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terça-feira, 1 de março de 2016

DESCARAMENTO E BOMBAS NUCLEARES



A ditadura fundamentalista e terrorista da Arábia Saudita está a comprar bombas nucleares ao Paquistão, país a quem financia mais de metade do programa militar atómico; e não se escutou, até ao momento, uma única palavra dos dirigentes mundiais, usualmente tão zelosos a denunciar ocorrências que os incomodam, mesmo que algumas não passem de pretensas ocorrências.
Da Arábia Saudita sabemos, por exemplo, que nas últimas semanas tem multiplicado ameaças de invadir a Síria, juntamente com a Turquia – país da NATO – em socorro dos grupos terroristas que ambos os países armam e financiam.
Ficámos a saber agora, pela voz de Daham al-Anzi, comentador político saudita, que a Arábia Saudita possui bombas nucleares. A declaração, peremptória, foi feita em entrevista ao Rússia Today, embora continue a ser um segredo para grande parte dos que habitam o planeta.
A Arábia Saudita é signatária do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, o que parece não ser um estorvo. O importante, de acordo com o pretexto invocado pelos magnatas sauditas, é conter a ameaça iraniana que eles dizem estender-se através do Iraque, da Síria e do Iémen.
Ainda temos lembrança do sururu mundial que foi a suposta estratégia do Irão para se dotar de um programa nuclear militar, coisa que, a bem dizer, nunca chegou a ser provada. Levantaram-se sanções, proferiram-se ameaças de vários azimutes, de Washington à subserviente Bruxelas, expediram-se flotilhas de drones, assassinaram-se cientistas iranianos em série; Israel, pela voz de Benjamin Netanyahu, ainda hoje clama contra essa provável efabulação, mas da sua boca não se ouviu ainda qualquer reparo ante a notícia da nuclearização militar do mais belicista dos regimes árabes. Nem a Netanyahu, nem a Obama, Juncker, Merkel, Hollande, Cameron… etc, etc.
Ouviram-se algumas palavras, sim, sejamos justos. De Itália, da ministra da Defesa Roberta Pinotti, representante do governamental Partido Democrático. Interrogada sobre o facto de o seu país ser um dos principais fornecedores de armas ao governo terrorista saudita, e tal facto poder violar o Tratado sobre Comércio de Armamentos, de 2013, respondeu que “seria um grave erro transformar os nossos aliados contra o Estado Islâmico em nossos inimigos”. Nunca é excessivo lembrar quem são os “nossos aliados”, e a ministra italiana teve esse cuidado: a Arábia Saudita é um deles e, por acaso, ajuda-nos a combater o terrorismo ao mesmo tempo que o arma e financia. Enquanto isso, pode armazenar as armas nucleares que quiser.
Para tirar proveito efectivo de tais armas é necessário ter os meios adequados. Não seja por isso. A Arábia Saudita é o principal cliente do consórcio europeu (Itália, Alemanha, Reino Unido e Espanha) que produz os caças-bombardeiros Tornado. Nessa qualidade, passou a integrar a agência da NATO que gere os caças europeus, a Nato Eurofighter and Tornado Management Agency. E por maioria de razão, uma vez que o regime saudita possui agora o dobro desses aparelhos em comparação com a Royal Air Force (RAF). São já 250 em poder dos senhores da guerra de Riade, vendidos pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido. Além disso, a generosa família real saudita acaba de pagar mais oito mil milhões de euros ao mesmo consórcio europeu por conta de 28 aparelhos Eurofighter Typhoon que vai oferecer ao Koweit, ignorando-se se esta outra ditadura islâmica virá a receber também bombas nucleares. Do que não há dúvida é que os aviões de guerra envolvidos em tais transacções possuem, entre as suas inegáveis capacidades mortíferas, a de poder lançar armas essas armas de extermínio.
Estamos agora aptos a entender o silêncio mundial perante a entrada da Arábia Saudita no selecto clube nuclear, que se estende à comunicação social dominante, tão diligente no caso do Irão e que agora deixou passar sob os narizes a inquietante confissão do analista saudita.
A omissão de Israel nada tem de anormal. Há muito que se conhece a aliança tácita entre os regimes fundamentalista hebraico e islâmico, levado operacionalmente à prática nas chacinas cometidas no Iémen por pilotos israelitas aos comandos de caças sauditas, e também no apoio a grupos terroristas infiltrados na Síria.
Dos Estados Unidos e da União Europeia seria importante conhecer a opinião sobre o assunto. De Itália veio a versão da ministra Pinotti, segundo a qual, em matéria humanitária, o país “é enormemente credível e respeitado”. Porém, isso não chega: gostaríamos de saber se Washington e Bruxelas, Berlim, Londres e Paris, pelo menos esses, levam assim tão longe o descaramento.
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A SAGA DOS REFUGIADOS QUE A EUROPA CRIOU E AGORA DESPREZA


 

