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domingo, 8 de novembro de 2015

UNIDOS COMO OS DEDOS DA MÃO


Hoje é um dia especial, um dia capaz de relançar a esperança das pessoas em Portugal. Não lhe chamemos histórico, não toquemos trombetas como é usual e burocrático fazer quando alguma coisa de importante acontece e ainda está apenas em estado de embrião – forte, é certo – mas submetido a uma gestação sob tempestades de calúnias e mentiras, a um nascimento ameaçado por golpes de malfeitores, a um crescimento à mercê de anunciadas barragens de fogo sem quartel.
O edifício político inovador em Portugal resultante do acordo entre o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, ao qual está agregado o Partido Ecologista Os Verdes, é uma afirmação de vitalidade democrática num país onde a democracia tem estado sequestrada pelos que se olham como seus eternos proprietários. Os partidos citados têm maioria absoluta na Assembleia da República, um programa de governo que promete estabilidade durante a legislatura, o que significa legitimidade total e absoluta para governar nos termos da fórmula por eles acordada.
O processo beneficia de uma transparência onde se reflectem a vontade e a soberania populares. Portanto, qualquer outra solução governativa que venha a ser sugerida ou forçada pelo ainda chefe de Estado será ilegítima, corresponderá a um golpe contra a democracia. Sobre isto não resta qualquer dúvida, por muito que a mafia ainda governante se desmultiplique em manobras e mensagens inspiradas pelo terrorismo político e também sopradas pelos círculos autoritários e austeritários de Bruxelas ao serviço das quadrilhas económicas e financeiras internacionais.
A nova realidade política em Portugal é dominada por gente séria, que sabe o que quer para o país, que põe os portugueses acima dos negócios, que finalmente privilegia o que a une sobre o que a divide, que preza a soberania nacional. Toda uma situação que tem um potencial único para travar e começar a inverter as consequências trágicas da política de caos, desmantelamento e parasitismo a que os portugueses, com excepção das minorias servidas pelo governo cessante, têm estado submetidos.
O acordo político de governo agora estabelecido em Portugal é um marco na história dos últimos anos na União Europeia: uma machadada na imposição do regime de arco da governação, uma negação do bipartidarismo que passo-a-passo, baseado em manipulações também através de sistemas eleitorais, tem vindo a ser imposto como um disfarce mal-amanhado de um sistema de partido único pan-união. A nova realidade portuguesa é um exemplo de genuinidade democrática, uma afirmação livre da vontade popular que enfrenta corajosamente um sistema que se entreteve a destruir paulatinamente os mecanismos democráticos, procurando eternizar-se sem jamais ser questionado, qual ditadura light.
Hoje é um dia especial em Portugal. Abre-se uma porta que parecia irremediavelmente fechada. Honra às forças políticas e aos dirigentes que tiveram a ousadia – num ambiente de propaganda intimidatória interna e externa – de pensar em primeiro lugar nos portugueses, na restauração da dignidade do seu trabalho, dos seus salários e pensões, de direitos antes adquiridos e entretanto roubados, na reactivação do tecido económico nacional. De ousarem, em suma, travar o passo à austeridade, tenebroso sistema organizado para violação dos direitos humanos. O que surge, para muitos ilusionistas da política, como uma “aberração” ou uma opção “fora do tempo” pode ser, afinal, um tempo novo para Portugal, uma declaração de dignidade perante a indignidade europeia reinante.
A reacção está a ser e será ainda muito mais tremenda, intimidatória, avassaladora em termos de chantagens europeias e de propaganda, porque conhecemos o estado de sabujice e de manobrismo censório a que o sistema até agora reinante reduziu a comunicação social.
É importante ter a noção disso e de que a democracia, para o ser de facto, só pode ser fruto do combate diário e solidário dos democratas que se revêem nesta solução. A mudança potenciada pela nova realidade não poderá consumar-se apenas no hemiciclo e nos gabinetes de São Bento. Tem de ser tecida por todos nós, sobrepondo sempre, dia-a-dia, o que nos une ao que nos divide, formando uma barreira sólida, ombro-com-ombro e em todo o país, contra os interesses poderosos que manipulam e instrumentalizam a direita política.
O objectivo de devolver aos portugueses muita da dignidade perdida não foi atingido nem cabe unicamente ao governo fruto do entendimento entre PS, Bloco, PCP e Verdes. Apenas se concretizará com o empenho de todos nós, com muita coragem e toda a determinação frente aos que querem travar a mudança.
Hoje é um dia especial, um dia de partida para tempos melhores que estão apenas prometidos e que só o serão se formos capazes de lutar e agir unidos, unidos como os dedos da mão…

ESPIONITE


 

 
 
A imprensa da Alemanha dá conta de que os serviços de espionagem do país (BND) devassam entidades governamentais e não-governamentais de países “amigos e aliados” e de organizações internacionais, designadamente o Comité Internacional da Cruz Vermelha. Entre os espiados estão ministérios dos Estados Unidos da América, Polónia, Áustria, Dinamarca e Croácia – alguns dos quais não passam de protectorados económicos germânicos – e serviços de representações diplomáticas da União Europeia, Nações Unidas, França, Reino Unido, Suécia, Grécia, Espanha, Itália, Áustria, Suíça, Portugal e do próprio Vaticano.
Correspondendo a sigla BND à prestimosa designação de Serviço de Defesa da Constituição, ficamos a saber que os espiões de Berlim estendem o zelo profissional e coscuvilheiro ao respeito pelas Constituições dos outros e à fiscalização abusiva de entidades que tutelam tratados de âmbito continental e mundial, aliás um velho vício germânico com as dramáticas consequências sobejamente conhecidas.
Até aqui dizia-se que as actividades “internacionais” do BND se realizavam a mando da central mundial de espionagem, a norte-americana NSA (Agência Nacional de Segurança), tão bem retratada pelo conhecedor Edward Snowden. Agora sabe-se que a espionagem berlinense também age por conta própria, o que nada tem de surpreendente num mundo onde as grandes potências espreitam à socapa os negócios de umas e outras, e de todos, procurando as vantagens económicas e as recompensas financeiras que ditam o resto onde se inclui a vida de cada um de nós, pobres mortais.
Sabíamos até que a dita NSA, além de mandar o BND espiar por sua conta também escuta os telefonemas pessoais da chanceler Merkel, prática a que esta respondeu com uma reprimenda diplomática tão enérgica que cabe na frase “espionagem entre amigos não é coisa que se faça”. Pois é, e quando isso acontece paga-se na mesma moeda, ao que parece, embora aqui se aplique a velha história do ovo e da galinha: quem e quando terá começado? Não custa admitir que o remoto pontapé de saída tenha sido dado pelo intervencionismo norte-americano há longas décadas instalado no coração europeu, mas serve a situação ora conhecida para demonstrar que os alunos europeus aprendem depressa e se equivalem aos mestres, pelo menos no que diz respeito ao proteccionismo alemão sobre os seus “amigos” continentais, quiçá mais súbditos que “amigos”.
Diz-nos o convívio com a comunicação social mundial que estes episódios de espionite são recorrentes, denunciados tanto por meios ditos de “referência” como pelos mais truculentos megafones sensacionalistas. E, contudo, la nave va, a devassa continua em todos os sentidos e direcções porque nada acontece a não ser a existência, aqui e ali, de exercícios de contorcionismo para a legitimação da espionagem sem qualquer controlo. Lembremos o caso do governo de Manuel Valls em França ao teorizar sobre o facto de “o direito à privacidade não ser um direito humano”.
Além disso, não estamos a ver o primeiro-ministro polaco, a senhora presidente da Croácia, o patronal Rajoy, o patético Ban Ki-moon ou primeiro-ministro português de saída a protestarem contra a espionagem de tais serviços, nem ao menos zangando-se como fez a senhora Merkel alegando que “espionagem entre amigos não é coisa que se faça”. Faz sim senhor, e para bem de todas estas amizades e confrarias, de que as vítimas são sempre as mesmas. Dignidade para quê? Seja tudo em nome da democracia e da segurança.
 


