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quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A “PERSONALIDADE” E AS PESSOAS


 
A revista norte-americana “Time”, ponta de lança da comunicação social ao serviço do regime económico, militar e político global, escolheu a Srª Merkel como a “Personalidade do Ano”.
Nada de novo, nada a estranhar, a figura certa para a decisão certa, tanto mais que, de acordo com a definição da revista, o critério da escolha assenta na influência exercida sobre os acontecimentos do ano, que tanto pode ser “boa” como “má” e vice-versa. Por isso, o principal rival da chanceler alemã no concurso foi o sanguinário chefe terrorista Al-Baghadi, líder do Estado Islâmico; e um dos seus antecessores, homólogo e compatriota contemplado com o galardão foi o próprio Adolf Hitler. Tudo nos conformes.
Creio não haver dúvidas quanto ao teor da influência da Srª Merkel que lhe terá valido tão subida honra no país onde os serviços secretos se têm dedicado a devassar-lhe a vida e os telefonemas. Talvez a “Time” tenha tido, por isso, um insólito rebate de consciência numa instituição onde a consciência não pode nem deve beliscar objectividades, arroubo esse susceptível de ter decidido o sprint final de tão cerrada corrida em desfavor do terrorista mais famoso da era pós Bin-Laden.
A Srª Merkel venceu e devem os súbditos europeus orgulhar-se com a decisão, vinda ela de onde vem. A Srªa Merkel, a mais fundamentalista entre os fundamentalistas do défice, a prodigiosa madrinha do Tratado Orçamental e outras medidas da União Europeia para meter na ordem os madraços que desafiam a prodigiosa ordem neoliberal, a chanceler que sem fazer a guerra pela via militar conseguiu vergar toda a Europa ao poder teutónico, coisa que nem Hitler alcançara com a sua máquina infernal de morte, enfim a chanceler que conseguiu agregar 27 Estados federados à Europa depois da compra da RDA por tuta e meia, sem que a União Europeia se assuma como federação, merece, sem dúvida, a honrosa capa da “Time” que também já pertenceu a Bin-Laden e Obama. Por “boa” ou “má” influência? Os mercados, os banqueiros e outros magnatas, os generais da NATO, os dignitários fascistas ucranianos e de outros tugúrios europeus, os trauliteiros e mentirosos que depois de arrasarem o Afeganistão, o Iraque e a Líbia insistem em fazê-lo na Síria, destacadas figuras pacifistas e humanitárias como o Sr. Netanyahu de Israel não têm quaisquer dúvidas sobre a bondade e a clarividência da senhora. Que importam as vagas de refugiados provocadas por guerras que ela contribui para sustentar, mesmo violando a Constituição do seu país? Que mal tem a expansão da pobreza, da miséria e da humilhação na Europa atrelada à austeridade que ela cultiva com o amor de quem extermina as ervas daninhas no seu bem-aventurado jardim? A “Time” nada tem a ver com isso, o seu jornalismo zela apenas pela ordem estabelecida – onde o terrorismo, até o intelectual, cabe a preceito – no fundo a tecnocracia da influência nada tem a ver com o “bem” ou o “mal”. Não sabemos nós, por experiência própria, que o “mal” pode servir de “bem” e vice-versa, tudo dependendo das circunstâncias e dos interesses, digamos, mais influentes?
A “Time” limita-se a escolher a “Personalidade” e não tem a ver com o desprezo dessa “Personalidade” em relação às pessoas. Isso não conta para nada, tal como a opinião dos leitores da própria “Time”, que assim aprendem a comer e calar como democraticamente deve ser.
Para que conste: no processo que culmina com a capa expondo a “Personalidade do Ano”, que anteriormente se chamava o “Homem do Ano – há que acompanhar os aggiornamenti ditados por essas coisas modernas de género – os leitores da “Time” são chamados a escolher os seus ou as suas favoritas. Neste ano, por exemplo, nenhum dos nomes mais votados pelos leitores foi incluído pelos serviços de selecção da “Time” na ilustre “short list” final que conduziu à coroação da Srª Merkel.
O mais votado dos leitores foi Bernie Sanders, um dos candidatos democráticos à Presidência, Senador pelo Estado de Vermont. Bernie Sanders que defende um serviço de saúde universal e gratuito nos Estados Unidos - achando muito curta a reforma de Obama; que foi contra as guerras desde o Vietname ao Iraque, que denuncia as cumplicidades do poder norte-americano com os grupos terroristas, que defende uma reforma da comunicação social de modo a que deixe de ser um mero poder dos grandes grupos económicos, que apoia a energia limpa e se bate contra o aquecimento global, que alerta contra os perigos dos transgénicos, que contesta a política de golpes e de “quintal das traseiras” na América Latina, que tem o atrevimento de sugerir uma auditoria ao Banco Central (Reserva Federal, FED).
Mas em que mundo julgam estar os leitores da “Time” que sugeriram maioritariamente este Bernie Sanders? Um mundo para as pessoas ou o mundo de “Personalidades” como a Srª Merkel ou o Sr. Al-Baghdadi?  
 

