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domingo, 6 de dezembro de 2015

PETRÓLEO DE SANGUE


Camiões cisterna na fronteira entre a Síria e a Turquia
O chamado Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh – um dos muitos heterónimos da rede terrorista mundial de índole “islâmica” – é uma espécie de inimigo público nº 1, autor putativo de toda e qualquer acção de violência que seja praticada, monstro de mil e uma cabeças que atingiu uma dimensão criminosa dir-se-ia imbatível e que, para admiração geral, nasceu do nada, ninguém apoia, nem sustenta, nem financia, nem arma, nem protege, nem dele se serve. O terror dos terrores nasceu por geração espontânea, de um ovo vazio, de um ventre estéril.
A Al-Qaida, por exemplo, teve um embrião, um lugar de gestação e nascimento, procriadores conhecidos. Fale-se em CIA, MI6, serviços secretos paquistaneses e sauditas, Afeganistão, Bin Laden e resumem-se os primórdios da rede que haveria de simbolizar o terrorismo mercenário “islâmico” até à emersão relampejante do Estado Islâmico.
Em relação a este sabe-se, por exemplo, que o general norte-americano Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, acusa os próprios Estados Unidos e Israel de terem as mãos sujas na sua origem. Clark deve saber do que fala, não só pelo cargo que ocupou como pela folha de serviços pouco recomendável no processo de invenção do Kosovo.
Digamos que estas informações, mesmo significativas, são avulsas: faltam dados globais que ajudem a sistematizar o processo de criação e desenvolvimento de uma seita terrorista que conseguiu avançar num ápice do Leste da Síria quase até Bagdade, a capital do Iraque, ao mesmo tempo que se coligava com os nazis ucranianos para tentarem destruir o Leste da Ucrânia e “libertar” a Crimeia, ao mesmo tempo que pretende desmantelar a Síria, manter o caos na Líbia, solidificar o “califado” proclamado em vastos territórios sírio e iraquiano, onde controla o generoso maná petrolífero de Mossul, “capital” dos curdos do Iraque.
Petróleo, uma palavra-chave para se conhecer o ISIS, como agora se vai sabendo no meio de um ruído de comunicação gerado para que a realidade se dissolva na mentira, como muitas vezes acontece neste mundo quando os assuntos são problemáticos e as cumplicidades incómodas.
O ISIS ou Estado Islâmico vive e desenvolve-se a petróleo, petróleo de sangue tendo em conta as suas actividades. Há elementos suficientes para não existirem dúvidas de que os seus principais financiadores são petroditaduras como a Arábia Saudita e o Qatar, íntimos aliados militares, políticos e económicos de entidades que se consideram faróis da civilização como os Estados Unidos da América e a União Europeia.
Sabe-se agora também, desde que as tropas russas empenhadas em salvar a Síria como país o denunciaram com provas abundantes, que o ISIS ou Estado islâmico se financia através de contrabando de petróleo que “lava”, por exemplo, através da chancela oficial da região autónoma do Curdistão iraquiano.
É surpreendente que não tenhamos sabido deste processo antes de os russos se envolverem na Síria, porque os movimentos deste contrabando nada têm de discretos aos olhos da nuvem de satélites. Envolvem comboios de 8500 camiões cisterna por dia em direcção a portos e refinarias da Turquia – membro da NATO como todos sabemos – entrando neste país a partir de regiões ocupadas pelo Estado Islâmico na Síria e sem qualquer controlo fronteiriço das autoridades turcas. Na Turquia, o extenso e quotidiano desfile cai sob o controlo da mafia do “dr. Farid”, de dupla nacionalidade grega e israelita, e de outras mafias de outros drs. Farids, seguindo depois a mercadoria para o mundo a partir de portos israelitas e turcos. Ao que parece, segundo o Financial Times, Israel assegura assim cerca de três quartos das suas necessidades energéticas. Cada barril de petróleo clandestino é traficado a cerca de metade do preço dos mercados – até estes são burlados – proporcionando ao Estado Islâmico receitas por baixo de 3,2 milhões de dólares por dia, quase cem milhões por mês, mil e duzentos milhões por ano. O movimento envolve também navios de bandeira japonesa da empresa BMZ pertencente a Bilal Erdogan, filho do presidente da Turquia Recepp Tayyp Erdogan, e a outros membros da família. Acresce que parte do petróleo roubado na Síria e no Iraque transita através da região de Sanliurfa na Turquia, onde funcionam campos de treino da Al-Qaida e do Estado Islâmico e existe também um hospital clandestino para tratar terroristas feridos em combate na Síria, por sinal gerido pela senhora Summyie Erdogan, filha do presidente turco e irmã de Bilal. A família presidencial de Ancara, que a União Europeia encarregou agora de travar o fluxo de refugiados em troca de mais uns milhares de milhões de dólares e da promessa de adesão à confraria, desmente a pés juntos estas realidades, tal como negou ter negócios ilegais e acolher frequentemente o príncipe saudita conhecido por ser o tesoureiro da Al-Qaida. Facto mais do que confirmado pela comunicação social turca e que esteve na origem de um saneamento brutal nos aparelhos judicial e policial, vitimando quem tinha as provas e os responsáveis pelas investigações e processos.
Ocorrendo estas práticas terroristas sob o chapéu de um membro da NATO não será difícil perceber as razões pelas quais o tráfico de petróleo em favor do Estado Islâmico tenha sido poupado durante mais de um ano pela “guerra” que os Estados Unidos dizem conduzir contra esse mesmo grupo terrorista. Até ao dia em que Moscovo demonstrou os factos durante a cimeira do G20 e o Pentágono decidiu agir pontualmente, tal como a França fez a seguir aos atentados de Paris, violando aliás a soberania síria porque ambos o fizeram à revelia do governo de Damasco.
Porque os resultados das investigações às vezes também são como as cerejas, conhecem-se agora outras fontes de financiamento do Estado Islâmico: o tráfico de escravos sexuais, assaltos a bancos da Síria e do Iraque, mercado negro de produtos cultivados nas terras férteis que confiscou no interior do “califado”. Mas as chaves da sua existência e da sua actividade são o petróleo de sangue em conjunto com enredadas cumplicidades onde avultam pessoas e entidades que se miram ao espelho e nos ecrãs como gente de bem e assim entendem defender o nosso “civilizado modo de vida.”
 