Durante o ano de 2015 entraram na Grécia mais de 800 mil refugiados oriundos de países do Médio Oriente em guerra, sobretudo da Síria. Em 2016 já chegaram pelo menos 50 mil. Juntando-lhes as centenas de milhares que conseguem sobreviver à travessia do Mediterrâneo e arribaram às ilhas italianas, pode afirmar-se, sem qualquer dúvida, que muito mais de um milhão de pessoas atingiram territórios europeus.
Embora de uma magnitude catastrófica, este número é inferior ao registado em países mais próximos dos cenários de conflitos: um milhão e 900 mil na Turquia; um milhão e cem mil no Líbano; e 650 mil na Jordânia. Percebe-se a dimensão trágica deste movimento de massas humanas desesperadas se olharmos, por exemplo, para o caso libanês. O país tem cerca de quatro milhões de habitantes, pelo que os refugiados que entraram, só na sequência da guerra na Síria, representam um quarto da população. O Líbano que, tal como a Jordânia e a própria Síria, já era lar dos palestinianos forçados por Israel a uma diáspora que dura há quase 70 anos, vive uma situação caótica, como se também estivesse em guerra.
As informações disponibilizadas pelas entidades públicas e não-governamentais de países europeus que, com todas as limitações impostas pelos responsáveis, vão tentando gerir a situação na Europa, são reveladores da pouca eficácia, das carências de vontade política e até da má vontade das instituições da União Europeia para enfrentar o problema.
Da hecatombe humanitária resultante da entrada de mais de um milhão de refugiados, o rateio efectuado entre os 28 Estados membros da União Europeia abriu espaço para a admissão de apenas 170 mil, isto é, muito menos de 17%. Acresce que até essas quotas ínfimas inicialmente estabelecidas e aceites estão agora a ser rejeitadas por vários países, cujos governos dão o dito por não dito.
Até ao momento, foram alojados e integrados no espaço europeu menos de 500 dos desesperados que pretendem asilo. Um número irrisório.
A maioria dos governos da União recorrem a um número interminável de pretextos para se escusarem a aceitar refugiados e a remeterem para outros essa responsabilidade. O mais corrente é o argumento de que o fluxo de refugiados é uma via de entrada de “terroristas” na Europa. Tal suposição não está comprovada e, pelo contrário, alguns factos revelam que não passa de um exercício de propaganda. Por exemplo, a comunicação social dominante apressou-se a fazer crer que os crimes da noite de Ano Novo em várias cidades alemãs, cometidos sobretudo contra mulheres, estavam relacionados com o comportamento dos refugiados. Semanas depois as autoridades alemãs apuraram que, dos 52 indivíduos indiciados, apenas três eram refugiados, e mesmo esses estavam nos locais dos acontecimentos devido ao facto de não terem abrigo.
Por outro lado, acompanhando as biografias dos terroristas que cometeram os atentados de Paris contra o Charkie Hebdo e de 13 de Novembro verifica-se que são cidadãos franceses, nascidos e criados no país, vítimas da crise social e das políticas de marginalização e exclusão pelas quais são responsáveis sucessivos governos franceses e as instituições europeias.
O actual governo francês do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, que impôs o estado de excepção na Constituição e o mantem em vigor por períodos prorrogáveis – “até que o Estado Islâmico seja derrotado”, segundo Valls – está, aliás, entre os que afirmam que não receberão mais refugiados, nem mesmo a quota a que se comprometeu. A sua agenda sobre este assunto e outros parece decalcada da que é invocada pelo movimento neofascista Frente Nacional, de Marine Le Pen, que está à frente nas intenções de voto para próximas eleições.
Através da Europa, aliás, o cenário tem contornos semelhantes ou comparáveis às atitudes das autoridades de Paris. Na Dinamarca e na Alemanha os governos confiscam os bens de valor aos refugiados alegadamente para custear a sua integração; a Áustria fechou as suas fronteiras; a Hungria afirma que não receberá qualquer refugiado e transforma as suas fronteiras em barreiras físicas; a Polónia afirma que está disponível para receber apenas “cristãos”; o Reino unido suspende por quatro anos parte dos direitos sociais dos imigrantes, com a anuência dos governos dos 27 Estados membros; na Noruega, que não é da União Europeia, mas é da NATO, milícias “populares” de camisas negras zelam pela “segurança” nas ruas; a Dinamarca e a Suécia restabeleceram os controlos nas suas fronteiras; partidos de extrema-direita e/ou neofascistas impõem políticas xenófobas graças às suas influências crescentes, ou mesmo fazendo parte de governos em países como Dinamarca, Finlândia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Estónia, Polónia, Holanda. Entretanto, por diligência da Alemanha, a Europa mergulhada na crise económica pretende pagar três mil milhões de euros à Turquia para estancar o fluxo de refugiados.
A ineficácia política europeia perante a tragédia dos refugiados provoca outros efeitos perversos que degradam aceleradamente o panorama dos direitos humanos. Entidades que trabalham no acolhimento dos fugitivos das guerras consideram que existe grande falta de vontade política para criar corredores humanitários que permitam encaminhar e prestar apoio a essas pessoas, mais de um terço das quais são crianças. Esta situação transforma os desesperados que apenas pretendem sobreviver em presas fáceis de mafias traficantes de seres humanos e outros predadores, um negócio altamente rentável que, na Europa, pode já ter ultrapassado os lucros com os tráficos de droga e armas.
Por outro lado, torna-se evidente que a Europa pouco ou nada tem feito para tentar resolver as crises no Médio Oriente, além de privilegiar os conceitos securitários no combate aos refugiados, atitudes que, de acordo com a experiência já disponível, não contribuem – antes pelo contrário - para resolver o problema. Verifica-se até que entre os países europeus, a França e a Alemanha têm manifestado tendência para não acompanhar a convergência entre os Estados Unidos e a Rússia para solucionar a crise síria, parecendo mais sintonizados com as correntes intervencionistas – que, na prática, reforçam o terrorismo – interpretadas pela Arábia Saudita e pela Turquia.
 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

O RIDÍCULO MATA


 
Vinte e sete chefes de governo de países da União Europeia deram a David Cameron o que ele queria. Tanto os que se dizem federalistas, como os que não sabem o que são, como os que só pensam em austeridade aceitaram levantar entraves à famosa “livre circulação” de pessoas, outorgaram o direito de veto ao santuário neoliberal da City, permitiram a institucionalização de um apartheid social para os imigrantes e aceitaram que o Reino Unido esteja isento dessa gloriosa máxima da farsa continental que obriga os Estados membros a “trabalhar por uma Europa cada vez mais estreita”.
“Vivam e deixem-me viver”, terá mendigado o primeiro-ministro britânico aos seus confrades, naquela que para o fervoroso diário federalista El País foi a cimeira “mais ignominiosa” da história da União Europeia. Do “efervescente” italiano Matteo Renzi, a Hollande, Merkel e cada um dos 27, ninguém escapa à furibunda pena do articulista, a imagem do estado de desespero em que caíram os fundamentalistas da União Europeia tal como ela é, pressentindo a degradação acelerada que tem exame decisivo no próximo 23 de Junho, a data do referendo no Reino Unido.
Falar em acordo alcançado em Bruxelas é uma falácia para esconder um desfecho anunciado, mais pormenor menos pormenor, no qual tudo é concedido a Cameron para que este, na qualidade de “europeu novo” convertido por conveniência, faça campanha convicta pelo “sim” e consiga que a União escape a uma deserção que lhe será fatal. Ao pé de um “ brexit”, a hipotética saída da Grécia, que esteve em agenda há uns tempos, é um meigo sopro comparado com um furacão.
Como se previa, Cameron conseguiu dar xeque-mate à livre circulação de pessoas – uma espécie de mandamento sagrado fundador da União – permitindo-lhe levantar entraves à entrada de imigrantes, ainda que cheguem de países comunitários. Como? O governo britânico pode suspender os direitos sociais dos novos imigrantes durante quatro anos após o estabelecimento de contratos para desempenho de trabalhos menos qualificados, política esta que pode ser estendida durante sete anos.
Os dirigentes europeus permitiram também que a City, a praça de negócios mundial e um santuário da extorsão neoliberal, tenha direito de veto sobre decisões da União. Na prática, se a City discordar de uma medida de instâncias europeias, incluindo o Parlamento Europeu, o assunto regressa a Bruxelas para ser corrigido pela Comissão.
A norma fundadora essencial, que obriga os governos dos Estados membros a empenharem-se numa “Europa cada vez mais estreita”, não se aplicará doravante ao Reino Unido, concederam os 27. Isto é, Cameron conseguiu, ainda que a resposta no referendo seja “sim”, que o Reino Unido esteja na União Europeia sem estar. Ou, como dizem os “europeístas” sem mácula, o primeiro-ministro britânico arrancou o privilégio de usufruir do melhor de dois mundos.
Também o Parlamento Britânico foi contemplado com direito de veto, tornando-se assim mais Parlamento que os restantes 27. A cimeira aceitou que qualquer projecto legislativo europeu barrado por 55% dos deputados britânicos terá que regressar a Bruxelas para ser emendado. Quanto aos outros parlamentos, que se submetam à ortodoxia dos tratados, que aliás não foram referendados pela maioria dos povos.
Com tudo isto, o Conselho Europeu pagou um preço muito alto apenas para ver. Porque existe a noção de que, apesar das cedências e da conveniente conversão de Cameron de eurocéptico em europeísta, será difícil que estas cedências se repercutam no comportamento do eleitorado britânico.
Ao contrário do que apregoam os instrumentos de propaganda europeístas, a oposição dos britânicos à continuação na União Europeia não é um exclusivo das correntes populistas, neofascistas e das eurocépticas no interior do Partido Conservador. O descontentamento é transversal à sociedade, abrange sectores de todas as correntes políticas, o que se reflecte na existência de três frentes sociais e políticas plurais que irão fazer campanha pelo “não”. Não é apenas a questão da soberania que está em causa, da qual podem queixar-se todos os povos da União Europeia, com maioria de razão os dos países do euro - o que nem sequer é o caso do Reino Unido. O que vem ao de cima nos temas em debate entre os britânicos são as consequências gravosas das políticas de austeridade, das privatizações destruindo os serviços públicos, da eliminação de direitos e sociais e laborais decorrentes da política de integração europeia cumprindo a agenda neoliberal, da ampliação brutal do fosso das desigualdades.
Os factores de caos social enumerados são comuns e toda a União e não atingem apenas os britânicos. Por razões próprias, são os britânicos que agora os levantam e diagnosticam pondo o dedo na ferida: eles resultam da política europeia errática e antissocial. Daí que os dirigentes europeus estejam com os nervos em franja perante o referendo britânico e tenham cedido de maneira a abrir uma excepção, um precedente de que irão arrepender-se amargamente. Se o Reino Unido continuar, outros poderão reclamar tratamento de excepção quando entenderem; se o Reino Unido sair, outros poderão seguir-lhe o rasto.
O chefes de governo da União Europeia estão em vias de perceber que o ridículo da farsa a que se prestaram mata. A vítima será a própria União.
 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

COM OU SEM “BREXIT”, NAUFRÁGIO À VISTA


 
Os arranjos que têm vindo a ser estabelecidos entre o primeiro-ministro do Reino Unido e os dirigentes europeus com o objectivo de tentar evitar a saída dos britânicos da União Europeia, o denominado “brexit”, podem ser uma emenda com resultados ainda mais graves para os 28 dos que os previsíveis devido à deserção de um dos “grandes” da comunidade.
Chamam-lhe “engenharia jurídica”, mas em Bruxelas não existem dúvidas de que as excepções, as ressalvas e as cedências feitas pela Comissão e pelo presidente do Conselho Europeu a David Cameron – sem a certeza de que contribuam para a manutenção do Reino Unido – são expedientes para contornar os Tratados em vigor e contrariam o princípio fundador que prevê “uma União cada vez mais estreita”.
“Se o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, já disse que vivemos o princípio do fim da União Europeia, o que se passa para evitar o brexit é a alavanca que irá acelerar a consumação do vaticínio”, considera um alto funcionário de Bruxelas. As concessões a Cameron contidas no chamado “pacote Tusk, designação com origem no nome do presidente do Conselho Europeu, o polaco Donald Tusk, “abrirão a caixa de Pandora criando uma confusão na qual a União jamais se entenderá”, acrescentou.
O primeiro-ministro britânico deverá convocar ainda este ano, de acordo com os seus compromissos eleitorais, um referendo no qual os cidadãos do Reino Unido serão chamados a pronunciar-se a favor ou contra a permanência do país na União Europeia. As sondagens revelam que a maioria dos eleitores, ainda que por pouca margem, são favoráveis à saída - um desfecho que David Cameron tenta evitar contra a vontade de numerosos deputados do seu Partido Conservador, e mesmo de ilustres membros do governo.
Por seu lado, as instituições de Bruxelas, cientes de que a saída de um Estado membro poderia ser um precedente catastrófico, e logo envolvendo uma das potências económicas e militares de organização, pretendem evitar que tal aconteça pagando um preço alto, mesmo sem ficarem seguras de que seja suficiente.
Depois de um período em que as exigências de Cameron, motivadas pelo avanço interno do clima eurocéptico, catalisado pelo nacionalismo xenófobo suscitado pela vaga de refugiados, não convenciam Bruxelas, os dirigentes europeus começaram a ceder. O conjunto dessas concessões, finalmente contemplado no “pacote Tusk” a ser debatido na cimeira europeia das próximas quinta e sexta-feira, prevê medidas como estas: o Reino Unido fica desobrigado do princípio que prevê uma “União cada vez mais estreita”; Bruxelas compromete-se a trabalhar no sentido de um mercado interno mais competitivo e com menos burocracia; o governo britânico pode adoptar entraves à livre circulação de cidadãos, comunitários ou não, por exemplo suspendendo os direitos sociais a que teriam direito em certas circunstâncias, e por períodos temporários, devendo a medida ser sancionada pelo Conselho Europeu; o Parlamento Europeu e a Comissão perderão poderes, ficando a legitimidade democrática a emanar somente dos Parlamentos Nacionais; consagração de vantagens assimétricas para as outras moedas europeias, em especial a libra esterlina, nas suas coexistências com o euro.
Não é difícil perceber que um tal conjunto de cedências implica uma reforma da União Europeia e é, em si mesmo, uma violação dos Tratados comunitários. De tal modo que em Bruxelas circula a ideia de que os efeitos destas medidas poderão provocar maiores convulsões dentro da União Europeia do que a própria saída do Reino Unido.
Além disso, a divulgação do “pacote Tusk” parece ter convencido apenas o próprio David Cameron, uma vez que os eurocépticos o consideram “insuficiente”.
Os sectores mais activos a favor da saída do Reino Unido são comandados pelo Partido da Independência, de Neil Farage, nacionalista e de tendências neofascistas. As sondagens colocam-no a par dos mais votados – ganhou as últimas eleições europeias – e a sua campanha adquiriu mais vigor ainda através da mensagem xenófoba potenciada pela crise dos refugiados.
Mas também uma parte do eleitorado conservador volta as costas a Cameron, tal como mais de meia centena dos seus deputados e mesmo cinco ministros. O “pacote Tusk”, ainda dependente dos chefes de Estado e governo da União, não alterou a tendência dominante nas sondagens britânicas, favorável ao “brexit”.
Em Bruxelas há muito quem considere que a situação gerada por Londres é uma consequência natural da crise profunda e da falta de rumo evidenciadas pela União Europeia. Segundo essas opiniões, trata-se de um beco ainda sem saída, que afectará irremediavelmente aquilo a que chamam o “projecto europeu”. Se o Reino Unido sair, o rombo será enorme e abre uma porta por onde outros poderão passar, sobretudo num tempo em que a pressão das correntes nacionalistas é cada vez mais forte de uma ponta à outra do continente; se o Reino Unido ficar, será à custa de medidas que abrem precedentes desestabilizadores capazes de tornar ainda mais ingovernável uma comunidade de países onde, na verdade, já ninguém se entende.
Portanto, seja qual for o desfecho do “brexit” a União europeia ficará ainda mais desfigurada.
 

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O TEMÍVEL ESTERTOR NEOLIBERAL




O regime de anarquia económica e financeira que matou a política, fez da guerra o instrumento favorito de rapina e desregulação, deixou a Terra em agonia climática e ambiental, criou milhões e milhões de novos pobres, famintos, deslocados e refugiados está caduco. Porém, os estertores finais em que se debate ameaçam ser longos e catastróficos, porque tentará deitar a mão a tudo para sobreviver e, como sempre, não olhará a meios para alcançar esse fim.
Os sinais são muitos e, além disso, indubitáveis. Poderia citar o desespero em que vive a União Europeia como consequência dos efeitos perversos da ortodoxia neoliberal; além disso, os ricochetes da cultura de guerra e do terrorismo estão a atingir aqueles que a puseram em prática, cuidando que poderiam beneficiar de imunidade total e impunidade absoluta; as massas desesperadas, já com pouco ou nada a perder, movem-se em ondas de pânico por todo o planeta, desaquietando as sociedades “civilizadas” que lhes deram origem e, mesmo quando não reclamam vinganças, despertam memórias de crimes que muitos julgavam enterradas e provocam transtornos insanáveis.
Outro sinal gritante é o que se passa na política, tornada vazia de ideias e de conceitos pelas práticas inquisitoriais do mercado desde os anos oitenta do século passado, e ressurgindo agora do vazio, razão pela qual é ainda um magma onde escasseia substância consolidada.
É fácil identificar a situação existente na Europa como exemplo do que ficou escrito; aqui abundam as provas da falência do sistema bipartidário – na verdade escondendo uma prática monolítica entregue aos grumetes do mercado. O que acontece em Portugal, Espanha, Grécia, França, Itália, países nórdicos, países de Leste e na própria Alemanha demonstra que a ordem política neoliberal se esgotou e, no deserto político e de ideias que impôs durante décadas, despontam múltiplas correntes, restauradas e de nova geração, reveladoras da saturação dos cidadãos com a ordem estabelecida e os efeitos que gerou.
Essas opções aparecem, naturalmente, fora do contexto bipartidário, à esquerda, por um lado, e ainda mais à direita daquele, assumindo de maneira ostensiva o cariz fascista e populista, onde não é difícil detectar o desespero neoliberal, o plano B do mercado, a fusão absoluta das ditaduras política e económico-financeira.
Exemplo flagrante de tal é o que está a acontecer nos Estados Unidos da América. E quando isso ocorre na pátria do bipartidarismo monolítico e da ditadura económico-financeira posta em prática pelo neoliberalismo, estamos perante a mais contundente e reveladora prova de que o sistema entrou, de facto, em agonia.
Talvez seja cedo para tirar conclusões da pouca substância produzida ainda no início do longo processo de designação de um novo presidente norte-americano, mas os sinais estão lá: o descrédito atinge em cheio as figuras mais identificadas com o regime, dando espaço, como acontece também na Europa, ao aparecimento de opções para levar a sério tanto à esquerda – o que quer que seja isso nos Estados Unidos da América – como ainda mais à direita, neste caso o fascismo sem máscara de Donald Trump.
Ao contrário do que tanto intriga a comunicação de “referência”, o que está em causa nos Estados Unidos não são os problemas de afirmação propagandística da senhora Clinton, do gusano Cruz ou de outras e outros da mesma extracção. Alguns anos depois, Trump é aquilo que a fascista Sara Pallin não conseguiu ser com o Tea Party. E Bernie Sanders afirma-se como aquele que surge de mãos limpas, capaz de recuperar as ilusões perdidas com o que Obama não quis ser, precisamente porque surge do exterior do sistema, não traz colado o rótulo do establishment.
O tempo é ainda de ler e tentar interpretar os sinais dados por este cenário, embora seja prematuro dele tirar conclusões. No entanto, os fenómenos de Donald Trump e Bernie Sanders configuram a manifestação muito mais poderosa de comportamentos e tendências que outrora estiveram por detrás de Sara Pallin e Barack Obama. Deve ressalvar-se, porém, que Trump é uma espécie de plano B do establishment, o recurso claro ao fascismo dentro do sistema, porque este sente que terá perdido condições para sobreviver de outra forma; e que Bernie Sanders surge do exterior do sistema neoliberal, trazendo ao encontro de vastas camadas saturadas com a situação, entre elas a da juventude, uma bem-intencionada memória romântica do keynesianismo de Roosevelt, tal como Jeremy Corbin surge no Reino Unido evocando os tempos áureos do trabalhismo com referências laborais, nos antípodas da traição de Blair.
Sem fazer futurologia, mas tendo a noção de que, mesmo em desespero, o establishment é o poder nos Estados Unidos, poderá prever-se que Donald Trump continuará com firmeza o seu caminho. Porém, não tardará que Sanders comece a percorrer o terreno minado pela NSA e as suas equivalentes mediáticas oficiais da espionagem e da conspiração, de modo a que a senhora Clinton, ou alguém por ela, o ponha fora da corrida. Surpresa, surpresa mesmo, será que Sanders consiga a nomeação democrática; nesse caso assistiríamos à mobilização total do circo financeiro e propagandístico do sistema no apoio ao candidato republicano, ainda que este venha a ser o fascista Trump.
Do que parece não haver dúvidas é que estamos a assistir ao estertor do neoliberalismo. Sabendo, por experiência histórica, que um sistema autoritário nunca se dá por vencido, a sua agonia terá repercussões temíveis, talvez trágicas, porque na verdade ele continua em vigor e sustenta-se na conjugação mais terrorista de todas: a que funde a guerra com a arbitrariedade económico-financeira e a ditadura política, cada vez menos encapotada.
 

 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

PROSSEGUEM AS PURGAS NO GOVERNO FRANCÊS


 
Manuel Valls e Christiane Taubira

A demissão da ministra da Justiça, Christiane Taubira, e respectiva substituição por Jean-Jacques Urvoas, considerado o ideólogo da lei de espionagem em massa das comunicações entre os cidadãos franceses, é o mais recente acto da purga que tem vindo a ser feita no governo de Manuel Valls, sob a tutela do presidente Hollande.
Taubira era considerada uma espécie rara, o derradeiro vestígio da esquerda e dos defensores das chamadas “causas fracturantes” no governo de François Hollande. Foi desautorizada pelo chefe de Estado e pelo primeiro-ministro através da adopção da lei que retira a dupla nacionalidade aos “terroristas” nascidos em solo francês, que ela prometera não deixar aprovar. Restou-lhe demitir-se, embora corra em Paris a versão de que foi demitida. “Deve haver uma coerência na acção empreendida”, disse o presidente francês a propósito da saída da ministra da Justiça.
A “acção empreendida” é a institucionalização do estado de excepção decretado após os atentados de 13 de Novembro, que tinha inicialmente uma duração prevista de três meses e agora, segundo uma declaração recente do primeiro ministro-ministro Manuel Valls, será prorrogado por tempo indeterminado, “até à derrota do Estado Islâmico”.
A lei que provocou a queda de Christiane Taubira faz parte do arsenal de reivindicações da Frente Nacional, a organização neofascista de Marine Le Pen e que, segundo as sondagens, continua a reunir a maioria das intenções de voto dos franceses. Segundo Taubira, a lei que retira a dupla nacionalidade “não é desejável e a sua eficácia é ridícula”. Jean-Luc Mélenchon, dirigente do Partido da Esquerda, comentou a situação no Twitter: “outra proposta da Frente Nacional e da direita recuperada por Hollande: mandar embora Christiane Taubira”.
As purgas são uma constante da vida do governo de Hollande, cada vez mais entregue a um núcleo duro afecto ao primeiro-ministro Manuel Valls e à sua gestão autoritária, num quadro de excepção em que a democracia foi colocada entre parêntesis.
A participação dos ecologistas já tinha terminado, com a saída do governo dos dois ministros que representavam os Verdes; posteriormente saíram três ministros socialistas, contestando a implantação da política da austeridade e a adopção dos cânones económicos e políticos neoliberais. Foi o caso do próprio ministro da Economia, Arnaud Montebourg, e também de Amélie Filipetti e Benoît Harnon.
Agora chegou a vez de Christiane Taubira, “o resíduo de esquerda remanescente”, como escreve a imprensa francesa.
Tanto ou mais simbólica que a demissão da ministra da Justiça é a designação do seu sucessor. Jean-Jacques Urvoas, um próximo de Manuel Valls, é o autor da chamada “lei celerada”, o conjunto de medidas aprovadas em Maio e que institui um sistema de espionagem interna e externa que permite controlar todo o tipo de comunicações entre os cidadãos, à revelia do aparelho judiciário e sem qualquer controlo democrático. A lei antecipou-se ao estado de excepção e veio tornar-se no instrumento essencial da sua aplicação.
Em França agudizam-se as tensões sociais resultantes, simultaneamente, da degradação das condições de vida provocadas pela crise económica e da repressão imposta aos direitos de manifestação e de greve, a pretexto do “combate ao terrorismo”.
Indiferente a essa ebulição, focado apenas na sua interpretação da questão do terrorismo, o governo decide segundo as sondagens, as quais definem como perfil político ideal o conservador que se aproxima das reivindicações xenófobas da Frente Nacional.
É nessa linha que deve interpretar-se a designação de Jean-Jacques Urvoas, o novo ministro da Justiça para quem o homem que denunciou a espionagem praticada pelos Estados Unidos, Edward Snowden, é “um idiota útil ao serviço de grupos terroristas”.
Ao mesmo tempo, segundo as sondagens, o ministro em alta no governo de Hollande é o do Interior, Bernard Cazeneuve, para quem “a vida privada é outra coisa, não se trata de uma liberdade individual”. De Cazeneuve sabe-se, por exemplo, que mentiu deliberadamente sobre o caso do assassínio de um manifestante pela polícia durante o protesto público contra a construção de uma barragem.
Tal atitude, porém, em nada beliscou a capacidade de manobra. A coberto do estado de excepção, as suas diligências nas semanas mais recentes redundaram num balanço de 3234 registos arbitrários de pessoas sob suspeita de terrorismo e a reclusão domiciliária de 406, sem qualquer intervenção das autoridades judiciárias.
Não admira que, mesmo nos meios socialistas descontentes com a estratégia de Hollande, reine a convicção de que este é o caminho ideal para promover a ascensão dos neofascistas aos instrumentos do poder em Paris.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

OS PRINCÍPIOS E O PRAGMATISMO EM TSIPRAS


 
Não é novidade para ninguém que o “pragmatismo” é a arma favorita de todos os governantes quando se atolam em medidas contra as maiorias que os escolheram e fazem gato-sapato dos seus programas políticos. “Pragmatismo” é a manta que serve para encobrir a putrefacção de promessas envelhecidas precocemente; também há quem lhe chame “realpolitik”, achando que é mais fino e menos gravoso recuperar linguajar de outrora.
Poderia o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, usufruir ainda de algum benefício da dúvida quando optou por entrar no comboio da troika, dos resgates e da austeridade light. É duro confrontar Bruxelas, tomar medidas para as quais é preciso ir buscar coragem ao cofre dos princípios e do respeito pela palavra dada; mais fácil é, ao que parece, ver o próprio país esvair-se em greves gerais e castigar quem já está castigado – assim-como-assim, os gregos estão habituados.
Mais inesperada é a fraternidade cada vez mais sólida entre o primeiro-ministro grego e o seu homólogo de Israel, Benjamin Netanyahu. Em três meses apenas Tsipras efectuou duas visitas oficiais a Israel e, na mais recente, levou com ele uma equipa de seis ministros para tratar de negócios com o governo que desrespeita ostensivamente o direito internacional, impede a criação do Estado Palestiniano, mantém as prisões repletas de resistentes contra a ocupação, prossegue a colonização em ritmo intensivo, mantém os habitantes de Gaza sujeitos à fome, num universo concentracionário e alvejado regularmente por actos de guerra que têm vitimado milhares de inocentes. É longo o rol de malfeitorias e violações atrozes dos direitos humanos atribuíveis ao governo de Benjamin Netanyahu.
Ao receber Tsipras com toda a galanteria, Netanyahu falou muito de “terrorismo” e proclamou que “seremos mais fortes se afrontarmos juntos este desafio”. Não especificou a que terrorismo aludia, se ao que ele pratica em Jerusalém, Gaza e na Cisjordânia, se ao apoio que dá aos radicais islâmicos do tipo Estado Islâmico e Al Nusra (Al Qaida) nos Montes Golã ocupados à Síria. Nem isso interessa para o caso, ao que parece.
O que interessa é que Tsipras e Netanyahu estabeleceram negócios que poderão ser frutuosos em matérias como turismo, energia, defesa e segurança.
Nos termos dos acordos já delineados, os governos grego e israelita vão cooperar no domínio da espionagem militar e Tsipras ofereceu os céus helénicos para que a aviação israelita possa ensaiar os seus raids, eventualmente contra Gaza, uma vez que perdeu há uns tempos a concessão para realizar tais manobras em espaço aéreo turco. Em contrapartida, Israel compromete-se a modernizar a aviação militar grega, por certo uma das necessidades mais prementes do povo grego.
Outra das convergências entre Tsipras e Netanyahu vai funcionar no domínio energético, juntando-se a eles os actuais chefes dos regimes nada recomendáveis da Bulgária e da Roménia e ainda o do governo direitista de Chipre. Um gasoduto levará o gás natural israelita até à Grécia, prevendo-se que o acordo deva alargar-se ao petróleo. Por isso é oportuno lembrar, para se avaliar até onde chega o “pragmatismo" de Tsipras, que Israel tenciona explorar o petróleo e o gás natural detectados nas águas territoriais da Faixa de Gaza, que naturalmente não lhe pertencem, o que configura um roubo do povo palestiniano em larga escala; e que Israel é um dos destinos do petróleo contrabandeado pelos mercenários do Estado Islâmico, funcionando então como intermediário do tráfico e também como “lavandaria” da operação.
No deve e haver e nos arranjos estabelecidos para que estes negócios sejam produtivos falta ainda revelar outra importante contrapartida dada por Tsipras a Netanyahu: a Grécia não aplicará a directiva europeia que coloca restrições à entrada no espaço europeu de produtos que tenham origem nos colonatos israelitas, isto é, em áreas cuja existência viola o direito internacional, as convenções de Genebra e que recorrem a mão-de-obra palestiniana escrava depois de terem secado a actividade produtiva em seu redor. A Bulgária, a Roménia e Chipre tomaram a mesma decisão, mas daí não vem surpresa alguma, são países que têm governos inconfundíveis com qualquer conotação de “esquerda”.
Ironia das ironias, Benjamin Netanyahu está por detrás e é um dos grandes beneficiários da estratégia que tem multiplicado guerras no Médio Oriente, originando a vaga de refugiados que atinge a Europa, em especial – com os dramas que se conhecem – a Grécia governada por Alexis Tsipras e pelo Syriza, em aliança com a direita nacionalista.
Nabil Shaat, ministro palestiniano e chefe da delegação palestiniana às negociações de paz – fracassadas por causa de Netanyahu e da sua insistência na colonização – teve um desabafo, em forma de pergunta, a propósito da estratégia do governo de Atenas: “a Grécia atraiçoará a Palestina?”
Fica a interrogação. É um facto que, década após década, a Grécia sempre foi um pilar do apoio aos palestinianos, quer governada à direita ou pelo PASOK. É certo que ainda há pouco o Parlamento de Atenas aprovou o reconhecimento do Estado Palestiniano. A verdade é que, neste caso, uma mão não lava a outra. A bandeira palestiniana também está içada na sede da ONU mas o Estado continua por construir e há cada vez menos terra para a sua viabilidade física. Por causa, sobretudo, da política anexionista dos governos de Netanyahu, grande parceiro de negócios de Alexis Tsipras. Sagacidade estratégica? Chamem-lhe o que quiserem, uma vez que os princípios políticos já lá vão.
 

 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

POLÍCIA DO ORÇAMENTO


 
Enquanto a Europol diz que não sabe por onde andam pelo menos 10 mil crianças cujas entradas no espaço europeu foram registadas pelas autoridades, enquanto o governo francês manifesta a intenção de prorrogar o estado de emergência por tempo indeterminado, enquanto os paraísos fiscais em que se transformaram países como a Holanda e o Luxemburgo legitimam um proveitoso tráfico empresarial de impostos, a Comissão Europeia impõe ao governo português um regateio de défice orçamental à décima, num processo em que se revela a intenção única de Bruxelas: anular as ainda que tímidas medidas de reversão da austeridade adoptadas pelo executivo de Lisboa.
A União Europeia transformou-se num museu de aberrações vivas, cada uma mais assombrosa que outra, sem rei nem roque mas sempre sacrificando as pessoas em nome de um pretexto qualquer.
O processo em torno do orçamento de Estado português é exemplar sobre o teor zero da democracia nas regras pelas quais se guia a União. Os dirigentes de Bruxelas não gerem, policiam. Um instrumento fundamental para a soberania de um país, como o orçamento de Estado, é sujeito a um processo de inspecção à lupa em nome de tratados e regulamentos que foram anexados à boleia da crise, verdadeiramente à revelia dos povos, e que funcionam, agora, como as leis únicas em aplicação. É possível instaurar a censura, como acontece na Polónia, transformar os tribunais em câmeras de eco da vontade do governo, como acontece na Hungria, incentivar a fuga aos impostos empresariais através de mecanismos como os criados na Holanda e no Luxemburgo, mas o Tratado Orçamental e o chamado Semestre Europeu, os ícones do regime de austeridade, esses são intocáveis e dependentes do comportamento arbitrário dos eurocratas de turno.
O governo de Portugal elaborou um esboço de orçamento com um défice dentro dos limites impostos pelos tratados e, agindo em conformidade com estes, apresentou-o a Bruxelas. Então aí, os polícias orçamentais sacaram das lupas e decidiram que o governo português é feito de manhosos, aldrabões que amanharam um défice virtual, meta que serão incapazes de cumprir. Logo, devem esses governantes trapaceiros e mal comportados sujeitar-se a uma “negociação” para que o orçamento final do Estado português tenha o figurino traçado pelos eurocratas e seja, é disto que se trata, extirpado de todas as decisões que tenham como objectivo aliviar o cutelo da austeridade sobre os portugueses.
Aos polícias de Bruxelas tanto se lhes dá como lhes deu que os portugueses tenham votado maioritariamente contra austeridade; é-lhes irrelevante que os portugueses tenham conseguido formar um governo até certo ponto compatível com a reversão de medidas austeritárias. O que conta para os polícias de Bruxelas é o regime de austeridade, mesmo que a democracia imponha o contrário e prove, até, que é possível recuperar medidas sociais respeitando os limites do défice impostos por Bruxelas. Não é, no fundo, o cumprimento do défice que interessa aos eurocratas, mas sim a vigência da austeridade a qualquer preço. Se os actuais governantes portugueses demonstram que o orçamento contemplando algumas medidas sociais e as fronteiras do défice são compatíveis então, dizem os polícias, é porque são aldrabões e torcem os números.
Reparem que já não estamos sequer no terreno da aberração máxima, que é o facto de um orçamento de um Estado apresentado por um governo democrático ter de ser aprovado fora desse Estado por uns cavalheiros com mentalidade ditatorial e que ninguém elegeu – tudo isto antes se ser sujeito ao mecanismo democrático, o Parlamento nacional.
Nem sequer é disso já que se trata. Passámos para o estado delirante em que os polícias de Bruxelas não só desnudam o orçamento como também têm a palavra final sobre a competência técnica e a idoneidade moral dos membros de um governo democrático – que são, à partida, acusados de aldrabice, competindo-lhes então demonstrar o contrário e, no limite, submeter-se à decisão final dos esbirros orçamentais.  
Ficando provado, pelo que atrás ficou escrito, que no pé em que as coisas estão a soberania de um qualquer Estado da Zona Euro apenas será democraticamente restaurada escapando ao garrote da moeda única, não esperando, sequer, pelo naufrágio anunciado da União Europeia. O resto, como está à vista, são ilusões.
 

domingo, 31 de janeiro de 2016

EUROPA PERDE O RASTO DE 10 MIL CRIANÇAS REGISTADAS COMO REFUGIADOS


 
Foto de Darko Vjinoviv (AP)

Dez mil crianças que chegaram à Europas fugidas dos conflitos no Médio Oriente despareceram sem deixar rastos, podendo muitas delas estar a ser exploradas como escravas sexuais e laborais no âmbito de uma sofisticada “rede criminosa pan-europeia”, admite a Europol, agência policial da União Europeia. Os desaparecimentos ocorrem já depois de as crianças serem registadas pelas autoridades dos Estados europeus.
Mais de cinco mil das crianças desparecidas foram registadas em Itália; pelo menos mais mil na Suécia. A Europol começa agora a aperceber-se de gangs para “exploração do fluxo migratório” actuando, designadamente, na Alemanha e na Hungria, conhecimento decorrente da ocorrência frequente de “conflitos cruzados” entre grupos de criminosos que estão particularmente activos na chamada “rota dos Balcãs”. “Há prisões na Hungria e na Alemanha onde a maioria dos detidos são membros de redes de exploração de refugiados”, revela Brian Donald, director da Europol, agência de polícia europeia.
Segundo Donald, cerca de 27 por cento de um milhão de refugiados entrados na Europa durante 2015 são crianças, o que significa 270 mil. “Nem todas viajam sozinhas”, acrescenta, mas o número das que chegam nessa situação e estão dadas como desaparecidas é aproximadamente dez mil, de acordo com “perspectivas conservadoras”. Donald admite que muitas ter-se-ão reunido a membros da família, outras não, mas em todos os casos “não sabemos onde estão, o que fazem ou com quem”.
O jornal britânico The Observer, o único dos chamados “jornais de referência” europeus que dedica especial atenção a esta tragédia humanitária, relata, por exemplo, o caso das mil crianças chegadas em Setembro passado ao porto sueco de Trelleborg. Todas elas desapareceram durante o mês seguinte e um relatório oficial revelado há uma semana reconhece que as autoridades têm “muito pouca informação sobre o que acontece depois de desaparecerem”. No Reino Unido duplicou em 2015 o número de crianças desaparecidas depois de registadas pelos serviços de asilo.
“Estamos perante a forma mais tenebrosa de tráfico de seres humanos e constatamos que, na prática, a resposta comunitária a tal fenómeno está muito longe de corresponder à sua gravidade”, afirma um funcionário da Comissão Europeia em Bruxelas. “Nunca como agora foi tão forte a fiscalização dos cidadãos e a cooperação entre os serviços de informações mas, ao que parece, as prioridades são outras que não a preocupação com as mais vulneráveis das vítimas de conflitos nos quais a União Europeia tem inegáveis responsabilidades”, sublinha a mesma fonte.
Maryian Berket, responsável da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE), reconhece exactamente isso: “os menores desaparecidos das regiões de conflito são, de longe, a população mais vulnerável”, afirma.
O director da Europol revelou que agência já possui provas de que um dos destinos das crianças desaparecidas depois de registadas é o circuito das redes de exploração sexual de menores. Ainda segundo Brian Donald, os motivos mais fortes para as guerras de gangs exploradores de refugiados são as disputas de menores para a escravatura sexual e laboral.
“Aqueles que estão nas nossas bases de dados como responsáveis por tráfico de seres humanos começam agora a aparecer também como envolvidos em tráfico de refugiados”, admite o director da Europol. Fontes em Bruxelas salientam que a existência prévia dessas informações e a falta de protecção inerente à condição de refugiado em busca de asilo devia ter suscitado a adopção de medidas prévias pelas autoridades. “Era inevitável que as redes de tráfico de seres humanos iriam tirar proveito do maná oferecido pela vaga de refugiados”, afirma um alto quadro do Conselho Europeu. “Como é possível falar-se tanto na defesa do nosso civilizado modo de vida e permitir-se que milhares de crianças que buscam refúgio no espaço da União encontrem trágicos destinos depois de registadas pelas autoridades em países europeus?”, interroga-se.
Brian Donald admite que a estrutura criminosa “sofisticada” tem vindo a desenvolver-se durante os últimos 18 meses, o período em que o fluxo migratório atingiu a maior intensidade, visando precisamente “tirar partido” dessa circunstância.
O chefe da Europol considera agora que é indispensável a “vigilância da comunidade” perante este fenómeno. “Estas crianças estão na comunidade e se são vítimas de abuso são-no dentro da comunidade”, diz. “Elas não se esfumaram no ar e foram levadas para o meio da floresta; estão no interior da comunidade. As populações devem estar alerta para isso”.
 
 

 

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O RUIDOSO SILÊNCIO EUROPEU


Netanyahu com Sheldon Adelson, o proprietário do jornal
 que pede a morte da ministra sueca dos Negócios Estrangeiros
 
Notícias de Israel: o Ministério da Defesa autorizou a construção de mais 153 casas em colonatos situados na Cisjordânia ocupada; e um jornal israelita defende a liquidação da ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, Margo Wallstrom, por condenar as execuções extrajudiciais de cidadãos palestinianos.
Quem procurar reacções de dirigentes da União Europeia a estes atentados ao direito internacional – seja de governos, seja das instituições comunitárias – não as encontrará. Bruxelas come e cala perante as constantes exibições de impunidade dos dirigentes israelitas e dos arruaceiros que os servem.
Os novos alojamentos traduzem a ampliação de colonatos já existentes em três regiões da Cisjordânia e, naturalmente, a expansão das zonas assim ocupadas. Os mais poderosos dirigentes mundiais continuam a falar na “solução de dois Estados” para a questão israelo-palestiniana enquanto, paulatinamente, o regime sionista prossegue o processo de anexação dos territórios onde deveria ser fundado um Estado palestiniano soberano e viável. Pelo que, cada vez mais, o “processo de paz” e o seu desfecho de “dois Estados” soa a história da Carochinha, com a diferença que nada tem de inocente. Quem insiste em narrá-la sabe que o faz enganando os ouvintes, porque é impossível não adivinhar o desfecho da mistificação se não forem tomadas medidas sérias para fazer prevalecer o direito internacional.
O facto de ser o Ministério da Defesa israelita a gerir a expansão dos colonatos é o testemunho mais evidente de que não se trata de uma operação comum de urbanização de terrenos loteados em espaço próprio, mas sim de um processo de ocupação realizado com apoio militar. Só não vê quem não quer ver e, a respeito da colonização israelita, os principais dirigentes mundiais são deliberadamente cegos e mudos. Dizem-se tão preocupados com o terrorismo e deixam que actuações como esta decorram sob os seus narizes.
Quanto à condenação à morte da ministra sueca dos Negócios Estrangeiros, vem estampada em letra de forma e em editorial no jornal israelita Makor Rishon (“De fonte segura”). Margo Wallstrom fez declarações condenando as execuções extrajudiciais de presos palestinianos, que, aliás, são do conhecimento da chamada “comunidade internacional” – esse é o crime que serve de base à sentença ditada pelo editorialista. Para este, a chefe da diplomacia sueca é “uma antissemita como foi Folke Bernadotte” e, escreve ele, “estou convencido de que conhecerá o mesmo fim”. O conde Folke Bernadotte, diplomata sueco, foi assassinado em 17 de Setembro de 1948 pelo grupo terrorista sionista Stern quando tentava negociar um cessar-fogo na Palestina entre os exércitos árabes e judaico.
Não creia o leitor que o jornal punitivo é uma qualquer folha de couve impressa e distribuída por lunáticos. Pertence ao grupo do magnata mafioso norte-americano Sheldon Adelson, senhor dos casinos com relações muito próximas do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. A senhora Wallstrom tem razões para se precaver e, ao mesmo tempo, fica a perceber que as cedências como as que recentemente fez a Marrocos e ao Ikea, a propósito do Sahara Ocidental, não a tornam mais imune a quem não olha a meios.
Dos Estados Unidos não haveria que esperar qualquer reacção a estes desmandos israelitas, que aliás fazem parte da rede de comportamentos minuciosamente fiada entre Washington e Telavive.
Já das instâncias e dos governos da União Europeu ainda seria possível alimentar a tímida ilusão de uma qualquer chamada de atenção. A notícia sobre novos colonatos, é certo, pode ser considerada um dado corriqueiro do dia-a-dia, tão banal que não merece o esbanjamento sequer do precioso tempo dos doutos telejornalistas; mas, que diabo, há incitamentos que ameaçam a vida de uma ministra de um governo da União. Não seria motivo para alguma solidariedade, pelo menos de outros colegas?
Santa ingenuidade a do escriba!
 

 

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

JUNCKER E O "PRINCÍPIO DO FIM" DA UNIÃO EUROPEIA


 
Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, que ele próprio considera como sendo “a da última oportunidade”, declara-se alarmado com as “fragilidades” e as “rupturas” de que sofre a União Europeia e admite que a organização “não se encontra em bom estado”, podendo mesmo ter chegado ao “ princípio do fim”.
“Não é preciso ir muito longe para encontrar os responsáveis”, diz Juncker. E acusa “os governos dos Estados membros, que ele vê reféns “do nacionalismo e do populismo” quer “sejam de esquerda ou direita”. Um pequeno parêntesis para lembrar que quando o presidente da Comissão fala de “esquerda”, no linguajar eurocrata isso significa partidos socialistas e sociais-democratas na sua versão da gestão bipolar e monolítica dos assuntos europeus, visivelmente em decadência.
São duras e cruas as palavras de Juncker. Foram proferidas a 15 de Janeiro em Bruxelas, durante um encontro com jornalistas onde deixou desabafos autocríticos como este: “ a minha geração não é uma geração de gigantes””.
O diagnóstico não é novo. Está plasmado e visível na comunicação social, mesmo naquela que se diz “de referência” e para a qual a Europa não se discute, há que fazer o que Bruxelas manda, doa a quem doer, sabendo-se que dói sobretudo às maiorias dos menos favorecidos. O que surpreende, apesar de se conhecer o seu estilo informal quanto baste, é o tom da advertência do presidente da Comissão, que desta feita não poupou os governos e disparou um míssil na batalha institucional entre a Comissão e o Conselho.
Alguns analistas interpretaram as palavras de Juncker como uma manifestação de “pessimismo inteligente”, um método para espicaçar as instituições de maneira a que procurem soluções urgentes para os muitos problemas da União e expondo-lhes, ao mesmo tempo, um cenário de urgência, como quem diz que nada é eterno, nem mesmo a União Europeia. Citou quatro problemas que atingem em cheio os 28 – terrorismo, refugiados, a Ucrânia e a Grécia – não escondendo que deles e outros decorre uma “policrise” perante a qual detectou “tantas fragilidades e rupturas”.
O aviso, apesar de alarmante, teve pouco eco. Talvez por já prever que isso acontecesse, o presidente da Comissão Europeia desabafou que não tem “grandes ilusões” sobre o ano que começou. De facto, as circunstâncias dão-lhe razão, porque nem todos os responsáveis, a começar pelos de maior influência, parecem manifestar inquietação com o “estado da Europa” e resvalam, sem dúvida, para os terrenos movediços do nacionalismo e do populismo, os quais alastram - e parece que sem contenção - nos dois pilares da União, o chamado “eixo europeu” e também designado “a locomotiva da Europa”: França e Alemanha.
Em França, o presidente Hollande não usou uma única vez a palavra “Europa” no seu discurso de ano novo durante, no qual abundaram, ao invés, as inquietações sobre o estado da “pátria francesa”. O terrorismo é o culpado desta omissão, segundo os eurocratas, mas estes não têm ilusões de que no todo da mensagem está implícito – em forma de transigência - o efeito do impacto dos recentes resultados eleitorais conseguidos pelo neofascismo. Tendência que, numa demonstração prática das cedências ao populismo denunciadas por Juncker, o primeiro-ministro Manuel Valls reforçou ao anunciar que o estado de emergência no país será prorrogado até que “seja derrotado o Estado islâmico”, ou seja, por tempo indeterminado. Resumindo: a democracia está suspensa em França”.
Na Alemanha o panorama é diferente, mas as forças neonazis amadurecem a alta velocidade e ameaçam a prazo – que provavelmente não será longo – o status quo da senhora Merkel. O nazismo sempre latente na sociedade alemã encontrou agora nos refugiados o seu novo ovo da serpente e o partido Alternativa para a Alemanha (ADF), que só por meia dúzia de votos não teve acesso ao Parlamento em 2013 – antes da crise actual – prepara-se para entrar em força em três parlamentos regionais já em 13 de Março, instalando os primeiros marcos da alteração do mapa político do país. Analistas alemães advertem que na sombra desta emergência do Adf, anti União e anti refugiados, estão correntes influentes da CDU da chanceler, descontentes com o “centrismo” desta.
No meio destes problemas de fundo, outros do mesmo tipo se manifestam de maneira exuberante na Polónia, país que o diário espanhol El País designa como o “Kackzinskystão, de Jaroslaw Kackzinsky, o homem sombra que conduz e manipula a extrema-direita no poder, exercido em maioria absoluta com 37 por cento dos votos obtidos em abstenção de metade do eleitorado; e na Hungria, onde o regime ultranacionalista de Viktor Orban soma e segue na instauração da ditadura política, sob os olhares indiferentes, ou mesmo cúmplices, de Bruxelas.
Polónia e Hungria onde Bruxelas continua a despejar verbas equivalentes a 4% dos respectivos PIB enquanto regateia à décima o número do défice do projecto de orçamento elaborado pelo governo de Portugal. É assim que funcionam as instituições, alegarão os ortodoxos e fundamentalistas da União Europeia, mas talvez seja mesmo por isso, entre muitas outras incongruências, que a comunidade tenha chegado “ao princípio do fim”, não segundo as palavras de um qualquer infiel da liturgia europeia mas do próprio presidente da Comissão.