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domingo, 8 de novembro de 2015

ESPIONITE


 

 
 
A imprensa da Alemanha dá conta de que os serviços de espionagem do país (BND) devassam entidades governamentais e não-governamentais de países “amigos e aliados” e de organizações internacionais, designadamente o Comité Internacional da Cruz Vermelha. Entre os espiados estão ministérios dos Estados Unidos da América, Polónia, Áustria, Dinamarca e Croácia – alguns dos quais não passam de protectorados económicos germânicos – e serviços de representações diplomáticas da União Europeia, Nações Unidas, França, Reino Unido, Suécia, Grécia, Espanha, Itália, Áustria, Suíça, Portugal e do próprio Vaticano.
Correspondendo a sigla BND à prestimosa designação de Serviço de Defesa da Constituição, ficamos a saber que os espiões de Berlim estendem o zelo profissional e coscuvilheiro ao respeito pelas Constituições dos outros e à fiscalização abusiva de entidades que tutelam tratados de âmbito continental e mundial, aliás um velho vício germânico com as dramáticas consequências sobejamente conhecidas.
Até aqui dizia-se que as actividades “internacionais” do BND se realizavam a mando da central mundial de espionagem, a norte-americana NSA (Agência Nacional de Segurança), tão bem retratada pelo conhecedor Edward Snowden. Agora sabe-se que a espionagem berlinense também age por conta própria, o que nada tem de surpreendente num mundo onde as grandes potências espreitam à socapa os negócios de umas e outras, e de todos, procurando as vantagens económicas e as recompensas financeiras que ditam o resto onde se inclui a vida de cada um de nós, pobres mortais.
Sabíamos até que a dita NSA, além de mandar o BND espiar por sua conta também escuta os telefonemas pessoais da chanceler Merkel, prática a que esta respondeu com uma reprimenda diplomática tão enérgica que cabe na frase “espionagem entre amigos não é coisa que se faça”. Pois é, e quando isso acontece paga-se na mesma moeda, ao que parece, embora aqui se aplique a velha história do ovo e da galinha: quem e quando terá começado? Não custa admitir que o remoto pontapé de saída tenha sido dado pelo intervencionismo norte-americano há longas décadas instalado no coração europeu, mas serve a situação ora conhecida para demonstrar que os alunos europeus aprendem depressa e se equivalem aos mestres, pelo menos no que diz respeito ao proteccionismo alemão sobre os seus “amigos” continentais, quiçá mais súbditos que “amigos”.
Diz-nos o convívio com a comunicação social mundial que estes episódios de espionite são recorrentes, denunciados tanto por meios ditos de “referência” como pelos mais truculentos megafones sensacionalistas. E, contudo, la nave va, a devassa continua em todos os sentidos e direcções porque nada acontece a não ser a existência, aqui e ali, de exercícios de contorcionismo para a legitimação da espionagem sem qualquer controlo. Lembremos o caso do governo de Manuel Valls em França ao teorizar sobre o facto de “o direito à privacidade não ser um direito humano”.
Além disso, não estamos a ver o primeiro-ministro polaco, a senhora presidente da Croácia, o patronal Rajoy, o patético Ban Ki-moon ou primeiro-ministro português de saída a protestarem contra a espionagem de tais serviços, nem ao menos zangando-se como fez a senhora Merkel alegando que “espionagem entre amigos não é coisa que se faça”. Faz sim senhor, e para bem de todas estas amizades e confrarias, de que as vítimas são sempre as mesmas. Dignidade para quê? Seja tudo em nome da democracia e da segurança.
 


