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domingo, 31 de janeiro de 2016

EUROPA PERDE O RASTO DE 10 MIL CRIANÇAS REGISTADAS COMO REFUGIADOS


 
Foto de Darko Vjinoviv (AP)

Dez mil crianças que chegaram à Europas fugidas dos conflitos no Médio Oriente despareceram sem deixar rastos, podendo muitas delas estar a ser exploradas como escravas sexuais e laborais no âmbito de uma sofisticada “rede criminosa pan-europeia”, admite a Europol, agência policial da União Europeia. Os desaparecimentos ocorrem já depois de as crianças serem registadas pelas autoridades dos Estados europeus.
Mais de cinco mil das crianças desparecidas foram registadas em Itália; pelo menos mais mil na Suécia. A Europol começa agora a aperceber-se de gangs para “exploração do fluxo migratório” actuando, designadamente, na Alemanha e na Hungria, conhecimento decorrente da ocorrência frequente de “conflitos cruzados” entre grupos de criminosos que estão particularmente activos na chamada “rota dos Balcãs”. “Há prisões na Hungria e na Alemanha onde a maioria dos detidos são membros de redes de exploração de refugiados”, revela Brian Donald, director da Europol, agência de polícia europeia.
Segundo Donald, cerca de 27 por cento de um milhão de refugiados entrados na Europa durante 2015 são crianças, o que significa 270 mil. “Nem todas viajam sozinhas”, acrescenta, mas o número das que chegam nessa situação e estão dadas como desaparecidas é aproximadamente dez mil, de acordo com “perspectivas conservadoras”. Donald admite que muitas ter-se-ão reunido a membros da família, outras não, mas em todos os casos “não sabemos onde estão, o que fazem ou com quem”.
O jornal britânico The Observer, o único dos chamados “jornais de referência” europeus que dedica especial atenção a esta tragédia humanitária, relata, por exemplo, o caso das mil crianças chegadas em Setembro passado ao porto sueco de Trelleborg. Todas elas desapareceram durante o mês seguinte e um relatório oficial revelado há uma semana reconhece que as autoridades têm “muito pouca informação sobre o que acontece depois de desaparecerem”. No Reino Unido duplicou em 2015 o número de crianças desaparecidas depois de registadas pelos serviços de asilo.
“Estamos perante a forma mais tenebrosa de tráfico de seres humanos e constatamos que, na prática, a resposta comunitária a tal fenómeno está muito longe de corresponder à sua gravidade”, afirma um funcionário da Comissão Europeia em Bruxelas. “Nunca como agora foi tão forte a fiscalização dos cidadãos e a cooperação entre os serviços de informações mas, ao que parece, as prioridades são outras que não a preocupação com as mais vulneráveis das vítimas de conflitos nos quais a União Europeia tem inegáveis responsabilidades”, sublinha a mesma fonte.
Maryian Berket, responsável da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE), reconhece exactamente isso: “os menores desaparecidos das regiões de conflito são, de longe, a população mais vulnerável”, afirma.
O director da Europol revelou que agência já possui provas de que um dos destinos das crianças desaparecidas depois de registadas é o circuito das redes de exploração sexual de menores. Ainda segundo Brian Donald, os motivos mais fortes para as guerras de gangs exploradores de refugiados são as disputas de menores para a escravatura sexual e laboral.
“Aqueles que estão nas nossas bases de dados como responsáveis por tráfico de seres humanos começam agora a aparecer também como envolvidos em tráfico de refugiados”, admite o director da Europol. Fontes em Bruxelas salientam que a existência prévia dessas informações e a falta de protecção inerente à condição de refugiado em busca de asilo devia ter suscitado a adopção de medidas prévias pelas autoridades. “Era inevitável que as redes de tráfico de seres humanos iriam tirar proveito do maná oferecido pela vaga de refugiados”, afirma um alto quadro do Conselho Europeu. “Como é possível falar-se tanto na defesa do nosso civilizado modo de vida e permitir-se que milhares de crianças que buscam refúgio no espaço da União encontrem trágicos destinos depois de registadas pelas autoridades em países europeus?”, interroga-se.
Brian Donald admite que a estrutura criminosa “sofisticada” tem vindo a desenvolver-se durante os últimos 18 meses, o período em que o fluxo migratório atingiu a maior intensidade, visando precisamente “tirar partido” dessa circunstância.
O chefe da Europol considera agora que é indispensável a “vigilância da comunidade” perante este fenómeno. “Estas crianças estão na comunidade e se são vítimas de abuso são-no dentro da comunidade”, diz. “Elas não se esfumaram no ar e foram levadas para o meio da floresta; estão no interior da comunidade. As populações devem estar alerta para isso”.
 