domingo, 6 de dezembro de 2015

PETRÓLEO DE SANGUE


Camiões cisterna na fronteira entre a Síria e a Turquia
O chamado Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh – um dos muitos heterónimos da rede terrorista mundial de índole “islâmica” – é uma espécie de inimigo público nº 1, autor putativo de toda e qualquer acção de violência que seja praticada, monstro de mil e uma cabeças que atingiu uma dimensão criminosa dir-se-ia imbatível e que, para admiração geral, nasceu do nada, ninguém apoia, nem sustenta, nem financia, nem arma, nem protege, nem dele se serve. O terror dos terrores nasceu por geração espontânea, de um ovo vazio, de um ventre estéril.
A Al-Qaida, por exemplo, teve um embrião, um lugar de gestação e nascimento, procriadores conhecidos. Fale-se em CIA, MI6, serviços secretos paquistaneses e sauditas, Afeganistão, Bin Laden e resumem-se os primórdios da rede que haveria de simbolizar o terrorismo mercenário “islâmico” até à emersão relampejante do Estado Islâmico.
Em relação a este sabe-se, por exemplo, que o general norte-americano Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, acusa os próprios Estados Unidos e Israel de terem as mãos sujas na sua origem. Clark deve saber do que fala, não só pelo cargo que ocupou como pela folha de serviços pouco recomendável no processo de invenção do Kosovo.
Digamos que estas informações, mesmo significativas, são avulsas: faltam dados globais que ajudem a sistematizar o processo de criação e desenvolvimento de uma seita terrorista que conseguiu avançar num ápice do Leste da Síria quase até Bagdade, a capital do Iraque, ao mesmo tempo que se coligava com os nazis ucranianos para tentarem destruir o Leste da Ucrânia e “libertar” a Crimeia, ao mesmo tempo que pretende desmantelar a Síria, manter o caos na Líbia, solidificar o “califado” proclamado em vastos territórios sírio e iraquiano, onde controla o generoso maná petrolífero de Mossul, “capital” dos curdos do Iraque.
Petróleo, uma palavra-chave para se conhecer o ISIS, como agora se vai sabendo no meio de um ruído de comunicação gerado para que a realidade se dissolva na mentira, como muitas vezes acontece neste mundo quando os assuntos são problemáticos e as cumplicidades incómodas.
O ISIS ou Estado Islâmico vive e desenvolve-se a petróleo, petróleo de sangue tendo em conta as suas actividades. Há elementos suficientes para não existirem dúvidas de que os seus principais financiadores são petroditaduras como a Arábia Saudita e o Qatar, íntimos aliados militares, políticos e económicos de entidades que se consideram faróis da civilização como os Estados Unidos da América e a União Europeia.
Sabe-se agora também, desde que as tropas russas empenhadas em salvar a Síria como país o denunciaram com provas abundantes, que o ISIS ou Estado islâmico se financia através de contrabando de petróleo que “lava”, por exemplo, através da chancela oficial da região autónoma do Curdistão iraquiano.
É surpreendente que não tenhamos sabido deste processo antes de os russos se envolverem na Síria, porque os movimentos deste contrabando nada têm de discretos aos olhos da nuvem de satélites. Envolvem comboios de 8500 camiões cisterna por dia em direcção a portos e refinarias da Turquia – membro da NATO como todos sabemos – entrando neste país a partir de regiões ocupadas pelo Estado Islâmico na Síria e sem qualquer controlo fronteiriço das autoridades turcas. Na Turquia, o extenso e quotidiano desfile cai sob o controlo da mafia do “dr. Farid”, de dupla nacionalidade grega e israelita, e de outras mafias de outros drs. Farids, seguindo depois a mercadoria para o mundo a partir de portos israelitas e turcos. Ao que parece, segundo o Financial Times, Israel assegura assim cerca de três quartos das suas necessidades energéticas. Cada barril de petróleo clandestino é traficado a cerca de metade do preço dos mercados – até estes são burlados – proporcionando ao Estado Islâmico receitas por baixo de 3,2 milhões de dólares por dia, quase cem milhões por mês, mil e duzentos milhões por ano. O movimento envolve também navios de bandeira japonesa da empresa BMZ pertencente a Bilal Erdogan, filho do presidente da Turquia Recepp Tayyp Erdogan, e a outros membros da família. Acresce que parte do petróleo roubado na Síria e no Iraque transita através da região de Sanliurfa na Turquia, onde funcionam campos de treino da Al-Qaida e do Estado Islâmico e existe também um hospital clandestino para tratar terroristas feridos em combate na Síria, por sinal gerido pela senhora Summyie Erdogan, filha do presidente turco e irmã de Bilal. A família presidencial de Ancara, que a União Europeia encarregou agora de travar o fluxo de refugiados em troca de mais uns milhares de milhões de dólares e da promessa de adesão à confraria, desmente a pés juntos estas realidades, tal como negou ter negócios ilegais e acolher frequentemente o príncipe saudita conhecido por ser o tesoureiro da Al-Qaida. Facto mais do que confirmado pela comunicação social turca e que esteve na origem de um saneamento brutal nos aparelhos judicial e policial, vitimando quem tinha as provas e os responsáveis pelas investigações e processos.
Ocorrendo estas práticas terroristas sob o chapéu de um membro da NATO não será difícil perceber as razões pelas quais o tráfico de petróleo em favor do Estado Islâmico tenha sido poupado durante mais de um ano pela “guerra” que os Estados Unidos dizem conduzir contra esse mesmo grupo terrorista. Até ao dia em que Moscovo demonstrou os factos durante a cimeira do G20 e o Pentágono decidiu agir pontualmente, tal como a França fez a seguir aos atentados de Paris, violando aliás a soberania síria porque ambos o fizeram à revelia do governo de Damasco.
Porque os resultados das investigações às vezes também são como as cerejas, conhecem-se agora outras fontes de financiamento do Estado Islâmico: o tráfico de escravos sexuais, assaltos a bancos da Síria e do Iraque, mercado negro de produtos cultivados nas terras férteis que confiscou no interior do “califado”. Mas as chaves da sua existência e da sua actividade são o petróleo de sangue em conjunto com enredadas cumplicidades onde avultam pessoas e entidades que se miram ao espelho e nos ecrãs como gente de bem e assim entendem defender o nosso “civilizado modo de vida.”
 

