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sábado, 15 de agosto de 2015

RACISMO À FLOR DA PELE


 
Os grupos declaradamente racistas e xenófobos do Reino Unido, como por exemplo o UKIP, não conseguiram transformar os seus milhões de votos em deputados, mas a mensagem segregacionista não se perdeu e foi tomada em mãos pelo primeiro-ministro David Cameron e respectivo governo. Reeleito de fresco, Cameron soltou a língua e escancarou o que lhe vai na alma a propósito da “ameaça” que a “praga” da emigração representa para a loira pureza britânica.
“Praga” foi a palavra escolhida pelo chefe do governo de Sua Majestade para citar o movimento de refugiados desejando entrar no Reino Unido, onde muitos têm familiares, a partir do porto francês de Calais. Autorizado pela franqueza do discurso do seu chefe, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Philip Hammond, assumiu essa preocupação de maneira mais abrangente, em nome de toda a Europa, durante uma entrevista à BBC. “A Europa não conseguirá proteger-se e preservar o seu estilo de vida e a sua estrutura social se absorver os milhões de imigrantes vindos de África”, disse. E logo a comunicação social tablóide e não só se sentiu encorajada a soltar os impropérios racistas, até agora tão dificilmente recalcados, para associar os refugiados e imigrantes a “pilhagens”, “marés de desordeiros”, “correntes de malfeitores” – enfim, a escalada verbal corresponde a uma desbragada perda de compostura, à libertação da natureza autêntica de quem nela participa e, por este andar, não tardará a passar à fase da acção repressiva e punitiva.
O reaparecimento da insolência racista através da Europa, observável em comportamentos como estes, da construção de vedações, redis e muros anti refugiados e também da instauração de governos de índole fascista, é inquietante.
O que torna ainda mais assustadora a proliferação destas manifestações de desassombro racista é a sua conjugação com a irresponsabilidade política dos dirigentes que as proferem. Enquanto se queixa da “praga” de refugiados, David Cameron defende como uma das panaceias para o problema a restauração da estabilidade política em países de onde chegam os imigrantes, citando explicitamente a Líbia, a Síria, o Iraque e o Afeganistão. Precisamente as nações onde ele mesmo, parceiros, antecessores e aliados instauraram o caos de onde fogem aqueles tudo arriscam, inclusive a vida, para chegarem à Europa. Isto é, queixam-se da “praga” e barricam-se contra ela os mesmos que a criaram. Os mais cegos dos cegos são os que não querem ver.
No caso de David Cameron e respectivo ministro dos Negócios Estrangeiros – que por sinal foi conselheiro avençado do governo do Malawi antes de se dedicar a altas cavalarias políticas – registe-se que tinham o racismo à flor da pele, de tal modo que nem precisaram que o problema assumisse dimensões exasperantes para gritarem o que lhes vai na alma. Os pedidos de entrada no Reino Unido nos primeiros meses deste ano foram da ordem dos 7500, cerca de quatro por cento dos registados em toda a União Europeia, número muito inferior ao de países como a Áustria, Suécia, França, Itália, Alemanha e da própria Grécia, onde o pedido de entradas foi 16 vezes superior. Um valor que representa, aliás, uma ínfima gota de água quando comparado com os refugiados sírios no Líbano (1,1 milhões, um quarto da população do país), na Turquia (1,8 milhões) ou na Jordânia (630 mil), países assim atingidos devido à irresponsabilidade de um governo fazedor de guerras como é o do Reino Unido – entre alguns outros aliados, claro.
Se a Europa “não consegue preservar o seu estilo de vida e a sua estrutura social”, como se queixa o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, então os principais responsáveis são os dirigentes políticos que tomaram conta dos países e instituições da União Europeia.
 
