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quinta-feira, 30 de julho de 2015

O IMPÉRIO ENTRA A GANHAR


Os anexos bilaterais do chamado acordo 5+1 estabelecido entre as principais potências mundiais e o Irão já começaram a fazer efeitos.
Não, nada disso, os êxitos militares contra os facínoras do Estado Islâmico (ou Isis ou Daesh) obtidos no âmbito da esfera norte-americana são apenas conjunturais ou mitigados, nada que impeça o grupo de prosseguir a transferência para zonas russas ou russófonas. Existem, é certo, algumas ideias negociais relacionadas com a pacificação da Síria; no Líbano movem-se pedras no sentido de clarificar o assassínio do anti presidente Hariri, cuja inspiração foi atribuída – contra todas as evidências – ao regime de Damasco e que tem sido o único pretexto para acusar a Síria da prática de terrorismo. No entanto, estes processos estão ainda no início e, embora inseridos no ambiente criado pelos acordos, não é certo que prossigam no sentido de acabar com as mistificações e fazer valer a realidade dos factos e o direito internacional.
O primeiro grande efeito do acordo Estados Unidos-Irão é a queda do Sul do Iémen, com a capital em Aden, nas mãos da chamada Força Árabe Comum, uma entidade que é, na prática e à luz entendimento entre Washington e Teerão, uma coligação militar encabeçada pela Arábia Saudita e Israel. Esta “santa aliança” – e como é apropriada a designação! – não é novidade: tem funcionado, por exemplo, no apoio ao Estado Islâmico contra a Síria e pelo desmantelamento do Iraque; sabe-se também que pilotos israelitas combatem aos comandos de caças sauditas na guerra civil no Iémen.
O facto é que esta coligação tomou conta de Aden, expulsando os xiitas fiéis a Mohamed Huti, presidente em exercício em Sanaa, a capital. Na sequência do triunfo, a coligação reinstalou Abd Mansour Hadi como presidente, para já na capital do Sul do país. E se Huti chegara ao poder por golpe de Estado a legitimidade de Hadi – o protegido da Arábia Saudita – não é maior, porque o prazo de validade do seu mandato terminou há muito.
A presença da Força Árabe Comum no Sul do Iémen significa a reinstalação da NATO na região, assumindo o controlo absoluto do estratégico Estreito de Bab el Mandeb, que separa a Península Arábica e a Ásia de África. Esse controlo quer dizer domínio militar e petróleo, muito petróleo, não apenas no Sul do Iémen mas também na região do Ogaden, na Etiópia.
Não se pense, porém, que o triunfo militar da santa aliança se deve aos seus muitos méritos. A razão principal é a saída de campo do Irão, que sustentava os xiitas Hutis na guerra civil iemenita. Teerão abandonou o terreno para cumprir o acordo estabelecido com Washington.
A chegada da coligação entre a Arábia Saudita e Israel à região meridional iemenita significa também que já não existem obstáculos para que a petroditadura de Riade e o regime confessional de Telavive transformem em realidade o projecto de construção da ponte sobre o estreito, ligando Aden a Djibuti, no extremo do Corno de África, na prática uma colónia francesa sob administração militar da NATO, logo norte-americana.
A adjudicação da imponente obra já foi feita. Ignora-se se houve concurso, mas isso são formalidades dispensáveis e irrelevantes. Quem construirá a ponte sobre o Estreito de Bab El Mandeb será o Ben Laden Group da Arábia Saudita. Não, não se trata de uma coincidência: é o grupo da família de Bin Laden, o terrorista-mor, dirigido por um irmão deste. 11 de Setembro? Tanta água passou já por debaixo das pontes, mesmo as que ainda estão por construir…
O marcador apenso ao acordo entre os Estados Unidos e o Irão já funcionou. Império, 1 – Irão, 0.