domingo, 29 de novembro de 2015

TERRORISMO TURCO COM A COBERTURA DA NATO



Os acontecimentos relacionados com o derrube de um avião militar russo em território sírio pela Força Aérea da Turquia já estão esclarecidos, embora as informações relevantes sejam escondidas de grande parte do mundo pela comunicação social dominante.
A saber: o caça F-16 turco que abateu o bombardeiro russo SU-24 durante um ataque a alvos terroristas no Norte da Síria internou-se dois quilómetros no espaço aéreo sírio, onde permaneceu durante um minuto e 17 segundos; O SU-24, atingido na traseira por um míssil ar-ar quando picava para a segunda fase do ataque contra território controlado por terroristas, violou durante 17 segundos, e “de raspão”, o espaço aéreo turco; os pilotos russos do SU-24 foram alvejados por terroristas já depois de se terem ejectado de paraquedas, comportamento que viola as Convenções de Genebra. Um deles morreu. Não se conhecem posições de dirigentes de países da NATO condenando a agressão.
A NATO conhece estes dados até ao mais ínfimo pormenor, o que não impediu a organização de se ter declarado solidária com o lado turco, posição que, levada às últimas consequências na análise do comportamento da Turquia na guerra de agressão contra a Síria, comprova mais uma vez a cumplicidade da Aliança Atlântica com o terrorismo.
Mantenhamo-nos ainda nos factos relacionados com o derrube do avião russo, episódio onde os Estados Unidos se abstiveram de confirmar a versão turca de violação do seu espaço aéreo, o que é significativo. Nos termos do memorando de 26 de Outubro estabelecido entre Washington e Moscovo sobre os bombardeamentos contra alvos do Estado Islâmico, a Força Aérea russa informou o Pentágono, com 12 horas de antecedência, sobre a missão que iria realizar no Norte da Síria. As informações incluíram, designadamente, hora de descolagem dos SU-24 (9 e 40), altitude prevista (entre 5600 e 6000 metros), regiões a atingir (Chefir, Matiou e Zahi), que confinam com a região turca de Hatay e onde actuam grupos terroristas turquemenos (ditos “moderados”), da Al-Nusra (Al-Qaida) e do Estado Islâmico.
Os dados apurados através das análises de radares e canais de rádio permitem concluir o seguinte: os caças turcos saíram às 8 e 40 de uma base a cerca de 400 quilómetros do local da operação russa e manobraram de acordo com as informações que tinham sido transmitidas por Moscovo ao Pentágono; isto é, a operação turca serviu-se dos dados fornecidos pela Rússia no âmbito da confiança e coordenação no combate ao terrorismo. Além disso, nos canais de comunicação via rádio, incluindo os exclusivos que funcionam no âmbito da cooperação antiterrorista, não há registo de qualquer advertência turca contra os aviões russos antes dos disparos. Quando os dirigentes da NATO se reuniram a pedido da Turquia tinham conhecimento destas informações e, no entanto, colocaram-se do lado agressor.
Este episódio é um pouco mais do mesmo que tem sido a agressão da NATO contra a Síria, pelo que a responsabilidade por factos de tal gravidade deve ser assacada, um por um, aos responsáveis de cada Estado membro da Aliança Atlântica.
Um ataque contra uma esquadrilha que bombardeava grupos terroristas infiltrados na Síria só pode ser interpretado como um apoio ao terrorismo pelo regime turco e seus cúmplices.
Acresce que a maior parte dos mercenários destes grupos terroristas estão na Síria depois de terem entrado clandestinamente a partir de território turco, onde recebem financiamento, treino e armas com o patrocínio dos serviços secretos da Turquia e de outros Estados da NATO. Caso houvesse dúvidas, basta repescar a recente declaração do presidente francês, François Hollande, pedindo o encerramento das fronteiras entre a Turquia e a Síria para que conter as infiltrações terroristas.
Recorda-se que este mesmo regime turco, que acaba de falsificar eleições gerais para continuar o processo gradual de transformação em ditadura fundamentalista islâmica, tem sido objecto de manobras de charme da União Europeia e receptáculo de milhares de milhões de euros sugados às vítimas da austeridade para que a Turquia impeça refugiados de entrarem no espaço da União, assim contribuindo para que não se manche ainda mais a pureza do nosso “civilizado modo de vida”.
Somado tudo isto não é difícil detectar a teias de cumplicidade entre a União Europeia, a NATO e a corrupta família do presidente Erdogan, que encabeça o regime. Família que, conforme se provou através de escândalo recente, tem laços estreitos com o príncipe saudita considerado o “tesoureiro da Al-Qaida”, para o qual são encaminhadas ilegalmente verbas resultantes tanto de mercado negro como de actos de abuso de confiança de que são vítimas os contribuintes turcos.
Por falar em mercado negro, fica também a informação de que existem provas abundantes de que um dos filhos de Erdogan, conhecido pelo petit nom de “Bilal”, é o coordenador do contrabando de petróleo que representa a principal e milionária fonte de receitas do Estado islâmico.
A existência de cumplicidades entre a NATO e o terrorismo dito “islâmico” são tantas e tão diversificadas que só não as vê quem não quer ver, apesar das tentativas para as negar e mistificar através de mil e uma formas de censura e propaganda.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

TERRORISMO VERBAL




 
O presidente dos Estados Unidos da América aconselha o presidente da Rússia a “focar-se” nos ataques ao Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh, ou Al-Nusra ou Al-Qaida; o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, propôs que haja uma frente internacional contra o terrorismo.
Disseram-no com ar de grandes estadistas possuidores das soluções para os males do mundo.
Barack Obama queixoso pelo facto de as forças aéreas e navais russas actuando na Síria parecerem “mais preocupadas” em defender o regime de Assad, ao que diz sem poupar os alibis bonzinhos de Washington, Paris, Londres e NATO - a meia dúzia de terroristas “moderados” que servem de interface para abastecer com armas, munições e dólares os terroristas “extremistas”. “Moderação” em que deve confiar-se piamente, sobretudo sabendo que um dos principais fundadores operacionais do grupo foi o chefe em exercício do Estado Islâmico no Magrebe, Abdelhakim Belhadj.
Netanyahu, por seu lado, convencido de que o mundo não conhece a sua generosidade para com o Estado Islâmico ao ceder-lhe os Montes Golã – ocupados à Síria – como rectaguarda, ao facultar-lhe hospitais israelitas para cuidar os terroristas feridos com maior gravidade.
Procurei uma qualificação adequada à gravidade e à irresponsabilidade destas declarações de dois aliados, que se confessam unidos haja o que houver, e só encontro uma: terrorismo verbal. Porque as suas palavras não passam de manobras de diversão que desviam as atenções da essência do terrorismo; porque mentem sobre a realidade gerando propaganda que, em última análise, serve o terrorismo; porque pretendem fazer crer que estes dois seres nada têm a ver com os grupos sanguinários que fingem combater. Obama e Netanyahu aconselham soluções mas continuam a ser a parte essencial do problema.
As forças militares russas colaboram com as forças armadas sírias no combate ao terrorismo? Não existe outra maneira legal de o fazer nos termos da Carta da ONU. A Síria é um Estado soberano, não é um território neutro onde qualquer um pode fazer operações militares quando e como lhe apetece, muito menos invocando argumentos distorcidos. Como é o caso do Pentágono que directamente – agora com tropas no terreno – ou por interpostos terroristas afirma ter como objectivo combater simultaneamente o Estado Islâmico e Bachar Assad, patranha em que nem os autores acreditam porque sabem, melhor que ninguém, que o objectivo é mudar o regime sírio e desmantelar o país. Por isso a “guerra” que Washington e aliados têm alegadamente conduzido contra o Estado Islâmico há mais de um ano deixou os terroristas mais fortes, mais armados, mais endinheirados; à Rússia, porém, bastou pouco mais de um mês para destruir centenas de centros de comando e outros alvos estratégicos do Daesh, libertar aldeias, vilas e aeroportos, estando agora em vias de cortar o eixo terrestre que garante a ligação terrorista entre a Turquia e o Iraque. Até a França, a duras penas, é certo, parece entender que essa é a maneira certa e credível de combater os grupos mercenários, pelo menos tem-no feito nos últimos dias. Sem complexos de coordenar esforços com Moscovo, ou de que tais operações sustentem Assad, na verdade um dos ódios de estimação de Paris. Aliás, a nova opção francesa parece ser a mais eficaz e certeira. Porque, segundo fontes citadas pela imprensa dos Estados Unidos, o ataque gaulês contra o Estado Islâmico lançado no dia seguinte ao dos atentados de Paris, feito ainda em coordenação com sistemas de informações norte-americanos, destruiu várias clínicas e um museu na cidade de Raqqa como sendo assustadores alvos terroristas.
O Obama dos conselhos e acusações à Rússia é o mesmo que contribuiu para destruir a Líbia, que desencadeou a guerra civil na Síria com recurso a mercenários de todos os matizes, que tornou praticamente irreversível o desmantelamento do Iraque. E que agora, de braço dado com Netanyahu, tolera limpezas étnicas no norte do território sírio para criar aí um Estado curdo artificial que lhes garanta o controlo dos manás petrolíferos de uma região que se estende ao país que já se chamou Iraque.
Quanto a Netanyahu e aos seus apelos contra o terrorismo, não há que gastar muito espaço. O mundo sabe que o seu nome se tornou um sinónimo desse mesmo terrorismo.
 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