 
 

 

terça-feira, 21 de julho de 2015

CAMERON, OS SEUS PARCEIROS E A ESCRAVATURA


O Ministério britânico do Interior teve uma espécie de rebate de consciência. Uma ousadia propagandística insuficiente, tardia e que, no limite, tem o efeito perverso de uma prática enganosa.
Decidiu o aparelho policial e de segurança às ordens do senhor Cameron, por delegação de Sua Majestade, lançar uma campanha contra aquilo a que chamou a “escravatura dos tempos modernos”, campanha essa destinada a sensibilizar para os abusos contra os direitos humanos cometidos por redes que traficam pessoas para serem exploradas na prostituição, ou no serviço doméstico ou em alguns trabalhos clandestinos, designadamente em actividades rurais.
Este tráfico é uma realidade nua e crua em todos os países da União Europeia, e outros ditos civilizados; ora se o governo do senhor Cameron organiza uma campanha a propósito de tais aberrações, aparentemente manifesta o desejo de ir mais longe que todos os seus homólogos, os quais assobiam para o ar porque as suas preocupações são outras e bem mais importantes, por exemplo ajudar os credores a especular em liberdade com as dívidas soberanas.
Claro que o senhor Cameron se limita a uma campanha de sensibilização, como quem pede “meus senhores e senhoras, por favor sejam gentis, não explorem tanto essas pessoas, é chato e pode dar mau aspecto”. Combater de facto esses tráficos de escravos, mobilizando o sistema policial e de segurança para reprimir e eliminar tais práticas, é objectivo que não aparece nos horizontes do governo de Sua Majestade. O mais certo é que depois de esgotado o prazo de validade da campanha tudo continue na mesma e sejam marteladas mais umas estatísticas dando contas de supostos êxitos tão transitórios como esta inócua inquietação perante crimes abomináveis.
A campanha não passará, na verdade, de um exercício de propaganda. O tráfico de seres humanos que se pratica na União Europeia, e em todo o mundo dito civilizado, não é mais do que um fruto da mentalidade dominante, que coloca o lucro e os negócios acima das pessoas e dos direitos humanos. A “escravatura dos nossos dias”, para usar a expressão escolhida pelo Ministério britânico do Interior, não se resume ao funcionamento de redes clandestinas que comercializam pessoas para serem exploradas até aos limites das suas capacidades e resistências. As migrações não desejadas por quem é obrigado a sujeitar-se-lhes, por razões de sobrevivência, traduzem um tráfico encapotado, são uma forma de escravatura de sempre - e também de hoje. E que dizer do trabalho precário, dos despedimentos a eito, dos salários miseráveis e em redução permanente, da abolição de pensões e subsídios, das cargas horárias determinadas tão só pela ganância de quem as impõe, protegido pelas cumplicidades governamentais e legislativas? Tudo isto integra o lote das práticas de “escravatura moderna” que, além de não serem alvo de quaisquer denúncias ou campanhas governamentais, fazem parte dos comportamentos tolerados, encorajados e legislados pelos próprios governos.
O tráfico de pessoas para a prostituição, o serviço doméstico, a exploração nos campos caracteriza-se por afrontar deliberadamente as leis, ser clandestino e passível de combate policial, desde que haja vontade política e humanitária para isso. O facto de outras imposições próximas da escravatura como o trabalho sem direitos, a chantagem com o desemprego e, no fundo, “a liberalização do mercado de trabalho” se desenvolverem de acordo com as leis não as torna menos gravosas ou menos exploradoras. Pelo contrário, faz dos que as aprovam e permitem tão escravocratas como os traficantes de pessoas. Com uma agravante: institucionalizando essas práticas impedem que sejam combatidas ou alvo de campanhas oficiais, assegurando assim a imunidade e a impunidade aos donos “dos escravos dos tempos modernos”

A campanha do senhor Cameron é um ardil, porque a escravatura legal “nos nossos dias” é bastante mais insidiosa que a praticada ilegalmente.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