terça-feira, 28 de julho de 2015

OBAMA DA TRISTE FIGURA


Há quem diga, com um sentido de benevolência que entra sem apelo no terreno da cumplicidade ideológica, que o actual presidente dos Estados Unidos da América tem um desempenho no segundo mandato que ficará para a História.
Até pode ser que isso aconteça. Barack Obama é, sem qualquer dúvida, o autor do maior número de execuções extrajudiciais de que há memória, através das suas ordens de tiro ao alvo com drones, e se a História o registar como tal não poderá dizer-se que seja pelos melhores e mais humanistas dos motivos.
O homem que fez a sua primeira campanha eleitoral, já lá vão quase oito anos, prometendo o encerramento do campo de concentração de Guantanamo e que recentemente anunciou, mais uma vez, um programa para o desactivar, é o mesmo que iria extinguir a chamada “guerra contra o terrorismo” inventada por George W. Bush, e apenas lhe trocou os nomes.
Síria, Líbia, as mistificações que ficaram conhecidas como “primavera árabe”, Bahrein, Iémen, Egipto, o adiamento constante dos direitos palestinianos, a criação do bando de mercenários do Estado Islâmico, Ucrânia, expansionismo permanente da NATO são exemplos do tal bom desempenho no segundo mandato de Obama.
Todos esses casos ilustram a mentalidade terrorista do presidente norte-americano, enovelada cada vez mais nas contradições do que ele qualifica como uma estratégia contra o terrorismo.
Há poucos dias, no Congresso de Washington, o secretário da Defesa da administração Obama, Ashton Carter, reconheceu que o programa para treinar mercenários “moderados” supostamente para combater o Estado Islâmico na Síria, orçado em 500 milhões de dólares, não conseguiu mais do que 60 recrutas dentro de um objectivo de 3000 até final deste ano e de 5400 anualmente. Passemos sobre a módica quantia de 10 milhões de dólares por cada terrorista “moderado” e entremos no fulcro da questão. Esta ideia dos “moderados” está associada ao chamado Exército Livre da Síria, uma coisa criada pelos Estados Unidos inicialmente para combater e derrotar o regime sírio dirigido pelo presidente Bachar Assad. Durante os anos de existência até agora, os mercenários deste grupo não têm feito mais do que combater ao lado da Al-Qaida e do Estado Islâmico – sendo este reconhecidamente apoiado também por Israel. Ultimamente, à medida que se ia aproximando o acordo entre Washington e o Irão, os “moderados” foram também encarregados de combater o Estado islâmico, isto é, em teoria, obrigados guerrear em duas frentes.
No mesmo debate no Congresso, aparentando uma desilusão longe de ser genuína, o senador neofascista McCain, também conhecido por ser o controleiro do Estado islâmico (há fotos que o provam), admitiu que 60 “moderados” não chegam para as encomendas; para conseguir mais recrutas, sugeriu, é preciso dar-lhes a garantia de que não seriam atacados pelo exército regular sírio. Como? Compete aos Estados Unidos fazer com que as tropas de Damasco não tenham condições para atacar os “moderados”, de modo a que estes se entretenham com o ISIS. Curto e grosso: o senador McCain quer que as tropas norte-americanas intervenham para derrubar Assad enquanto os “moderados” fazem cócegas ao Estado Islâmico, acabando por se fundir com este.
Dir-se-á: McCain tem feito oposição a Obama. Pois, mas toda a política de Obama no Médio Oriente e na Ucrânia, para não ir mais longe, tem dado um jeitão aos mais conservadores dos conservadores e belicistas internos, rivalizando com eles para ver quem é mais trauliteiro.
A verdade é que Obama, no segundo mandato tal como no primeiro, deixa um rasto de guerra e sangue onde toca. Há poucos dias, o presidente da Nigéria, marginalizado por Washington por causa de alegadas violações dos direitos humanos, denunciou a administração de Washington por apoiar, na prática, os facínoras do Boko Haram.
Quando não se tem princípios na gestão do bem público é natural que se entre na roda vertiginosa dos sem-princípios. Foi a escolha de Obama, esperando-se que a História não venha a absolvê-lo.



quarta-feira, 15 de julho de 2015

ACORDOS COM O IRÃO: O OUTRO LADO DA FICÇÃO


Uma advertência prévia: onde se lê acordo 5+1 com o Irão deve ler-se acordos; onde se lê 5+1 deve ler-se Estados Unidos, quanto muito mais a Rússia e a China, a ver vamos; quando se relaciona unicamente o resultado das negociações com o fim da suposta ameaça nuclear iraniana toca-se apenas num átomo de uma estrutura complexa e de grande envergadura.
Isto é, esqueça o que os telejornais sintonizados com Washington e demais centrais de propaganda lhe explicam sobre o acordo e vamos à realidade.
O Irão nunca representou, pelo menos a partir de 1988, qualquer ameaça nuclear militar. O mito foi inventado para usar com mil e um pretextos e servir, em última análise, as estratégias militaristas e expansionistas de Israel, além de jogar com os preços do petróleo conforme os interesses do sistema económico e financeiro global. Desde a fatwa (decreto religioso) emanada em 1988, ainda pelo imã Khomeiny, que o Irão renunciou à utilização da energia atómica para fins militares. O resto é ficção e propaganda.
Os acordos agora estabelecidos trazem no bojo intenções muito mais amplas e estruturantes que apenas tocam ao de leve na falsa questão nuclear iraniana, embora esta seja exacerbada para esconder o que foi decidido pelas principais partes envolvidas, os Estados Unidos da América e o Irão: uma partilha de influências no Médio Oriente ampliado, envolvendo pois a chamada Eurásia, capaz de permitir ao Pentágono transferir o núcleo duro do seu impressionante aparelho de guerra do Médio Oriente para a Ásia, posicionando-se ante os novos inimigos, a China e a Rússia.
Isto é, através destes acordos os Estados Unidos contam com uma pacificação do Médio Oriente mediante novas esferas de influência por eles teórica e implicitamente determinadas, abrindo terreno para reposicionamentos estratégicos.
Pode e deve perguntar-se: assim sendo, como é que a Rússia e a China foram nisso? Esta é a grande interrogação, embora não seja de excluir que os arranjos encontrados no quadro de um novo Médio Oriente também lhes interessem e permitam ganhar tempo. Sabe-se que as derradeiras dificuldades existentes antes de serem anunciados os acordos foram levantadas pela Rússia, que não está disposta a transformar-se no alvo principal do Estado Islâmico, transferido presumivelmente das terras árabes para o Cáucaso. As primeiras reacções de Putin, salientando que o mundo agora respira melhor, podem significar que as suas principais exigências foram atendidas, mas os acordos são apenas papéis.
Há ainda a histeria manifestada por Israel, deve dizer-se antes, pelo primeiro ministro de Israel. Porque em Israel, na esfera militar, há quem conheça muito bem os acordos e os aceite. São, aliás, os mesmos sectores, responsáveis do Mossad incluídos, que há longos meses vinham desautorizando o chefe do governo quanto às supostas ameaças nucleares iranianas. Daí que o tempo de duração de Netanyahu à frente do governo israelita seja, a partir de agora, uma pedra de toque para avaliar o funcionamento dos novos arranjos.
Em termos gerais, os Estados Unidos e os seus principais aliados no Médio Oriente, leia-se Israel e Arábia Saudita, têm como zona de influência as petromonarquia da Península Arábica mais o Iémen e respectiva ponte para o Corno de África, a Jordânia, o Egipto e a Palestina – o acordo prevê que o processo de Oslo seja retomado, outra medida que deixa Netanyahu fora de si. O Irão, que se compromete a “não exportar a revolução”, mantém as suas influências na Síria, no governo iraquiano instalado em Bagdade e nas correntes islâmicas mais intervenientes no Líbano, devendo o Hamas adaptar-se ao que seja estabelecido em relação à Palestina.
Nos termos destes arranjos, o Curdistão Iraquiano tornar-se-á independente como satélite de Israel, país que deverá tutelar, em última análise, o aparelho militar da Liga Árabe, entidade que ficará na esfera norte-americana.
A Turquia, um dos grandes perdedores nestes arranjos, a Arábia Saudita e o Qatar deverão abster-se de apoiar o Estado Islâmico, o que, teoricamente, repete-se, deveria implicar a pacificação da Síria e o respeito pelo mandato de Bachar Assad. O corte dos apoios aos mercenários islâmicos deverá ter como resultado a sua neutralização pelos exércitos iraquiano e sírio e, ao mesmo tempo, impedir a transferência do grupo para o Cáucaso, exigência de Moscovo que fez arrastar o fim das negociações. Os Estados Unidos e Israel resistiram até onde lhes foi possível para conservar esse instrumento terrorista, de preferência orientado contra Moscovo, como já acontece na Ucrânia, sabendo-se que os árabes têm vindo a ser substituídos por caucasianos na direcção operacional dos mercenários. Aparentemente, Washington e aliados cederam, mas até onde e quando?
Com o fim das sanções, o petróleo e o gás iraniano vão inundar o mercado e, por certo, substituir exportações russas para a Europa. Moscovo considera que os efeitos desse problema são temporários, até estarem concluídos os gasodutos que irão atravessar a Ásia, sobretudo em direcção à China; enquanto isso, o Irão, livre de sanções, e a Arábia Saudita perfilam-se como grandes clientes económicos da Rússia, sobretudo no domínio militar. Os contactos entre Moscovo e Teerão são intensos, as encomendas volumosas, e o rei da Arábia Saudita é esperado em breve na capital russa, uma visita que ouviremos certamente qualificar como “histórica”.
Em traços gerais, eis o que ficou acordado num processo de “pacificação” do Médio Oriente que, em Washington, é olhado como garantia da estabilidade regional num período de pelo menos 10 anos.
O cotejo entre os objectivos enumerados e a realidade permitir-nos-á aferir de que modo se cumprem, ou não, as vontades e os cálculos desta geração de dirigentes muito mais habituada à guerra e ao terrorismo que à diplomacia – ainda que enviesada como a que estes acordos ilustram.