PERFIL DE UM TERRORISTA DOS NOSSOS DIAS


Recebendo homenagens do senador McCain, dos amigos americanos
 
As informações estão em poder da Interpol. Deitar-lhe a mão nestes tempos em que as leis e as fronteiras não são problema para assaltos a vidas, soberanias e privacidades, seria apenas uma questão de, digamos, “vontade política”, não é assim que costuma invocar-se? O seu paradeiro não é certamente segredo para a miríade de serviços secretos que apregoam defender “o nosso modo de vida”: é a Líbia, depois de tão bem democratizada pela NATO, onde ele exerce altos cargos políticos e operacionais no governo dominante, o mesmo que invoca para si próprio “o islamismo puro”.
Nome: Abdelhakim Belhadj. A história da sua vida dava um filme daqueles bem a gosto de Holywood, tanto mais que o seu currículo – em poder da Interpol, repito – corresponde às imagens dos rambos de séries A, B ou C cujos feitos heróicos coincidem com as vontades objectivas dos Estados Unidos e de Israel, países onde os fins e os agentes escolhidos para os executar justificam quaisquer meios e o recurso a psicopatas sanguinários.
Sabe a Interpol que Abdelhakim Belhadj é, no presente, o chefe do Estado Islâmico, ou ISIS ou Daesh, no Magrebe e que, operacionalmente, criou e orienta campos de treino de mercenários assassinos na Líbia, concretamente em Derna, Syrte e Sebrata, além de um escritório do ISIS em Djerba, na Tunísia.
Antes disto, Belhadj chefiou os terroristas do Grupo Islâmico Combatente na Líbia (GICL), que em 2007 mudou de nome para Al-Qaida, mais sintonizado com os tempos. Por quatro vezes, entre 1995 e 1998, tentou assassinar Khadaffi a mando do MI6, os serviços secretos ao serviço do terrorismo de Estado britânico. Perseguido na Líbia mudou-se para o Afeganistão, onde se instalou e agiu ao lado de Ussama bin-Laden, o qual dispensa apresentações.
Como a polícia espanhola suspeita de que foi um dos mandantes do atentado ferroviário em Madrid Atocha, em Março de 2004, foi detido logo a seguir na Malásia. Como se percebe, não terá sido difícil identificá-lo e prendê-lo, porque meia dúzia de dias e milhares de quilómetros mediaram entre crime e captura. Passou então maus bocados numa prisão secreta da CIA para onde foi transferido e onde ficou alojado para experimentar as famosas técnicas de tortura – “condicionamento de comportamento”, chamam-lhe nos Estados Unidos – do professor Seligman, métodos de cujas provas a CIA tentou desesperadamente impedir a divulgação.
Abdelhakim Belhadj restabeleceu-se depressa: para ele não se seguiram penas eternas no campo de concentração de Guantanamo, também ele eterno se a este Obama se sucederem outros obamas, coisa mais do que provável. É verdade que ainda foi extraditado para a Líbia, através de um acordo entre os Estados Unidos e o regime de Khadaffi, onde voltou a ser torturado, dessa feita às mãos do MI6 que antes servira. Nestas coisas, a CIA e a sua irmã MI6 são muito ciosas, separam as águas, cada uma quer fazer a sua tarefa ainda que repetindo-se.
Khadaffi libertou-o em 2010, no quadro de uma “reconciliação nacional”, e mal teve tempo para se arrepender. Abdelhakim Belhadj viajou para o Qatar e no ano seguinte estava à frente de grupos de mercenários que, ao lado e protegidos pelos bombardeamentos da NATO – França e Reino Unido, principalmente – derrubaram e assassinaram Khadaffi. Como recompensa pelos serviços prestados, e por recomendação na NATO, o Conselho de Transição nomeou-o governador militar de Tripoli, a capital.
Belhadj não aqueceu o lugar. Ainda teve tempo, porém, para exigir e obter desculpas dos Estados Unidos e do Reino Unido pelas sevícias sofridas noutros tempos, e o que lá ia lá foi. Outras tarefas estratégicas o aguardavam. Partiu em finais de 2011 para a Síria, onde foi um dos principais fundadores do Exército Livre da Síria, os famosos “moderados” tão queridos da senhora Clinton, da NATO, da União Europeia - com destaque para a França - e dos regimes fundamentalistas do Golfo, Arábia Saudita à cabeça. O objectivo era derrubar Assad, mas Assad resiste e já lá vão mais de 250 mil mortos, milhões de refugiados e um país destroçado, massacre cujas responsabilidades nenhum intervencionista ilegal e ilegítimo assume.
Sempre sem perder tempo, Abdelhakim Belhadj regressou à Líbia natal, onde fundou um partido governante, a maneira que encontrou, num cenário de caos, para instalar os terroristas islâmicos no poder em Tripoli.
Na qualidade de figura de proa na Líbia, provavelmente já na posição de chefe do Estado Islâmico no Magrebe, que a Interpol reconhece, Abdelhakim Belhadj foi recebido em 2 de Maio de 2014 no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Paris, tutelado por Laurent Fabius, ministro de Hollande e também um incondicional amigo de Israel.
 Laurent Fabius, exactamente: que é ainda o ministro dos Negócios Estrangeiros de Hollande nestes dias em que continuam a sangrar as feridas abertas pelo assalto às vidas dos parisienses, ao que dizem cometido pela organização de que Abdelhakim Belhadj é um dos chefes máximos.
As informações sobre este terrorista-modelo dos nossos dias e o seu currículo estão nas mãos da Interpol. “Estamos em guerra”, proclama o presidente Hollande com os acenos concordantes do chefe da sua diplomacia. Vamos então esperar pelo que se segue, para ver o que acontece.
 
 