sábado, 21 de novembro de 2015

O NOVO CARLUCCI


 
O sr. Sherman está “preocupado”. Ele que abandonou o seu bem-sucedido escritório de advogados em Boston, que descurou as reuniões do Conselho do Memorial do Holocausto para fazer um tranquilo período de repouso sabático na Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal, onde seria suposto nada ter que o incomodasse, agora encontrou razões para se inquietar. É verdade que antes de se instalar passou uns olhares despreocupados pelas aventuras do chefe da CIA, Frank Carlucci, quando destacado como embaixador neste “jardim à beira mar plantado”. Mas como, desde então, tudo entrou nos eixos e caducaram as intensas mas fugazes razões que sobressaltaram o império, Portugal voltou a ser o redil manso e obediente sempre que as simpáticas ovelhinhas ouvem ordens em inglês ou qualquer coisa parecida.
Contudo, de repente e quando nada o fazia prever, o sr. Sherman confessa-se preocupado, e di-lo bem alto, em rádios e jornais com muito boas referências e preferências na sua terra, para que tais inquietações cheguem ao homem do palácio de Belém antes de tomar uma decisão sobre o próximo governo. Ele – o homem do palácio de Belém – que teve a ousadia de receber uma torrente de sábios doutores, engenheiros e economistas pensando as mesmas coisas e não encontrou hora para acolher também o sr. Sherman.
O sr. Sherman, porém, nem precisa de ir a Belém para se fazer ouvir. Está “preocupado” porque o PS, entidade que até agora nunca dera motivos para preocupações a Sherman e antecessores, foi capaz de fazer acordos de incidência governamental com “ferozes inimigos da NATO”, coisa que é ainda pior que ser terroristas porque estes, como ficou bem explicado nos Balcãs, na Líbia, e não deixa dúvidas na Síria, são pragmáticos quanto baste para fazer serviços, por sinal bem sujos e sangrentos, em aliança com os senhores da Aliança Atlântica. Uma mão lava a outra.
O sr. Sherman ressalva, não haja mal-entendidos, que “respeita as escolhas políticas dos portugueses”, porque são assim os verdadeiros democratas como ele que, sendo conselheiro do Museu do Holocausto é, ao mesmo tempo, cúmplice ideológico de atrocidades cometidas em Gaza, da tortura e assassínio de garotos e adolescentes que são moeda corrente nas prisões e hospitais de Israel.
O sr. embaixador Sherman adverte de Sete Rios, em todas as direcções, que o comportamento do PS “levanta a questão sobre se o compromisso de Portugal, como membro fundador (da NATO), é firme como sempre foi”. Porque, como dizia seu pai, “diz-me quem são os teus amigos dir-te-ei quem és” e os socialistas “fizeram uma aliança amigável com dois partidos anti-NATO”.
Sabemos, como atrás ficou escrito, que o sr. Sherman “respeita as escolhas políticas dos portugueses”. Pelo menos, subentende-se, enquanto forem as escolhas que a NATO pretende. E se por acaso, um dia, as “escolhas legítimas dos portugueses” não agradarem à NATO o que acontecerá? O sr. Sherman chamará a NATO para devolver as “escolhas” à devida ordem? Quem assim nos alerta com as suas “preocupações” nosso amigo é?
O sr. Sherman deve saber – ou deverá ter quem o informe – que apesar de Portugal ser membro fundador da NATO os portugueses nunca foram consultados sobre isso, isto é, nunca puderam escolher. Até porque quando Portugal participou na fundação da NATO era governado por um tal Oliveira Salazar que se sucedeu a si mesmo, mandato após mandato, sem que os portugueses alguma vez o tivessem escolhido, tal como acontece com fazer ou não parte da NATO. A relação de Portugal com a NATO, tal como a submissão dos portugueses a Salazar, nunca teve a ver com democracia. Com essa situação, porém, não manifesta o sr. Sherman qualquer incómodo.
Durante anos a fio, durante as últimas décadas não se ouviu um pio da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa. A Oeste nada de novo, para o império tudo corria sobre rodas. De repente, eis que parece surgir uma ovelha tresmalhada e logo ficámos a conhecer quem ocupa o lugar que há 40 anos foi de Carlucci, chefe da CIA. O mastim do império não dorme, nunca dorme. Mas tal como o embaixador dos Estados Unidos, também os portugueses sabem citar provérbios universais, por exemplo o que diz que os cães ladram e a caravana passa. Assim queiram os portugueses honrar as suas escolhas legítimas, incomodem ou não o sr. Sherman e seus amos.
 

 

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

TERRORISMO VERBAL




 
O presidente dos Estados Unidos da América aconselha o presidente da Rússia a “focar-se” nos ataques ao Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh, ou Al-Nusra ou Al-Qaida; o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, propôs que haja uma frente internacional contra o terrorismo.
Disseram-no com ar de grandes estadistas possuidores das soluções para os males do mundo.
Barack Obama queixoso pelo facto de as forças aéreas e navais russas actuando na Síria parecerem “mais preocupadas” em defender o regime de Assad, ao que diz sem poupar os alibis bonzinhos de Washington, Paris, Londres e NATO - a meia dúzia de terroristas “moderados” que servem de interface para abastecer com armas, munições e dólares os terroristas “extremistas”. “Moderação” em que deve confiar-se piamente, sobretudo sabendo que um dos principais fundadores operacionais do grupo foi o chefe em exercício do Estado Islâmico no Magrebe, Abdelhakim Belhadj.
Netanyahu, por seu lado, convencido de que o mundo não conhece a sua generosidade para com o Estado Islâmico ao ceder-lhe os Montes Golã – ocupados à Síria – como rectaguarda, ao facultar-lhe hospitais israelitas para cuidar os terroristas feridos com maior gravidade.
Procurei uma qualificação adequada à gravidade e à irresponsabilidade destas declarações de dois aliados, que se confessam unidos haja o que houver, e só encontro uma: terrorismo verbal. Porque as suas palavras não passam de manobras de diversão que desviam as atenções da essência do terrorismo; porque mentem sobre a realidade gerando propaganda que, em última análise, serve o terrorismo; porque pretendem fazer crer que estes dois seres nada têm a ver com os grupos sanguinários que fingem combater. Obama e Netanyahu aconselham soluções mas continuam a ser a parte essencial do problema.
As forças militares russas colaboram com as forças armadas sírias no combate ao terrorismo? Não existe outra maneira legal de o fazer nos termos da Carta da ONU. A Síria é um Estado soberano, não é um território neutro onde qualquer um pode fazer operações militares quando e como lhe apetece, muito menos invocando argumentos distorcidos. Como é o caso do Pentágono que directamente – agora com tropas no terreno – ou por interpostos terroristas afirma ter como objectivo combater simultaneamente o Estado Islâmico e Bachar Assad, patranha em que nem os autores acreditam porque sabem, melhor que ninguém, que o objectivo é mudar o regime sírio e desmantelar o país. Por isso a “guerra” que Washington e aliados têm alegadamente conduzido contra o Estado Islâmico há mais de um ano deixou os terroristas mais fortes, mais armados, mais endinheirados; à Rússia, porém, bastou pouco mais de um mês para destruir centenas de centros de comando e outros alvos estratégicos do Daesh, libertar aldeias, vilas e aeroportos, estando agora em vias de cortar o eixo terrestre que garante a ligação terrorista entre a Turquia e o Iraque. Até a França, a duras penas, é certo, parece entender que essa é a maneira certa e credível de combater os grupos mercenários, pelo menos tem-no feito nos últimos dias. Sem complexos de coordenar esforços com Moscovo, ou de que tais operações sustentem Assad, na verdade um dos ódios de estimação de Paris. Aliás, a nova opção francesa parece ser a mais eficaz e certeira. Porque, segundo fontes citadas pela imprensa dos Estados Unidos, o ataque gaulês contra o Estado Islâmico lançado no dia seguinte ao dos atentados de Paris, feito ainda em coordenação com sistemas de informações norte-americanos, destruiu várias clínicas e um museu na cidade de Raqqa como sendo assustadores alvos terroristas.
O Obama dos conselhos e acusações à Rússia é o mesmo que contribuiu para destruir a Líbia, que desencadeou a guerra civil na Síria com recurso a mercenários de todos os matizes, que tornou praticamente irreversível o desmantelamento do Iraque. E que agora, de braço dado com Netanyahu, tolera limpezas étnicas no norte do território sírio para criar aí um Estado curdo artificial que lhes garanta o controlo dos manás petrolíferos de uma região que se estende ao país que já se chamou Iraque.
Quanto a Netanyahu e aos seus apelos contra o terrorismo, não há que gastar muito espaço. O mundo sabe que o seu nome se tornou um sinónimo desse mesmo terrorismo.
 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