NATO E UNIÃO EUROPEIA A UMA VOZ



As ligações umbilicais entre a NATO e a União Europeia não resultam apenas do facto de 23 dos 28 membros da segunda serem igualmente membros da primeira. A NATO funciona, sem qualquer dúvida, como braço armado da União Europeia, comandado operacionalmente pelos Estados Unidos da América, num processo de fusão que os dirigentes de ambas as entidades fazem, aliás, questão de afirmar sem ambiguidades.
A afinidade dos objectivos estratégicos proclamados pela NATO, através da voz do seu secretário-geral, o ex-primeiro ministro norueguês Jens Stoltenberg, e da União Europeia, através da italiana Federica Mogherini, responsável pelas relações externas, transformou-se num afinado dueto.
Enquanto a NATO afirma que está a organizar-se para uma guerra em duas frentes – a Oriente contra a Rússia e no Mediterrâneo a pretexto da situação no Médio Oriente e da crise dos refugiados – a União Europeia assegura, Mogherini o disse, que os seus membros irão, a partir de agora, reforçar ainda mais os orçamentos militares, devido aos desafios securitários nas regiões banhadas pelo Mediterrâneo e às ameaças russas no Leste. Crise grega, estagnação e crise económicas persistentes, a União Europeia em 172º lugar no ranking mundial das taxas de crescimento económico? Não importa: as ameaças russas, dos refugiados esfomeados e das réplicas da guerra imposta na Síria são também razões mais do que suficientes para que não haja alternativa à austeridade.
Stoltenberg e Mogherini – que passou a ser figura omnipresente nas reuniões da NATO – afiançam que todos os esforços devem ser feitos para salvar a Ucrânia e a Geórgia das garras russas, ao mesmo tempo que é preciso instaurar um governo unitário na Líbia. O secretário- geral da NATO reconhece que as operações da aliança em 2013 foram um êxito na maneira como libertaram os civis da ditadura de Khadaffi, porém a situação não é satisfatória, pelo que tudo se conjuga para que tropas atlantistas voltem à Líbia, novamente com o protagonismo de países da União Europeia - França, Reino Unido e Itália, como há dois anos.
Na Líbia, as tropas da NATO irão encontrar pela frente milícias associadas ao Estado Islâmico, as mesmas que foram suas aliadas na guerra para derrubar e assassinar Khaddaffi.
Mas as alianças que parecem ser passado na Líbia são ainda presente na Europa Oriental. O New York Times reconheceu que três batalhões fundamentalistas islâmicos, dois constituídos por chechenos e um por tártaros, participam ao lado das tropas de Kiev, sustentadas pela NATO, e das milícias nazis, treinadas por esta aliança, na vaga de terror contra as populações do Leste e Sudeste da Ucrânia.
Por detrás destes batalhões não estão apenas a NATO e os nazis ucranianos, mas também o Estado Islâmico, uma vez que os mercenários que os compõem foram transferidos das hordas envolvidas na guerra civil síria. Para se ter uma ideia de como os mercenários islâmicos originários do Cáucaso têm peso no Estado Islâmico basta a informação de que o russo ultrapassou o árabe como língua dominante no comando da mais poderosa organização terrorista da actualidade – não incluindo os Estados terroristas, como é óbvio.
São ínvios, pois, os caminhos da NATO e da União Europeia, nos seus generosos e pacíficos combates pela democracia. E não se pense que o dueto formado por Stoltenberg e Mogherini afina formalmente pela direita encafuada no Partido Popular. O norueguês foi primeiro- ministro pelos trabalhistas; e a italiana integra o Partido Democrático, uma associação pouco recomendável que serviu para extinguir os velhos partidos Comunista e Socialista italianos, liderada por Mateo Renzi, esse inspirado primeiro-ministro que vê nas petroditaduras do Golfo a redenção da União Europeia.