terça-feira, 20 de outubro de 2015

GANGSTERS


 
No meio de documentos que a Srª Hillary Clinton foi obrigada a entregar à justiça norte-americana no quadro das investigações de que está a ser alvo, por causa do desempenho como secretária de Estado de Obama, estão papéis arrepiantes. Como este: um “memorando secreto” enviado em Março de 2002 pelo então secretário de Estado, Collin Powell, ao seu presidente, George W. Bush, assegura que a realização de uma guerra contra o Iraque teria sempre o apoio do primeiro-ministro britânico, ao tempo Tony Blair. “O Reino Unido seguirá a nossa liderança”, escreveu Powell, garantindo assim a Bush que poderia começar a preparar a guerra ao receber Blair no seu rancho de Crowford, o que aconteceu em finais desse mesmo mês de Março.
Esta informação, que corre agora tranquilamente pelas agências noticiosas internacionais, tem o conteúdo de uma bomba, mas não é como uma bomba que explode aos ouvidos e olhos dos cidadãos mundiais, duvida-se até que chegue ao conhecimento da maioria deles.
O memorando de Powell revela que um ano antes de a invasão do Iraque se ter iniciado os Estados Unidos e o Reino Unido já tinham decidido que a fariam. Prova-se assim que as sanções contra o povo do Iraque, os arremedos de negociações e as célebres provas sobre a existência de armas de destruição massiva em território iraquiano – que o mesmo Powell se encarregou de fabricar e levar à ONU – foram manobras e mistificações para servirem de pretexto a uma decisão já tomada. A reunião das Lajes, que o governo barrosista de Portugal se dispôs a acolher, adquire, a esta luz, contornos ainda mais vergonhosos para a diplomacia portuguesa e europeia, porque se fez para fingir ao mundo que ia tomar-se uma decisão já tomada. Um faz-de-conta que, daí a dias, proporcionou o início de uma chacina de milhões de seres humanos, ainda longe de estar concluída.
Nesse mês de Março de 2002 já as tropas da NATO se atolavam no conflito do Afeganistão para supostamente combater os talibãs, que por sua vez acolhiam o terrorista Bin Laden, um criminoso criado pelos serviços secretos dos Estados Unidos e que este mesmo país identifica como responsável pelo 11 de Setembro de 2001. Ao virar a mira contra o Iraque, os gangsters de Washington – versão engravatada dos pistoleiros do velho Oeste para consumo do novo Oeste – chegaram a acusar Saddam Hussein de ser cúmplice de Bin Laden e respectiva Al-Qaida, quando os dois eram inimigos fidagais, como não demorou muito a provar-se. Mal os Estados Unidos e os seus mais sonantes aliados da NATO tomaram Bagdade e enforcaram Saddam, o território iraquiano tornou-se base de uma miríade de grupos terroristas na qual não apenas medraram muitas variantes da Al-Qaida como nasceu o famigerado Estado Islâmico.
Documentos como este “memorando secreto” de Collin Powell ajudam a perceber como se promovem as guerras de hoje. Para lançar as da Líbia e da Síria nem terá sido necessário um qualquer escrito de um qualquer secretário de Estado: a porta da mentira estava escancarada.
O Médio Oriente, que já era um barril de pólvora nesse mês de Março de 2002, degenerou num foco de instabilidade militar no meio do qual é fácil detectar rastilhos mais do que suficientes para uma guerra global. Os responsáveis são conhecidos e deveriam estar a contas com tribunais que punem crimes contra a humanidade. Porém, George W. Bush e Collin Powell vivem reformas douradas; de Barroso conhecemos o rasto, desde as malfeitorias à cabeça da Comissão Europeia até ao Grupo de Bilderberg, areópago da conspiração imperial, onde ganhou assento permanente.
E Blair? Treze anos depois te ter comunicado que “seguiria o líder” na devastação do Médio Oriente é o chefe do Quarteto para o mesmo Médio Oriente, entidade burlesca que, fiel aos interesses israelitas e aglutinando os Estados Unidos, a União Europeia, a ONU e a Rússia, finge que a chamada comunidade internacional continua à procura de uma solução para o conflito israelo-palestiniano.
Não só por causa dessa burla, mas também, assiste-se à situação cínica e revoltante de ver a bandeira da Palestina ondular nos mastros da sede da ONU numa altura em que o povo palestiniano está cada vez mais distante do seu Estado independente e viável.
Somos governados por gangsters e mentirosos.
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A HORA DA VERDADE, SR. OBAMA