sábado, 14 de novembro de 2015

A MATANÇA CONTINUA



Paris, noite de 13 de Novembro de 2015; depois de Paris em Janeiro de 2015, Nova Iorque, Madrid Atocha, Líbano centenas de vezes, enquanto se arrastam as tragédias da Palestina, Afeganistão, Síria, Iraque, Líbia, Iémen, Egipto, Somália, Mali, Nigéria. A matança continua através da mais bárbara das formas de guerra, a que vitima preferencialmente civis, famílias nas suas casas, cidadãos nos seus momentos de lazer, trabalhadores nas suas actividades, camponeses nas suas terras, crianças e professores nas escolas, doentes, médicos e enfermeiros nos hospitais, socorristas nos escombros. Guerra cega, selvática, conduzida por governantes, traficantes, negociantes da morte, impérios económicos e financeiros, militares, paramilitares, mercenários movidos a dinheiro, também marionetas da intoxicação religiosa e ideológica. Uma guerra sem quartel onde conceitos trapaceiros e expansionistas de democracia se combinam com o irredentismo da fé e a ganância fundamentalista dos agiotas, umas vezes em aliança, outras em dissidência, mistificação sanguinária onde os “chocados” de hoje, os “horrorizados” de ontem podem ser os algozes de Gaza, de Alepo, My Lai ou Haditha, Odessa, Sabra e Chatila, Kandahar ou do hospital de Kunduz, Tripoli ou Bahrein.
Em que se distinguem os massacres de sexta-feira em Paris e as matanças recorrentes em Gaza? O terror à solta em Abu Ghraib, Kandahar ou as bombas sobre o hospital de Kunduz e as chacinas de Odessa, Nova Iorque, no Charlie Hebdo ou quotidiana nas águas do Mediterrâneo? Que não se responda em função da dimensão, da cobertura mediática, do tom da pele ou do grau de “civilização” das vítimas. Uma morte é uma vida humana que se perde, a vida de alguém sem qualquer responsabilidade nas acusações invocadas, nos alibis expostos para eternizar a carnificina global, para atordoar a comunidade mundial através do terrorismo, a mais ignóbil das formas de violência.
Escutámos as primeiras reacções ao drama da noite parisiense: como se o fundamental fosse conhecer quem reivindica a autoria dos crimes, a que horas e de que maneira o faz. Reacções onde se exige mais segurança, mais espionagem sobre os cidadãos globalmente espiados, mais investimento em armas e exércitos, mais limitações à vida quotidiana e aos movimentos de quem já sofre as agruras da vida em crise permanente, em suma, mais guerra sobre a guerra. E poucas palavras ou simples alusões de raspão sobre as cada vez mais comprovadas colaborações entre o radicalismo islâmico e o fascismo, patentes no atentado contra o Charlie Hebdo e, na Ucrânia, na coligação armada para “libertação” da Crimeia; ou invocações por alto, quase sempre invertidas no contexto, das situações na Síria, no Iraque, na Líbia
Bem alto na trágica noite parisiense, o secretário-geral da NATO mandou dizer que o terror não vencerá a democracia. Belas e promissoras palavras, pensarão os incautos ou quem ignora a responsabilidade institucional de quem assim fala nas tragédias em curso na Síria, no Afeganistão, na Líbia, na Ucrânia, na multiplicação de muros e barreiras por esta Europa afora.
Depois chegou a reivindicação: o Estado Islâmico, ou Daesh, ou ISIS, ou Al Qaida, ou Al Nusra, ou isto, aquilo ou aqueloutro, grupos financiados por entidades estatais de países da NATO, treinados em campos criados em países da NATO, como a Turquia, ou aliados da NATO como a Jordânia, armados e sustentados de mil e uma maneiras por íntimos da NATO como a Arábia Saudita, o Qatar, Israel. Aqui avulta o sentido humanitário do chefe do governo israelita, que enquanto planeia os próximos ataques a Gaza cede o território sírio ocupado dos Montes Golã para acoitar os terroristas do Estado Islâmico – os que se dizem autores da selvajaria de Paris - e oferece os hospitais israelitas para tratar os mercenários desse bando que forem vítimas da “ditadura bárbara” de Assad. O mesmo chefe de governo, Netanyahu, que foi dar o braço ao presidente Hollande na manifestação encenada por ocasião do Charlie Hebdo e que agora está, como não podia deixar de estar, entre os mais “chocados” e horrorizados”.
Por falar em François Hollande, um dos principais titulares dos “amigos da Síria” inventados em Washington, atrás dos quais se escondem Estado Islâmico, Al Qaida, Al Nusra e os famosos “moderados” – todos eles brilhando como estrelas reluzentes do terrorismo internacional –, ficámos a saber que por causa da situação teve de cancelar a deslocação à reunião do G20, um desses vários “gês” que nos governam sob as ordens dos mistificadores da democracia. Reunião essa na Turquia, país onde ficou demonstrada a falsificação das recentes eleições gerais para reforço da ditadura islamita e que tem servido de base operacional da NATO e de grupos terroristas – entre os quais o Estado Islâmico – para as guerras impostas à Síria, Líbia e Iraque.
Assim sendo, não tenhamos ilusões: a matança continua e irá continuar porque há quem lucre com ela, parasitas do ser humano, vampiros de sangue humano.
 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NATO ATACADA NO SISTEMA NERVOSO


 
Depois de ter afirmado pelo menos 16 vezes que jamais enviaria tropas para o terreno na Síria, o presidente dos Estados Unidos decidiu remeter um grupo de operações especiais para o norte deste país. Pouco tempo antes, a mesma ordenança do complexo militar e industrial transnacional dera outro dito por não dito ao anunciar que afinal as tropas da NATO vão continuar a ocupar o Afeganistão. A explicação foi a mesma para ambos os casos, também escutada da mesma boca não 16 mas algumas centenas de vezes: ajudar os “moderados” contra os terroristas.
Especula-se muito sobre o que estará por detrás destas mentiras da Casa Branca, também apresentadas como “mudanças de opinião” ou, de acordo com os porta-vozes do presidente, decisões que em nada violam os compromissos anteriores, uma vez que se trata de tropas que não irão entrar em combate.
Deixemos as especulações para os especuladores – e eles não faltam usando mil e uma línguas – e vamos a alguns factos no terreno, nos ares, ou até no ciberespaço, para sermos abrangentes.
Os agentes de “operações especiais” dos Estados Unidos – digamos também da NATO, sem receio de cometer qualquer imprecisão – irão para o Norte da Síria, prevendo-se que possam desenvolver acções transfronteiriças no que resta do Iraque, havendo consultas com o governo de Bagdade sobre essa possibilidade.
No Norte da Síria, a parceria expansionista formada pelos Estados Unidos e Israel, em colaboração com o regime fundamentalista turco, está a criar um “Estado Curdo” em território árabe, a exemplo do que fez através da invenção do “Sudão do Sul”, com os excelentes resultados humanitários à vista de todos. A amputação do território sírio pelo norte é um velho objectivo de Israel – por questões “militares e de segurança”, como sempre – e está em marcha através da colonização curda, a partir do Iraque e da Turquia, de um território que excede em muito o da minoria de curdos na Síria. A violência contra os não-curdos já começou, tendo entre as vítimas os cristãos assírios, mas presume-se que a chegada dos tropas especiais da NATO não seja para a evitar, mas sim para reforçar a partição da Síria com carácter de urgência, no âmbito da bem conhecida política de factos consumados.
No entanto, recorrendo a um teórico benefício da dúvida, poderá admitir-se que o lançamento de tropas no terreno tenha como objectivo reforçar o suposto combate norte-americano contra o terrorismo do Estado Islâmico, ou Daesh, ou ISIS. Será? O que acrescentará um grupo de operações especiais a um esforço militar tão empenhado da NATO que em mais de um ano deixou incólume a estrutura terrorista? Sem tropas no terreno, em pouco mais de um mês e em 1400 saídas, as forças russas destruíram 1600 alvos dos terroristas islâmicos, entre os quais 249 postos de comando, 51 campos de treino, 131 depósitos de munições e combustíveis, 768 bases terrestres, além de terem eliminado 28 altos quatros mercenários. A diferença das eficácias anti terroristas é esmagadora.
Outra pista, esta de grande impacto na relação mundial de forças, poderá também explicar as botas norte-americanas no teatro de guerra sírio. Numa operação que deixou o Pentágono e os gendarmes da NATO estupefactos, a Rússia cegou e ensurdeceu as comunicações militares norte-americanas e terroristas num raio de 300 quilómetros a partir de um ponto a norte da cidade síria de Latáquia, através de um sistema de interferências que neutralizou as comunicações entre satélites, aviões, drones, bases militares – incluindo a de Incirlik, na Turquia, usada pela NATO – e esquadrões de blindados. Um golpe em cheio no sistema nervoso operacional atlantista. Dando agora uma expressão muito mais vasta à neutralização do destroyer USS Donald Cook, então em missão no Mar Negro no Outono de 2014, as interferências russas nas comunicações militares dos terroristas e seus patrões da NATO na Síria permitiram a Damasco reconquistar vilas e aldeias numa área de 300 quilómetros quadrados e protegeram as recentes incursões de aviões russos na Turquia, onde foram identificar os campos de treino de grupos terroristas, Estado Islâmico incluído. Percebe-se agora melhor a irritação de Ancara e Washington com essas operações.
Somado ao êxito dos disparos de 26 novos mísseis de tipo cruzeiro russos a partir do Mar Cáspio, com 100% dos alvos atingidos, o dispositivo de interferência nas comunicações accionado por Moscovo, capaz de paralisar um sofisticado exército desactivando-lhe o sistema nervoso, coloca novos dados nos mapas das guerras modernas, não apenas na Síria mas em termos globais. A NATO deixou de ser dona e senhora nos conflitos convencionais, e não apenas porque os seus tanques se atascam pateticamente em manobras intimidatórias nas areias das praias do Alentejo.
Posto isto, as botas americanas no teatro sírio valem o que valem em defesa do terrorismo, porque não se crê irem servir a legitimidade de Damasco. Daí que, em simultâneo, os Estados Unidos se vejam obrigados a apoiar a reactivação das negociações diplomáticas de Viena sobre a Síria, a desenvolver num quadro de respeito pelas resoluções da ONU sobre o Médio Oriente e não já, como pretendiam Washington e os aliados da União Europeia, sobre “a partida imediata de Assad”.
O Médio Oriente continua em convulsão, mas existem dados novos a induzir que as mudanças não se processam em sentido único, e a proporcionar oportunidades alargadas às vias diplomáticas. A relação de forças internacional altera-se.  
 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