quinta-feira, 11 de junho de 2015

DEMOCRACIA E DIKTAT


O G7, que já foi G8 e volta a ser G7 quando isso é da conveniência de quem o inventou, é um encontro das “grandes democracias” para fazerem o balanço de como se comportam todos os outros, democracias ou não, que recebem elogios, raros e sempre verbais, e sobretudo reprimendas, severas, contundentes, dolorosas. O G7 é, por assim dizer, um tribunal da democracia, que aplica leis que não são válidas para os seus membros porque, ungidos pela própria essência da democracia, estão acima de qualquer suspeita e controlo.
Desta feita as vítimas escolhidas para se sentarem no banco dos réus foram a Rússia – despromovida do favor que em tempos lhe facultaram de haver G8 em vez de G7 – a Grécia e a Síria. Previsível, como tudo o que é controlado pelos donos absolutos da democracia. Dantes havia também o Irão, mas isso agora é outra história, ou pelo menos assim se pensa, como se verá a partir do fim deste mês. Houve ainda uns segundos, suficientes creio, para que ficasse registada em acta a preocupação destes sete magníficos com o estado miserável em que se encontra o ambiente do planeta terra. Podemos ficar descansados: o tempo utilizado foi pouco mas aproveitado até ao milésimo de segundo: o G7 prometeu fazer tudo o que estiver ao seu alcance para aliviar o mundo dos efeitos do excesso de carbono na atmosfera através de acções que serão evidentes já amanhã, isto é, em 2050.
Mais urgente, muito mais urgente, como se compreende, é por o dedo no nariz da Rússia, aplicando-lhe novas sanções pelo que se passa na Ucrânia, onde o excelentíssimo tribunal dos sete ordenou que democracia e fascismo são uma e a mesma coisa e ai de quem desobedece. Novas sanções a Moscovo e “aprofundar” o desenvolvimento da Ucrânia, isto é, estabilizar a acção da junta nazi são, no entender dos sete, as soluções que tudo irão resolver. Até a senhora Merkel, de um país onde a economia sofre assinaláveis convulsões devido à ressaca das sanções a Moscovo, acha que sim, esse é o caminho e afinal as escudas que os espiões da NSA fazem aos seus telefonemas são lógicas porque os Estados Unidos e a Alemanha são “amigos inseparáveis” e os amigos nada têm a esconder.
Também a Grécia vai ter de entrar nos eixos, ameaça o G7. Já chega de o governo Tsipras andar a tentar fintar a troika, os mercados financeiros, todos aqueles que engordam com os sacrifícios de morte impostos aos gregos. A dívida é para pagar, a austeridade é para levar até às últimas consequências, os donos da democracia estão a perder a paciência com estas rebeldias anacrónicas de querer que os povos não sejam aquilo que estão condenados a ser: paus mandados do mercado e do seu tribunal da democracia, o G7.
A cimeira do G7 revelou também a impaciência dos seus membros por chegarem a mais uma reunião e, apesar de todas as suas ordens, o impertinente Bachar Assad continuar a ser presidente da Síria, com a agravante de ter sido reeleito pelos seus concidadãos. Por isso os sete decidiram reforçar a ajuda aos terroristas “moderados”, que por sua vez canalizarão esses apoios para quem de direito, o Estado Islâmico e a Al Qaida, inimigos públicos, amigos privados. Ou seja, o G7 insiste na receita de sempre, a que desfez em cacos o Médio Oriente, para que os cacos se desfaçam em caquinhos e então os senhores da região, democracias autênticas e puras como são as de Israel e Arábia Saudita, em concerto com o regenerado Irão e os Estados Unidos, possam impor a ordem, uma nova ordem.
E pronto, o G7 fez o que tinha a fazer, chegou a hora do retrato de família, provavelmente animado pelo presidente da Comissão Europeia, que leva muito a sério o seu papel de clown político e cerimonialista. O tribunal das democracias reuniu-se, o diktat ficou escrito, que o cumpra quem tem de cumprir, porque as sanções e as guerras são o caminho certo e certeiro para a paz. Assim vai o mundo.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