sábado, 31 de outubro de 2015

A CHOLDRA



Portugal continua a esbracejar numa esterqueira. A choldra estrangeirada e submissa, que despreza as pessoas e se considera proprietária do poder, está viva e actuante cozinhando novo golpe para travar as ameaças latentes ao seu autoritarismo.
Olhe-se o chefe do Estado, um agente dos mercados financeiros internacionais usurpando um cargo de soberania republicana e popular, apadrinhando o quebra-cabeças de recadinhos e ameaças entre Bruxelas e Lisboa para que o regime de austeridade, sistema único adoptado pelo terrorismo neoliberal, se mantenha como se nada tivesse acontecido, isto é, pretendendo reduzir os resultados eleitorais a pó.
Um chefe do Estado que mexe cordelinhos estratégicos da Nação há mais de 30 anos, como padrinho de uma facção política herdeira da mentalidade salazarenta e que pôs o que restava do 25 de Abril sob os rolos compressores dos mercados manobradores daquilo a que chamam União Europeia, desmantelando a economia entregando-a a banqueiros gananciosos e corruptos, a interesses tutelados pelos casinos da finança internacional e a sistemas monopolistas privados disfarçados de empresários “de sucesso”. Pois a 130 dias apenas de terminar o mandato, o chefe do Estado não hesitou em dar posse a um governo austeritário que, em princípio, não poderá governar porque, de acordo com as mais elementares regras democráticas, não tem maioria parlamentar para o fazer. Manobra essa que, segundo a realidade disponível aos olhos dos portugueses, apenas servirá para prejudicar ainda mais a economia portuguesa, protelando por não sei quanto tempo mais a entrada em funções de um governo com legitimidade para governar. Ou seja, o senhor professor economista que usurpa a Presidência da República não hesita, deste modo, em continuar a atolar a economia de Portugal e os portugueses, o que sempre fez enquanto pregava exactamente o contrário.
A não ser que…
A não ser que o senhor saiba coisas que à populaça não comunica, as quais lhe prometem vida longa a um governo que, nos termos das mais elementares normas democráticas, é um nado-morto.
Aqui chegados resta-nos especular, coisa sempre um pouco traiçoeira mas que adquire legitimidade como processo de advertência e autodefesa perante um provável golpe em marcha.
Lembremos que o chefe do Estado, numa das suas várias intervenções pós-eleitorais, indigitou o chefe da coligação mais votada – e não do partido mais votado – para formar um governo ao qual faltam nove lugares parlamentares para ter legitimidade governante. Nas linhas e entrelinhas das declarações proferidas sobre a decisão, e entre apelos aos mercados para que aterrorizem os portugueses, o chefe do Estado lançou convites abusivos e intriguistas aos deputados do partido mais votado para que se revoltem contra as iniciativas do secretário-geral e da direcção do partido no sentido de formarem um governo anti-austeridade com maioria parlamentar e, além disso, esmagadora sustentação popular. Isto é, temendo ser incapaz de reconstruir o famigerado “bloco central”, versão light de partido único, o agente dos mercados em comissão de serviço na Presidência da República Portuguesa arvorou-se em manipulador do cenário político e alcoviteiro de querelas partidárias.
Talvez o senhor, porém, estivesse não apenas armado de intenções cisionistas, mas também na posse de dados até agora dispersos no pântano infecto em que o poder lusitano esbraceja.
É que no dia em que o governo nado-morto tomou posse e foi anunciada a irreversibilidade do processo de acordo de incidência governativa entre o PS, o Bloco de Esquerda e o PCP, do lado do PS consta que um tal Francisco Assis está disposto a servir-se do “direito de tendência” – como sempre uma tendência para a direita – para se opor ao entendimento entre o seu partido e partidos à esquerda. Pergunta-se: será que o “direito de tendência” de Assis irá tão longe como arrebanhar deputados do PS aritmeticamente necessários para viabilizar o governo nado-morto, gémeo do que arrasou Portugal e avassalou os portugueses com a miséria e a emigração para cumprir as ordens dos credores? Será que entre o chefe do Estado, os serviçais de agiotas Passos e Portas e o citado Assis terá havido um acordo secreto austeritário para que a choldra governante possa continuar a burlar a democracia e a torturar os portugueses? Sem o colaboracionismo de Assis ou outro que tal, o governo empossado não se aguentará com uma moção de rejeição, quanto mais com três.
Vamos crer que a democracia continue a despertar em Portugal e que um governo ilegítimo nascido morto jaz morto e arrefece. E, contudo, Assis mexe-se; ou seja, há uma conspiração em marcha para ressuscitar o cadáver.
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