PERFIL DE UM TERRORISTA DOS NOSSOS DIAS


Recebendo homenagens do senador McCain, dos amigos americanos
 
As informações estão em poder da Interpol. Deitar-lhe a mão nestes tempos em que as leis e as fronteiras não são problema para assaltos a vidas, soberanias e privacidades, seria apenas uma questão de, digamos, “vontade política”, não é assim que costuma invocar-se? O seu paradeiro não é certamente segredo para a miríade de serviços secretos que apregoam defender “o nosso modo de vida”: é a Líbia, depois de tão bem democratizada pela NATO, onde ele exerce altos cargos políticos e operacionais no governo dominante, o mesmo que invoca para si próprio “o islamismo puro”.
Nome: Abdelhakim Belhadj. A história da sua vida dava um filme daqueles bem a gosto de Holywood, tanto mais que o seu currículo – em poder da Interpol, repito – corresponde às imagens dos rambos de séries A, B ou C cujos feitos heróicos coincidem com as vontades objectivas dos Estados Unidos e de Israel, países onde os fins e os agentes escolhidos para os executar justificam quaisquer meios e o recurso a psicopatas sanguinários.
Sabe a Interpol que Abdelhakim Belhadj é, no presente, o chefe do Estado Islâmico, ou ISIS ou Daesh, no Magrebe e que, operacionalmente, criou e orienta campos de treino de mercenários assassinos na Líbia, concretamente em Derna, Syrte e Sebrata, além de um escritório do ISIS em Djerba, na Tunísia.
Antes disto, Belhadj chefiou os terroristas do Grupo Islâmico Combatente na Líbia (GICL), que em 2007 mudou de nome para Al-Qaida, mais sintonizado com os tempos. Por quatro vezes, entre 1995 e 1998, tentou assassinar Khadaffi a mando do MI6, os serviços secretos ao serviço do terrorismo de Estado britânico. Perseguido na Líbia mudou-se para o Afeganistão, onde se instalou e agiu ao lado de Ussama bin-Laden, o qual dispensa apresentações.
Como a polícia espanhola suspeita de que foi um dos mandantes do atentado ferroviário em Madrid Atocha, em Março de 2004, foi detido logo a seguir na Malásia. Como se percebe, não terá sido difícil identificá-lo e prendê-lo, porque meia dúzia de dias e milhares de quilómetros mediaram entre crime e captura. Passou então maus bocados numa prisão secreta da CIA para onde foi transferido e onde ficou alojado para experimentar as famosas técnicas de tortura – “condicionamento de comportamento”, chamam-lhe nos Estados Unidos – do professor Seligman, métodos de cujas provas a CIA tentou desesperadamente impedir a divulgação.
Abdelhakim Belhadj restabeleceu-se depressa: para ele não se seguiram penas eternas no campo de concentração de Guantanamo, também ele eterno se a este Obama se sucederem outros obamas, coisa mais do que provável. É verdade que ainda foi extraditado para a Líbia, através de um acordo entre os Estados Unidos e o regime de Khadaffi, onde voltou a ser torturado, dessa feita às mãos do MI6 que antes servira. Nestas coisas, a CIA e a sua irmã MI6 são muito ciosas, separam as águas, cada uma quer fazer a sua tarefa ainda que repetindo-se.
Khadaffi libertou-o em 2010, no quadro de uma “reconciliação nacional”, e mal teve tempo para se arrepender. Abdelhakim Belhadj viajou para o Qatar e no ano seguinte estava à frente de grupos de mercenários que, ao lado e protegidos pelos bombardeamentos da NATO – França e Reino Unido, principalmente – derrubaram e assassinaram Khadaffi. Como recompensa pelos serviços prestados, e por recomendação na NATO, o Conselho de Transição nomeou-o governador militar de Tripoli, a capital.
Belhadj não aqueceu o lugar. Ainda teve tempo, porém, para exigir e obter desculpas dos Estados Unidos e do Reino Unido pelas sevícias sofridas noutros tempos, e o que lá ia lá foi. Outras tarefas estratégicas o aguardavam. Partiu em finais de 2011 para a Síria, onde foi um dos principais fundadores do Exército Livre da Síria, os famosos “moderados” tão queridos da senhora Clinton, da NATO, da União Europeia - com destaque para a França - e dos regimes fundamentalistas do Golfo, Arábia Saudita à cabeça. O objectivo era derrubar Assad, mas Assad resiste e já lá vão mais de 250 mil mortos, milhões de refugiados e um país destroçado, massacre cujas responsabilidades nenhum intervencionista ilegal e ilegítimo assume.
Sempre sem perder tempo, Abdelhakim Belhadj regressou à Líbia natal, onde fundou um partido governante, a maneira que encontrou, num cenário de caos, para instalar os terroristas islâmicos no poder em Tripoli.
Na qualidade de figura de proa na Líbia, provavelmente já na posição de chefe do Estado Islâmico no Magrebe, que a Interpol reconhece, Abdelhakim Belhadj foi recebido em 2 de Maio de 2014 no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Paris, tutelado por Laurent Fabius, ministro de Hollande e também um incondicional amigo de Israel.
 Laurent Fabius, exactamente: que é ainda o ministro dos Negócios Estrangeiros de Hollande nestes dias em que continuam a sangrar as feridas abertas pelo assalto às vidas dos parisienses, ao que dizem cometido pela organização de que Abdelhakim Belhadj é um dos chefes máximos.
As informações sobre este terrorista-modelo dos nossos dias e o seu currículo estão nas mãos da Interpol. “Estamos em guerra”, proclama o presidente Hollande com os acenos concordantes do chefe da sua diplomacia. Vamos então esperar pelo que se segue, para ver o que acontece.
 
 