MENTES DOENTES


O presidente de turno nos Estados Unidos da América pretende instalar mísseis de médio alcance com capacidade nuclear no Reino Unido e, ao mesmo tempo que combina com Angela Merkel a imposição de novas sanções à Rússia, pede ao primeiro-ministro britânico que não permita a saída do seu país da União Europeia.
O imperador falou e deu ordens aos súbditos, que continuam a sê-lo mesmo que, aqui e ali, pretendam disfarçá-lo. O caso da chanceler alemã é flagrante: depois de fingir que tem política própria em relação a Moscovo acaba de explicar que a sua posição sobre o assunto é a norte-americana e fica tudo dito. Mesmo que tenha sido enxovalhada por simples funcionários de Washington a propósito da Ucrânia, mas isso já lá vai, desculpas aceites, tudo se esquece.
Moscovo informa que acompanha “de muito perto” estas movimentações. É natural, todas elas se dirigem, em primeira e última análise, contra a Rússia. Até porque as mentiras em tempos usadas por Washington, segundo as quais a instalação de equipamentos militares “defensivos” na Europa de Leste pretendiam ameaçar o Irão, tornaram-se inúteis. Os Estados Unidos e o regime de Teerão vão assinar um acordo dentro de dias cujo principal objectivo estratégico para o Pentágono é o de ficar com as mãos mais livres no Médio Oriente para poder reforçar o nível das ameaças contra a China e contra a Rússia. É o que está a acontecer sob os nossos olhos.
A instalação de mísseis nucleares de médio alcance no Reino Unido, virados contra a Rússia, fará com que Moscovo responda da mesma maneira, com armas viradas “para cá”. É um regresso ao passado nos episódios de corrida aos armamentos, o retorno a uma guerra fria que, nunca deixando verdadeiramente de existir, se reactiva em cima de um mundo repleto de guerras quentes.
Durante os primeiros anos deste século, Washington ainda deu a sensação de que o terrorismo internacional passaria a fazer as vezes da extinta União Soviética como argumento imperial para cometer ingerências onde lhe interessa, alimentar guerras para escoar stocks de armamentos ultrapassados, para por e tirar governos a seu belo prazer. Esse tempo já lá vai, até porque qualquer cidadão medianamente informado e que pretenda olhar o mundo com olhos de ver conhece as cumplicidades entre os Estados Unidos e o terrorismo internacional.
Tal como a União Soviética de antanho, a Rússia é o inimigo principal do império – em boa verdade a Rússia e os seus potenciais aliados militares, China e Índia. Foi sobre isto que incidiram os recentes encontros do senhor Obama, que passa mais tempo no espaço da União Europeia do que no seu país. E quando ele chega aos países da União Europeia não é para pedir, é para exigir a rogo de quem o fez presidente e como tal o sustenta, o complexo militar, industrial e tecnológico que governa os Estados Unidos e pretende governar o mundo, em “democracia”, claro está.
Por isso Obama veio dizer ao seu confrade Cameron, eleito de fresquinho, que prepare as bases para que nelas sejam instalados os mísseis nucleares norte-americanos e que se deixe de alimentar as dúvidas sobre se o Reino Unido deve ou não continuar na União Europeia. É do interesse dos Estados Unidos que a União Europeia continue inteira, estável e dócil, por isso que se deixe Cameron de falar em referendos sobre a saída ou não, que ainda podem dar mau resultado mesmo que o sistema eleitoral funcione de modo a evitar incómodos, mas nunca se sabe.
Dir-se-á: Cameron foi reeleito agora, porém o mesmo não poderá acontecer com Obama. Pois não – e o que interessa isso? A seguir virá um outro, com um dos dois rótulos regimentais, para fazer a mesma coisa, quem sabe se logo à partida agraciado com um Nobel para que tudo o que ele decida em prol da guerra seja apresentado como denodados esforços pela paz. Estando todos nós reféns destas mentes doentes.



quarta-feira, 13 de maio de 2015

AS SONDAGENS NUNCA SE ENGANAM


 
 