UMA PORTA QUE ABRIL ABRIU




Apesar dos exorcistas, dos falsificadores da História e dos eternos salazarentos ora travestidos de democratas com via única, a verdade é que a revolução de 25 de Abril de 1974 abriu muitas portas em Portugal, e até no mundo. A porta da democracia, a porta da liberdade, a porta do desenvolvimento de um povo antes submetido às amarguras da escravidão, a porta da descolonização. Foram as portas que Abril abriu, cantadas pelo imortal José Carlos Ary dos Santos - poeta cuja obra, o talento e o poder das palavras o regime tem soterrado no situacionismo da cultura de bordel.
Não sei que frutos poderão dar as diligências em curso para encontrar um governo capaz de aplicar uma política alternativa à chacina social, ao holocausto da democracia instaurados pelos partidos herdeiros do passado autoritário, aggiornate pela ditadura financeira da União Europeia. Admito, porém, que o Ary esteja contente, como satisfeitos deverão sentir-se os democratas autênticos, porque vivemos um exercício de democracia verdadeiramente pluralista através da procura de uma convergência de interesses que possa corresponder aos anseios da esmagadora maioria dos portugueses, mesmo de muitos que, embalados pelas palavras venenosas da ex-maioria, se deixaram burlar mais uma vez.
O exercício da democracia foi uma das portas que Abril abriu e que uma fileira de políticos submetidos a ordens forasteiras foram encerrando paulatinamente, para dar espaço a uma forma tumoral de governação, uma degenerescência da democracia original. Chamam-lhe “arco da governação”, “bloco central”, “compromisso de centro-direita” e outras aleivosias atrás das quais se disfarça um conceito singular: a política de direita exercida como democracia única, uma forma de autoritarismo talvez ainda benévola, mas susceptível de endurecer ao compasso das resistências à arbitrariedade da casta dominante.
Já percebemos que a simples reabertura da porta da democracia provocou uma tempestade no sistema instalado. O que se diz, escreve, mente e atemoriza sobre as negociações e eventual entendimento entre o PS, o Bloco de Esquerda, o PCP, os Verdes e o PAN, que somam uma inquestionável maioria absoluta de 123 deputados numa Assembleia de 230, deveria passar a figurar em todos os tratados de manipulação, má-fé e até ignorância política. Desde ser “ilegal” porque “deverá governar quem teve mais votos” e menos deputados, até à entronização governamental de uma minoria em nome da estabilidade e ao argumento de que o país estaria a “desafiar” a União Europeia, o terrorismo ideológico tomou conta do povoado. Antes a troika que tal sorte, escrevem uns; “o gonçalvismo está de volta”, gritam outros, alguns dos quais sem fazerem a mínima ideia do que falam; o “arco da governação” é a “solução natural”, pregam em uníssono o cardeal de turno e o ex-ministro das Finanças que chamou a troika e ex-patrão da Bolsa, dando de barato que o Estado é laico e os interesses da grande maioria dos portuguesas e os do casino dos especuladores são divergentes.
No meio dos lugares comuns da propaganda mais boçal vão surgindo as mensagens elaboradas, logo ainda mais sinistras, daquelas que bebem do fino de Bilderberg, de Washington e Bruxelas, porém muito progressistas, prafrentex e “independentes”. Pede-se a mudança do sistema eleitoral para que a Assembleia da República esteja aberta apenas ao “arco da governação”; alvitram-se mais poderes para o Chefe do Estado, de modo a que este possa corrigir, a qualquer momento, desvios preocupantes para a ditadura do dinheiro; invocam-se os “compromissos internacionais” como troncos a que cada cidadão português seja amarrado para salvaguarda dos interesses dos que piratearam a democracia.
Negociar um governo alternativo, porém, é a essência da democracia, é o respeito pela vontade maioritária dos portugueses. Dos portugueses que não aceitam a austeridade, que estão fartos que lhes confisquem os salários, subsídios e pensões, que estão saturados de pagar fortunas para que os banqueiros possam continuar a esbanjar e a atafulhar paraísos fiscais. Dos portugueses que exigem direitos associados ao trabalho, que desejam horários laborais compatíveis com a cidadania e as vidas familiares, que pretendem o reforço dos investimentos - e não a penúria crescente - na saúde, na educação, na cultura, nas pescas, na agricultura, na restauração da economia. Negociar um governo alternativo é estancar a sangria das famílias e dos cidadãos vítimas da emigração; é deixar de ser carne para canhão dos agiotas que fazem a guerra aos povos manipulando as dívidas soberanas com os cordelinhos viciados de Bruxelas.
É difícil reabrir esta porta de Abril, talvez a mais essencial de todas elas? Mais duro é viver atascados no pântano social que nos criaram.
 

 

 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

CHAMA-SE A ISTO SOBERANIA



Sabemos que o primeiro-ministro português ainda em exercício, fiel ao seu lema Portugal atrás e os portugueses em último lugar, considera a soberania uma “batota”, como declarou no debate televisivo com o seu principal rival nas eleições. “Batota” pensar em primeiro lugar na vida dos portugueses, que deve submeter-se antes aos mecanismos do euro e às exigências dos agiotas; “batota” agir em primeiro lugar na defesa da economia portuguesa e só depois pesar os interesses dos alemães ou de quaisquer outros; “batota”, enfim, ser o Estado português a elaborar e aprovar o seu próprio orçamento e não a Alemanha e outros por ela.
De modo que o orçamento de Estado para 2016 caiu em cheio no período de negociações sobre o próximo governo como recado fundamentalista dos autocratas da União Europeia, exigindo que o país não mude de política. Digamos que, sob a capa de um calendário quiçá “irrevogável”, a Comissão Europeia pediu ao minoritário governo em funções em Portugal que envie para Bruxelas imediatamente – e já está atrasado – um projecto de orçamento com base na continuação das mesmas políticas, sem qualquer alteração. Estipula ainda a Comissão Europeia – em boa verdade constituída por cavalheiros e cavalheiras que ninguém elegeu em parte alguma, a não ser a fazer de conta no Parlamento Europeu – que se porventura vier a existir um outro governo este envie as suas alterações ao projecto orçamental, sujeitas à decisão final da mesma Comissão.
Em defesa das suas exigências, os senhores e senhoras de Bruxelas vão brandindo instrumentos por eles mesmos cozinhados para, imagine-se, combater a crise, como o “two pack”, o “semestre europeu”, o “tratado orçamental”, coisas de que o cidadão comum é vítima desconhecendo sequer que existem, e muito menos as respectivas consequências, porque foram escamoteados da opinião pública com ratificações à sorrelfa e redigidos num europês tecnocrático apenas ao alcance dos austeritários que os produziram e poucos mais.
Pois se julgavam que Portugal era um país soberano, tirem daí o sentido. Os portugueses foram a votos, deixaram a maioria em minoria, seguem com alguma ansiedade um processo de negociações capaz de traduzir essa decisão em governo, mas em Bruxelas é como se nada tivesse acontecido e os eleitores não existam. O que Lisboa tem de fazer, para que assim se cumpram as normas europeias, é submeter o orçamento do Estado às instâncias da União elaborado como se não tivesse havido eleições e a minoria continuasse a ser maioria.
Se por um qualquer bambúrrio se formar em Lisboa um governo discordando desse projecto de continuidade, o que tem a fazer é enviar para Bruxelas as propostas de alteração, que certamente não tardarão no lixo se contrariarem a continuidade austeritária. Assim funciona o diktat de Bruxelas, melhor será escrever o diktat de Berlim.
Em Portugal, os situacionistas da crueldade social em que se vive continuam a fazer suas as ordens de Bruxelas, como as eleições tivessem sido de faz-de-conta. Formar um governo reflectindo a nova composição do Parlamento será “um golpe de Estado”, um “atentado contra a nossa vocação europeia” ou, como diz aquele indivíduo para quem não há almoços grátis, será o mesmo que produzir “uma enorme quantidade de irrealismo”.
Cada cidadão português, como cada cidadão de qualquer país da União Europeia, deve ter a noção de que Bruxelas exerce um poder de chantagem e de veto sobre as suas vontades e decisões expressas da maneira mais democrática que existe, o voto.
As decisões dos cidadãos, por definição de democracia, são soberanas. Isto é, sobrepõem-se também aos compromissos internacionais se estes forem obstáculos ao respeito pela vontade maioritária. Com estas palavras não pretendo defender que os compromissos internacionais sejam para desrespeitar por dá cá aquela palha. Os compromissos internacionais, porém, não são tabus inamovíveis aos quais se sujeitem valores fundamentais do ser humano. Tal como as dívidas, são negociáveis e reajustados quando existe uma vontade democraticamente legitimada para o fazer. Esse é o papel dos governos.
A isto chama-se soberania; submeter-se a diktats não é soberania; pior do que batota, é reles sabujice.
 