 

 

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

ESTATÍSTICAS E SONDAGENS


O governo da República Portuguesa, actualmente em fase de mera transição, ficou indisposto com as recentes estatísticas sobre o desemprego, isto é, custou-lhe a provar do seu próprio veneno. As quais estatísticas, como se sabe, lhe são muito favoráveis porque mascaram – não por culpa dos técnicos responsáveis – uma realidade bem mais grave que os anunciados 12,4 por cento. Estes números escondem o elevadíssimo número de cidadãos chamados “desempregados de longa duração”, que nem sequer estão registados nos centros de emprego e muitos deles já nem procuram trabalho; omitem as percentagens escandalosas de trabalho precário, uma actividade esclavagista que vale como emprego, atacando forte e feio a dignidade do trabalho e do trabalhador; e remetem para outras parcelas estatísticas o quase meio milhão de portugueses que, durante os últimos quatro anos, tiveram de fugir do país – seguindo, aliás, as sugestões do primeiro-ministro em exercício – para matarem a própria fome e a dos seus.
Mesmo assim, o governo queixa-se. Queria, por certo, estatísticas ainda mais marteladas para poder jogar com elas manipulando os eleitores a menos de dois meses de eleições gerais.
O episódio é exemplar sobre o regime em que vivemos, não apenas em Portugal mas em toda a União Europeia. O regime dos números contra as pessoas, a vigência de uma realidade paralela que não poucas vezes, cozinhada com a propaganda, deturpa e mistifica a vida real. Misturem-se estatísticas com sondagens, temperem-se com doutos debates, sábias palestras e as irrepreensíveis conversas em família dos sociólogos e sabichões oficiais da nação e teremos um caldo de números que, se for preciso, nos faz ver o mundo ao contrário.
Não castiguemos os mensageiros por tão perversas mensagens. A culpa não é de quem elabora as estatísticas, de quem faz os trabalhos de campo nas sondagens. Obter números e empacotá-los em gavetas informáticas não é pecado. O problema está na maneira como essas gavetas são arrumadas e os seus conteúdos politicamente interpretados.
O ultraje existe no facto de um primeiro-ministro esgrimir com um décimo a mais ou a menos de um índice de desemprego quando as pessoas e as famílias atingidas por essa décima não lhe merecem o mínimo respeito, como se não existissem. O crime está no facto de uma décima a mais ou a menos numa sondagem poder vir a ser usada pelos que se acham com o direito eterno a governar como pretexto para refinar mentiras pré-eleitorais que depois se transformarão em aldrabices governamentais.
O regime em que vivemos, o do neoliberalismo – palavra que os praticantes começam a ter pudor em pronunciar – é o dos números. O regime dos números absolutos e muitas vezes virtuais contra as pessoas reais. É o sistema da frieza aritmética contra os direitos humanos.
Os números das estatísticas e das sondagens são armas de arremesso usadas pelo chamado “arco da governação” contra os cidadãos, o artifício de transformar as pessoas num imenso rebanho acéfalo conduzido por pastores tecnocratas que agem como burros à volta de uma nora.
Transformar um dado estatístico ou o resultado de uma qualquer sondagem num tema crucial de debate é um comportamento perverso, utilizado para desviar a política para os terrenos virtuais, furtando-a à discussão dos assuntos que dizem respeito às pessoas reais.