sábado, 14 de novembro de 2015

A MATANÇA CONTINUA



Paris, noite de 13 de Novembro de 2015; depois de Paris em Janeiro de 2015, Nova Iorque, Madrid Atocha, Líbano centenas de vezes, enquanto se arrastam as tragédias da Palestina, Afeganistão, Síria, Iraque, Líbia, Iémen, Egipto, Somália, Mali, Nigéria. A matança continua através da mais bárbara das formas de guerra, a que vitima preferencialmente civis, famílias nas suas casas, cidadãos nos seus momentos de lazer, trabalhadores nas suas actividades, camponeses nas suas terras, crianças e professores nas escolas, doentes, médicos e enfermeiros nos hospitais, socorristas nos escombros. Guerra cega, selvática, conduzida por governantes, traficantes, negociantes da morte, impérios económicos e financeiros, militares, paramilitares, mercenários movidos a dinheiro, também marionetas da intoxicação religiosa e ideológica. Uma guerra sem quartel onde conceitos trapaceiros e expansionistas de democracia se combinam com o irredentismo da fé e a ganância fundamentalista dos agiotas, umas vezes em aliança, outras em dissidência, mistificação sanguinária onde os “chocados” de hoje, os “horrorizados” de ontem podem ser os algozes de Gaza, de Alepo, My Lai ou Haditha, Odessa, Sabra e Chatila, Kandahar ou do hospital de Kunduz, Tripoli ou Bahrein.
Em que se distinguem os massacres de sexta-feira em Paris e as matanças recorrentes em Gaza? O terror à solta em Abu Ghraib, Kandahar ou as bombas sobre o hospital de Kunduz e as chacinas de Odessa, Nova Iorque, no Charlie Hebdo ou quotidiana nas águas do Mediterrâneo? Que não se responda em função da dimensão, da cobertura mediática, do tom da pele ou do grau de “civilização” das vítimas. Uma morte é uma vida humana que se perde, a vida de alguém sem qualquer responsabilidade nas acusações invocadas, nos alibis expostos para eternizar a carnificina global, para atordoar a comunidade mundial através do terrorismo, a mais ignóbil das formas de violência.
Escutámos as primeiras reacções ao drama da noite parisiense: como se o fundamental fosse conhecer quem reivindica a autoria dos crimes, a que horas e de que maneira o faz. Reacções onde se exige mais segurança, mais espionagem sobre os cidadãos globalmente espiados, mais investimento em armas e exércitos, mais limitações à vida quotidiana e aos movimentos de quem já sofre as agruras da vida em crise permanente, em suma, mais guerra sobre a guerra. E poucas palavras ou simples alusões de raspão sobre as cada vez mais comprovadas colaborações entre o radicalismo islâmico e o fascismo, patentes no atentado contra o Charlie Hebdo e, na Ucrânia, na coligação armada para “libertação” da Crimeia; ou invocações por alto, quase sempre invertidas no contexto, das situações na Síria, no Iraque, na Líbia
Bem alto na trágica noite parisiense, o secretário-geral da NATO mandou dizer que o terror não vencerá a democracia. Belas e promissoras palavras, pensarão os incautos ou quem ignora a responsabilidade institucional de quem assim fala nas tragédias em curso na Síria, no Afeganistão, na Líbia, na Ucrânia, na multiplicação de muros e barreiras por esta Europa afora.
Depois chegou a reivindicação: o Estado Islâmico, ou Daesh, ou ISIS, ou Al Qaida, ou Al Nusra, ou isto, aquilo ou aqueloutro, grupos financiados por entidades estatais de países da NATO, treinados em campos criados em países da NATO, como a Turquia, ou aliados da NATO como a Jordânia, armados e sustentados de mil e uma maneiras por íntimos da NATO como a Arábia Saudita, o Qatar, Israel. Aqui avulta o sentido humanitário do chefe do governo israelita, que enquanto planeia os próximos ataques a Gaza cede o território sírio ocupado dos Montes Golã para acoitar os terroristas do Estado Islâmico – os que se dizem autores da selvajaria de Paris - e oferece os hospitais israelitas para tratar os mercenários desse bando que forem vítimas da “ditadura bárbara” de Assad. O mesmo chefe de governo, Netanyahu, que foi dar o braço ao presidente Hollande na manifestação encenada por ocasião do Charlie Hebdo e que agora está, como não podia deixar de estar, entre os mais “chocados” e horrorizados”.
Por falar em François Hollande, um dos principais titulares dos “amigos da Síria” inventados em Washington, atrás dos quais se escondem Estado Islâmico, Al Qaida, Al Nusra e os famosos “moderados” – todos eles brilhando como estrelas reluzentes do terrorismo internacional –, ficámos a saber que por causa da situação teve de cancelar a deslocação à reunião do G20, um desses vários “gês” que nos governam sob as ordens dos mistificadores da democracia. Reunião essa na Turquia, país onde ficou demonstrada a falsificação das recentes eleições gerais para reforço da ditadura islamita e que tem servido de base operacional da NATO e de grupos terroristas – entre os quais o Estado Islâmico – para as guerras impostas à Síria, Líbia e Iraque.
Assim sendo, não tenhamos ilusões: a matança continua e irá continuar porque há quem lucre com ela, parasitas do ser humano, vampiros de sangue humano.
 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NATO ATACADA NO SISTEMA NERVOSO


 
Depois de ter afirmado pelo menos 16 vezes que jamais enviaria tropas para o terreno na Síria, o presidente dos Estados Unidos decidiu remeter um grupo de operações especiais para o norte deste país. Pouco tempo antes, a mesma ordenança do complexo militar e industrial transnacional dera outro dito por não dito ao anunciar que afinal as tropas da NATO vão continuar a ocupar o Afeganistão. A explicação foi a mesma para ambos os casos, também escutada da mesma boca não 16 mas algumas centenas de vezes: ajudar os “moderados” contra os terroristas.
Especula-se muito sobre o que estará por detrás destas mentiras da Casa Branca, também apresentadas como “mudanças de opinião” ou, de acordo com os porta-vozes do presidente, decisões que em nada violam os compromissos anteriores, uma vez que se trata de tropas que não irão entrar em combate.
Deixemos as especulações para os especuladores – e eles não faltam usando mil e uma línguas – e vamos a alguns factos no terreno, nos ares, ou até no ciberespaço, para sermos abrangentes.
Os agentes de “operações especiais” dos Estados Unidos – digamos também da NATO, sem receio de cometer qualquer imprecisão – irão para o Norte da Síria, prevendo-se que possam desenvolver acções transfronteiriças no que resta do Iraque, havendo consultas com o governo de Bagdade sobre essa possibilidade.
No Norte da Síria, a parceria expansionista formada pelos Estados Unidos e Israel, em colaboração com o regime fundamentalista turco, está a criar um “Estado Curdo” em território árabe, a exemplo do que fez através da invenção do “Sudão do Sul”, com os excelentes resultados humanitários à vista de todos. A amputação do território sírio pelo norte é um velho objectivo de Israel – por questões “militares e de segurança”, como sempre – e está em marcha através da colonização curda, a partir do Iraque e da Turquia, de um território que excede em muito o da minoria de curdos na Síria. A violência contra os não-curdos já começou, tendo entre as vítimas os cristãos assírios, mas presume-se que a chegada dos tropas especiais da NATO não seja para a evitar, mas sim para reforçar a partição da Síria com carácter de urgência, no âmbito da bem conhecida política de factos consumados.
No entanto, recorrendo a um teórico benefício da dúvida, poderá admitir-se que o lançamento de tropas no terreno tenha como objectivo reforçar o suposto combate norte-americano contra o terrorismo do Estado Islâmico, ou Daesh, ou ISIS. Será? O que acrescentará um grupo de operações especiais a um esforço militar tão empenhado da NATO que em mais de um ano deixou incólume a estrutura terrorista? Sem tropas no terreno, em pouco mais de um mês e em 1400 saídas, as forças russas destruíram 1600 alvos dos terroristas islâmicos, entre os quais 249 postos de comando, 51 campos de treino, 131 depósitos de munições e combustíveis, 768 bases terrestres, além de terem eliminado 28 altos quatros mercenários. A diferença das eficácias anti terroristas é esmagadora.
Outra pista, esta de grande impacto na relação mundial de forças, poderá também explicar as botas norte-americanas no teatro de guerra sírio. Numa operação que deixou o Pentágono e os gendarmes da NATO estupefactos, a Rússia cegou e ensurdeceu as comunicações militares norte-americanas e terroristas num raio de 300 quilómetros a partir de um ponto a norte da cidade síria de Latáquia, através de um sistema de interferências que neutralizou as comunicações entre satélites, aviões, drones, bases militares – incluindo a de Incirlik, na Turquia, usada pela NATO – e esquadrões de blindados. Um golpe em cheio no sistema nervoso operacional atlantista. Dando agora uma expressão muito mais vasta à neutralização do destroyer USS Donald Cook, então em missão no Mar Negro no Outono de 2014, as interferências russas nas comunicações militares dos terroristas e seus patrões da NATO na Síria permitiram a Damasco reconquistar vilas e aldeias numa área de 300 quilómetros quadrados e protegeram as recentes incursões de aviões russos na Turquia, onde foram identificar os campos de treino de grupos terroristas, Estado Islâmico incluído. Percebe-se agora melhor a irritação de Ancara e Washington com essas operações.
Somado ao êxito dos disparos de 26 novos mísseis de tipo cruzeiro russos a partir do Mar Cáspio, com 100% dos alvos atingidos, o dispositivo de interferência nas comunicações accionado por Moscovo, capaz de paralisar um sofisticado exército desactivando-lhe o sistema nervoso, coloca novos dados nos mapas das guerras modernas, não apenas na Síria mas em termos globais. A NATO deixou de ser dona e senhora nos conflitos convencionais, e não apenas porque os seus tanques se atascam pateticamente em manobras intimidatórias nas areias das praias do Alentejo.
Posto isto, as botas americanas no teatro sírio valem o que valem em defesa do terrorismo, porque não se crê irem servir a legitimidade de Damasco. Daí que, em simultâneo, os Estados Unidos se vejam obrigados a apoiar a reactivação das negociações diplomáticas de Viena sobre a Síria, a desenvolver num quadro de respeito pelas resoluções da ONU sobre o Médio Oriente e não já, como pretendiam Washington e os aliados da União Europeia, sobre “a partida imediata de Assad”.
O Médio Oriente continua em convulsão, mas existem dados novos a induzir que as mudanças não se processam em sentido único, e a proporcionar oportunidades alargadas às vias diplomáticas. A relação de forças internacional altera-se.  
 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