É oficial. Analisados ao mais ínfimo pormenor os dados das últimas eleições britânicas, por sua vez cruzados com actos eleitorais anteriores, por sua vez lidos em conjunto com previsões em desenvolvimento sobre as próximas consultas no espaço europeu, surgiu um axioma, digamos mesmo um dogma: as sondagens nunca se enganam. São mais ou menos como as estatísticas do crescimento económico, do desemprego, da confiança dos consumidores, do clima empresarial, do barómetro das famílias, do número de espirros por pessoa por minuto, mas ainda mais firmes, mais absolutas. Fixem bem: as sondagens nunca se enganam.
Quem pode enganar-se são os eleitores, o que é, no fim das contas, o mais natural. Errar é humano, não é? Já as sondagens, ancoradas no que há de mais avançado na ciência, na sociologia, na tecnologia, na politologia, na geopolítica, nos ciclos de humores comportamentais do arco da governação, não erram. Pura e simplesmente porque não existe hipótese de erro. Por isso são comentadas, interpretadas, expurgadas, analisadas como se representassem a vontade dos eleitores, o que, como se percebe, tem um efeito pedagógico e cívico insubstituível, porque os eleitores ficam a saber não apenas como se comportam mas como devem comportar-se quando forem chamados às urnas.
Acresce, para quem não está ao corrente destes delicados circuitos da moderna democracia, que os ciclos virtuosos formados pelas entidades sondadoras, as agremiações com vocação governativa e os deuses manes da comunicação traduzem como nenhuma outra conjugação o sentir, o pulsar da sociedade, os seus interesses e comportamentos, detectando e eliminando à nascença a margem de erro induzida pelo factor humano.
Poderá argumentar-se que neste ciclo virtuoso podem surgir conflitos de interesses, ou até comportamentos pouco recomendáveis, nada que seja inquietante. Por um lado, porque uma andorinha não faz a Primavera e, embora não se sabendo se a proposição é extensiva aos abutres – é provável que seja, por maioria de razão – a estrutura tem em si mesma, como atrás se explicitou, a capacidade para erradicar o defeito inerente à essência humana.
As sondagens são, portanto, infalíveis. Por isso, no interior da entidade com inquestionável autoridade que é o arco da governação, se prevê uma concertação de vontades no sentido de transformar as sondagens no barómetro único do poder, substituindo as eleições com vantagens para todos. As sondagens permitem conhecer, sem margem de erro, as tendências da sociedade à semana, ao dia, quiçá ao minuto, ao instante, garantindo que os governos terão ao seu dispor, a cada momento, as indicações de como devem agir em proveito de todos.
Já deduziram, por certo, que se é possível fazer sondagens ao minuto tal não é exequível com as eleições, processo moroso, anacrónico, poluente até. Evitando eleições poupa-se o trabalho e a sujidade suscitados pelos milhões de votos que vão directamente para o lixo, eleição após eleição – veja-se como tal fenómeno foi exemplar na recente consulta britânica – porque os eleitores se enganaram não apenas tentando iludir as sondagens como também ousando desestabilizar o próprio arco da governação.
No entanto, os factos provaram que as sondagens resistiram ao erro humano, o arco da governação soube aguentar o desafio e assegurou a estabilidade. Como se não houvesse eleições, apenas sondagens, assim se demonstrando, para memória futura, a inutilidade das primeiras.
E a vida continua. Austera, é certo, porque assim são os fados estipulados pelo insigne arco da governação para que um dia – esse dia virá, não tenham dúvidas – a bonança que agora pertence a uns poucos seja por todos repartida. Haja fé, as sondagens nunca se enganam.
 

 

terça-feira, 12 de maio de 2015

A CARTA


 
 