quinta-feira, 25 de junho de 2015

TSUNAMI SILENCIOSO NO MÉDIO ORIENTE



A notícia passou quase despercebida, mas ainda assim causou algumas dúvidas e perplexidades: a Arábia Saudita e a Rússia, arqui-inimigos de longa data, assinaram um acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos. Em termos mais prosaicos: a petromonarquia comprou 16 centrais nucleares a Moscovo para entrarem em funcionamento dentro de meia dúzia de anos.
Isto é, o maior exportador mundial de petróleo decidiu poupar nos combustíveis fósseis, aproveita a tecnologia associada para desenvolver projectos de dessalinização de águas e elegeu como parceira uma empresa tutelada pelo governo do infiel Vladimir Putin.
É assim, tal e qual. Mas a notícia não passa de um pequeno abalo, uma simples réplica do enorme e silencioso tsunami que por estes dias atinge o Médio Oriente.
O epicentro do magno sismo, como já se focou nestas linhas, é a próxima assinatura de um acordo (que são pelo menos dois) entre outros arqui-inimigos, os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão. Para consumo geral, um dos acordos é o chamado 5+1, que teoricamente acaba de vez com o mito das nunca existentes ambições iranianas ao nuclear militar; outro é bilateral e traduz uma espécie de partilha de zonas de influência norte-americanas e iranianas em amplos espaços do Médio Oriente, com repercussões colaterais, que podem ou não ser danosas, consoante a perspectiva.
Rezam as fugas de bastidores que os Estados Unidos reconhecerão tacitamente as zonas de influência do Irão em dois terços do Iraque, na Síria, em grande parte do Líbano; em contrapartida, Teerão conforma-se em não “exportar” a revolução islâmica.
Os Estados Unidos e o Irão vêm negociando secretamente este acordo em paralelo com as conversações internacionais realizadas na Suíça. O que praticamente não se sabia até aqui é que, também em paralelo, Israel e a Arábia Saudita já realizaram pelo menos cinco sessões de negociações secretas, a primeira das quais na Índia. Pode dizer-se até, sempre segundo as fugas de bastidores, que as negociações já deram frutos, uma vez que pilotos israelitas comandam bombardeiros sauditas nos massacres cometidos no Iémen, prenúncio de uma cooperação muito mais profunda em perspectiva entre o Estado fundamentalista hebraico e o Estado fundamentalista islâmico. Ao que se sabe, o quartel-general israelita para esta operação foi instalado na Somalilândia, um Estado fantasma.
Todos estes abalos são frutos do entendimento-base entre os Estados Unidos e o Irão, a assinar muito em breve. O acordo prevê que a chamada “força árabe comum”, sob a bandeira da Liga Árabe, tecnicamente encabeçada pela Arábia Saudita, tenha comando operacional israelita. A cooperação israelo-saudita não ficará por aqui: os dois países irão explorar em comum o petróleo do terrível deserto de Rub Al Khali e também as reservas do Ogaden, estas sob controlo etíope, outro satélite norte-americano. Israel será responsável por garantir a “estabilidade” no porto sul-iemenita de Aden, um dos terminais de uma projectada ponte que ligará o Iémen ao Djibuti. Iémen este que fará parte de uma “federação” formada em torno da Arábia Saudita e que incluirá provavelmente Omã e os Emirados Árabes Unidos.
A Arábia Saudita dará o seu aval à criação do Estado do Curdistão sob controlo israelita, tal como vem sendo planeado, sendo que os patronos da estratégia tentarão estendê-lo do Iraque aos “Curdistões” turco e iraniano. A ser assim, confirma-se que a Turquia de Erdogan está mesmo a cair em desgraça, a braços com as teias terroristas, principalmente as que actuam na Síria, que Riade lhe foi passando aos poucos. Israel aceitará a aplicação dos acordos de Oslo sobre o estatuto final dos territórios palestinianos, que ganharão a independência mas perderão o direito ao retorno dos refugiados pelo qual gerações se sacrificaram.