GANGSTERS


 
No meio de documentos que a Srª Hillary Clinton foi obrigada a entregar à justiça norte-americana no quadro das investigações de que está a ser alvo, por causa do desempenho como secretária de Estado de Obama, estão papéis arrepiantes. Como este: um “memorando secreto” enviado em Março de 2002 pelo então secretário de Estado, Collin Powell, ao seu presidente, George W. Bush, assegura que a realização de uma guerra contra o Iraque teria sempre o apoio do primeiro-ministro britânico, ao tempo Tony Blair. “O Reino Unido seguirá a nossa liderança”, escreveu Powell, garantindo assim a Bush que poderia começar a preparar a guerra ao receber Blair no seu rancho de Crowford, o que aconteceu em finais desse mesmo mês de Março.
Esta informação, que corre agora tranquilamente pelas agências noticiosas internacionais, tem o conteúdo de uma bomba, mas não é como uma bomba que explode aos ouvidos e olhos dos cidadãos mundiais, duvida-se até que chegue ao conhecimento da maioria deles.
O memorando de Powell revela que um ano antes de a invasão do Iraque se ter iniciado os Estados Unidos e o Reino Unido já tinham decidido que a fariam. Prova-se assim que as sanções contra o povo do Iraque, os arremedos de negociações e as célebres provas sobre a existência de armas de destruição massiva em território iraquiano – que o mesmo Powell se encarregou de fabricar e levar à ONU – foram manobras e mistificações para servirem de pretexto a uma decisão já tomada. A reunião das Lajes, que o governo barrosista de Portugal se dispôs a acolher, adquire, a esta luz, contornos ainda mais vergonhosos para a diplomacia portuguesa e europeia, porque se fez para fingir ao mundo que ia tomar-se uma decisão já tomada. Um faz-de-conta que, daí a dias, proporcionou o início de uma chacina de milhões de seres humanos, ainda longe de estar concluída.
Nesse mês de Março de 2002 já as tropas da NATO se atolavam no conflito do Afeganistão para supostamente combater os talibãs, que por sua vez acolhiam o terrorista Bin Laden, um criminoso criado pelos serviços secretos dos Estados Unidos e que este mesmo país identifica como responsável pelo 11 de Setembro de 2001. Ao virar a mira contra o Iraque, os gangsters de Washington – versão engravatada dos pistoleiros do velho Oeste para consumo do novo Oeste – chegaram a acusar Saddam Hussein de ser cúmplice de Bin Laden e respectiva Al-Qaida, quando os dois eram inimigos fidagais, como não demorou muito a provar-se. Mal os Estados Unidos e os seus mais sonantes aliados da NATO tomaram Bagdade e enforcaram Saddam, o território iraquiano tornou-se base de uma miríade de grupos terroristas na qual não apenas medraram muitas variantes da Al-Qaida como nasceu o famigerado Estado Islâmico.
Documentos como este “memorando secreto” de Collin Powell ajudam a perceber como se promovem as guerras de hoje. Para lançar as da Líbia e da Síria nem terá sido necessário um qualquer escrito de um qualquer secretário de Estado: a porta da mentira estava escancarada.
O Médio Oriente, que já era um barril de pólvora nesse mês de Março de 2002, degenerou num foco de instabilidade militar no meio do qual é fácil detectar rastilhos mais do que suficientes para uma guerra global. Os responsáveis são conhecidos e deveriam estar a contas com tribunais que punem crimes contra a humanidade. Porém, George W. Bush e Collin Powell vivem reformas douradas; de Barroso conhecemos o rasto, desde as malfeitorias à cabeça da Comissão Europeia até ao Grupo de Bilderberg, areópago da conspiração imperial, onde ganhou assento permanente.
E Blair? Treze anos depois te ter comunicado que “seguiria o líder” na devastação do Médio Oriente é o chefe do Quarteto para o mesmo Médio Oriente, entidade burlesca que, fiel aos interesses israelitas e aglutinando os Estados Unidos, a União Europeia, a ONU e a Rússia, finge que a chamada comunidade internacional continua à procura de uma solução para o conflito israelo-palestiniano.
Não só por causa dessa burla, mas também, assiste-se à situação cínica e revoltante de ver a bandeira da Palestina ondular nos mastros da sede da ONU numa altura em que o povo palestiniano está cada vez mais distante do seu Estado independente e viável.
Somos governados por gangsters e mentirosos.
 