 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O CONSPIRADOR


 
Os portugueses ganham menos, trabalham mais e correm riscos mais elevados de despedimento.
Quem o diz? A CGTP? O PCP ou o Bloco de Esquerda? O “radical” António Costa? Se o leitor respondeu de acordo com alguma destas óbvias alternativas errou redondamente.
Quem o diz é a insuspeitíssima OCDE, entidade neoliberal por essência e definição, concluindo assim que a vida dos portugueses está cada vez pior. As motivações do desabafo só os próprios a conhecerão, mas agora que, segundo a coligação que nos deixou neste lindo estado, as coisas iam tão bem, esta conclusão parece traiçoeiramente combinada entre a dita OCDE e as diligências de António Costa para fazer um governo contra a austeridade.
Ao mesmo tempo, imagine-se a amplitude da conspiração, a Global Wealth Report, uma das várias entidades que avaliam a saúde das finanças dos mais ricos do mundo, deduziu que Portugal tem menos milionários, mas mais ricos.
Isto é, por um lado os portugueses ganham menos, trabalham mais e vivem na corda bamba do desemprego; por outro, os milionários portugueses são em menor número, helas!, mas estão mais ricos.
Surge então o ex-presidente da Comissão Europeia, um indivíduo que devia estar a prestar contas ao Tribunal de Haia por crimes contra a humanidade, e adverte os militantes do PS que nem se atrevam a permitir um governo de aliança entre o seu partido e os partidos à esquerda, porque isso irá trazer elevados custos aos portugueses. A quem? Aos que carregam o peso da austeridade ou àqueles pobres milionários, coitados, que estão menos ricos, quiçá até aos que estão mais ricos?
Depois das quedas na bolsa provocadas pela “instabilidade política” conjugada com a “ameaça de um governo de esquerda”, depois das insistências de Bruxelas para que o governo – em minoria – envie rapidamente o “projecto de orçamento” do próximo ano, depois dos recados dos bancos segundo os quais, como “motores da economia”, exigem uma célere e estável “solução política”, depois das mensagens cifradas do rei de Boliqueime, faltavam-nos as ameaças silvadas pelo ex-presidente da Comissão.
O homem nem hesitou em interromper o seu repouso sabático, talvez correndo o risco de perder o telefonema capaz de o projectar para novos e altíssimos voos, tão empenhado está em acudir aos portugueses assim ameaçados de ganharem ainda menos, de trabalharem ainda mais, de alongarem a interminável fila dos desempregados. Ele, o ex-presidente da Comissão Europeia que não hesitou em fazer das mentiras guerra e assim provocar a perda de milhões de vidas humanas – é verdade, a ordem de grandeza das vítimas mortais das guerras por ele apoiadas já se avalia em milhões; ele, que depois do desmantelamento do Iraque e da Líbia também tem as mãos sujas do sangue dos sírios, pois sabe-se como a União Europeia contribuiu e contribui para esta tragédia; ele, que está na origem da via-sacra dos refugiados a caminho da Europa e que, enquanto presidente da Comissão, nada fez – antes pelo contrário – para que a Europa tivesse uma política de imigração.
Dir-se-á: pois sim, o homem será isso tudo mas também é um patriota. Ainda muito novinho, revolucionário em folha, impediu que os portugueses tombassem nas mãos do tenebroso “social-fascismo”. Depois, como primeiro-ministro de Portugal, foi o anfitrião ideal da tal cimeira dos grandes democratas Bush, Aznar e Blair que iria levar a democracia a cada recanto do Médio Oriente e só não o conseguiu devido às tramoias do “terrorismo”. A seguir, já como presidente da Comissão Europeia, defendeu bravamente os interesses dos portugueses enviando-lhes a troika, protegendo os agiotas que lhes sugam os bens, colocando-se ao lado da benemérita Merkel, que só por um triz não ganhou o Nobel da Paz, contribuindo para que aos seus concidadãos fossem impostos tratados e outros artifícios austeritários, de modo a instaurar a ordem nas benditas finanças públicas. É certo que a dívida continua a crescer, os números fintam os discursos oficiais, mas há que dar tempo ao tempo e espaço à minoria governamental.
Enfim, o homem que fez tudo o que esteve ao seu alcance para que os portugueses ganhem menos, trabalhem mais, emigrem muito mais e vivam cada vez mais à beira do desemprego é a voz segura e certa para advertir os mesmos portugueses de que irão ganhar menos com um governo à esquerda. Ele sabe do que fala; sobretudo, sabe como se conspira.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