Dizem ilustres politólogos, esses afamados feiticeiros da modernidade neoliberal, que o senhor primeiro-ministro inglês, o janota Cameron, ganhou as eleições por causa de uma carta. Uma carta, vejam bem, coisa mais prosaica nestes tempos em que nem a NSA, tão entretida a chafurdar nos nossos e-mails, se lembraria de vasculhar porque nas caixas de correio nada mais se depositam, hoje em dia, que panfletos publicitários e contas para pagar. De qualquer maneira se os politólogos dizem que é uma carta é porque foi uma carta, afinal de contas nada nos deve surpreender na Inglaterra tão tradicionalista e aristocrática.
Uma carta infeliz, como são as cartas com vocação dramática, e sabemos quão dramáticos são os resultados das eleições, sobretudo para os eleitores que fazem a cruzinha vincando esperanças para instantes depois o seu boletim estar a caminho do lixo reciclável.
Uma carta escrita pelo artigo ministro trabalhista das Finanças, missiva parca em palavras, é certo, valendo porém, cada uma, um gong de ressonâncias com elevado dramatismo: “não há dinheiro!”. É verdade, não havia dinheiro no reino de Sua Majestade e todos sabemos que a culpa foi do malfadado subprime em terras do outro lado do Atlântico, onde os papéis requintados da mais nobre especulação foram aviltados, logo contaminados, pela mistura com os imundos pedaços de papel higiénico de uma ralé que não tem onde cair morta, embora a polícia apure cada vez mais a pontaria para lhe arranjar lugar.
Pois bem, ou pois mal, o ministro trabalhista das Finanças confessou que não havia dinheiro, coisa que, ao que parece, deve esconder-se de todos, principalmente dos adversários políticos. Porque, sabendo isso, o flamejante Cameron foi-se ao bolso dos contribuintes e como tem moeda para manobrar e muita família nas Américas, o que lhe permitiu mandar às urtigas as conspirações de Merkel, BCE & troikas, engendrou umas estatísticas jeitosinhas para as nobres gentes da City e voltou a ganhar agora as eleições. Os mesmos de sempre não darão por nada disso, continuarão a sobreviver com a carga de austeridade que há muitos anos vêm aguentando, mas como a comunicação, toda ela nas boas mãos da City, garante que as coisas estão melhores é porque estão melhores e não se fala mais nisso mas sim na linda princesinha recém-nascida.
Aqui entre nós quero crer que isso da carta não será bem assim, os ilustres politólogos que me desculpem. Ainda nos lembramos de em Portugal haver alguém com nome de rei mago, Gaspar, ao que consta, que não era rei mas era mago sim senhor, multiplicou a miséria com dotes muito mais milagreiros que os dos pães bíblicos, repetindo muitas vezes: “não há dinheiro!”. Que o diga o antigo ministro dos pastéis de nata, a quem Gaspar invectivava perguntando, sarcástico “qual das três palavras ‘não há dinheiro’ o senhor não percebeu”? Pois bem, Gaspar confessou, repetiu, e como recompensa foi promovido para o FMI, deixando maga Patalógica a limpar os bolsos e as contas bancárias dos portugueses até anunciar, qual Cameron, embora menos estilosa, “os cofres estão cheios!”. E assim ficaram todos felizes: os da City e os especuladores de muitas pátrias e sem pátria nenhuma que “ajudando Portugal” se ajudaram sobretudo a si mesmos, porque em sua direcção se esvaziam agora os cofres, escorrendo o leite e o mel sugados sem dó nem piedade aos portugueses e às portuguesas.
Moral da história. Não castiguem o antigo ministro das Finanças inglês, esse digno representante dos socialismos neoliberais que tanto encantam as “Cities” deste mundo. Arranjem-lhe um lugar no FMI, Gaspar chega-se para o lado, haverá espaço para todos os autores de boas obras. Ele apenas foi vítima do arreigado tradicionalismo britânico. Se em vez de uma carta dizendo “não há dinheiro” tivesse soltado um sound bite com o mesmo conteúdo em menos de nada seria um herói e não o vilão em que o transformaram. O problema não foi a mensagem nem o mensageiro: foi o meio. Modernize-se, homem, que isso passa!