domingo, 18 de outubro de 2015

A VERDADE DA MENTIRA


Orifícios de balas e não a acção de um míssil
A comissão de inquérito institucional ao derrube na Ucrânia do avião malaio que fazia o voo MH17, em 17 de Julho de 2014, anunciou finalmente o que toda a gente já sabia desde o primeiro momento: que o aparelho, com 300 pessoas a bordo, foi abatido por um míssil russo Bulk, operado por serviços especiais russos.
O que poderá não passar de uma grandessíssima peta tornou-se verdade oficial. Não é a primeira vez que isso acontece à escala da propaganda global, e provavelmente não será a última.
As conclusões da comissão de inquérito, de inspiração holandesa e apadrinhada pela NATO e os principais governos desta aliança, esfumam de uma penada todos os indícios susceptíveis de responsabilizar o governo fascista de Kiev pela tragédia. Através de supostas reconstituições informáticas – como se os computadores não respondessem em função dos dados que lhes são fornecidos – desapareceram de cena os aviões Sukhoi ucranianos que escoltaram o Boeing malaio alguns segundos antes de este ser abatido; os orifícios redondos observados na fuselagem, na zona do kokpit, eclipsaram-se da investigação, o que não é de somenos porque remetiam para disparos realizados pelos citados caças Sukhoi; as manipulações fotográficas baralhando tempos e espaços e que serviram de sustentação à tese do míssil transformaram-se em documentos credíveis; as informações dos controladores de voo em serviço em Kiev no momento da tragédia, e que deram conta da presença dos caças Sukhoi e também de um suspeitíssimo desvio de rota indicado ao aparelho, por sinal para um corredor perigoso por causa da guerra civil, foram ignoradas no processo de inquérito.
Enfim, não se fez um inquérito; por artes mágicas, montou-se um quebra-cabeças de supostos dados fidedignos para alcançar o resultado anunciado pelas autoridades de Kiev poucos segundos depois do derrube do avião. De facto, o senhor Anton Gerashenko, um figurão nazi que serve de conselheiro ao ministro ucraniano do Interior, Arsen Avakov, revelou em cima do acontecimento que o avião fora derrubado por um míssil russo Bulk. E fê-lo no momento em que forças especiais do mesmo ministério, manipulado pelo aparelho neonazi ucraniano, tomaram conta da torre de controlo do aeroporto de Kiev e passaram a filtrar todas as informações sobre o sucedido. O assalto da torre pelos comparsas fascistas não provocou qualquer constrangimento aos inquiridores oficiais, pelo contrário, deve ter-lhes facilitado o trabalho para engendrarem uma conclusão que já conheciam quando iniciaram a produção da mentira.
A criação e o funcionamento da comissão institucional de inquérito não passou de um pró-forma com o objectivo de dar credibilidade a uma teoria que não resistiria ao mais elementar contraditório, se este contraditório fosse possível e não esbarrasse numa sinistra barragem de mistificação.
A utilidade de tal comissão não se resume, neste caso, ao que atrás ficou escrito. O seu papel foi apurado através do momento escolhido para anúncio dos resultados, precisamente aquele em que as forças armadas russas tomam a seu cargo, praticamente sozinhas, o desmantelamento do grupo de facínoras que dá pelo nome de Estado Islâmico. Não é por acaso que Anton Gerashenko, o citado conselheiro do ministério do Interior de Kiev, acaba de incentivar o mesmo Estado Islâmico a lançar uma “guerra santa” contra os russos onde quer se encontrem. Os amigos dos nossos amigos nossos amigos são: sendo a NATO unha e carne com o governo fascista de Kiev é natural que este sinta afinidades com o Estado Islâmico, ainda há poucos dias contemplado com lançamentos de reforços de armas feitos por aviões norte-americanos. Não com destino ao Estado Islâmico, segundo a versão oficial, mas para “as oposições sírias”. Conhecendo nós o histórico destes abastecimentos e o que vale uma versão oficial emanada de Washington e seus acólitos, que também podem ser holandeses como no caso do MH17, não nos faltam caminhos para entender a verdade destas mentiras.
Entretanto, no campo de batalha sírio os efectivos russos e o exército regular de Damasco prosseguem a tarefa antiterrorista, tendo como principal óbice, porém, a destruição das instalações petrolíferas através das quais o Estado Islâmico se financia alimentando um generoso mercado negro de hidrocarbonetos. Claro que estes proveitos seriam cortados se os terroristas não tivessem quem lhes compre o contrabando. Mas clientes não faltam, sobretudo Israel e as ditaduras do Golfo, que por sua vez assim alumiam faróis da democracia como são os países da União Europeia e da NATO.
 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O CONSPIRADOR