TOMBAM AS MÁSCARAS DO REGIME


 
A hipocrisia assaltou definitivamente os ecrãs portugueses. O que tanto se denunciou sobre os desvios impostos ao regime democrático no sentido de neutralizar o funcionamento dos mecanismos de respeito pela vontade e os interesses dos cidadãos, e que, de acordo com a propaganda oficial, não passava de opiniões de marginais do sistema, de antieuropeístas, quiçá de terroristas encapotados, está confirmado. Não era teoria da conspiração, era a demonstração do que se pretendia e pretende atingir com a mascarada de democracia apresentada como a democracia única, possível e desejável, afinal um regime em que a soberania nacional e a maioria das pessoas têm de submeter-se aos interesses minoritários dos predadores da sociedade, dos parasitas dos cidadãos.
Bastaram umas eleições e umas sessões de diálogo – esse diálogo tão enaltecido quando não passa de monólogo em que finge falar-se do que já está decidido – para que a inquietação, os medos, no fundo as pulsões antidemocráticas e trauliteiras subissem ao palco. Elas aí estão, ridículas nos conteúdos, perigosas nas intenções, intimidatórias na prática.
Cito alguns exemplos ao acaso porque a memória e a capacidade de registo não conseguem acompanhar a criatividade dos canais de propaganda do regime os quais, como é sabido, são o suprassumo do pluralismo desde que ele seja monolítico e esteja sintonizado com os agentes de Bruxelas, os seguranças dos credores, os magarefes dos mercados.
Na cegada desfilam politólogos e comentadores independentes que, por acaso, ocupam ou ocuparam altas posições no chamado arco da governação, analistas e papagaios amestrados, comentadores, jornalistas ditos de referência e recadeiros, enfim a corte dos bobos que conseguem especular horas a fio sobre supostas variantes de um mesmo cenário, o único, o permitido, aquele de que vivem e que por sua vez alimentam, num ciclo vicioso e viciado.
Assim sendo, António Costa transformou-se num “radical” com tendências “suicidárias” ao aceitar que o PS dialogue com o PCP e o Bloco de Esquerda. Portugal deve ser governado pelo grupo que teve mais votos, mesmo que seja em minoria, devendo os outros membros do Parlamento fazer de patetas. É assim a “tradição política”, a mesma “tradição” que proíbe a entrada de partidos à esquerda do PS na área governativa, porque isso “não está no ADN” da democracia portuguesa. Partidos esses, como o PCP e o Bloco de Esquerda, que foram acusados de se esquivarem a assumir responsabilidades governativas e que, quando manifestam essa disponibilidade, são acusados se meterem onde não são chamados, de acordo com a bem conhecida trama de morto por ter cão, morto por não ter. E atenção que isto da “tradição” é muito importante em Portugal, sobretudo a “tradição” que manda o bom povo ser ordeiro e marchar em rebanho.   
Além disso, e a cegada continua, fiquem sabendo que uma minoria de 107 deputados é muito mais estável e responsável que uma maioria absoluta de 122, susceptível de viabilizar um governo à esquerda da clique da troika; maioria esta que não passa “de uma coligação negativa”, formada à partida por imbecis mal-intencionados e incapazes sem legitimidade porque, por exemplo, não aceita a austeridade nem dá como plenamente adquirido que os portugueses sejam governados de Bruxelas pelos credores e o sobe-e-desce dos juros da dívida e das manipulações estatísticas. Vejam bem, que legitimidade teria essa maioria se porventura se questionasse sobre o tratado orçamental, manobra suja de Bruxelas e Berlim escamoteada aos cidadãos e que transforma os países da União em pobres protectorados de uma Alemanha expansionista e das praças financeiras? Como seria possível admitir um governo de Portugal capaz de governar para as pessoas, segundo os interesses de Portugal e dos portugueses, quando o que interessa são números, cifrões, milhões manipulados pelo casino financeiro mundial e armazenados em paraísos fiscais?
A austeridade provoca miséria, desemprego, emigração? Pois é, mas não existe outra saída, mesmo que as eleições tenham dito claramente que os portugueses a rejeitam, porque Bruxelas é que sabe o que é bom “para o futuro dos portugueses”, como esse futuro ficará ainda mais risonho estraçalhando o Estado social e a segurança social; e se Bruxelas manda, assim seja. Para lhe obedecer existe a minoria que desejavelmente deveria assumir-se como maioria em forma de “bloco central”, esse partido único garante da democracia da austeridade. Mas se assim não for, que essa minoria governe com a “estabilidade” e a governabilidade” que lhe são inerentes, capaz de ressuscitar em versão actualizada a “democracia orgânica”, uma inspirada criação da propaganda marcelista, não a de hoje, a de ontem. Fora desse quadro, como por exemplo a hipótese de um entendimento entre PS, Bloco de Esquerda e PCP, que permitiria governar Portugal com maioria parlamentar e para a maioria dos portugueses, seria um “absurdo”, uma “batota política”, “um mergulho no desconhecido”; a “instauração da miséria”, uma “irresponsabilidade antieuropeísta”, um “pandemónio ingovernável”, uma “aberração”, uma “vergonha nacional”, um alvo da “chacota internacional”, “mudar as regras a meio do jogo”, “uma conspiração”, um “delírio”, a “restauração do gonçalvismo”, até “um golpe de Estado” – como se percebe nem o céu será o limite para a criatividade chantagista.
Tombam as máscaras dos democratas oficiais, os que sabem corrigir o regime dos enganos dos eleitores para defesa dos interesses dos próprios eleitores, uns pobres idiotas incapazes de saber o que é bom para eles.

sábado, 10 de outubro de 2015

NATO, JOGOS DE GUERRA, TERRORISMO E FASCISMO


 

NATO e Hungria vão tratar dos refugiados
A polícia de choque global, também conhecida por NATO, está numa fase das mais trauliteiras da sua história, superando os próprios e mais sinistros recordes, além de alargar o raio de acção em presença, eficácia, mobilidade e número de efectivos. Dos jogos de guerra no flanco sul, em áreas de intervenção às vezes também conhecidas pelas designações de Portugal, Espanha e Itália, agora considerados ainda mais importantes devido à “crise dos refugiados”, à proliferação de quartéis-generais em redor das fronteiras russas, ao reforço dos contingentes operacionais na Turquia ditado pelas operações russas contra os mais activos grupos terroristas, à multiplicação por três dos meios da “força de resposta” – A NATO nunca ataca, limita-se a responder – os gendarmes atlantistas não descansam na missão suprema, dir-se-ia divina, de preservar a democracia formatada pela ditadura financeira.
Numa comunicação feita há poucas horas, o social-democrata norueguês Jens Stoltenberg, destacado em funções de secretário-geral da aliança expansionista, anunciou que os efectivos da “força de resposta” vão ser aumentados para 40 mil apenas um ano depois de, em Gales, os expoentes doutrinários os terem fixado em 13 mil. O que mudou em menos de 365 dias exigindo esta ampliação exponencial? Stoltenberg respondeu por metade: o aparecimento da “crise dos refugiados”, decorrente das convulsões a sul “do nosso flanco sul”. Quanto à outra metade, o secretário-geral foi omisso, mas nem precisou de ser explícito. A Rússia é a Rússia e agora não lhe bastava ter a querida “democratização” da Ucrânia debaixo de olho como se atreveu a ir combater o terrorismo no Médio Oriente, esse mesmo terrorismo que a NATO enfrenta heroicamente – e com tanta eficácia que os resultados da “primavera árabe” são os que estão à vista de todos.
No quadro da nova situação provocada pela “crise dos refugiados”, uma tragédia humanitária que para os governos dos membros da NATO é assunto a tratar manu militari, a aliança decidiu criar mais dois quartéis-generais em países para lá da antiga “cortina de ferro”. Tratando-se de refugiados, a NATO não poderia ter escolhido melhor a localização das duas novas estruturas operacionais: a Hungria e a Eslováquia, onde dois governos fascistas tratam como terroristas os que fogem da guerra em luta pela sobrevivência. A intimidade da NATO com o fascismo não é de fresca data, não se evidencia apenas na Ucrânia, na Hungria, em Estados do Báltico. Ela foi inscrita no seu código genético ao ter como fundador – logo como grande defensor da democracia – o Portugal salazarento. Por isso, quando um nazi como Anton Gerashenko, conselheiro do ministério do Interior de Kiev, apela ao Estado Islâmico para combater os russos seja no Cáucaso seja no Médio Oriente, em nome da democracia e da sharia (vertente política da ortodoxia islâmica), mais não faz do que respeitar o espírito de missão dos tutores atlantistas. O mesmo Gerashenko que, poucos segundos depois da queda sobre a Ucrânia do avião que fazia o voo MH17, anunciou que fora derrubado por um míssil russo. Uma sentença que ficou como versão oficial, em que ninguém acredita mas prevalece, quanto mais não seja porque é a da NATO e o que a NATO diz não se discute.
Para os que não estar a par do afã expansionista – e defensivo, claro – da NATO lembro que os quartéis-generais na Eslováquia e na Hungria vêm juntar-se aos que já funcionam na Bulgária, na Estónia, na Letónia, na Lituânia, na Polónia e na Roménia, sem contar com o servilismo do governo de Kiev, o qual integra a aliança sem lhe pertencer. O cerco à Rússia é evidente, comprovando-se assim que a NATO é uma instituição de cariz absolutamente defensivo através do respeito estrito por aquela máxima que não é apenas futebolística: a melhor defesa é o ataque.
Por isso, uma nota também sobre os exemplos mais recentes das acções defensivas da NATO e respectivas consequências. Foi em actos de defesa pura que a NATO atacou o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e que desencadeou a guerra civil na Síria, tal como esfrangalhara a Jugoslávia. Então, quando o secretário-geral Stoltenberg se queixa da “crise dos refugiados” como resultante das “convulsões” no sul do “nosso flanco sul”, saibam todos que a NATO nada tem a ver com isso, apenas alarga a sua presença e reforça a sua eficácia para se defender do maldito e insidioso terrorismo, o qual a NATO nunca treinou e financiou, nem nunca foi, como agora também não é, seu aliado na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo…
 