domingo, 10 de maio de 2015

CHAMA-SE A ISTO DEMOCRACIA




Cada deputado conservador da elegante maioria absoluta que compõe agora o Parlamento de Sua Majestade custou 34244 votos de suor ao denodado Cameron, esse produto com a legítima e legitimada chancela da City. Parece justo, o homem conseguiu tirar da cartola à última hora um milagroso anúncio de crescimento económico e vai daí os eleitores recompensaram-no, driblando até as empresas de sondagens, onde, ao que consta, vão rolar cabeças, já não na Tower, felizmente apenas em sentido figurado.
Cada deputado do sempre aplicado, e agora sacrificado, trabalhista Ed Miliband custou-lhe um preço mais alto, 40290 votos e, apesar de ter ampliado a percentagem em 1,5 pontos, acabou por perder 24 deputados. Será porque os eleitores britânicos preferem os originais às imitações e conservadores neoliberais por conservadores neoliberais antes os legítimos como Cameron e não os herdeiros de Blair, o tal que acabou de vez com o trabalhismo nas ilhas e, em boa verdade, em todo o continente? Só eles saberão responder.
Cada um dos 8 deputados liberais democratas do infeliz senhor Clegg, agora despromovido de adjunto de Cameron para a vileza do anonimato, custou-lhe 301986 votos, 10 vezes mais que cada deputado do seu ex-chefe. É obra. Tanta generosidade para cumprir as ordens da exigente City, numa coligação de sacrifício e serviço privado, e a paga foi esta.
E que dizer do truculento Neil Farage, o homem que não tolera que os restos do Império tenham vindo desabar na insigne Metrópole, manchando e sujando a pura linhagem britânica? Um deputado custou-lhe 3881128 votos, quase quatro milhões de votos, 113 vezes mais que cada deputado do iluminado Cameron. É bem feito, dirão. Que não trouxesse para a arena política o culto do racismo, da xenofobia, que ainda assim lhe valeram quatro milhões de votos, 12,6%.
Infelizmente ele não foi castigado por isso. Infelizmente continua a ter uma base eleitoral distribuída pelo todo nacional que o encorajará a envenenar as mentalidades contra a imigração, contra as outras culturas e costumes. Ele, Neil Farage, como muitos outros (um deputado verde custou mais de um milhão de votos), foi vítima de um sistema eleitoral apresentado como o paradigma da pátria da democracia e que não é democrático, isto é, não respeita a vontade dos eleitores e deita milhões de votos para o lixo. E cada voto, em democracia, deve contar, deve estar espelhado na composição final do Parlamento.
Dir-se-á que cada deputado do Partido Nacionalista Escocês custou apenas 26 mil votos, menos ainda que os de Cameron, o que parece contrariar a tese de o sistema estar imaginado para dois partidos desde as origens, quando tudo se resumia a conservadores e liberais, depois substituídos estes pelos trabalhistas. De facto os nacionalistas escoceses tiraram proveito da óbvia concentração do esforço nas 59 circunscrições nacionais das 650 do universo eleitoral britânico, conquistando 95% dos lugares com a vontade expressa de 50% dos escoceses. Mais uma prova de que o sistema não é democrático e, a sê-lo, deveria ser dada imediatamente a independência à Escócia.
Chamam democracia a este sistema designado uninominal maioritário a uma volta, mas ele nada tem de democrático. O Parlamento não representa as vontades manifestadas pelo corpo eleitoral, transforma pouco mais de um terço dos votos (36,9% foi quanto tiveram os conservadores) numa maioria absoluta. Chama-se a isto “estabilidade”. Aliás, para que conste, ele foi inventado pelos conservadores britânicos para se garantirem no poder transformando maiorias simples em maiorias absolutas. Nos tempos que correm, caso não haja maioria absoluta, como os dois maiores partidos conseguem 87% dos lugares com 66% dos votos, e lêem ambos pela mesma cartilha económica, teremos uma espécie de partido único institucionalizado. Mais “estabilidade” não é possível.
Por isso, através dessa Europa, as castas políticas dominantes fundidas no neoliberalismo conspiram nos bastidores, como acontece em Portugal, para transformar o sistema eleitoral britânico, e o seu sucedâneo norte-americano, em prática única. Faltando ao respeito às vontades manifestadas por milhões de eleitores em nome da democracia e da “estabilidade”. Uma fraude.