As estatísticas e as sondagens tal como são usadas pelos políticos dominantes são imitações reles da democracia. E há muito que o Sérgio Godinho nos adverte: cuidado com as imitações!

terça-feira, 21 de julho de 2015

CAMERON, OS SEUS PARCEIROS E A ESCRAVATURA


O Ministério britânico do Interior teve uma espécie de rebate de consciência. Uma ousadia propagandística insuficiente, tardia e que, no limite, tem o efeito perverso de uma prática enganosa.
Decidiu o aparelho policial e de segurança às ordens do senhor Cameron, por delegação de Sua Majestade, lançar uma campanha contra aquilo a que chamou a “escravatura dos tempos modernos”, campanha essa destinada a sensibilizar para os abusos contra os direitos humanos cometidos por redes que traficam pessoas para serem exploradas na prostituição, ou no serviço doméstico ou em alguns trabalhos clandestinos, designadamente em actividades rurais.
Este tráfico é uma realidade nua e crua em todos os países da União Europeia, e outros ditos civilizados; ora se o governo do senhor Cameron organiza uma campanha a propósito de tais aberrações, aparentemente manifesta o desejo de ir mais longe que todos os seus homólogos, os quais assobiam para o ar porque as suas preocupações são outras e bem mais importantes, por exemplo ajudar os credores a especular em liberdade com as dívidas soberanas.
Claro que o senhor Cameron se limita a uma campanha de sensibilização, como quem pede “meus senhores e senhoras, por favor sejam gentis, não explorem tanto essas pessoas, é chato e pode dar mau aspecto”. Combater de facto esses tráficos de escravos, mobilizando o sistema policial e de segurança para reprimir e eliminar tais práticas, é objectivo que não aparece nos horizontes do governo de Sua Majestade. O mais certo é que depois de esgotado o prazo de validade da campanha tudo continue na mesma e sejam marteladas mais umas estatísticas dando contas de supostos êxitos tão transitórios como esta inócua inquietação perante crimes abomináveis.
A campanha não passará, na verdade, de um exercício de propaganda. O tráfico de seres humanos que se pratica na União Europeia, e em todo o mundo dito civilizado, não é mais do que um fruto da mentalidade dominante, que coloca o lucro e os negócios acima das pessoas e dos direitos humanos. A “escravatura dos nossos dias”, para usar a expressão escolhida pelo Ministério britânico do Interior, não se resume ao funcionamento de redes clandestinas que comercializam pessoas para serem exploradas até aos limites das suas capacidades e resistências. As migrações não desejadas por quem é obrigado a sujeitar-se-lhes, por razões de sobrevivência, traduzem um tráfico encapotado, são uma forma de escravatura de sempre - e também de hoje. E que dizer do trabalho precário, dos despedimentos a eito, dos salários miseráveis e em redução permanente, da abolição de pensões e subsídios, das cargas horárias determinadas tão só pela ganância de quem as impõe, protegido pelas cumplicidades governamentais e legislativas? Tudo isto integra o lote das práticas de “escravatura moderna” que, além de não serem alvo de quaisquer denúncias ou campanhas governamentais, fazem parte dos comportamentos tolerados, encorajados e legislados pelos próprios governos.
O tráfico de pessoas para a prostituição, o serviço doméstico, a exploração nos campos caracteriza-se por afrontar deliberadamente as leis, ser clandestino e passível de combate policial, desde que haja vontade política e humanitária para isso. O facto de outras imposições próximas da escravatura como o trabalho sem direitos, a chantagem com o desemprego e, no fundo, “a liberalização do mercado de trabalho” se desenvolverem de acordo com as leis não as torna menos gravosas ou menos exploradoras. Pelo contrário, faz dos que as aprovam e permitem tão escravocratas como os traficantes de pessoas. Com uma agravante: institucionalizando essas práticas impedem que sejam combatidas ou alvo de campanhas oficiais, assegurando assim a imunidade e a impunidade aos donos “dos escravos dos tempos modernos”

A campanha do senhor Cameron é um ardil, porque a escravatura legal “nos nossos dias” é bastante mais insidiosa que a praticada ilegalmente.