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

NÃO HÁ CONFUSÃO: A AUSTERIDADE PERDEU



A tese de que os resultados das eleições gerais em Portugal aumentaram a confusão política é própria daqueles para quem a confusão política, associada à falta de transparência, à austeridade, aos arranjinhos de bastidores e às análises em torno de ficções são o modo de vida. Os resultados são muito claros para quem os quiser ler e, sobretudo, para quem tiver a coragem de assumir responsabilidades deles decorrentes e enfrentar o status quo, que se resume a um conceito falacioso e ilegítimo - o de arco da governação.
Portugal apenas caiu na ingovernabilidade para aqueles que entendem a política parlamentar e executiva em versão única e totalitária, a das combinações estatísticas possíveis entre três partidos ditos “responsáveis”, “moderados”, “europeístas” – seja lá o que isso for – em suma, fadados para governar. Como se os 230 lugares no Parlamento não tivessem todos o mesmo valor e alguns deputados fossem “mais iguais” do que outros. Não há políticos da elite e os outros; não há coligações políticas proibidas à partida porque desagradam ao mercado ou aos senhores e senhoras de Bruxelas, Washington ou Berlim; não há qualquer ilegitimidade na procura de novas plataformas de governação. O que é ilegítimo é a perpetuação do “arco da governação” a todo o custo, incluindo a falsificação da vontade dos eleitores. Não existem coligações negativas, partidos do poder e partidos da contestação, todas essas patetices não passam de máscaras da mesma coisa, o poder absoluto e a política única em vez de democracia e pluralismo.
O que os eleitores portugueses fizeram, apesar do cenário de medo, terror manipulador e viciação das explicações da realidade que os envolve, foi arejar o ambiente democrático, dizendo aos dirigentes políticos que há mais caminhos que o do costume, assim eles queiram e tenham coragem para os procurar. O que os eleitores portugueses transmitiram, corajosamente, repete-se, foi a mensagem de que existem alternativas aos obscuros jogos de poder praticados por uma casta de supostos iluminados através de tabus, recados cifrados, ciências ocultas e outras manigâncias para manter os cidadãos à margem dos assuntos que decidem as suas vidas, como se estes fossem idiotas incapazes de saber o que desejam e a quem é preciso corrigir quando não votam como querem os que se acham donos disto tudo.
Um dos exemplos mais crus desse vício manifestou-se nas noites eleitorais das televisões generalistas, onde os exercícios de análise e futurologia se mantiveram agarrados à ficção das sondagens até ao último suspiro de sapiência dos convidados, enquanto os resultados reais e oficiais corriam em rodapé dos ecrãs a alta velocidade, tantos deles desmentindo, através de um golpe de vista possível, deturpações reles e primárias baseadas em conjecturas – essas sim confusas e mistificadoras – disparadas sobre os espectadores. Quantas palavras se gastaram, quantas ditirâmbicas declarações se fizeram elogiando a suposta diminuição da abstenção quando, afinal, a afluência às urnas caiu dois pontos percentuais, votando menos 180 mil pessoas do que em 2011, apesar de haver agora mais 10 mil inscritos.
Porque a realidade se perdeu no ruído e na névoa das elucubrações inspiradas na ficção, para criar a confusão da qual seja suposto não nascer a luz, recupero alguns factos numéricos com inegável valor político.
A mediaticamente venerada coligação governamental, declarada vencedora em processo sumário, perdeu 730 mil votos e mais de um quarto do seu eleitorado – 26 por cento dos seus votantes de 2011 esfumaram-se, isto é, agarraram no boletim de voto e fugiram a sete pés do terror austeritário e da ditadura da troika. A sua tranquila maioria governamental de 132 deputados, mãe de todas as arbitrariedades, de todas as violações dos direitos das pessoas, resume-se agora a uma minoria de 107, um corpo parlamentar emagrecido em 19 por cento. A coligação PaF (PSD+CDS), aliás, não conseguiu atingir sequer a votação simples do PSD em 2011; faltaram-lhe 78 mil votos e o resto foi como se o CDS, que valera mais ou menos 650 mil votos em 2011, se tivesse evaporado.
O “fragorosamente derrotado” PS, cuja prestação, de facto, foi tudo menos brilhante, cresceu, no entanto, em número e percentagem de votos. Obteve mais 182 mil, equivalentes a uma subida de quase 12 por cento. Foi escasso para os objectivos proclamados, foi muito curto para quem almejava o primeiro lugar – o que as circunstâncias sociais justificariam – mas não deixou de ser um crescimento à luz fria e indesmentível dos números. Assim os seus dirigentes o usem a bem das causas sociais e humanitárias que dizem defender.
Os partidos a quem a propaganda do regime e os que abusivamente dele se apropriaram recusam a legitimidade para governar, cresceram com uma consistência que não deixa dúvidas nem confusões. O Bloco de Esquerda foi recompensado por uma campanha muito inteligente e de uma grande eficácia na transmissão das suas propostas: cresceu 110 por cento em número de votos e de 8 para 19 deputados, expressiva demonstração de que a política agarra as pessoas quando deixa de ser tratada como uma coisa doutoral só ao alcance de quem manda; a CDU, vítima dos velhos hábitos de marginalização e difamação mediática, também cresceu, apesar disso e das distorções à volta da falácia do “voto útil”: mais um deputado, de 16 para 17, e mais 3400 votos.
Contas feitas, incorramos numa heresia que tanto incomoda os comentadores regimentais, pelo simples facto de aritmeticamente ser passível de concretizar. O PS, o Bloco de Esquerda e a CDU somaram mais 446 mil votos que em 2011 e atingiram 50,9 por cento do universo votante, obtendo uma maioria absoluta de 122 deputados (mais 24 que em 2011, correspondentes a 53 por cento do hemiciclo e seis lugares a acima do necessário para governar em maioria).
A leitura política deste resultado não se presta a confusões, porque deixa bem clara a existência de uma maioria absoluta dos partidos parlamentares que se têm declarado contra a austeridade. Ao contrário da versão “oficial” sobre o que é legítimo ou não, estes partidos têm o direito – e o dever agora imposto pelos eleitores – de pelo menos se sentarem a negociar de boa-fé uma possível plataforma de governo. As pressões internas e externas serão muitas, parecerão insustentáveis, mas as transformações políticas capazes de repor direitos civis, sociais e económicos, de respeitar as pessoas e de abolir os efeitos do trágico ciclo da austeridade apenas serão alcançáveis com a coragem correspondente à que ficou estampada na votação dos cidadãos portugueses. Prometer é fácil, ter ideias é meritório, passar tudo isso à prática é difícil, mas não viola qualquer norma democrática, pelo contrário, seria o regresso à democracia, tal como os eleitores exigiram.
Uma coisa é certa: os que têm governado e se consideram donos do país e dos portugueses perderam a legitimidade para continuar as malfeitorias. Só conseguirão legitimidade para o fazer se alguém lhes estender a mão – e se tal acontecer os responsáveis serão fáceis de identificar. Não é de somenos anotar que o chamado “arco da governação” perdeu bastante mais de meio milhão de votos (550) mil, uma erosão de 12,6 por cento e de 13 deputados. Tem a sua versão de maioria absoluta, é certo, mas contra natura, apesar de habitual, porque associa os esbirros da austeridade com parte dos que alegadamente a contestam.
Os resultados eleitorais não deixaram espaço para confusões. As organizações políticas ao serviço do terror austeritário perderam a maioria e já não podem fazer o que lhes apetece.
Entre os aplicantes da austeridade e os que garantem combatê-la houve uma inversão da relação de poderes, agora claramente favorável aos que se recusam a continuar uma política de violação dos direitos humanos e da democracia. Se estes se juntarem e, em vez de se debaterem com as armadilhas dos que os atiçam por causa de diferenças legítimas e naturais, fizerem do que os une um programa de governo, então nem o Presidente da República, por muito que esprema as meninges, poderá rejeitá-lo.