GANGSTERS


 
No meio de documentos que a Srª Hillary Clinton foi obrigada a entregar à justiça norte-americana no quadro das investigações de que está a ser alvo, por causa do desempenho como secretária de Estado de Obama, estão papéis arrepiantes. Como este: um “memorando secreto” enviado em Março de 2002 pelo então secretário de Estado, Collin Powell, ao seu presidente, George W. Bush, assegura que a realização de uma guerra contra o Iraque teria sempre o apoio do primeiro-ministro britânico, ao tempo Tony Blair. “O Reino Unido seguirá a nossa liderança”, escreveu Powell, garantindo assim a Bush que poderia começar a preparar a guerra ao receber Blair no seu rancho de Crowford, o que aconteceu em finais desse mesmo mês de Março.
Esta informação, que corre agora tranquilamente pelas agências noticiosas internacionais, tem o conteúdo de uma bomba, mas não é como uma bomba que explode aos ouvidos e olhos dos cidadãos mundiais, duvida-se até que chegue ao conhecimento da maioria deles.
O memorando de Powell revela que um ano antes de a invasão do Iraque se ter iniciado os Estados Unidos e o Reino Unido já tinham decidido que a fariam. Prova-se assim que as sanções contra o povo do Iraque, os arremedos de negociações e as célebres provas sobre a existência de armas de destruição massiva em território iraquiano – que o mesmo Powell se encarregou de fabricar e levar à ONU – foram manobras e mistificações para servirem de pretexto a uma decisão já tomada. A reunião das Lajes, que o governo barrosista de Portugal se dispôs a acolher, adquire, a esta luz, contornos ainda mais vergonhosos para a diplomacia portuguesa e europeia, porque se fez para fingir ao mundo que ia tomar-se uma decisão já tomada. Um faz-de-conta que, daí a dias, proporcionou o início de uma chacina de milhões de seres humanos, ainda longe de estar concluída.
Nesse mês de Março de 2002 já as tropas da NATO se atolavam no conflito do Afeganistão para supostamente combater os talibãs, que por sua vez acolhiam o terrorista Bin Laden, um criminoso criado pelos serviços secretos dos Estados Unidos e que este mesmo país identifica como responsável pelo 11 de Setembro de 2001. Ao virar a mira contra o Iraque, os gangsters de Washington – versão engravatada dos pistoleiros do velho Oeste para consumo do novo Oeste – chegaram a acusar Saddam Hussein de ser cúmplice de Bin Laden e respectiva Al-Qaida, quando os dois eram inimigos fidagais, como não demorou muito a provar-se. Mal os Estados Unidos e os seus mais sonantes aliados da NATO tomaram Bagdade e enforcaram Saddam, o território iraquiano tornou-se base de uma miríade de grupos terroristas na qual não apenas medraram muitas variantes da Al-Qaida como nasceu o famigerado Estado Islâmico.
Documentos como este “memorando secreto” de Collin Powell ajudam a perceber como se promovem as guerras de hoje. Para lançar as da Líbia e da Síria nem terá sido necessário um qualquer escrito de um qualquer secretário de Estado: a porta da mentira estava escancarada.
O Médio Oriente, que já era um barril de pólvora nesse mês de Março de 2002, degenerou num foco de instabilidade militar no meio do qual é fácil detectar rastilhos mais do que suficientes para uma guerra global. Os responsáveis são conhecidos e deveriam estar a contas com tribunais que punem crimes contra a humanidade. Porém, George W. Bush e Collin Powell vivem reformas douradas; de Barroso conhecemos o rasto, desde as malfeitorias à cabeça da Comissão Europeia até ao Grupo de Bilderberg, areópago da conspiração imperial, onde ganhou assento permanente.
E Blair? Treze anos depois te ter comunicado que “seguiria o líder” na devastação do Médio Oriente é o chefe do Quarteto para o mesmo Médio Oriente, entidade burlesca que, fiel aos interesses israelitas e aglutinando os Estados Unidos, a União Europeia, a ONU e a Rússia, finge que a chamada comunidade internacional continua à procura de uma solução para o conflito israelo-palestiniano.
Não só por causa dessa burla, mas também, assiste-se à situação cínica e revoltante de ver a bandeira da Palestina ondular nos mastros da sede da ONU numa altura em que o povo palestiniano está cada vez mais distante do seu Estado independente e viável.
Somos governados por gangsters e mentirosos.
 