 

O início das operações militares antiterroristas das forças da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OTSC), de que a Rússia é a mais importante potência, em território da Síria representa, sem dúvida, um movimento novo e de grande importância no combate às organizações mercenárias que se reclamam do islamismo.
Em termos meramente teóricos poderia escrever-se que só agora começou a verdadeira guerra contra o terrorismo na Síria, e provavelmente também no Iraque; o que tem acontecido até ao momento, pelas mãos dos Estados Unidos e dos principais membros da União Europeia, não passa de um simulacro de combate, à mistura com a proliferação de guerras e alianças com terroristas, culminando na destruição de nações e na hecatombe dos refugiados.
Porém, a resposta de Washington, Paris e Londres aos primeiros bombardeamentos russos contra campos terroristas na Síria revela intrigante inquietação com a situação dos bandos de mercenários. Em vez de saudarem a iniciativa de Moscovo, os porta-vozes norte-americano, britânico e francês que se pronunciaram até agora lamentam que, afinal, ao contrário do que alegadamente dissera o Sr. Putin, os bombardeiros russos não atingem apenas o Estado Islâmico. Pois não: infligiram pesados danos a outros grupos e grupinhos terroristas que partilham o mesmo terreno, designadamente a Frente Al-Nusra e o Exército Livre Sírio. Al-Nusra é a designação da Al-Qaida na Síria; o Exército Livre Sírio é o menino bonito das potências ocidentais, os chamados “moderados” que, conforme reconhecem dirigentes norte-americanos e da União Europeia, têm funcionado como entreposto no tráfico de armas fornecidas pelo Ocidente ao Estado Islâmico.
De modo que se coloca neste momento uma grande interrogação: de que lado estão os Estados Unidos, a França e o Reino Unido, e a Alemanha também? A favor ou contra grupos como a Al Qaida e Estado Islâmico? Por detrás dos primeiros pronunciamentos dos dirigentes ocidentais depois dos ataques russos, o que espreita é uma real inquietação com o novo quadro: a de que, a partir de agora, não mais será possível fazer confusão entre quem está a favor ou contra o terrorismo. Por exemplo, fica decretado o fim da falácia alimentada por Washington – e pela NATO, como é óbvio - de que as iniciativas atlantistas na região visam combater ao mesmo tempo o regime sírio e os bandos terroristas. A única vítima, claro, tem sido Damasco.
A confissão deste incómodo está no facto de as potências ocidentais acusarem a Rússia de fazer os bombardeamentos na Síria para defender “a ditadura de Bachar Assad”. Mais uma falsidade: a Rússia não está a defender Assad mas a proteger-se a si mesma. Há muito que o Estado Islâmico e outras Al-Qaidas se estão a organizar para, em aliança com o Qatar, a Turquia e centrais nazis europeias, desestabilizar e minar a Rússia, sobretudo a partir da Ucrânia. Foi na Ucrânia, em Ternopol, que nasceu em 2007 a “Frente-Anti-imperialista” contra a Rússia, mistura de grupos nazis e terroristas islâmicos cujos dirigentes são recebidos com grandes honras pelo presidente Erdogan na Turquia. Como resultado desse patrocínio da Turquia fundamentalista (membro da NATO, como se sabe), está a instalar-se em Kherson, também na Ucrânia, a Brigada Muçulmana Internacional, cujo objectivo é a desestabilização da Rússia a pretexto da Crimeia e apoiando o terrorismo islamita no Cáucaso, especialmente na Chechénia. Não é segredo que militares norte-americanos e a NATO apoiam e treinam em território ucraniano todas as organizações que proclamem a intenção de combater a Rússia.
A Rússia não está na Síria, e prestes a intervir também no Iraque, para defender os governos destes países mas para combater o terrorismo, com autorização dos seus governos e sob cobertura das decisões aprovadas na ONU contra o terrorismo – legalidade que nem sempre tem preocupado os que agora preocupados estão com a iniciativa russa.
Uma coisa parece certa: se as forças da OTCS (Rússia, Bielorrússia, Arménia, Casaquistão, Tajiquistão e Quirguistão) e os poderes militares dos principais países da NATO se juntarem contra o terrorismo, o Estado Islâmico, as Al-Qaidas e afins não terão vida fácil, provavelmente não conseguirão transferir-se para outros lados, talvez percebam finalmente que, sem os habituais tutores entre “os infiéis”, nem sobreviverão.
Parece ter chegado a hora da verdade na tão falada “guerra contra o terrorismo”. É o momento de o Sr. Obama se definir: ou luta de facto contra o terrorismo ou continua a ser seu cúmplice, no mínimo através de uma guerra que tem sido de faz-de-conta. Talvez a chegada deste momento da verdade seja aquilo que o Sr. Obama não consegue perdoar ao Sr. Putin. As coisas estavam a correr tão bem…

