinta afinidades com o Estado Islâmico, ainda há poucos dias contemplado com lançamentos de reforços de armas feitos por aviões norte-americanos. Não com destino ao Estado Islâmico, segundo a versão oficial, mas para “as oposições sírias”. Conhecendo nós o histórico destes abastecimentos e o que vale uma versão oficial emanada de Washington e seus acólitos, que também podem ser holandeses como no caso do MH17, não nos faltam caminhos para entender a verdade destas mentiras.
Entretanto, no campo de batalha sírio os efectivos russos e o exército regular de Damasco prosseguem a tarefa antiterrorista, tendo como principal óbice, porém, a destruição das instalações petrolíferas através das quais o Estado Islâmico se financia alimentando um generoso mercado negro de hidrocarbonetos. Claro que estes proveitos seriam cortados se os terroristas não tivessem quem lhes compre o contrabando. Mas clientes não faltam, sobretudo Israel e as ditaduras do Golfo, que por sua vez assim alumiam faróis da democracia como são os países da União Europeia e da NATO.
 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

NATO MOBILIZA-SE EM DEFESA DO ESTADO ISLÂMICO


 


A seita terrorista e sanguinária conhecida por “Estado Islâmico”, que também poderá designar-se Al-Qaida, Al-Nusra e Exército Livre da Síria – tiradas a limpo as consequências da existência deste – deixou de estar impune. Praticamente incólume desde que há um ano o todo-poderoso Pentágono anunciou que ia fazer-lhe guerra, bastaram-lhe agora uns dias sob fogo cerrado russo para entrar em pânico. Ou a aviação e a marinha da Rússia têm mais pontaria que as suas congéneres dos Estados Unidos da América e da NATO, o que é bastante improvável tendo em conta que não existem discrepâncias de fundo entre as tecnologias de ponta ao serviço destas potências, ou a diferença está simplesmente entre o que uns anunciam e os outros fazem. Diferença simples, mas de fundo, entre ser contra o terrorismo ou ser seu cúmplice.
De acordo com dados divulgados por fontes moscovitas, a Aviação e os mísseis de cruzeiro disparados de navios da Armada da Rússia destruíram já 112 alvos do Estado Islâmico instalados em território sírio ocupado, danos que incluem centros de comando, centrais de comunicação, bases de operações antiaéreas, além de estarem a provocar deserções em massa e um ambiente de pânico entre os terroristas. Propaganda de Moscovo, dirão muitos, mas sem razão. A desorientação entre os mercenários recrutados através do mundo e infiltrados na Síria a partir do Iraque, da Jordânia e, sobretudo, da Turquia está à vista de quem tem olhos para ver, principalmente os espiões atlantistas, bastando-lhe acompanhar a guerra em directo transmitida pelos satélites.
Esta realidade parece ser tão crua que, para surpresa de tantos que ainda acreditam em histórias da carochinha, induz os dirigentes norte-americanos, incluindo Obama himself, a esquecer-se das aparências e a deixar escapar uma sentida indignação com tanta eficácia russa, capaz de, numa simples semana, ter mais êxito que os seus exércitos num ano inteiro.
Será mesmo isto que os preocupa? Talvez não. O que os responsáveis políticos e militares dos Estados Unidos alegam é que os russos, ao fazerem uma guerra tão certeira contra o terrorismo, estão a “ajudar o regime de Assad”. De onde pode deduzir-se que eles tratam o terrorismo com meiguice para não ajudar Assad, se possível para conseguir até que os bandos de assassinos a soldo derrubem Assad. Não é novidade, aliás, porque Julien Assange e Edward Snowden o revelaram através do WikiLeaks, que os Estados Unidos e os seus parceiros da NATO decretaram em 2006 o derrube do presidente sírio. Pelo que, imagine-se o atrevimento, os russos não estão a combater criminosos sanguinários mas sim a desobedecer a um decreto emanado há nove anos pelos que se olham como senhores do mundo – e dos mercados, claro está.
Quando seria de supor, levando a sério o discurso antiterrorista que se ouve de Washington a Paris, de Londres a Bruxelas, que a NATO iria conjugar esforços com Moscovo para liquidar de vez o Estado Islâmico tanto na Síria como no Iraque, o que acontece? A aviação norte-americana provoca um banho de sangue num hospital dos Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão, certamente um albergue dos mais fanáticos islamitas; as forças especiais de operações do Pentágono para a Síria (CJSOTF-S), que têm estado no Qatar, receberam ordem de transferência para a base da NATO de Incirlik, na Turquia, de modo a acompanhar de perto o treino de terroristas a infiltrar na Síria, terroristas “moderados”, claro, assim definidos depois de uma exaustiva avaliação pelos profilers de serviço; análise essa tão exaustiva e competente que todo o grupo de assassinos cujo treino acabou em 12 de Julho se transferiu logo depois, com bagagens e armas, para a Al-Qaida, percebendo-se agora a irritação de Washington com a eficácia russa: lá se foi o investimento em tão acarinhados terroristas, sem dúvida uns “moderados” acima de qualquer suspeita. Como se não bastasse, a NATO prepara-se para reforçar o contingente de agressão na Turquia a pretexto de supostas violações do espaço aéreo turco por aviões russos, apesar de não se lhe ouvir um pio quando caças turcos fazem operações quase diárias na Síria há vários anos. Fica assim claro que a mobilização da NATO em território turco é em defesa do terrorismo islâmico, e não para o combater.
Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita e o Qatar, aliados preferenciais da NATO, praticamente ao mesmo nível que Israel, perdem o amor a mais uns milhões de petrodólares para tentar rearmar o Estado Islâmico e outros do mesmo jaez, agora tornados vulneráveis pela ofensiva russa. Têm boas razões para isso, além de muitas cumplicidades: os grupos de mercenários activos na Síria e no Iraque gerem um mercado negro de petróleo através do qual se financiam e de que tiram chorudos lucros, como exportadores, não apenas as ditaduras do Golfo mas também Israel e a Turquia.
A ofensiva russa não acabou apenas com a impunidade do Estado Islâmico e outros bandos de mercenários; põe em causa a hipocrisia da guerra oficial “contra o terrorismo” proclamada pelos Estados Unidos e a NATO – que tem como exemplos mais trágicos as situações no Iraque, na Líbia e na Síria.
 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A TORTURA COMO SEGREDO DE ESTADO


 
Todos sabemos que os Estados Unidos da América são os campeões dos direitos humanos, qualidade que lhes faculta a possibilidade de actuarem como juízes na matéria e promoverem guerras, assassinando milhares de seres humanos e espalhando multidões de refugiados através do mundo, lá onde os direitos humanos são violados sem qualquer pudor.
É sabido que os Estados Unidos nada têm a ver com o desmantelamento de um país chamado Líbia, a fragmentação do Iraque em múltiplos cenários de guerra, a transformação do Afeganistão no Eldorado dos empresários multinacionais de heroína, ou com a destruição de um país chamado Síria e a liquidação massiva de milhares dos seus habitantes. O apego norte-americano aos direitos humanos é tal que os seus dirigentes, com o presidente Obama à cabeça, estão consternados com a proliferação de refugiados na Europa provocada pelos enunciados conflitos, mostrando-se disponíveis – por enquanto apenas em palavras – para acolher um lote de 10 mil enquanto mandam erguer mais muros e cercas para dissuadir uma praga de mexicanos que sempre os ameaça.
Em matéria de direitos humanos os Estados Unidos da América são igualmente um exemplo no combate à tortura, actividade que não praticam e, como diz gente carregada de más intenções, nem voltam a praticar.
Confirmou-se agora, porém, através das repercussões na comunicação social das notas de um advogado de um detido de Guantanamo, esse campo de férias erguido pelo Pentágono e a CIA em território cubano ilegalmente ocupado, que os presos ali confinados são submetidos a sessões de tortura com alguma regularidade. Um deles, de nome Abu Zubaidah, foi vítima de waterboarding – simulação de afogamento até à inconsciência - 83 vezes num único mês, além de ser alvo de continuados espancamentos e tratamentos humilhantes. Zubaidah, preso há nove anos sem culpa formada – norma corriqueira em qualquer catálogo de direitos humanos – já cegou de um olho em consequência de tão generosa hospitalidade.
Notas de outros advogados revelam que as atrocidades são cometidas por indivíduas e indivíduos embriagados, que recorrem ao que estiver mais à mão sejam martelos, tacos de basebol, prosaicos varapaus ou mesmo aos próprios cintos, como qualquer pai disciplinador com mente medieval. Claro que pessoas com estes comportamentos não podem ser da CIA e outras instituições igualmente democráticas e respeitadoras dos valores básicos “da nossa civilização”. Por isso o presidente Obama, os seus ministros e secretários, os seus conselheiros e agentes de censura decidiram que tais actos não podem ser reconhecidos oficialmente, incluindo as notas dos advogados de defesa, que agora vão ter de se haver com a lei apesar de reclamarem que as suas denúncias são feitas de acordo com a Lei e a Constituição.
Há meses ainda vieram a lume, por acção voluntarista de membros do Congresso – certamente quintas colunas do terrorismo universal – algumas denúncias dessa tortura, ainda que poupando os cidadãos à identificação dos esbirros e aos lugares clandestinos onde praticam tortura, embora se saiba que alguns se situam na democrática Europa. As ondas de choque das revelações, porém, terão incomodado a CIA e o Pentágono, consideradas até nocivas para o esforço de guerra desenvolvido pelos denodados destacamentos libertadores.
Agora o presidente Obama e os seus declararam que tais assuntos são confidenciais, uma vez que segredo de Estado deve continuar a ser segredo de Estado, em nome da segurança do Estado e dos cidadãos, mesmo que o Estado tenha deixado de ter alguma coisa a ver com estes.
Ignore, portanto, tudo quanto atrás ficou escrito sobre práticas violadoras dos direitos humanos pelo país que mais os defende. Ignore que a Administração norte-americana gere lugares clandestinos, ou nem tanto, onde se praticam sessões de tortura. Tal não existe; o que é oficialmente escondido não existe. A bem do respeito pelos direitos humanos.
 
 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

UMA ATERRADORA TRAMA DE CRISES


 
Desde que se tornou pasto da tenebrosa máquina de manipulação em que se transformou a comunicação social dominante, a chamada “crise dos refugiados” está a ser deliberadamente desfocada do seu centro nevrálgico, a questão humanitária, mediante o recurso aos artifícios habituais onde se movem os pescadores de águas turvas, os oportunistas de grosso calibre e, sobretudo, os barões político-militares para quem o mundo é um vasto tabuleiro de guerras e rentáveis oportunidades.
Nas últimas horas, aviões de guerra franceses e britânicos, os mesmos ou gémeos dos que há três anos deixaram a Líbia no caos, começaram a sobrevoar a Síria com o objectivo proclamado de combater simultaneamente o regime de Bachar Assad e o Estado Islâmico, coisa em que ninguém acredita, nem os próprios. A prová-lo está o caricato anúncio de um exercício de tiro britânico já realizado em território sírio para liquidar terroristas que, imagine-se, projectavam abater essa nobre dama que é a rainha de Inglaterra. Em suma, à boleia da “crise dos refugiados”, a NATO entrou directamente na guerra contra a Síria, como os mais falcões dos atlantistas há tanto desejavam.
Descodifiquemos os factos. Depois de o presidente francês Hollande ter declarado que acolher todos os refugiados seria “fazer a vontade ao Estado Islâmico”, aviões franceses e ingleses, logo da NATO (por inerência) entraram em acção num país soberano, sem mandato da ONU nem autorização do governo legítimo, para intimidarem não apenas esse governo como (alegadamente) um grupo que o combate, neste caso o Estado Islâmico, protegido e criado por países aliados de França e do Reino Unido como são Israel e os Estados Unidos da América. Continuando a descodificação, lembro que esse mesmo Estado Islâmico não é mais do que uma consequência directa do desmantelamento do Iraque, da Líbia e da guerra civil síria. Prosseguindo ainda a descodificação, recordo que países como o Qatar e a Arábia Saudita, tão aliados de França, do Reino Unido e da NATO como são os Estados Unidos e Israel, desempenham papéis preponderantes nas situações de caos que geraram a avalanche de refugiados na Europa, sendo que nenhuma dessas monarquias torcionárias do Golfo está disposta a acolher um único refugiado que seja.
Apesar de a teia ser complexa, não é impossível detectar que a actual crise dos refugiados tem o dedo dos Estados Unidos da América e da NATO, como reconhecem, aliás, os serviços de informações militares da Áustria, pelo que, assim sendo, não será novidade para qualquer país da União Europeia.
Porém, não se vejam apenas desvantagens europeias neste fluxo de seres humanos desesperados, fugindo a guerras fomentadas também por potências europeias. Ouçamos o senhor Ultich Grillo, todo-poderoso patrão dos patrões alemães, à cabeça da Federação da Indústria (BDI). “Como país próspero e também pelo amor cristão ao próximo a Alemanha deve permitir-se acolher refugiados”, declarou. Tal como está a acontecer, e logo a um ritmo que permite prodigalizar enfáticos e universais elogios à senhora Merkel. “Devido à nossa evolução demográfica”, acrescenta o senhor Grillo, “asseguramos o crescimento económico e a nossa prosperidade graças à imigração”. Descodificando – será que é mesmo preciso? – desgraçados maduros para aceitar trabalho escravo como quem entra no paraíso são como pão para a boca para os barões da indústria alemã e pangermânica, como outrora foram tão úteis os degredados em campos de concentração.
Assim sendo, nestes dias observamos países que criaram guerras e desmantelaram nações, dando origem a uma vaga de refugiados para a Europa - compartimentando este continente entre cercas e muros com tonalidades concentracionárias -, partirem para novas fases das mesmas guerras, agora sob o pretexto de travarem o movimento de fuga combatendo grupos terroristas que são seus cúmplices e em cuja criação e desenvolvimento participaram. São assim, senhoras e senhores, os dirigentes políticos, militares e económicos que nos governam. Mentirosos irresponsáveis ao serviço de patrões e interesses que ganharão sempre com a tragédia de milhões de seres humanos, sejam quais forem os desfechos das sucessivas crises.
 
 

terça-feira, 1 de setembro de 2015

INTRODUÇÃO À TEORIA DO CAOS


 

É provável que nenhum dirigente da União Europeia ou de Estados membros tenha alguma vez ouvido falar da “teoria do caos”, lançada e burilada no pós-guerra pelo filósofo Leo Strauss, da elite política judia e do establishment dos Estados Unidos, continuada até hoje pelos seus discípulos - e financiada pelo Pentágono. Raros são também os jornalistas que a integram nas suas investigações e análises, sujeitando-se a ser imediatamente rotulados como seguidores lunáticos das chamadas teorias da conspiração.
Em poucas palavras, a “teoria do caos” de Strauss estabelece que a melhor maneira de os Estados Unidos da América impedirem a criação de países ou blocos rivais e beneficiarem de matérias primas baratas e com acesso desregulado é através da instauração de situações de caos governamental e social em diferentes países e regiões, de maneira a que Washington delas possa tirar proveito praticamente exclusivo. Para Leo Strauss, a criação de situações de caos favoráveis aos Estados Unidos deveria ser um fim, nunca um meio.
A “teoria do caos” de Strauss teve desenvolvimentos no início dos anos noventa do século passado, quando Washington tratou de fazer vingar a unipolaridade disfarçada de multipolaridade a seguir ao desmembramento da União Soviética. Por iniciativa de George Bush pai nasceu então a “teoria Wolfowitz”, que deve o nome a Paul Volfowitz, discípulo de Strauss, igualmente membro da elite judia norte-americana, arquitecto da política externa de George Bush filho e da invasão do Iraque. Também foi presidente do Banco Mundial. Regressou à sombra depois de conhecidos os escândalos através dos quais rateava cargos públicos entre os amigos neoconservadores, familiares e namoradas.
Em poucas palavras, a “teoria Wolfowitz – ainda secreta mas parcialmente revelada pelo New York Times e pelo Washington Post em Março de 1992 – estabelece que a supremacia global norte-americana exige o controlo militar, político e económico sobre a União Europeia, para que esta não se torne uma potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Aliada sim, mas nunca em plano igualitário.
Suponhamos então que a teoria de Strauss e a sua sucessora delineada por Wolfowitz não passam de delirantes teorias da conspiração. Suponhamos até que o seu gestor financiado pelo Pentágono, Andy Marshall, não se reformou apenas no ano passado, já com 92 anos, e nunca existiu. Nem foi nomeado em 1973 – sucedendo a Leo Strauss, por morte deste – por Richard Nixon e confirmado por todos os presidentes até Obama.
Ignoremos então esses supostos delírios e olhemos para a Europa, em especial para a União Europeia e respectivo percurso desde o início dos anos noventa do século passado. Reflictamos sobre as consequências do mergulho suicida no neoliberalismo, da submissão à NATO como braço operacional do Pentágono, do envolvimento em guerras desencadeadas pelos Estados Unidos, desde o Afeganistão à Síria e à Líbia, onde aliás as principais aventuras militares foram confiadas à França de Sarkozy/Hollande e ao Reino Unido de Cameron. Observemos o que está a acontecer na Europa, sobretudo na União Europeia, com a tragédia dos refugiados resultante dessas guerras.
Não será disparatado concluir que a hecatombe humanitária, política e económica dos refugiados resulta das situações de caos criadas no Afeganistão, no Iraque, na Somália, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Síria, no Iémen. Antes destas guerras com a marca do Pentágono, arrastando os mais importantes países da NATO em condições de subalternidade, o problema dos refugiados na Europa não atingira nunca uma dimensão sequer próxima da que agora se regista.
A Europa está há longos anos mergulhada numa crise disparada a partir dos Estados Unidos e que se alimenta a si mesma pelos erros sucessivos cometidos pela União Europeia ao pretender ser um espelho do modelo do lado de lá do Atlântico, mas sem voz própria militar e económica. Crise essa que se agrava através da submissão reforçada com o acordo de comércio livre (TTIP) e, sobretudo, com o problema dos refugiados decorrente das situações de caos que estão para lavar e durar nas zonas e países atrás citados. A gravidade da crise dos refugiados é o veículo que transporta o caos para o interior das fronteiras europeias, potenciado de maneira desagregadora pelo recrudescimento do terrorismo nazi-fascista.
A “teoria do caos” será uma miragem, mas o caos real vai provocando os efeitos desejados pelo complexo militar, político, económico e financeiro que domina o mundo sob as bandeiras dos Estados Unidos e da NATO.
 

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A CHINA, AS BOLSAS E OS BOLSOS


 

A tão falada crise económica na China tem as costas largas. Na verdade, por muito que a imensa economia chinesa esteja a atravessar dificuldades, tal situação não pode ser considerada como única responsável pela crise económica mundial e, sobretudo, pelos sobressaltos que continuam a registar-se nos principais mercados financeiros internacionais, de Nova Iorque a Xangai. Podem estar certos de duas coisas: o que está a acontecer significa que se a economia chinesa espirra o resto do mundo pode apanhar uma pneumonia; e que também há quadrilhas financeiras que usam nomes como Goldman Sachs, JP Morgan, HSBC a embolsar quantias astronómicas com a manipulação da crise através das mais influentes bolsas mundiais. A chamada “segunda-feira negra”, 24 de Agosto, não foi negra para todos, mas sim muito douradinha para alguns. Nesse dia, em três horas e quarenta minutos, a Bolsa de Nova Iorque registou a maior viragem da história, uma descida aos infernos pontuais logo seguida por uma recuperação parcial que fez mudar de mãos, através de plataformas especulativas, grossas maquias na ordem dos milhares de milhões de dólares.
Em Xangai, e também em outras bolsas, incluindo as europeias, passam-se aberrações semelhantes, muito queridas por aqueles que quando ouvem falar de regulação financeira equipam logo os seus governos súbditos com artilharia pesada em defesa da “liberdade de mercado”. Mas fiquemo-nos no caso de Xangai, que supostamente espelha a crise económica chinesa. Num ano, o índice bolsista subiu 140 por cento e num mês, desde 21 de Julho, perdeu aceleradamente 30 por cento, com subidas intermédias ao jeito dos fazedores de mais-valias através de rápidas operações informáticas. Entre os principais actores dessa bolsa estão os mesmos da Bolsa de Nova Iorque, incluindo os operadores financeiros atrás citados, grandes protagonistas, como se sabe, da crise de 2008 e das falcatruas do subprime.
Os sobressaltos bolsistas surgidos como uma epidemia global seguiram-se, para quem não se lembra, às desvalorizações sucessivas da moeda chinesa, o yuan, que criaram desconforto e contrariedade nas economias geridas pelo dólar e pelo euro. A China limitou-se, porém, a tirar partido do facto de comandar quase em absoluto a sua economia, usando o valor da sua moeda para tentar dinamizar as exportações com o objectivo de cumprir as perspectivas de crescimento económico para este ano – 6,5 a 7 por cento, um valor que deixa a enorme distância todas as outras economias mundiais. A europeia debate-se entre a estagnação e crescimentos residuais; a norte-americana oscila em fintas sucessivas às previsões “dos analistas” de serviço, mas retenhamos apenas o que diz a insuspeita OCDE: está em plena desaceleração.
Portanto, depois da crise do subprime, da hecatombe europeia em torno das dívidas soberanas, da recessão e do fracasso do euro surge a crise atribuída aos mercados emergentes, nos quais avulta a China, que poderá ir desembocar, quiçá, na economia norte-americana, cuja capacidade competitiva será atingida pelo reforço do dólar resultante da previsível afluência massiva de capitais externos.
Paul Krugman, Nobel da Economia em 2008, diz ironicamente que esta situação só pode ser observada como “uma série de azares” pelos principais governos mundiais porque não estão dispostos a encarar a realidade económica global segundo uma nova perspectiva: a acumulação de crises resulta de um excesso de dinheiro parado devido à insistência nas políticas de austeridade, à destruição gradual dos Estados sociais, ao afunilamento da política de juros baixos a que a inflação baixa tirou capacidade de manobra e, sobretudo, ao anátema lançado sobre tudo o que seja investimento público. Ou seja, só pode ver a crise como “uma série de azares” quem conserve a visão estreita ditada pelo catecismo neoliberal e que insista em supostos remédios, como a austeridade e a fuga ao investimento público, que mais não fazem do que liquidar o paciente.
Por outro lado, esta situação interessa aos mesmos de sempre, às quadrilhas que manipulam bolsas e empurram para baixo os preços de produtos como o petróleo, de modo a asfixiar as economias de países emergentes num momento em que estes convergem na institucionalização de mecanismos alternativos aos poderes do dólar, do FMI e do Banco Mundial. As mesmas quadrilhas que em três horas e 40 minutos num dia da Bolsa de Nova Iorque embolsam milhares de milhões de dólares a pretexto de uma crise na China depois de, durante a noite anterior, elas próprias terem manipulado a Bolsa de Xangai apresentando-a como prova dessa suposta crise. A entidade reguladora chinesa prometeu investigar o fenómeno. A ver vamos… ou não.
Dinheiro parado pode ser uma fonte de crise social, estagnação e recessão económica. Mas os especuladores chamam-lhe um figo, operando de bolsa em bolsa e sem reconhecerem fronteiras.
 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O REVANCHISMO ESTÁ NAS RUAS


Brasil saudoso do antigamente quer sangue (foto Portal Vermelho)
 

A operação deste domingo falhou, esfumou-se em manifestações de cacaracá que deixaram pendurados os chefes golpistas, mas a ameaça continua latente, agora apontada a quinta-feira, dia 20. O Brasil da ditadura militar e dos chefes políticos que fizeram do país uma quinta dos Estados Unidos da América, nadando em ávida e incontrolável corrupção, está ao ataque servindo-se dos mais sagrados dos direitos democráticos, entre eles o de manifestação. Nada que não se passe igualmente na Venezuela, ou na Bolívia, ou no Equador, e que não se tenha passado nas Honduras e no Paraguai ou na europeia Ucrânia. Os métodos podem variar pontualmente, aqui, ali ou acolá, mas os objectivos são sempre os mesmos: inverter uma situação política determinada em democracia quando as práticas dos eleitos não são do agrado das estruturas, dos interesses e das ambições dos que se acham ungidos pelo direito eterno de governar.
Lula, Dilma e os seus governos foram e são perfeitos? Quem o for que lhes atire a primeira pedra. Cederam a pressões de interesses que agora querem chutá-los com o pontapé do impeachment ou, no mínimo, frustrar deste já a possibilidade de o anterior presidente voltar à liça nas próximas eleições? Sem dúvida. Mas o Brasil do último decénio e meio é diferente, a governação destina-se prioritariamente aos que sempre foram esquecidos pelos regimes daqueles que têm mentalidade de guarda das capoeiras do quintal das traseiras. Esta ousadia é imperdoável, sobretudo prolonga-se há tempo demasiado, a paciência dos senhores está a esgotar-se, por isso os seus agentes e desordeiros parecem atacados por uma praga de bichos-carpinteiros.
A figura de proa entre os cabecilhas da intentona é o corrupto e fascizante Aécio Neves, candidato presidencial derrotado inapelavelmente nas urnas pela presidenta Dilma Roussef e que está mais ocupado em derrubar a administração do que em esclarecer os múltiplos indícios de fraudes nas contas da sua candidatura. Comportamento quem não surpreende em quem deixou um pestilento rasto de corrupção e nepotismo enquanto governador de Minas Gerais. Ao invés, o procurador do chamado caso Lavajato - um escândalo de corrupção na empresa estatal de petróleos Petrobrás que serviu para despoletar a actual fase golpista – declarou que nem a presidenta Dilma Roussef nem o ex-presidente Lula da Silva estão a ser investigados sobre o assunto.
Aécio Neves e seus comparsas, como José Serra e Aloísio Numes, ecoados por uma comunicação social servil e regidos pela maestria táctica da Rede Globo, representam um Brasil dependente e obediente que ficou para trás e prometem agora o regresso de um Brasil do antigamente, asfixiado pelo cheiro a mofo e a sangue. O alvo a abater é um Brasil que em pouco mais de uma década passou a enfileirar entre as grandes potências mundiais, com voz própria, digna e cada vez mais interveniente nas tendências mundiais alternativas às que são ditadas pelos senhores do Império.
Não surpreende que entre os passeantes na marcha do revanchismo estejam os que lançam, sem reservas, apelos ao golpe militar, aos assassínios dos dirigentes políticos eleitos, à liquidação da democracia. Nada disso demove Aécio e companhia, pelo contrário, tais consignas empolgam-nos. A eles e não só: há poucos dias uma bomba estoirou no Instituto Lula e das hordas aecianas não se ouviu qualquer sinal de repúdio; e no dia 13 a Polícia Militar – entidade com a qual a fina flor das elites paulistas, os “coxinhas”, gostam de fazer selfies – entrou encapuzada por vários estabelecimentos dos subúrbios de São Paulo e chacinou 18 pessoas a tiro, supostamente como vingança pela morte de um agente. No entanto, apenas seis das vítimas tinham algum registo cadastral. No circuito de apelos ao golpe e de incitamentos à liquidação de dirigentes não surpreende que surjam estas matrizes comportamentais próprias dos esquadrões da morte.
Os golpistas marcaram mais uma enxurrada de manifestações para a próxima quinta-feira, dia 20. Não se deixem iludir: as manobras não têm nada a ver com o combate à corrupção, o alívio da crise económica ou o aprofundamento da democracia e dos direitos humanos. Nada disso: mesmo que muitos dos que se deixam arrastar não o admitam, trata-se de uma estratégia golpista para o regresso ao passado de um Brasil subserviente, sem voz, um Brasil onde o governo servia numa bandeja os bens que pertencem a todos a uma pequena elite nacional e internacional de ricaços.