É assim o tsunami que abala os bastidores diplomáticos do Médio Oriente, sabendo-se que tsunami algum pode ser planeado, muito menos desenhando e redesenhando fronteiras. Dois enormes pontos de interrogação emergem só para se terem em conta situações que não podem apagar-se com uma borracha ou carregando na tecla “delete”: Netanyahu, o novo profeta do Grande Israel, é um feroz inimigo destes arranjos tutelados por prestigiados militares sionistas, pelo que ou se adapta, ou reage, ou se demite levando atrás de si a irada horda de colonos que já foi capaz de liquidar um primeiro-ministro. E o Estado Islâmico? Que fazer com o monstro sustentado por Israel, tolerado por Washington? A Síria, país que teoricamente será um dos beneficiados por este tsunami, vai tratando do assunto; os padrinhos poderão deixá-lo cair, mas tendo em conta o histórico de relações entre criadores e criaturas as perspectivas não são animadoras. A não ser que os sanguinários mercenários se contentem episodicamente com a Líbia, cujas receitas do tráfico clandestino (mas pouco) de petróleo não são de deitar fora. Será?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

DEMOCRACIA E DIKTAT


O G7, que já foi G8 e volta a ser G7 quando isso é da conveniência de quem o inventou, é um encontro das “grandes democracias” para fazerem o balanço de como se comportam todos os outros, democracias ou não, que recebem elogios, raros e sempre verbais, e sobretudo reprimendas, severas, contundentes, dolorosas. O G7 é, por assim dizer, um tribunal da democracia, que aplica leis que não são válidas para os seus membros porque, ungidos pela própria essência da democracia, estão acima de qualquer suspeita e controlo.
Desta feita as vítimas escolhidas para se sentarem no banco dos réus foram a Rússia – despromovida do favor que em tempos lhe facultaram de haver G8 em vez de G7 – a Grécia e a Síria. Previsível, como tudo o que é controlado pelos donos absolutos da democracia. Dantes havia também o Irão, mas isso agora é outra história, ou pelo menos assim se pensa, como se verá a partir do fim deste mês. Houve ainda uns segundos, suficientes creio, para que ficasse registada em acta a preocupação destes sete magníficos com o estado miserável em que se encontra o ambiente do planeta terra. Podemos ficar descansados: o tempo utilizado foi pouco mas aproveitado até ao milésimo de segundo: o G7 prometeu fazer tudo o que estiver ao seu alcance para aliviar o mundo dos efeitos do excesso de carbono na atmosfera através de acções que serão evidentes já amanhã, isto é, em 2050.
Mais urgente, muito mais urgente, como se compreende, é por o dedo no nariz da Rússia, aplicando-lhe novas sanções pelo que se passa na Ucrânia, onde o excelentíssimo tribunal dos sete ordenou que democracia e fascismo são uma e a mesma coisa e ai de quem desobedece. Novas sanções a Moscovo e “aprofundar” o desenvolvimento da Ucrânia, isto é, estabilizar a acção da junta nazi são, no entender dos sete, as soluções que tudo irão resolver. Até a senhora Merkel, de um país onde a economia sofre assinaláveis convulsões devido à ressaca das sanções a Moscovo, acha que sim, esse é o caminho e afinal as escudas que os espiões da NSA fazem aos seus telefonemas são lógicas porque os Estados Unidos e a Alemanha são “amigos inseparáveis” e os amigos nada têm a esconder.
Também a Grécia vai ter de entrar nos eixos, ameaça o G7. Já chega de o governo Tsipras andar a tentar fintar a troika, os mercados financeiros, todos aqueles que engordam com os sacrifícios de morte impostos aos gregos. A dívida é para pagar, a austeridade é para levar até às últimas consequências, os donos da democracia estão a perder a paciência com estas rebeldias anacrónicas de querer que os povos não sejam aquilo que estão condenados a ser: paus mandados do mercado e do seu tribunal da democracia, o G7.
A cimeira do G7 revelou também a impaciência dos seus membros por chegarem a mais uma reunião e, apesar de todas as suas ordens, o impertinente Bachar Assad continuar a ser presidente da Síria, com a agravante de ter sido reeleito pelos seus concidadãos. Por isso os sete decidiram reforçar a ajuda aos terroristas “moderados”, que por sua vez canalizarão esses apoios para quem de direito, o Estado Islâmico e a Al Qaida, inimigos públicos, amigos privados. Ou seja, o G7 insiste na receita de sempre, a que desfez em cacos o Médio Oriente, para que os cacos se desfaçam em caquinhos e então os senhores da região, democracias autênticas e puras como são as de Israel e Arábia Saudita, em concerto com o regenerado Irão e os Estados Unidos, possam impor a ordem, uma nova ordem.
E pronto, o G7 fez o que tinha a fazer, chegou a hora do retrato de família, provavelmente animado pelo presidente da Comissão Europeia, que leva muito a sério o seu papel de clown político e cerimonialista. O tribunal das democracias reuniu-se, o diktat ficou escrito, que o cumpra quem tem de cumprir, porque as sanções e as guerras são o caminho certo e certeiro para a paz. Assim vai o mundo.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