sábado, 3 de outubro de 2015

DOS BRAGANÇA AOS BOLIQUEIME




Estará Portugal na alvorada da V Dinastia? Quando um Presidente da República Portuguesa manda dizer aos súbditos que está a pensar e por isso não poderá comparecer nos actos comemorativos dos 105 anos da implantação da República, uma tal hipótese restauracionista ergue-se no horizonte dos tempos nebulosos que atravessamos.
Em verdade, em verdade vos digo que desconheço o que na verdade mais me inquieta, se o facto de o Presidente da República se recusar a comemorar a República ou o acto de o Presidente da República ameaçar que vai pensar. Há 30 anos que conhecemos de ginjeira os resultados dos esforços de cérebro tão saturado, pelo que ai de nós quando ele anuncia a intenção de reflectir. Para pior já basta quando faz jus ao cognome de “imóvel de Belém”, como a plebe o vai conhecendo. Os seus malefícios são imensos pelo simples motivo de existir como Presidente da República. Tornando-se esse Presidente da República um ser pensante, ainda que pelo curto de espaço de um dia, por coincidência o da celebração da República, os augúrios nada têm de prometedor.
E que terá o Presidente assim de tão complexo para pensar? Encarregar o partido com mais deputados na nova Assembleia da República – ou deverei escrever Cortes – de formar governo? Escrevo e sublinho com mais deputados, e não a força mais votada, porque as coligações se desfazem assim que forem apurados os resultados eleitorais, passando os deputados a representar partidos ou a assumir a condição de independentes, no caso de o serem. Ora para decidir em termos de um senso democrático comum bastam conhecimentos rudimentares de aritmética, que não devem faltar ao economista Presidente da República, pelo menos aos seus conselheiros e assessores, ou será mais adequado escrever vassalos?
Há qualquer coisa de enigmático, misturada entre preconceitos óbvios, na atitude do Presidente da República, em tirocínio para D. Aníbal I, quando manda anunciar que vai pensar. O óbvio é que entre o Presidente da República, corta fitas de estátuas de reis, e a República não existe qualquer traço de união. Aníbal não saberá pelo seu punho alinhavar uma elementar definição de República, porque desconhece o espírito de cidadania, acha que os cidadãos só atrapalham a bondade dos números que os representam, entende que a solidariedade republicana deve ser aquilo que as troikas e os seus servidores – entre os quais ele próprio – aplicam aos povos para que o mercado e seus agiotas engordem, enfim de Res publica Aníbal apenas perceberá o que a expressão tem em comum com rés-do-chão.
A coisa enigmática – permitam-me que especule – poderá ser a tentação de estar prevenido para que os resultados eleitorais lhe proporcionem a monarquização efectiva do regime, que de republicano já pouco tem. Entre pensar de vez em quando e nada pensar, ele próprio, por ora Presidente em título, emerge como um rei talhado ao jeito de outros da modernidade, do tipo “por que não te calas?”; Coelho e Portas darão marqueses a preceito. Azar o dos Bragança, ansiando há mais de um século pelo regresso das mordomias: terão de perder por completo as ilusões, porque mais alto se afirmam os brasões dos Boliqueime, eles sim a alma do reviralho reacionário, inspirados há três décadas pelos esfíngicos tabus de D. Anibal.
A plebe, porém, ainda tem pela frente algumas horas para evitar a consumação da tragédia. Sabemos que os definindo-se como socialistas e republicanos engavetaram o socialismo e se esqueceram do republicanismo – a não ser quando chega o 5 de Outubro – contribuindo, sem pudor, para o estado de monarquia latente em que esbraceja este país, ora prestes a finar-se.
Porém, nem todas as oportunidades de evitar o afogamento se esgotaram. Cada cidadão português pode, por uma vez, deixar de ser um simples número para as estatísticas e usar o voto a seu favor. O cenário e os actores são mais do que familiares; para decidir em termos de cidadania e de regeneração republicana basta fazer com que Aníbal e respectivos sequazes em vez de pensar fiquem a falar sozinhos. Basta fazer aos Boliqueime, agora nas urnas, o mesmo que os republicanos fizeram aos Bragança, há 105 anos.
 
 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

BURLOCRACIA


 