 
Os portugueses ganham menos, trabalham mais e correm riscos mais elevados de despedimento.
Quem o diz? A CGTP? O PCP ou o Bloco de Esquerda? O “radical” António Costa? Se o leitor respondeu de acordo com alguma destas óbvias alternativas errou redondamente.
Quem o diz é a insuspeitíssima OCDE, entidade neoliberal por essência e definição, concluindo assim que a vida dos portugueses está cada vez pior. As motivações do desabafo só os próprios a conhecerão, mas agora que, segundo a coligação que nos deixou neste lindo estado, as coisas iam tão bem, esta conclusão parece traiçoeiramente combinada entre a dita OCDE e as diligências de António Costa para fazer um governo contra a austeridade.
Ao mesmo tempo, imagine-se a amplitude da conspiração, a Global Wealth Report, uma das várias entidades que avaliam a saúde das finanças dos mais ricos do mundo, deduziu que Portugal tem menos milionários, mas mais ricos.
Isto é, por um lado os portugueses ganham menos, trabalham mais e vivem na corda bamba do desemprego; por outro, os milionários portugueses são em menor número, helas!, mas estão mais ricos.
Surge então o ex-presidente da Comissão Europeia, um indivíduo que devia estar a prestar contas ao Tribunal de Haia por crimes contra a humanidade, e adverte os militantes do PS que nem se atrevam a permitir um governo de aliança entre o seu partido e os partidos à esquerda, porque isso irá trazer elevados custos aos portugueses. A quem? Aos que carregam o peso da austeridade ou àqueles pobres milionários, coitados, que estão menos ricos, quiçá até aos que estão mais ricos?
Depois das quedas na bolsa provocadas pela “instabilidade política” conjugada com a “ameaça de um governo de esquerda”, depois das insistências de Bruxelas para que o governo – em minoria – envie rapidamente o “projecto de orçamento” do próximo ano, depois dos recados dos bancos segundo os quais, como “motores da economia”, exigem uma célere e estável “solução política”, depois das mensagens cifradas do rei de Boliqueime, faltavam-nos as ameaças silvadas pelo ex-presidente da Comissão.
O homem nem hesitou em interromper o seu repouso sabático, talvez correndo o risco de perder o telefonema capaz de o projectar para novos e altíssimos voos, tão empenhado está em acudir aos portugueses assim ameaçados de ganharem ainda menos, de trabalharem ainda mais, de alongarem a interminável fila dos desempregados. Ele, o ex-presidente da Comissão Europeia que não hesitou em fazer das mentiras guerra e assim provocar a perda de milhões de vidas humanas – é verdade, a ordem de grandeza das vítimas mortais das guerras por ele apoiadas já se avalia em milhões; ele, que depois do desmantelamento do Iraque e da Líbia também tem as mãos sujas do sangue dos sírios, pois sabe-se como a União Europeia contribuiu e contribui para esta tragédia; ele, que está na origem da via-sacra dos refugiados a caminho da Europa e que, enquanto presidente da Comissão, nada fez – antes pelo contrário – para que a Europa tivesse uma política de imigração.
Dir-se-á: pois sim, o homem será isso tudo mas também é um patriota. Ainda muito novinho, revolucionário em folha, impediu que os portugueses tombassem nas mãos do tenebroso “social-fascismo”. Depois, como primeiro-ministro de Portugal, foi o anfitrião ideal da tal cimeira dos grandes democratas Bush, Aznar e Blair que iria levar a democracia a cada recanto do Médio Oriente e só não o conseguiu devido às tramoias do “terrorismo”. A seguir, já como presidente da Comissão Europeia, defendeu bravamente os interesses dos portugueses enviando-lhes a troika, protegendo os agiotas que lhes sugam os bens, colocando-se ao lado da benemérita Merkel, que só por um triz não ganhou o Nobel da Paz, contribuindo para que aos seus concidadãos fossem impostos tratados e outros artifícios austeritários, de modo a instaurar a ordem nas benditas finanças públicas. É certo que a dívida continua a crescer, os números fintam os discursos oficiais, mas há que dar tempo ao tempo e espaço à minoria governamental.
Enfim, o homem que fez tudo o que esteve ao seu alcance para que os portugueses ganhem menos, trabalhem mais, emigrem muito mais e vivam cada vez mais à beira do desemprego é a voz segura e certa para advertir os mesmos portugueses de que irão ganhar menos com um governo à esquerda. Ele sabe do que fala; sobretudo, sabe como se conspira.

sábado, 10 de outubro de 2015

NATO, JOGOS DE GUERRA, TERRORISMO E FASCISMO


 

NATO e Hungria vão tratar dos refugiados
A polícia de choque global, também conhecida por NATO, está numa fase das mais trauliteiras da sua história, superando os próprios e mais sinistros recordes, além de alargar o raio de acção em presença, eficácia, mobilidade e número de efectivos. Dos jogos de guerra no flanco sul, em áreas de intervenção às vezes também conhecidas pelas designações de Portugal, Espanha e Itália, agora considerados ainda mais importantes devido à “crise dos refugiados”, à proliferação de quartéis-generais em redor das fronteiras russas, ao reforço dos contingentes operacionais na Turquia ditado pelas operações russas contra os mais activos grupos terroristas, à multiplicação por três dos meios da “força de resposta” – A NATO nunca ataca, limita-se a responder – os gendarmes atlantistas não descansam na missão suprema, dir-se-ia divina, de preservar a democracia formatada pela ditadura financeira.
Numa comunicação feita há poucas horas, o social-democrata norueguês Jens Stoltenberg, destacado em funções de secretário-geral da aliança expansionista, anunciou que os efectivos da “força de resposta” vão ser aumentados para 40 mil apenas um ano depois de, em Gales, os expoentes doutrinários os terem fixado em 13 mil. O que mudou em menos de 365 dias exigindo esta ampliação exponencial? Stoltenberg respondeu por metade: o aparecimento da “crise dos refugiados”, decorrente das convulsões a sul “do nosso flanco sul”. Quanto à outra metade, o secretário-geral foi omisso, mas nem precisou de ser explícito. A Rússia é a Rússia e agora não lhe bastava ter a querida “democratização” da Ucrânia debaixo de olho como se atreveu a ir combater o terrorismo no Médio Oriente, esse mesmo terrorismo que a NATO enfrenta heroicamente – e com tanta eficácia que os resultados da “primavera árabe” são os que estão à vista de todos.
No quadro da nova situação provocada pela “crise dos refugiados”, uma tragédia humanitária que para os governos dos membros da NATO é assunto a tratar manu militari, a aliança decidiu criar mais dois quartéis-generais em países para lá da antiga “cortina de ferro”. Tratando-se de refugiados, a NATO não poderia ter escolhido melhor a localização das duas novas estruturas operacionais: a Hungria e a Eslováquia, onde dois governos fascistas tratam como terroristas os que fogem da guerra em luta pela sobrevivência. A intimidade da NATO com o fascismo não é de fresca data, não se evidencia apenas na Ucrânia, na Hungria, em Estados do Báltico. Ela foi inscrita no seu código genético ao ter como fundador – logo como grande defensor da democracia – o Portugal salazarento. Por isso, quando um nazi como Anton Gerashenko, conselheiro do ministério do Interior de Kiev, apela ao Estado Islâmico para combater os russos seja no Cáucaso seja no Médio Oriente, em nome da democracia e da sharia (vertente política da ortodoxia islâmica), mais não faz do que respeitar o espírito de missão dos tutores atlantistas. O mesmo Gerashenko que, poucos segundos depois da queda sobre a Ucrânia do avião que fazia o voo MH17, anunciou que fora derrubado por um míssil russo. Uma sentença que ficou como versão oficial, em que ninguém acredita mas prevalece, quanto mais não seja porque é a da NATO e o que a NATO diz não se discute.
Para os que não estar a par do afã expansionista – e defensivo, claro – da NATO lembro que os quartéis-generais na Eslováquia e na Hungria vêm juntar-se aos que já funcionam na Bulgária, na Estónia, na Letónia, na Lituânia, na Polónia e na Roménia, sem contar com o servilismo do governo de Kiev, o qual integra a aliança sem lhe pertencer. O cerco à Rússia é evidente, comprovando-se assim que a NATO é uma instituição de cariz absolutamente defensivo através do respeito estrito por aquela máxima que não é apenas futebolística: a melhor defesa é o ataque.
Por isso, uma nota também sobre os exemplos mais recentes das acções defensivas da NATO e respectivas consequências. Foi em actos de defesa pura que a NATO atacou o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e que desencadeou a guerra civil na Síria, tal como esfrangalhara a Jugoslávia. Então, quando o secretário-geral Stoltenberg se queixa da “crise dos refugiados” como resultante das “convulsões” no sul do “nosso flanco sul”, saibam todos que a NATO nada tem a ver com isso, apenas alarga a sua presença e reforça a sua eficácia para se defender do maldito e insidioso terrorismo, o qual a NATO nunca treinou e financiou, nem nunca foi, como agora também não é, seu aliado na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo…