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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

UM RECANTO PARA A ESPERANÇA


 
Para os que viveram o 25 de Abril em Portugal e têm assistido à vingança contra a revolução, posta em prática sobretudo no decorrer dos últimos 35 anos, as ilusões há muito se esfumaram. Quando se observa o desmantelamento sistemático de um país arrasando a economia, saldando o bem público, alargando as desigualdades, submetendo a soberania nacional a ordens emanadas do estrangeiro em desfavor dos portugueses, tudo isto em nome da democracia, da liberdade e da modernidade, a simples tentativa de cultivar ilusões mais não é do que uma cedência à passividade e ao conformismo.
Nada de ilusões, porque nada há de mais desmotivador que a desilusão. Mesmo dando o devido valor à tomada de posse de um governo nascido da reintegração na esfera das decisões de alguns partidos que o sistema de vingança funcionando desde a década de oitenta segregou e tentou condenar ao pariato eterno; mesmo ouvindo o novo primeiro-ministro falar de Abril perante o rosto agoniado do chefe do Estado; ou anotando ainda a sua intenção – que me pareceu genuína – de recuperar as pessoas e a cidadania para o processo político como caminho para as poupar aos efeitos mais cruéis do regime do mercado; ou registando até o seu proclamado empenho em restaurar direitos e práticas sociais que têm sido feridas quase de morte pelo sistema de governo gerido pelo ganancioso patronato interno e externo. Qua não haja ilusões, dentro de uma perspectiva realista e preventiva, mas se cuide de uma esperança, agora justificada, porventura capaz de abalar e desinstalar um sistema degenerado, na verdade ilegítimo, ofensivo da Constituição da República e que deixou Portugal de rastos.
Foi este sistema que nas últimas três décadas e meia se instalou e esbanjou milhares e milhares de milhões de escudos e euros em obras faraónicas com duvidoso e fugaz prestígio gerando penosas inutilidades ou, quando privatizadas as que se tornaram rentáveis, proporcionando insultuosas fortunas a meia dúzia de ex-ministros, ex-administradores, ex-qualquer-outra-forma-de-poder. O mesmo sistema que abriu portas à folia criminosa da banca, a seitas de alta corrupção à custa da delapidação dos bens comuns e de grandes negócios de compadres e famílias cujos principais responsáveis, provavelmente, nunca serão punidos por uma questionada justiça, que mal terá desbravado ainda a ponta de um monstruoso iceberg. O mesmo sistema ainda que transformou a política numa serviçal das manigâncias da economia, dos assaltos da finança, sonegando simultaneamente aos portugueses o direito democrático básico de poderem pronunciar-se sobre adesões forçadas a entidades como a União Europeia e a tratados e moeda que submetem os interesses dos cidadãos às vontades e arbitrariedades de grandes potências políticas e económicas – tal como já acontecera com a NATO no tempo do outro senhor.
Foi este insaciável sistema que, ao inventar “a crise” para institucionalizar a austeridade inventou igualmente aleivosias como a de “vivermos acima do que podíamos”, sermos uns “madraços” e “preguiçosos” meridionais incapazes de compreender os segredos estratégicos e mágicos da “produtividade”, olhada esta como o método de cada um por si, salve-se quem puder, o êxito é chegar ao topo espezinhando quem aparece no campo de batalha em que se transformou a sociedade, onde todos os meios são permitidos para atingir os fins.
Nada de ilusões, à cautela, mesmo quando o novo primeiro-ministro promete um “tempo novo” e o define segundo intenções, atitudes e comportamentos que põem de facto em causa a linha vigente nos últimos 35 anos. Um primeiro-ministro que fala em pessoas, solidariedade, direitos, inclusão, serviços públicos dignos, respeito pelo trabalho, coisas que surgem tão fora do registo até agora em vigor que, mal terminado o discurso de posse, já da pocilga da propaganda a que chamam comunicação social saía um “comentador” tomando as dores dos mais inquietos com as perspectivas de mudança, sentenciando que “não se deve demonizar o mercado” porque “o mercado somos todos nós”.
Árdua vai ser a tarefa do novo governo, que requer a solidariedade e a mobilização actuante de todos quantos se identificam com a maioria democrática gerada na Assembleia da República e que o sustenta. Para que o “tempo novo” se afirme e se reflicta na vida da esmagadora maioria dos portugueses espoliados, humilhados, insultados durante os últimos 35 anos, negros para um país que se gaba dos mais de 800 anos de história. Para que “o tempo novo” seja também um tempo de restauração da dignidade das pessoas que vivem em Portugal, imigrantes e refugiados incluídos, e dos portugueses que, gerações atrás de gerações, foram obrigados a emigrar; um tempo de coragem e afirmação soberana das vozes que terão de fazer ouvir-se nas instâncias internacionais, principalmente nas da União Europeia, invocando os direitos e interesses das pessoas e não papagueando instruções dos chantagistas financeiros, acenando servilmente perante as ordens dos imperadores económicos. Vozes serenas mas firmes e dignas, com a certeza de que nesses areópagos as relações são entre iguais e, por isso, não há lugar para professores nem para alunos - bons ou maus alunos.
Que não se cultivem ilusões mas, posto o que ficou escrito, penso ter sido restaurado em Portugal um recanto para a esperança e para retirar a democracia no lodo em que quase a asfixiaram.
 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

52 LONGOS DIAS…


 
Parece que Portugal já tem governo. Ou melhor, a lista governativa apresentada pelo primeiro-ministro “indicado” e não “indigitado” – é complexa e retorcida a semântica de Belém – está a ser filtrada pelo senhor Presidente da República em exercício, acção legítima, quiçá, mas jamais divulgada aos cidadãos nestes termos acintosos, dir-se-iam ressabiados. Talvez o senhor Chefe do Estado queira inteirar-se da eventualidade de estar por ali escondida alguma ameaça terrorista, algum “feroz” inimigo da NATO, um sinistro contestatário do euro e da liderança absoluta dos mercados. Espécie de portugueses bastardos, ao que consta.
Nesta manobra se vão perdendo mais uns dias, já lá vão 52 desde as eleições gerais e mais de duas semanas desde os acordos que selaram a existência de uma maioria parlamentar que permite a formação de um governo legítimo, estável e coerente – tudo o que não é garantido pelo executivo demitido mas que tarda em largar o poder.
Cinquenta e dois longos dias em que o senhor Presidente gerou uma cacofonia de conceitos sobre a suposta maldição que assaltou o país através de entendimentos políticos entre partidos que desmantelaram a ilegitimidade do chamado “arco da governação”, espécie de travesti de partido único talhado à medida de financeiros e agiotas globais. Entre figuras e figurões que integraram a romaria dos que o foram aconselhar, de tal competência que muitos deles, há um ano apenas, juravam que a solidez do BES era de betão – o senhor Presidente foi ainda escutar as cagarras madeirenses para finalmente se render à evidência – sem se dar por convencido - de que a melhor prática democrática e republicana é entregar a formação dos governos às maiorias parlamentares.
Antes ainda de se retirar para fiscalizar a lista ministerial que lhe foi entregue por António Costa, o Chefe do Estado Português apresentara exigências, digamos, insólitas para quem tinha a obrigação de conhecer de cor e salteado os acordos de incidência governamental da maioria e também o programa de governo do Partido Socialista deles resultantes. O senhor Presidente apresentou meia dúzia de condições com duas interessantes particularidades: nenhuma delas revelava preocupação com as pessoas, mas sim com os falcões da NATO, os suseranos de Bruxelas, os magarefes das finanças, além de proclamar o absolutismo de tratados que hipotecam a soberania nacional; e quando olhadas uma por uma, nenhuma dessas condições poderia ser cumprida pelo governo ainda em funções, muito menos as de governabilidade, durabilidade e estabilidade, porque não dispõe este executivo de maioria parlamentar, isto é, de base para governar. Tirar uma tal conclusão nada tem de abusivo e especulativo: o senhor Presidente não impôs as mesmas condições ao primeiro governo que empossou, o qual em poucos dias ruiu fragorosamente, vítima da aritmética simples do funcionamento parlamentar. Assim sendo, o conceito presidencial de estabilidade e de durabilidade para quatro anos digamos que é flexível.
Dir-se-ia, através do arrastamento destes processos, que o senhor Chefe do Estado não se importou de deixar o país refém dos seus humores de mau perdedor, do feitio de vingativo que lhe veio ao de cima, por exemplo, no discurso de reeleição. Houve mesmo agentes económicos e até membros da academia de novos feiticeiros conhecidos como “politólogos” que desaconselharam tal comportamento, por ser susceptível de irritar os mercados levando-os a castigar o país – isto é, não o senhor Presidente mas as pessoas, os cidadãos comuns - e a dificultar desnecessariamente a vida ao próximo governo.
E, contudo, Portugal sobreviveu. Os sapientes “analistas” financeiros, outra casta de bruxos em funções, surpreendem-se até que o mais recente leilão de dívida pública portuguesa a dez anos tenha decorrido com juros contidos – dir-se-ia até, pelo tom dos comentários, que desejariam o contrário para não terem de engolir as previsões catastrofistas.
Portugal sobreviveu, mas em cacos, e 52 dias assim desbaratados não lhe dão saúde, muito menos ao coração do país, as pessoas. Agora há que limpar e arrumar a casa e tentar ir o mais longe possível na sua restauração ao serviço dos cidadãos. Infelizmente a varredela do Palácio de Belém ainda tem de esperar até Março.
 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O CONSPIRADOR


 
Os portugueses ganham menos, trabalham mais e correm riscos mais elevados de despedimento.
Quem o diz? A CGTP? O PCP ou o Bloco de Esquerda? O “radical” António Costa? Se o leitor respondeu de acordo com alguma destas óbvias alternativas errou redondamente.
Quem o diz é a insuspeitíssima OCDE, entidade neoliberal por essência e definição, concluindo assim que a vida dos portugueses está cada vez pior. As motivações do desabafo só os próprios a conhecerão, mas agora que, segundo a coligação que nos deixou neste lindo estado, as coisas iam tão bem, esta conclusão parece traiçoeiramente combinada entre a dita OCDE e as diligências de António Costa para fazer um governo contra a austeridade.
Ao mesmo tempo, imagine-se a amplitude da conspiração, a Global Wealth Report, uma das várias entidades que avaliam a saúde das finanças dos mais ricos do mundo, deduziu que Portugal tem menos milionários, mas mais ricos.
Isto é, por um lado os portugueses ganham menos, trabalham mais e vivem na corda bamba do desemprego; por outro, os milionários portugueses são em menor número, helas!, mas estão mais ricos.
Surge então o ex-presidente da Comissão Europeia, um indivíduo que devia estar a prestar contas ao Tribunal de Haia por crimes contra a humanidade, e adverte os militantes do PS que nem se atrevam a permitir um governo de aliança entre o seu partido e os partidos à esquerda, porque isso irá trazer elevados custos aos portugueses. A quem? Aos que carregam o peso da austeridade ou àqueles pobres milionários, coitados, que estão menos ricos, quiçá até aos que estão mais ricos?
Depois das quedas na bolsa provocadas pela “instabilidade política” conjugada com a “ameaça de um governo de esquerda”, depois das insistências de Bruxelas para que o governo – em minoria – envie rapidamente o “projecto de orçamento” do próximo ano, depois dos recados dos bancos segundo os quais, como “motores da economia”, exigem uma célere e estável “solução política”, depois das mensagens cifradas do rei de Boliqueime, faltavam-nos as ameaças silvadas pelo ex-presidente da Comissão.
O homem nem hesitou em interromper o seu repouso sabático, talvez correndo o risco de perder o telefonema capaz de o projectar para novos e altíssimos voos, tão empenhado está em acudir aos portugueses assim ameaçados de ganharem ainda menos, de trabalharem ainda mais, de alongarem a interminável fila dos desempregados. Ele, o ex-presidente da Comissão Europeia que não hesitou em fazer das mentiras guerra e assim provocar a perda de milhões de vidas humanas – é verdade, a ordem de grandeza das vítimas mortais das guerras por ele apoiadas já se avalia em milhões; ele, que depois do desmantelamento do Iraque e da Líbia também tem as mãos sujas do sangue dos sírios, pois sabe-se como a União Europeia contribuiu e contribui para esta tragédia; ele, que está na origem da via-sacra dos refugiados a caminho da Europa e que, enquanto presidente da Comissão, nada fez – antes pelo contrário – para que a Europa tivesse uma política de imigração.
Dir-se-á: pois sim, o homem será isso tudo mas também é um patriota. Ainda muito novinho, revolucionário em folha, impediu que os portugueses tombassem nas mãos do tenebroso “social-fascismo”. Depois, como primeiro-ministro de Portugal, foi o anfitrião ideal da tal cimeira dos grandes democratas Bush, Aznar e Blair que iria levar a democracia a cada recanto do Médio Oriente e só não o conseguiu devido às tramoias do “terrorismo”. A seguir, já como presidente da Comissão Europeia, defendeu bravamente os interesses dos portugueses enviando-lhes a troika, protegendo os agiotas que lhes sugam os bens, colocando-se ao lado da benemérita Merkel, que só por um triz não ganhou o Nobel da Paz, contribuindo para que aos seus concidadãos fossem impostos tratados e outros artifícios austeritários, de modo a instaurar a ordem nas benditas finanças públicas. É certo que a dívida continua a crescer, os números fintam os discursos oficiais, mas há que dar tempo ao tempo e espaço à minoria governamental.
Enfim, o homem que fez tudo o que esteve ao seu alcance para que os portugueses ganhem menos, trabalhem mais, emigrem muito mais e vivam cada vez mais à beira do desemprego é a voz segura e certa para advertir os mesmos portugueses de que irão ganhar menos com um governo à esquerda. Ele sabe do que fala; sobretudo, sabe como se conspira.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O ARCO DOS TRAPACEIROS


 
A última tendência de campanha dos partidos do arco da governação, certamente ditada pelos fumegantes brain storms produzidos por reputados técnicos de marketing alugados temporariamente para o efeito, é a de evitar fazer promessas aos eleitores. Para tal estratégia não seria preciso recorrer a renomados profissionais da manipulação publicitária, qualquer um percebe que os eleitores estão fartinhos de promessas, sabendo que invariavelmente vão desembocar no território da mentira.
Pois agora não há promessas, e até se promete não fazer promessas como suprassumo da transparência e da franqueza perante os donos do voto. A moda agora é números, os meus números para lá, os teus números para cá, os meus números são melhores e mais fiáveis que os teus, nada disso, os melhores e mais realistas são os meus. Números esses, os meus e os teus, produzidos todos pelos mesmos tecnocratas autores dos programas económicos do arco, devendo apenas discutir-se se os meus são mais amigos do mercado que os teus ou vice-versa, sendo certo que são todos muito neoliberais, nem de outra maneira poderia ser porque depois como se iriam explicar os resultados aos draghis, merkels, djesselboems, hollandes, camerons e obamas desta vida.
Enquanto se esgrimem números, os candidatos-governantes e governantes-candidatos do arco falam em pessoas. Tem de ser: são pessoas que votam, por uma vez de quatro em quatro anos também existem pessoas além dos centros de batota financeira e das máquinas de transformar ossos e sangue humanos em lucros. Para isso todos eles têm soluções, combinam números com pessoas, conseguem rimar famílias com boas intensões no versejar monocórdico e sem alma gritado em feiras e comícios de arregimentados – nisto (e noutras coisas) o fantasma salazarento não se faz velho.
Pois bem, não façam promessas para não serem apanhados em mentiras, a estratégia está queimada, qualquer papalvo a denuncia - sentenciaram os técnicos de marketing. Há coisas, porém, que já nem o mais pintado dos marketeers consegue disfarçar: a imagem de mentiroso do primeiro-ministro em exercício. Dela já não se livra; quem o escolher é porque gosta de ser enganado, uma escolha tão legítima como qualquer outra. O homem é mentiroso compulsivo, vive disso e a aldrabice congénita acompanhá-lo-á até à tumba.
Não julguem que é o único do arco da governação. Não, não estou a pensar no dr. Portas, manipulador e aldrabão com um talento que faz do seu chefe um mentiroso reles, tipo bufo de escola.
Falo do dr. Costa, correndo o país de lés-a-lés não fazendo promessas mas levando uma grande mentira na bagagem, embrulhada no papel pardacento de um dos mais gritados dos seus números: o de que ao fim de um pretendido consulado de quatro anos sob a sua regência a dívida portuguesa cairá dos impagáveis 130% do PIB para outros impagáveis 117% - sem mencionar uma hipotética renegociação, imagine-se. Deixo vénias ao blogue O País do Burro por ter alertado para a enormidade da mentira do dr. Costa através de cálculos que pessoalmente confirmei com algumas continhas de quarta classe, tirando as respectivas provas dos nove. Para que a promessa do dr. Costa se cumpra é preciso que a economia portuguesa suba entre 8 a 8,5% ao ano nos próximos quatro anos – mais do que a chinesa, pois claro, mas esses estão em crise – quando agora, muito timidamente e certamente manipulada por impulsos eleitorais, mal passa de 1%.
Várias conclusões se podem tirar desta promessa do dr. Costa, que não é promessa mas sim um número, e dos bons. Talvez ele seja um milagreiro; talvez ele e os seus mentores apenas não saibam fazer contas – seguindo as pisadas lendárias do dr. Soares; talvez ele tenha escondida na manga uma austeridade que fará parecer os agentes da troika uns anjinhos papudos, mas não o poderemos saber porque o dr. Costa foge das promessas como o diabo da cruz; ou talvez o dr. Costa seja um grande mentiroso, rivalizando com os companheiros de arco, o dr. Coelho e o dr. Portas, ficando tudo em família.
Confesso que não sei por qual destas hipóteses me decida. Deixo-vos o final em aberto.
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

MOMENTO HISTÓRICO DE MISTIFICAÇÃO


 
Um dos figurantes da noite d’”O Debate” assegurou, empolgado, que estávamos a viver um momento histórico e não serei eu que irei retirar-lhe a razão. Foi histórico, sim senhoras e senhores, aquele “Debate”, porque além de ter sido a maior operação de propaganda situacionista que Portugal viveu – e não é dizer pouco num país que sofreu quase meio século sob um regime fascista – também foi bastante esclarecedor para os cidadãos com os olhos abertos: revelou-se o mais consistente exemplo da mistificação a que chegou a democracia portuguesa como subproduto do conceito de democracia vigente na União Europeia.
Em boa verdade, os figurantes e os actores pareciam ter chegado de outro planeta, quiçá de Marte, numa confirmação do advento ainda há pouco proclamado pelo dr. Costa sobre a iminente arribação de marcianos. Esclarecer não era o objectivo, como se percebeu através da penosa série de perguntas retóricas e dos monólogos a corresponder-lhes, para que no fim triunfasse, como triunfou, o todo-poderoso arco da governação, porque outro resultado não seria possível, o 1 era igual ao X e ambos igualíssimos ao 2, nunca foi tão fácil acertar no Totobola. Todos os cinco em cena corresponderam ao que deles se esperava como micro universo do sistema político-propagandístico que destina a vida dos portugueses, a exemplo dos outros que controlam as vidas dos 27 povos da União. E o desfecho também não surpreendeu, porque “O Debate” não foi montado para que dele nascesse a luz mas antes alastrasse a confusão, de modo a transformar a escolha eleitoral num duelo entre dois clubes, à maneira de uma refrega futebolística.
O lado mais importante do “Debate”, e daí a importância histórica desta mega operação propagandística do chamado arco da governação, é o que está para além dele. Creio que é essencial reflectir sobre isso.
O momento d’”O Debate” não foi escolhido por acaso. Travou-se a cerca de um mês antes da data das eleições, ainda no exterior da campanha eleitoral, e não em cima da votação, por uma razão muito simples: marcar a agenda e os temas da campanha. Do mesmo modo que a magna manobra foi organizada de maneira a convencer os eleitores que não há escolha para lá destes dois figurões e respectivas famílias políticas – família política, para ser mais preciso – ficaram também estabelecidos os tons e os temas da campanha. Disso se encarregam os dois ilustres senhores e, sobretudo, a corte de analistas, comentadores e especuladores oficiais do regime, os quais irão espremer o “Debate” e respectivas nuances, inflexões e sound-bites criando a confusão e o ruído necessários para que não se faça política, mas sim lavagem cerebral.
Os que ainda conseguem lembrar-se de qualquer coisa que tenha acontecido n’”O Debate” sabem muito bem que por ele não passaram, por exemplo, a Educação, as trapaças do Tratado Orçamental, os beija-mãos à senhora Merkel; da Saúde deitaram-se uns pozinhos para os olhos, da Justiça cruzes credo, t’arrenego, Agricultura, Indústria e Pescas que é delas – em boa verdade não deve falar-se de coisas que foram devastadas pelas duas tão aconchegadas famílias. Para o desemprego e a segurança social guardaram-se as piruetas estatísticas, investimento público nem pensar porque é público, logo ofensivo do mercado. Quanto à troika, parece que a tão famosa “ajuda” foi renegada agora que se aproxima a hora de as vítimas da austeridade terem uma palavra a dizer, porque afinal ninguém a chamou. O dr. Coelho diz que foi o eng. Sócrates; e o dr. Costa, que não consegue sequer pronunciar o nome do eng. Sócrates, se calhar ao tempo trabalhava apenas como porteiro no Largo do Rato.
Enfim, a campanha oficial vai ser um desdobramento d’”O Debate” em doses sucessivas, de maneira a que as propostas elaboradas por outras forças políticas que não as do arco da governação sejam esmagadas por um tenebroso aparelho de mistificação que se entretém a fingir que discute o passado por não ter a coragem e a frontalidade de assumir que pretende mais do mesmo para o futuro do país: austeridade, submissão, desigualdade, arbitrariedade, miséria, emigração.
“O Debate” foi histórico, sem dúvida. Demonstrou como os impérios da propaganda travestidos de comunicação – com os respectivos tentáculos multinacionais e imperiais – protegem os seus agentes na política, de maneira a que os momentos potencialmente incómodos, como é o caso de umas eleições gerais, sejam ultrapassados sem danos e até com proveitos acrescidos.