domingo, 18 de outubro de 2015

A VERDADE DA MENTIRA


Orifícios de balas e não a acção de um míssil
A comissão de inquérito institucional ao derrube na Ucrânia do avião malaio que fazia o voo MH17, em 17 de Julho de 2014, anunciou finalmente o que toda a gente já sabia desde o primeiro momento: que o aparelho, com 300 pessoas a bordo, foi abatido por um míssil russo Bulk, operado por serviços especiais russos.
O que poderá não passar de uma grandessíssima peta tornou-se verdade oficial. Não é a primeira vez que isso acontece à escala da propaganda global, e provavelmente não será a última.
As conclusões da comissão de inquérito, de inspiração holandesa e apadrinhada pela NATO e os principais governos desta aliança, esfumam de uma penada todos os indícios susceptíveis de responsabilizar o governo fascista de Kiev pela tragédia. Através de supostas reconstituições informáticas – como se os computadores não respondessem em função dos dados que lhes são fornecidos – desapareceram de cena os aviões Sukhoi ucranianos que escoltaram o Boeing malaio alguns segundos antes de este ser abatido; os orifícios redondos observados na fuselagem, na zona do kokpit, eclipsaram-se da investigação, o que não é de somenos porque remetiam para disparos realizados pelos citados caças Sukhoi; as manipulações fotográficas baralhando tempos e espaços e que serviram de sustentação à tese do míssil transformaram-se em documentos credíveis; as informações dos controladores de voo em serviço em Kiev no momento da tragédia, e que deram conta da presença dos caças Sukhoi e também de um suspeitíssimo desvio de rota indicado ao aparelho, por sinal para um corredor perigoso por causa da guerra civil, foram ignoradas no processo de inquérito.
Enfim, não se fez um inquérito; por artes mágicas, montou-se um quebra-cabeças de supostos dados fidedignos para alcançar o resultado anunciado pelas autoridades de Kiev poucos segundos depois do derrube do avião. De facto, o senhor Anton Gerashenko, um figurão nazi que serve de conselheiro ao ministro ucraniano do Interior, Arsen Avakov, revelou em cima do acontecimento que o avião fora derrubado por um míssil russo Bulk. E fê-lo no momento em que forças especiais do mesmo ministério, manipulado pelo aparelho neonazi ucraniano, tomaram conta da torre de controlo do aeroporto de Kiev e passaram a filtrar todas as informações sobre o sucedido. O assalto da torre pelos comparsas fascistas não provocou qualquer constrangimento aos inquiridores oficiais, pelo contrário, deve ter-lhes facilitado o trabalho para engendrarem uma conclusão que já conheciam quando iniciaram a produção da mentira.
A criação e o funcionamento da comissão institucional de inquérito não passou de um pró-forma com o objectivo de dar credibilidade a uma teoria que não resistiria ao mais elementar contraditório, se este contraditório fosse possível e não esbarrasse numa sinistra barragem de mistificação.
A utilidade de tal comissão não se resume, neste caso, ao que atrás ficou escrito. O seu papel foi apurado através do momento escolhido para anúncio dos resultados, precisamente aquele em que as forças armadas russas tomam a seu cargo, praticamente sozinhas, o desmantelamento do grupo de facínoras que dá pelo nome de Estado Islâmico. Não é por acaso que Anton Gerashenko, o citado conselheiro do ministério do Interior de Kiev, acaba de incentivar o mesmo Estado Islâmico a lançar uma “guerra santa” contra os russos onde quer se encontrem. Os amigos dos nossos amigos nossos amigos são: sendo a NATO unha e carne com o governo fascista de Kiev é natural que este sinta afinidades com o Estado Islâmico, ainda há poucos dias contemplado com lançamentos de reforços de armas feitos por aviões norte-americanos. Não com destino ao Estado Islâmico, segundo a versão oficial, mas para “as oposições sírias”. Conhecendo nós o histórico destes abastecimentos e o que vale uma versão oficial emanada de Washington e seus acólitos, que também podem ser holandeses como no caso do MH17, não nos faltam caminhos para entender a verdade destas mentiras.
Entretanto, no campo de batalha sírio os efectivos russos e o exército regular de Damasco prosseguem a tarefa antiterrorista, tendo como principal óbice, porém, a destruição das instalações petrolíferas através das quais o Estado Islâmico se financia alimentando um generoso mercado negro de hidrocarbonetos. Claro que estes proveitos seriam cortados se os terroristas não tivessem quem lhes compre o contrabando. Mas clientes não faltam, sobretudo Israel e as ditaduras do Golfo, que por sua vez assim alumiam faróis da democracia como são os países da União Europeia e da NATO.
 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

NATO MOBILIZA-SE EM DEFESA DO ESTADO ISLÂMICO


 


A seita terrorista e sanguinária conhecida por “Estado Islâmico”, que também poderá designar-se Al-Qaida, Al-Nusra e Exército Livre da Síria – tiradas a limpo as consequências da existência deste – deixou de estar impune. Praticamente incólume desde que há um ano o todo-poderoso Pentágono anunciou que ia fazer-lhe guerra, bastaram-lhe agora uns dias sob fogo cerrado russo para entrar em pânico. Ou a aviação e a marinha da Rússia têm mais pontaria que as suas congéneres dos Estados Unidos da América e da NATO, o que é bastante improvável tendo em conta que não existem discrepâncias de fundo entre as tecnologias de ponta ao serviço destas potências, ou a diferença está simplesmente entre o que uns anunciam e os outros fazem. Diferença simples, mas de fundo, entre ser contra o terrorismo ou ser seu cúmplice.
De acordo com dados divulgados por fontes moscovitas, a Aviação e os mísseis de cruzeiro disparados de navios da Armada da Rússia destruíram já 112 alvos do Estado Islâmico instalados em território sírio ocupado, danos que incluem centros de comando, centrais de comunicação, bases de operações antiaéreas, além de estarem a provocar deserções em massa e um ambiente de pânico entre os terroristas. Propaganda de Moscovo, dirão muitos, mas sem razão. A desorientação entre os mercenários recrutados através do mundo e infiltrados na Síria a partir do Iraque, da Jordânia e, sobretudo, da Turquia está à vista de quem tem olhos para ver, principalmente os espiões atlantistas, bastando-lhe acompanhar a guerra em directo transmitida pelos satélites.
Esta realidade parece ser tão crua que, para surpresa de tantos que ainda acreditam em histórias da carochinha, induz os dirigentes norte-americanos, incluindo Obama himself, a esquecer-se das aparências e a deixar escapar uma sentida indignação com tanta eficácia russa, capaz de, numa simples semana, ter mais êxito que os seus exércitos num ano inteiro.
Será mesmo isto que os preocupa? Talvez não. O que os responsáveis políticos e militares dos Estados Unidos alegam é que os russos, ao fazerem uma guerra tão certeira contra o terrorismo, estão a “ajudar o regime de Assad”. De onde pode deduzir-se que eles tratam o terrorismo com meiguice para não ajudar Assad, se possível para conseguir até que os bandos de assassinos a soldo derrubem Assad. Não é novidade, aliás, porque Julien Assange e Edward Snowden o revelaram através do WikiLeaks, que os Estados Unidos e os seus parceiros da NATO decretaram em 2006 o derrube do presidente sírio. Pelo que, imagine-se o atrevimento, os russos não estão a combater criminosos sanguinários mas sim a desobedecer a um decreto emanado há nove anos pelos que se olham como senhores do mundo – e dos mercados, claro está.
Quando seria de supor, levando a sério o discurso antiterrorista que se ouve de Washington a Paris, de Londres a Bruxelas, que a NATO iria conjugar esforços com Moscovo para liquidar de vez o Estado Islâmico tanto na Síria como no Iraque, o que acontece? A aviação norte-americana provoca um banho de sangue num hospital dos Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão, certamente um albergue dos mais fanáticos islamitas; as forças especiais de operações do Pentágono para a Síria (CJSOTF-S), que têm estado no Qatar, receberam ordem de transferência para a base da NATO de Incirlik, na Turquia, de modo a acompanhar de perto o treino de terroristas a infiltrar na Síria, terroristas “moderados”, claro, assim definidos depois de uma exaustiva avaliação pelos profilers de serviço; análise essa tão exaustiva e competente que todo o grupo de assassinos cujo treino acabou em 12 de Julho se transferiu logo depois, com bagagens e armas, para a Al-Qaida, percebendo-se agora a irritação de Washington com a eficácia russa: lá se foi o investimento em tão acarinhados terroristas, sem dúvida uns “moderados” acima de qualquer suspeita. Como se não bastasse, a NATO prepara-se para reforçar o contingente de agressão na Turquia a pretexto de supostas violações do espaço aéreo turco por aviões russos, apesar de não se lhe ouvir um pio quando caças turcos fazem operações quase diárias na Síria há vários anos. Fica assim claro que a mobilização da NATO em território turco é em defesa do terrorismo islâmico, e não para o combater.
Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita e o Qatar, aliados preferenciais da NATO, praticamente ao mesmo nível que Israel, perdem o amor a mais uns milhões de petrodólares para tentar rearmar o Estado Islâmico e outros do mesmo jaez, agora tornados vulneráveis pela ofensiva russa. Têm boas razões para isso, além de muitas cumplicidades: os grupos de mercenários activos na Síria e no Iraque gerem um mercado negro de petróleo através do qual se financiam e de que tiram chorudos lucros, como exportadores, não apenas as ditaduras do Golfo mas também Israel e a Turquia.
A ofensiva russa não acabou apenas com a impunidade do Estado Islâmico e outros bandos de mercenários; põe em causa a hipocrisia da guerra oficial “contra o terrorismo” proclamada pelos Estados Unidos e a NATO – que tem como exemplos mais trágicos as situações no Iraque, na Líbia e na Síria.
 