MENTES DOENTES


O presidente de turno nos Estados Unidos da América pretende instalar mísseis de médio alcance com capacidade nuclear no Reino Unido e, ao mesmo tempo que combina com Angela Merkel a imposição de novas sanções à Rússia, pede ao primeiro-ministro britânico que não permita a saída do seu país da União Europeia.
O imperador falou e deu ordens aos súbditos, que continuam a sê-lo mesmo que, aqui e ali, pretendam disfarçá-lo. O caso da chanceler alemã é flagrante: depois de fingir que tem política própria em relação a Moscovo acaba de explicar que a sua posição sobre o assunto é a norte-americana e fica tudo dito. Mesmo que tenha sido enxovalhada por simples funcionários de Washington a propósito da Ucrânia, mas isso já lá vai, desculpas aceites, tudo se esquece.
Moscovo informa que acompanha “de muito perto” estas movimentações. É natural, todas elas se dirigem, em primeira e última análise, contra a Rússia. Até porque as mentiras em tempos usadas por Washington, segundo as quais a instalação de equipamentos militares “defensivos” na Europa de Leste pretendiam ameaçar o Irão, tornaram-se inúteis. Os Estados Unidos e o regime de Teerão vão assinar um acordo dentro de dias cujo principal objectivo estratégico para o Pentágono é o de ficar com as mãos mais livres no Médio Oriente para poder reforçar o nível das ameaças contra a China e contra a Rússia. É o que está a acontecer sob os nossos olhos.
A instalação de mísseis nucleares de médio alcance no Reino Unido, virados contra a Rússia, fará com que Moscovo responda da mesma maneira, com armas viradas “para cá”. É um regresso ao passado nos episódios de corrida aos armamentos, o retorno a uma guerra fria que, nunca deixando verdadeiramente de existir, se reactiva em cima de um mundo repleto de guerras quentes.
Durante os primeiros anos deste século, Washington ainda deu a sensação de que o terrorismo internacional passaria a fazer as vezes da extinta União Soviética como argumento imperial para cometer ingerências onde lhe interessa, alimentar guerras para escoar stocks de armamentos ultrapassados, para por e tirar governos a seu belo prazer. Esse tempo já lá vai, até porque qualquer cidadão medianamente informado e que pretenda olhar o mundo com olhos de ver conhece as cumplicidades entre os Estados Unidos e o terrorismo internacional.
Tal como a União Soviética de antanho, a Rússia é o inimigo principal do império – em boa verdade a Rússia e os seus potenciais aliados militares, China e Índia. Foi sobre isto que incidiram os recentes encontros do senhor Obama, que passa mais tempo no espaço da União Europeia do que no seu país. E quando ele chega aos países da União Europeia não é para pedir, é para exigir a rogo de quem o fez presidente e como tal o sustenta, o complexo militar, industrial e tecnológico que governa os Estados Unidos e pretende governar o mundo, em “democracia”, claro está.
Por isso Obama veio dizer ao seu confrade Cameron, eleito de fresquinho, que prepare as bases para que nelas sejam instalados os mísseis nucleares norte-americanos e que se deixe de alimentar as dúvidas sobre se o Reino Unido deve ou não continuar na União Europeia. É do interesse dos Estados Unidos que a União Europeia continue inteira, estável e dócil, por isso que se deixe Cameron de falar em referendos sobre a saída ou não, que ainda podem dar mau resultado mesmo que o sistema eleitoral funcione de modo a evitar incómodos, mas nunca se sabe.
Dir-se-á: Cameron foi reeleito agora, porém o mesmo não poderá acontecer com Obama. Pois não – e o que interessa isso? A seguir virá um outro, com um dos dois rótulos regimentais, para fazer a mesma coisa, quem sabe se logo à partida agraciado com um Nobel para que tudo o que ele decida em prol da guerra seja apresentado como denodados esforços pela paz. Estando todos nós reféns destas mentes doentes.



domingo, 7 de junho de 2015

LINHA DE MONTAGEM TERRORISTA


Oficiais e armas norte-americanas chegaram à base militar da NATO de Incirlik, na Turquia, e a uma pequena base na Jordânia durante o mês de Maio para que se iniciem a selecção e o treino da “nova geração” de mercenários do Exército Sírio da Liberdade, a entidade que os Estados Unidos e aliados inventaram para derrubar o presidente sírio, Bachar Assad, e que tem servido como uma das pontes para alimentar a Al Qaida e o Estado Islâmico.
O argumento invocado pelos autores desta estratégia, segundo a qual a operação se destina a combater em simultâneo o exército regular sírio e o Estado Islâmico, tem provocado sorrisos e dichotes no Quartel-General da NATO em Bruxelas. Como pode um grupo inventado do nada, e cuja ligação à Síria não passou originalmente de alguns dissidentes comprados por meia dúzia de patacos entre membros do exército sírio, pode ambicionar uma guerra em duas frentes e contra adversários tão poderosos como as tropas de Damasco e o Estado Islâmico (EI)?
A verdade é outra. A CIA e afins continuam apegadas à estratégia de criar e alimentar redes terroristas cuja utilização vai variando conforme os objectivos em determinado momento e circunstâncias. Nas vésperas da assinatura de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão tornou-se claro que o Estado Islâmico, organização cujo comportamento é de pura selvajaria e de cruel banditismo, integra o processo acordado entre Washington e Teerão, com o envolvimento de sectores israelitas, de partilha do Médio Oriente em esferas de influência. O “califado” islâmico proclamado pelo Estado Islâmico em partes contíguas dos territórios da Síria e do Iraque, juntamente com a possível criação de um Estado curdo no Curdistão Iraquiano, fazem parte desta operação de partilha, pelo que o argumento norte-americano de que a “nova geração” dos “moderados” sírios irá combater o EI é pura ficção, uma deliberada mentira.
Círculos de espionagem afectos às estruturas da NATO asseguram que os Estados Unidos estão a preparar um “rigoroso processo de selecção” dos mercenários de “nova geração” de modo a que não sigam as pisadas dos anteriores, isto é, irem engrossar os bandos da Al Qaida e do EI. Para isso prevê-se que os candidatos sejam filtrados através de informações existentes na miríade de bases de dados da espionagem norte-americana criadas pelas acções da NSA através de todo o mundo, tal como foram denunciadas por Edward Snowden. A Turquia e a Arábia Saudita, por sua vez, pretendem ter voz activa nessa selecção, o que deitaria imediatamente por terra, se elas existissem, as intenções da CIA de não recrutar gente muito chegada às teses do radicalismo islâmico.
Na prática, o que está a acontecer – como sempre – a coberto das operações de treino de “combatentes da liberdade” nas bases da NATO na Turquia e em instalações do mesmo tipo na Jordânia, é a criação de bandos terroristas que irão engrossar os já existentes e que alimentam cada vez mais situações de conflito em zonas críticas do globo. Criar grupos terroristas é, no fundo, a essência da chamada guerra contra o terrorismo.
As aberrações são de tal ordem que, no meio delas, se perdeu nos escombros do tão esquartejado direito internacional este princípio básico e ostensivamente caído em desuso: com que legitimidade alguns países se arrogam o direito de fundar grupos armados com o objectivo declarado de ir derrubar um governo de um Estado soberano? Para que conste, as eleições que sufragaram o chefe de Estado da Síria foram bastante mais livres e democráticas que as organizadas pelos Estados Unidos e aliados em países como a Ucrânia, o Iraque e o Afeganistão.
Arrasar o direito internacional invocando o direito internacional é, ao fim e ao cabo, mais um elemento da estratégia dominante de alimentar o terrorismo a coberto de combater o terrorismo, de violar os direitos humanos em nome do respeito pelos direitos humanos.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

JUNHO ANUNCIA-SE SANGRENTO


 
O mês de Junho anuncia-se sangrento na arena internacional. É um mês decisivo para os senhores da guerra de vários matizes, que tentarão ganhar e definir posições ainda antes da assinatura do acordo dito de prevenção nuclear a assinar no dia 30 entre os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão sob a batuta do presidente Hassan Rohani.
O acordo, em si mesmo, fecha uma história batoteira que serviu para alimentar sanções e outras medidas de isolamento do Irão, sobretudo para conter a sua influência regional até que o regime de Teerão se “moderou”. Qualquer dirigente norte-americano, mesmo os que não o admitem, sabe que o Irão não tinha qualquer projecto nuclear militar na manga, o seu objectivo estratégico através da energia atómica é meramente civil. O regime iraniano pretende gerir as suas riquezas petrolíferas da maneira que melhor entende, de forma a não depender energeticamente apenas delas. É importante recordar, a propósito da enorme mentira mundial que foi a possível “bomba atómica” do Irão, o decreto religioso emitido em 1988 pelo líder histórico da revolução, o ayatollah Khomeiny, proclamando a renúncia da República Islâmica à utilização da energia atómica com fins militares.
O que significa então o acordo a assinar em 30 de Junho, negociado em segredo nos últimos dois anos entre Washington e Teerão, em paralelo e muitas vezes à revelia das chamadas conversações 5+1 na Suíça? Significa que Estados Unidos e Israel, por um lado, e o Irão, pelo outro, vão partilhar esferas de influência no Médio Oriente estabelecendo, de certa maneira, um novo mapa da região. Escreveu-se Israel, mas sabe-se que o primeiro-ministro Netanyahu está contra este arranjo, uma vez que ele traduz, se funcionar, uma possível rejeição norte-americana do projecto de Grande Israel. Este ponto levanta uma série de interrogações sobre o futuro do governo de Netanyahu recém-constituído, ao qual a administração norte-americana não parece agora disposta a facilitar a vida.
O acordo entre Washington e Teerão formaliza a rejeição, pelo Irão, do uso da energia atómica para fins militares, a renúncia à “exportação da revolução islâmica” e, em contrapartida, determina o levantamento das sanções internacionais contra a República Islâmica. O Irão conservará as suas esferas de influência na Síria, no Líbano, no Iraque e a questão palestiniana deverá regressar aos objectivos de Oslo; os Estados Unidos e Israel reinarão sobre uma grande aliança no Golfo acrescida do Egipto, que assentará num eixo militar entre Israel e a Arábia Saudita, cuja existência é cada vez mais nítida. A administração Obama não se compromete, porém, a garantir preto no branco a sobrevivência das actuais monarquias corruptas, o que se percebeu através do meio fracasso da recente cimeira das ditaduras realizada em Washington.
Os Estados Unidos pretendem, através dos arranjos com o Irão, estabilizar a situação no Médio Oriente de maneira a transferirem para a Ásia grande parte dos efectivos afectados actualmente à região. A estratégica asiática, de maneira a fazer frente à China e à Rússia, é agora o principal objectivo imperial e por isso está a nascer no sultanato do Brunei a maior base militar norte-americana e mundial.
Na perspectiva do acordo a assinar no dia 30 desenvolvem-se agora intensas operações militares buscando a conquista de posições que, muito hipoteticamente, ficariam congeladas nesse dia. Daí o recrudescimento da ofensiva israelita-americana-europeia em território sírio, de que é exemplo a conquista em dois dias, pelos terroristas do Estado Islâmico, de duas das principais cidades da Síria e do Iraque, Palmyra e Ramadi. Salta aos olhos que o Estado Islâmico faz parte da estratégia norte-americana e israelita para a fase que se segue à assinatura do acordo. Alguém acredita que um grupo terrorista alegadamente sujeito, há vários meses, a uma campanha de bombardeamentos aéreos norte-americanos mantenha vitalidade para lançar uma bem sucedida ofensiva, e logo em duas frentes? A guerra ocidental contra o Estado Islâmico é falsa porque este grupo, sustentado logisticamente também por Israel, faz parte dos arranjos territoriais em curso.
A guerra pela conquista de posições antes de dia 30 vai marcar todo o mês de Junho. Daí falar-se também, cada vez mais insistentemente, na possível criação de um Estado Curdo no Curdistão iraquiano patrocinado pelos Estados Unidos, Israel, e tolerado pelo Irão.
Os arranjos existem no papel, o que não quer dizer que funcionem. O mais provável é que não funcionem, como demonstra toda a história do Médio Oriente desde os acordos entre o Reino Unido e a França (Sykes-Picot) a seguir à Primeira Guerra Mundial. As variáveis são mais que muitas, a começar pelo facto de a administração Obama estar em fim de carreira e em Israel existir, embora mais frágil que anteriormente, um governo que fará tudo para minar o entendimento entre Washington e Terrão. Acresce que a proliferação de grupos terroristas islâmicos e o estado de degradação a que chegaram as situações na Síria, no Iraque, no Iémen e a questão palestiniana não se compadecem com geometrias diplomáticas, mesmo que parecessem realistas e aplicáveis – o que nem sequer é o caso. Não é certo, sequer, que depois de assinado o acordo a propaganda global silencie as mentiras sobre a opção nuclear militar iraniana.
 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O AMBIENTE DENTRO DA NATO É DE CORTAR À FACA


 
Acreditem que não exagero. No Quartel-General da NATO, em Bruxelas, o ambiente é de cortar à faca. Os políticos queixam-se dos militares e os generais estão com vontade de engolir vivos alguns políticos, com gravata e tudo, sendo Obama e John Kerry os primeiros da fila.
Lá para as bandas de Moscovo, caso saiba deste estado de espírito, e podem crer que sabe, quem dá gargalhadas sonoras é Vladimir Putin. A seriedade e o respeito histórico com que assinalou o 70º aniversário da rendição da Alemanha nazi devolveram-lhe trunfos internacionais com uma rapidez que talvez o surpreenda: a mesquinhez, a mistificação da realidade histórica e o culto da própria insanidade que guiaram os dirigentes norte-americanos e da Europa Ocidental nestes dias funcionaram como tiros nos pés de tal maneira eficazes que Putin e os que com ele estiveram a assinalar o Dia da Vitória nada mais tiveram que fazer do que ser fiéis ao espírito da data.
No Quartel-General da NATO, em Bruxelas, generais e muitos diplomatas não se conformam com as “reviravoltas” de Obama. “Obrigou-nos a fazer de conta que a Europa Ocidental teria derrotado Hitler mesmo que o Exército Vermelho não tivesse dado cabo da Wermacht, sabendo nós que isso é uma impossibilidade e uma falsificação da História, e logo a seguir manda Kerry pedir a Putin que colabore o mais depressa possível numa solução pacífica para a Ucrânia, como se não tivéssemos andado nos últimos 14 meses a alimentar grupelhos nazis na Ucrânia servindo de iscos para colocarmos a NATO em peso nas fronteiras da Rússia”, afirma um general, off the record, como compreenderão e num vernáculo que aqui se atenua um pouco. “Isto não é política, isto não é uma estratégia, é uma deriva”.
O que mudou nesse Dia da Vitória e que fez Obama mandar o seu secretário de Estado mendigar a Putin que o recebesse? Entre os generais que se cruzam em Bruxelas correm comentários pouco abonatórios para com o presidente dos Estados Unidos, à mistura com dichotes que soam a piadas de caserna.
“Obama acobardou-se com o desfile na Praça Vermelha”, garante o mesmo general. “E não é apenas porque ao lado de Putin esteve o presidente chinês enquanto à frente deles desfilavam armas que são para levar muito a sério”, acrescenta. “O facto de aquele desfile ter demonstrado a possibilidade de se juntarem militarmente os países mais extensos e populosos do mundo como são a China, a Índia e a Rússia assustou Obama”, disse o general, “fê-lo sentir a urgência de apostar tudo na sua estratégia de pivot asiático”.
Para isso é preciso dar parcialmente o dito por não dito na Ucrânia, envolvendo Putin na estabilização do país – isto é, passando a parceiro ocasional em vez de adversário a abater; e de tirar o mais depressa possível o proveito desejado do acordo com o Irão, a entrar em vigor em 30 de Junho, de modo a que grande parte do esforço militar norte-americano no Médio Oriente seja transposto para o Extremo Oriente.
O que provoca o mal-estar nas cúpulas da NATO não é tanto a correcção de rota que Obama e o Pentágono tentam fazer, mas sim a confirmação da advertência que muitos militares europeus fizeram em tempo útil de que o golpe e as medidas tomadas na Ucrânia estavam erradas de uma ponta à outra. Sendo que agora é muito mais difícil corrigir o erro, mesmo que haja vontade disso – o que não está ainda absolutamente garantido. “Soltaram-se os cães selvagens quando teria sido muito mais ajuizado não os ressuscitar”, diz-se em pleno Quartel-General da NATO.
 

sábado, 16 de maio de 2015

OBAMA REUNIU A CIMEIRA DOS DITADORES


 

O presidente dos Estados Unidos da América, o democrata Barack Obama, organizou e acolheu em Washington, durante esta semana, uma cimeira dos ditadores reunidos numa mafia militar e agressiva disfarçada sob a inofensiva designação de Conselho de Cooperação do Golfo. Organização essa que mais não é do que uma tropa de choque ao serviço da política expansionista da NATO em situações específicas do Médio Oriente, vide os casos do Bahrein, da Líbia, da Síria.
O desejo do presidente dos Estados Unidos da América, a potência mundial que organiza mais guerras para distribuir a democracia, teve de encontrar os chefes da Arábia Saudita, Bahrein, Koweit, Omã, Qatar e Emirados Árabes Unidos foi tanto que ignorou a desfeita que os padrinhos sauditas lhe fizeram. O rei não se deslocou e enviou os seus ministros do Interior e dos Negócios Estrangeiros em sinal de desprezo pelo facto de Obama estar a negociar com o Irão um acordo sobre a questão nuclear. Como se percebe por este assunto, as convergências entre o regime terrorista da Arábia Saudita e Israel são cada vez mais evidentes e nem sequer poupam Obama, principal aliado comum.
Pois Obama organizou a cimeira desta boa e recomendável gente para quê? Para lhes pedir que respeitem os direitos humanos nos seus países? Para evitarem, por exemplo, situações digamos, incómodas, como a de os carrascos sauditas estarem a chicotear publicamente um blogger por exercer a liberdade de expressão ao mesmo tempo que Riade se fazia representar a altíssimo nível na manifestação em Paris contra os atentados no Charlie Hebdo? Para solicitar explicações aos representantes sauditas sobre a lamentável coincidência de 15 dos 19 acusados de sequestro dos aviões do 11 de Setembro de 2001 terem partido da Arábia Saudita? Para recomendar ao chefe do Qatar, e também aos outros convidados, que acabem com o trabalho escravo dos imigrantes nos seus países? E, já agora, para sugerir que as tropas sauditas se retirem do Bahrein, onde entraram em 2011 para esmagar em sangue a “primavera árabe” e se esqueceram de sair? Para instar os seus hóspedes a deixaram de montar e financiar grupos terroristas (do treino trata ele), cujos expoentes máximos são hoje o Estado Islâmico e a Al Qaida? Para lembrar ao Conselho de Cooperação do Golfo que deve evitar as chacinas de inocentes no Iémen, no Iraque, na Líbia, na Síria? Para solicitar a tão prodigiosos machões o incómodo de concederem direitos às mulheres dos seus países?
Na verdade, ao que consta, alguns desses assuntos estiveram na agenda durante os dois dias de aturados e extenuantes trabalhos, embora abordados numa perspectiva da convergência de interesses, pondo de lado as críticas, sempre tão destrutivas quando se trata de ditaduras. Privilegiaram-se, pois, os pontos em comum para que a atmosfera fosse construtiva, como o soberano saudita desejaria, por certo, apesar da ausência.
Sabe-se também que o presidente dos Estados Unidos da América chamou a fina flor das petroditaduras mundiais para lhes garantir que qualquer que seja o acordo a estabelecer com o Irão ele nunca prejudicará os interesses dos seus países, nem os bons negócios bilaterais e multilaterais existentes. Ou seja, nos próximos quatro anos a ditadura saudita poderá comprar pelo menos tantas armas norte-americanas como no quadriénio findo, negócio que envolveu uma conta calada de 90 mil milhões de dólares. Ao dar esta garantia, Obama solicitou aos visitantes que tenham cuidado para que a situação no Iémen não promova uma alteração dos mapas do Médio Oriente, a não ser que tudo possa enquadrar-se nas alterações que nos últimos anos, e ao compasso de várias guerras, os Estados Unidos e Israel estão a conduzir para que o Médio Oriente tenha um novo mapa. Uma carta capaz de acabar com os anacronismos mas salvaguarde a proveitosa e jamais questionável convergência de interesses entre Washington, o regime israelita e esse farol da democracia nas arábias que é o Conselho de Cooperação do Golfo.