A Wolkswagen e, ao que parece, a BMW, a Audi, a Seat, oficinas um pouco por todo o mundo, em Portugal também, e mais o que adiante talvez se venha a entrever, aplicam sistemas para esconder as suas operações poluentes; o que não é mais do que uma imitação do comportamento dos governos das grandes potências mundiais que todos os anos, sob o chapéu da ONU, fingem discutir os meios de salvar o planeta para que este continue a degradar-se irremediavelmente; grandes impérios da construção civil, como a Vinci e a Bouygues, estão mais uma vez a contas com processos de corrupção e atentados contra o ambiente, desta feita na ilha de Reunião, uma colónia de França; a NATO e os gigantes da produção de armamentos organizam guerras e manobras, fazem e desfazem governos para que o negócio da morte continue a reluzir; em Portugal sabe-se que as polícias secretas transmitem informações classificadas a empresas privadas; a procissão das tramas e tramóias em torno da figura de um ex-primeiro ministro ainda nem saíram do adro da pouca-vergonha; o primeiro-ministro em exercício engasga-se e mente quando confrontado, por simples eleitores, com os resultados das suas malfeitorias e falsifica números com a destreza de um mágico fracassado.
São apenas alguns exemplos, ao correr do teclado. Chegam para demonstrar, senhoras e senhores, que não vivemos em democracia, mas sim em burlocracia. Isto é, somos governados, em regime nacional e global, por um bando de burlões. Quando escrevo burlões não está em causa somente o comportamento governamental mas também, e sobretudo, o dos verdadeiros donos disto tudo, as wolkswagens e bmws, as vincis e companhia que mandam nos políticos e são, nem mais nem menos, que os senhores do regime.
A Vinci, por exemplo, a quem entregaram os aeroportos e a navegação aérea em Portugal, numa rifa risonha de compadres qualificada como “grande negócio”, é a mesma entidade que assalta os transeuntes das autoestradas do centro e sul de França com portagens escabrosas, também a mesma entidade que passa e embolsa as multas de trânsito nas ruas de Bruxelas, substituindo-se à administração pública. Funciona como um Estado multinacional ganancioso viciado no lucro, ocupando o lugar de Estados que deveriam pertencer aos cidadãos, consumando aquele que é o sonho de qualquer encartado capitalista neoliberal: a privatização absoluta do Estado.
Se dedicarmos algumas linhas a analisar o comportamento das entidades citadas, e também das que estão subentendidas através da certeza de que tais práticas não são excepções, mas a regra, concluiremos, sem surpresa, que tal é a cultura vigente, a mentalidade regimental, a sociedade em que vivemos. Tão enraizada e sedimentada que até o Papa, imagine-se, o Papa, fica a pregar aos peixinhos.
Ao instalar o kit fraudulento que mente sobre as emissões tóxicas para a atmosfera e os pulmões dos indefesos cidadãos, a Wolkswagen candidata-se às mais gratificantes medalhas do empreendedorismo, da competitividade, da modernidade e da argúcia concorrencial, apenas ao alcance de quem serve como deve ser o mercado livre. A burla e o mercado livre são a imagem da simbiose perfeita; e as entidades que mais se aproximarem desta fusão mais perto estarão da empresa ideal, do governo de excelência.
Transmitir informações reservadas, obtidas sabe-se lá por que métodos, a empresas privadas, ou montar sistemas que disfarçam o envenenamento do ambiente são atitudes que animam a verdadeira concorrência, que asseguram posições de topo nos rankings da produtividade, que garantem as mais relevantes cotas de mercado, que recompensam os inconformados devotos do empreendedorismo, enfim, são as imagens reluzentes da realidade imposta aos cidadãos, que de vez em quando votam para que haja um simulacro de democracia e tudo continue na mesma… Até ao dia das surpresas, façamos por isso. Entretanto os cidadãos, bem comportados, fazem separações de lixos, andam de bicicleta para poupar o ambiente e vomitam austeridade enquanto os donos disto tudo, com uma dimensão que nos faz parecer míseras bactérias perante cruéis dinossauros, sujam por atacado e a seu belo prazer numa guerra pela nobre coroa do ladrão mais apto, mais ganancioso e especulador, merecedor das mordomias e vénias do regime.
 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A VINGANÇA DAS ARITMÉTICAS


 
O primeiro ministro de Portugal em exercício provocou os deuses das aritméticas e estes, secos, frios, saturados de manipulações, descarregaram-lhe em cima uma hecatombe de estatísticas que dir-se-iam combinadas para lhe tornar a última semana de campanha uma dolorosa via-sacra.
Malditos números!, terá bramado aquele a quem se aplica, como um fato feito por medida, a grande verdade de que a mentira tem as pernas curtas. Tudo começou, aliás, com um acto de esperteza saloia, a que alguns depois chamaram “lapso”, do dito chefe do governo, por certo excessivamente confiante na sabujice da comunicação social do regime, a mesma que lhe oferece diariamente sondagens de 40% desmentindo-se a si mesmas sob a capa esburacada do “empate técnico”. Ufanou-se o sujeito de que os cofres da Nação rebentam pelas costuras, de tal modo que iria remeter para o prestimoso FMI uma remessa de 5400 milhões de euros de amortizações antecipadas da benévola “ajuda” que a instituição nos prodigalizou. Afinal não tardou a saber-se que a entrega de tão volumoso tesouro não se deveu a novo gesto de agrado aos credores, tão da natureza do chefe do governo, mas sim a uma obrigação vencida perante os celebérrimos mercados, ainda para mais – o que depois veio a ser explicado como se de uma terrível malfeitoria se tratasse - decorrente de um empréstimo contraído há 10 anos “pelos socialistas”. Do mesmo modo que daqui a 10 anos, se ainda houver Nação, alguém terá de desembolsar alforges e alforges de dinheiro por conta dos sucessivos empréstimos contraídos pelo governo em funções – e que são, aliás, saudados como benesses dos mesmos mercados, rendidos ao bom comportamento governamental. Enfim, modos de ver as coisas.
O certo é que das catacumbas da comunicação regimental alguém se atreveu a explicar que o rei ia nu, neste caso o primeiro-ministro, ao corrigir o “lapso” governamental, denunciando que a amortização era uma obrigação, não um gesto prometedor insinuando aos eleitores que vêm aí tempos de vacas gordas se ao leme continuarem os mesmos.
Estavam as coisas nesse pé quando a hecatombe estatística desabou, e agora nem Santa Bárbara e muito menos São Bento chegam para acudir ao fulano.
Então não é que a dívida pública saltou já este Verão para 290 mil milhões de euros (não se esqueçam que a troika veio para nos “ajudar” a reduzi-la), continuando a crescer a um ritmo de 1300 milhões por mês?
E o défice? Então não é que em vez dos redondinhos 2,7% que o primeiro-ministro prometeu a Bruxelas como garantia da sua vassalagem, já vai em 4,2% e, no fim do ano, desafiará quaisquer rigores através de uns comprometedores 7,2%? Ora vejam, os algarismos até são os mesmos, um 2 e um 7, e não é que alguém os inverteu em desfavor do primeiro-ministro, só pelo prazer sádico de lhe estragar a campanha? Porém, que ninguém se alarme, garantiu a senhora ministra das contas marteladas. Os números são assim, maus de facto, mas não têm efeitos práticos, parecem ser virtuais, a culpa é do Novo Banco e de não ter sido rifado a tempo das eleições, nada que não se resolva logo a seguir desde que os contribuintes paguem tudo enquanto os tentam convencer de que nada pagam
Isto no meio dos tráficos estatísticos com os desempregados e respectivas famílias e das miradas liquidatárias lançadas contra a segurança social, redundando tudo numa tragicomédia interpretada por burlescos canastrões para quem as pessoas são meros instrumentos, ora úteis ora descartáveis, à mercê das suas ambições.
Olhando esta triste e deprimente peça a partir da plateia, será que alguém ainda tem dúvidas sobre o que nos está reservado pelas performances do primeiro-ministro em exercício e dos seus comparsas ungidos pela excelsa e democrática pertença ao “arco da governação”?