domingo, 13 de setembro de 2015

UMA BANDEIRA VIRTUAL



A ONU vai hastear a bandeira da Palestina entre as dos membros da organização em frente ao palácio de vídeo em Nova Iorque, por decisão da Assembleia Geral. Acontecimento histórico, dizem uns; decisão tardia, argumentam outros; movimento simbólico, asseguram uns tantos; faz-se justiça, consideram mais alguns.
A verdade é que todos e nenhum têm razão. A iniciativa é tudo isso, histórica, tardia, simbólica, justa, mas nada altera. A decisão da Assembleia Geral, como muitas aprovadas por este órgão que deveria representar a vontade dos povos do mundo, é ineficaz – mais do que isso, inútil.
Será importante, sem dúvida, para os palestinianos e todos os que com eles se solidarizam na luta pelos seus inalienáveis direitos, ver a bandeira da Palestina reflectida nos vidros do palácio que deveria representar o respeito pela vontade e os direitos de todos os cidadãos da Terra. Mais importante seria, porém, que a presença dessa bandeira correspondesse à concretização absoluta e sem ambiguidades de um Estado da Palestina - um Estado viável, é claro - um conceito que a ONU aprovou há 77 anos em decisão inscrita no direito internacional e a cujo cumprimento se tem furtado durante as quase oito décadas transcorridas.
Os palestinianos revêem-se, orgulhosos, nessa bandeira. Acreditam que talvez a nova realidade, simbólica e formal, possa acelerar a instauração do Estado viável que lhes é devido pela chamada comunidade internacional, mas isso não determina que alguma coisa mude. A bandeira é virtual e tudo indica que continue a sê-lo por muitos e maus tempos.
Porque a ONU é uma farsa. Quase sempre o foi, mas o quadro tem-se degradado para patamares inconcebíveis, sobretudo desde que há um quarto de século acabou a bipolaridade como sistema não convencionado, mas real, de funcionamento das coisas internacionais.
Observando como este caso da bandeira da Palestina simboliza a degeneração da ONU em relação aos seus princípios fundadores avulta, desde logo, o facto de a Assembleia Geral, o órgão de estatuto mais democrático da instituição, não mandar nada. Vota e pronto; depois nada acontece, porque os países supostamente mais democratas de todos – a democracia da força em vez da força da democracia -, os membros permanentes do Conselho de Segurança, que se barricam atrás de normas por si estabelecidas para proveito próprio, mandam e desmandam em tudo o que acontece ou há-de acontecer no mundo.
Assim sucede, uma vez mais, por detrás da decisão sobre a bandeira da Palestina. Os Estados Unidos da América votaram contra – enquanto dizem que são a favor de um Estado da Palestina, ironia das ironias – porque para que tal aconteça é preciso levar a bom porto o “processo de paz” que eles e o seu “inseparável aliado” Israel patrocinam e ao mesmo tempo sabotam. Um processo de paz cuja invocação é caricata, mas cujo conceito serve para que se vá consumando a ocupação israelita de toda a Palestina, invalidando a criação do tal Estado – viável, repete-se, porque nenhuma outra coisa será admissível, muito menos uma caricatura - cuja bandeira virtual irá agora ondular em frente à sede da ONU. Anoto que o governo português se absteve nesta matéria, isto é, tomou a posição dos cobardes num assunto com tal gravidade, como quem se refugia num canto para não incomodar seus amos: a Alemanha, que também se absteve; e os Estados Unidos, que chefiam os anglo-saxónicos e seus apêndices secundando a sanha terrorista de Israel.
Pela ordem natural – e aberrante – das coisas, quando a bandeira da Palestina for hasteada em Manhattan o povo de Gaza continuará a tentar sobreviver no campo de concentração em que o território foi transformado pelo regime de Israel, com beneplácito das principais potências da ONU; o muro que confina o povo da Palestina a bantustões miseráveis, isolados, verdadeiros campos de morte lenta, estará ainda mais sólido e longo; milhares de palestinianos continuarão a penar nas prisões israelitas, vítimas de actos arbitrários e cruéis que violam quaisquer compêndios de direito, mesmo os coligidos pelos mais sórdidos regimes; os colonatos sionistas estarão, ainda e sempre, absorvendo metro a metro o território da Palestina, numa ocupação para já irreversível que desmonta qualquer “processo de paz”; uma nova cerca ou muro já em construção – estão na moda – tornará estanque a transição de seres humanos entre a Palestina ocupada e a Jordânia; os militares israelitas continuarão a fazer o que muito bem lhes apetece contra os indefesos palestinianos; as deportações prosseguirão. A Nakba, a catástrofe do povo da Palestina, segue o seu caminho sinistro.
Uma bandeira, por muito orgulhosa e legítima que seja, não elimina nada disto. Porque tudo isto faz dela uma bandeira justa e insubstituível, mas ainda virtual.
 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

UMA ATERRADORA TRAMA DE CRISES


 
Desde que se tornou pasto da tenebrosa máquina de manipulação em que se transformou a comunicação social dominante, a chamada “crise dos refugiados” está a ser deliberadamente desfocada do seu centro nevrálgico, a questão humanitária, mediante o recurso aos artifícios habituais onde se movem os pescadores de águas turvas, os oportunistas de grosso calibre e, sobretudo, os barões político-militares para quem o mundo é um vasto tabuleiro de guerras e rentáveis oportunidades.
Nas últimas horas, aviões de guerra franceses e britânicos, os mesmos ou gémeos dos que há três anos deixaram a Líbia no caos, começaram a sobrevoar a Síria com o objectivo proclamado de combater simultaneamente o regime de Bachar Assad e o Estado Islâmico, coisa em que ninguém acredita, nem os próprios. A prová-lo está o caricato anúncio de um exercício de tiro britânico já realizado em território sírio para liquidar terroristas que, imagine-se, projectavam abater essa nobre dama que é a rainha de Inglaterra. Em suma, à boleia da “crise dos refugiados”, a NATO entrou directamente na guerra contra a Síria, como os mais falcões dos atlantistas há tanto desejavam.
Descodifiquemos os factos. Depois de o presidente francês Hollande ter declarado que acolher todos os refugiados seria “fazer a vontade ao Estado Islâmico”, aviões franceses e ingleses, logo da NATO (por inerência) entraram em acção num país soberano, sem mandato da ONU nem autorização do governo legítimo, para intimidarem não apenas esse governo como (alegadamente) um grupo que o combate, neste caso o Estado Islâmico, protegido e criado por países aliados de França e do Reino Unido como são Israel e os Estados Unidos da América. Continuando a descodificação, lembro que esse mesmo Estado Islâmico não é mais do que uma consequência directa do desmantelamento do Iraque, da Líbia e da guerra civil síria. Prosseguindo ainda a descodificação, recordo que países como o Qatar e a Arábia Saudita, tão aliados de França, do Reino Unido e da NATO como são os Estados Unidos e Israel, desempenham papéis preponderantes nas situações de caos que geraram a avalanche de refugiados na Europa, sendo que nenhuma dessas monarquias torcionárias do Golfo está disposta a acolher um único refugiado que seja.
Apesar de a teia ser complexa, não é impossível detectar que a actual crise dos refugiados tem o dedo dos Estados Unidos da América e da NATO, como reconhecem, aliás, os serviços de informações militares da Áustria, pelo que, assim sendo, não será novidade para qualquer país da União Europeia.
Porém, não se vejam apenas desvantagens europeias neste fluxo de seres humanos desesperados, fugindo a guerras fomentadas também por potências europeias. Ouçamos o senhor Ultich Grillo, todo-poderoso patrão dos patrões alemães, à cabeça da Federação da Indústria (BDI). “Como país próspero e também pelo amor cristão ao próximo a Alemanha deve permitir-se acolher refugiados”, declarou. Tal como está a acontecer, e logo a um ritmo que permite prodigalizar enfáticos e universais elogios à senhora Merkel. “Devido à nossa evolução demográfica”, acrescenta o senhor Grillo, “asseguramos o crescimento económico e a nossa prosperidade graças à imigração”. Descodificando – será que é mesmo preciso? – desgraçados maduros para aceitar trabalho escravo como quem entra no paraíso são como pão para a boca para os barões da indústria alemã e pangermânica, como outrora foram tão úteis os degredados em campos de concentração.
Assim sendo, nestes dias observamos países que criaram guerras e desmantelaram nações, dando origem a uma vaga de refugiados para a Europa - compartimentando este continente entre cercas e muros com tonalidades concentracionárias -, partirem para novas fases das mesmas guerras, agora sob o pretexto de travarem o movimento de fuga combatendo grupos terroristas que são seus cúmplices e em cuja criação e desenvolvimento participaram. São assim, senhoras e senhores, os dirigentes políticos, militares e económicos que nos governam. Mentirosos irresponsáveis ao serviço de patrões e interesses que ganharão sempre com a tragédia de milhões de seres humanos, sejam quais forem os desfechos das sucessivas crises.
 
 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O IMPÉRIO ENTRA A GANHAR


Os anexos bilaterais do chamado acordo 5+1 estabelecido entre as principais potências mundiais e o Irão já começaram a fazer efeitos.
Não, nada disso, os êxitos militares contra os facínoras do Estado Islâmico (ou Isis ou Daesh) obtidos no âmbito da esfera norte-americana são apenas conjunturais ou mitigados, nada que impeça o grupo de prosseguir a transferência para zonas russas ou russófonas. Existem, é certo, algumas ideias negociais relacionadas com a pacificação da Síria; no Líbano movem-se pedras no sentido de clarificar o assassínio do anti presidente Hariri, cuja inspiração foi atribuída – contra todas as evidências – ao regime de Damasco e que tem sido o único pretexto para acusar a Síria da prática de terrorismo. No entanto, estes processos estão ainda no início e, embora inseridos no ambiente criado pelos acordos, não é certo que prossigam no sentido de acabar com as mistificações e fazer valer a realidade dos factos e o direito internacional.
O primeiro grande efeito do acordo Estados Unidos-Irão é a queda do Sul do Iémen, com a capital em Aden, nas mãos da chamada Força Árabe Comum, uma entidade que é, na prática e à luz entendimento entre Washington e Teerão, uma coligação militar encabeçada pela Arábia Saudita e Israel. Esta “santa aliança” – e como é apropriada a designação! – não é novidade: tem funcionado, por exemplo, no apoio ao Estado Islâmico contra a Síria e pelo desmantelamento do Iraque; sabe-se também que pilotos israelitas combatem aos comandos de caças sauditas na guerra civil no Iémen.
O facto é que esta coligação tomou conta de Aden, expulsando os xiitas fiéis a Mohamed Huti, presidente em exercício em Sanaa, a capital. Na sequência do triunfo, a coligação reinstalou Abd Mansour Hadi como presidente, para já na capital do Sul do país. E se Huti chegara ao poder por golpe de Estado a legitimidade de Hadi – o protegido da Arábia Saudita – não é maior, porque o prazo de validade do seu mandato terminou há muito.
A presença da Força Árabe Comum no Sul do Iémen significa a reinstalação da NATO na região, assumindo o controlo absoluto do estratégico Estreito de Bab el Mandeb, que separa a Península Arábica e a Ásia de África. Esse controlo quer dizer domínio militar e petróleo, muito petróleo, não apenas no Sul do Iémen mas também na região do Ogaden, na Etiópia.
Não se pense, porém, que o triunfo militar da santa aliança se deve aos seus muitos méritos. A razão principal é a saída de campo do Irão, que sustentava os xiitas Hutis na guerra civil iemenita. Teerão abandonou o terreno para cumprir o acordo estabelecido com Washington.
A chegada da coligação entre a Arábia Saudita e Israel à região meridional iemenita significa também que já não existem obstáculos para que a petroditadura de Riade e o regime confessional de Telavive transformem em realidade o projecto de construção da ponte sobre o estreito, ligando Aden a Djibuti, no extremo do Corno de África, na prática uma colónia francesa sob administração militar da NATO, logo norte-americana.
A adjudicação da imponente obra já foi feita. Ignora-se se houve concurso, mas isso são formalidades dispensáveis e irrelevantes. Quem construirá a ponte sobre o Estreito de Bab El Mandeb será o Ben Laden Group da Arábia Saudita. Não, não se trata de uma coincidência: é o grupo da família de Bin Laden, o terrorista-mor, dirigido por um irmão deste. 11 de Setembro? Tanta água passou já por debaixo das pontes, mesmo as que ainda estão por construir…
O marcador apenso ao acordo entre os Estados Unidos e o Irão já funcionou. Império, 1 – Irão, 0.