domingo, 13 de setembro de 2015

UMA BANDEIRA VIRTUAL



A ONU vai hastear a bandeira da Palestina entre as dos membros da organização em frente ao palácio de vídeo em Nova Iorque, por decisão da Assembleia Geral. Acontecimento histórico, dizem uns; decisão tardia, argumentam outros; movimento simbólico, asseguram uns tantos; faz-se justiça, consideram mais alguns.
A verdade é que todos e nenhum têm razão. A iniciativa é tudo isso, histórica, tardia, simbólica, justa, mas nada altera. A decisão da Assembleia Geral, como muitas aprovadas por este órgão que deveria representar a vontade dos povos do mundo, é ineficaz – mais do que isso, inútil.
Será importante, sem dúvida, para os palestinianos e todos os que com eles se solidarizam na luta pelos seus inalienáveis direitos, ver a bandeira da Palestina reflectida nos vidros do palácio que deveria representar o respeito pela vontade e os direitos de todos os cidadãos da Terra. Mais importante seria, porém, que a presença dessa bandeira correspondesse à concretização absoluta e sem ambiguidades de um Estado da Palestina - um Estado viável, é claro - um conceito que a ONU aprovou há 77 anos em decisão inscrita no direito internacional e a cujo cumprimento se tem furtado durante as quase oito décadas transcorridas.
Os palestinianos revêem-se, orgulhosos, nessa bandeira. Acreditam que talvez a nova realidade, simbólica e formal, possa acelerar a instauração do Estado viável que lhes é devido pela chamada comunidade internacional, mas isso não determina que alguma coisa mude. A bandeira é virtual e tudo indica que continue a sê-lo por muitos e maus tempos.
Porque a ONU é uma farsa. Quase sempre o foi, mas o quadro tem-se degradado para patamares inconcebíveis, sobretudo desde que há um quarto de século acabou a bipolaridade como sistema não convencionado, mas real, de funcionamento das coisas internacionais.
Observando como este caso da bandeira da Palestina simboliza a degeneração da ONU em relação aos seus princípios fundadores avulta, desde logo, o facto de a Assembleia Geral, o órgão de estatuto mais democrático da instituição, não mandar nada. Vota e pronto; depois nada acontece, porque os países supostamente mais democratas de todos – a democracia da força em vez da força da democracia -, os membros permanentes do Conselho de Segurança, que se barricam atrás de normas por si estabelecidas para proveito próprio, mandam e desmandam em tudo o que acontece ou há-de acontecer no mundo.
Assim sucede, uma vez mais, por detrás da decisão sobre a bandeira da Palestina. Os Estados Unidos da América votaram contra – enquanto dizem que são a favor de um Estado da Palestina, ironia das ironias – porque para que tal aconteça é preciso levar a bom porto o “processo de paz” que eles e o seu “inseparável aliado” Israel patrocinam e ao mesmo tempo sabotam. Um processo de paz cuja invocação é caricata, mas cujo conceito serve para que se vá consumando a ocupação israelita de toda a Palestina, invalidando a criação do tal Estado – viável, repete-se, porque nenhuma outra coisa será admissível, muito menos uma caricatura - cuja bandeira virtual irá agora ondular em frente à sede da ONU. Anoto que o governo português se absteve nesta matéria, isto é, tomou a posição dos cobardes num assunto com tal gravidade, como quem se refugia num canto para não incomodar seus amos: a Alemanha, que também se absteve; e os Estados Unidos, que chefiam os anglo-saxónicos e seus apêndices secundando a sanha terrorista de Israel.
Pela ordem natural – e aberrante – das coisas, quando a bandeira da Palestina for hasteada em Manhattan o povo de Gaza continuará a tentar sobreviver no campo de concentração em que o território foi transformado pelo regime de Israel, com beneplácito das principais potências da ONU; o muro que confina o povo da Palestina a bantustões miseráveis, isolados, verdadeiros campos de morte lenta, estará ainda mais sólido e longo; milhares de palestinianos continuarão a penar nas prisões israelitas, vítimas de actos arbitrários e cruéis que violam quaisquer compêndios de direito, mesmo os coligidos pelos mais sórdidos regimes; os colonatos sionistas estarão, ainda e sempre, absorvendo metro a metro o território da Palestina, numa ocupação para já irreversível que desmonta qualquer “processo de paz”; uma nova cerca ou muro já em construção – estão na moda – tornará estanque a transição de seres humanos entre a Palestina ocupada e a Jordânia; os militares israelitas continuarão a fazer o que muito bem lhes apetece contra os indefesos palestinianos; as deportações prosseguirão. A Nakba, a catástrofe do povo da Palestina, segue o seu caminho sinistro.
Uma bandeira, por muito orgulhosa e legítima que seja, não elimina nada disto. Porque tudo isto faz dela uma bandeira justa e insubstituível, mas ainda virtual.
 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

ACORDOS COM O IRÃO: O OUTRO LADO DA FICÇÃO


Uma advertência prévia: onde se lê acordo 5+1 com o Irão deve ler-se acordos; onde se lê 5+1 deve ler-se Estados Unidos, quanto muito mais a Rússia e a China, a ver vamos; quando se relaciona unicamente o resultado das negociações com o fim da suposta ameaça nuclear iraniana toca-se apenas num átomo de uma estrutura complexa e de grande envergadura.
Isto é, esqueça o que os telejornais sintonizados com Washington e demais centrais de propaganda lhe explicam sobre o acordo e vamos à realidade.
O Irão nunca representou, pelo menos a partir de 1988, qualquer ameaça nuclear militar. O mito foi inventado para usar com mil e um pretextos e servir, em última análise, as estratégias militaristas e expansionistas de Israel, além de jogar com os preços do petróleo conforme os interesses do sistema económico e financeiro global. Desde a fatwa (decreto religioso) emanada em 1988, ainda pelo imã Khomeiny, que o Irão renunciou à utilização da energia atómica para fins militares. O resto é ficção e propaganda.
Os acordos agora estabelecidos trazem no bojo intenções muito mais amplas e estruturantes que apenas tocam ao de leve na falsa questão nuclear iraniana, embora esta seja exacerbada para esconder o que foi decidido pelas principais partes envolvidas, os Estados Unidos da América e o Irão: uma partilha de influências no Médio Oriente ampliado, envolvendo pois a chamada Eurásia, capaz de permitir ao Pentágono transferir o núcleo duro do seu impressionante aparelho de guerra do Médio Oriente para a Ásia, posicionando-se ante os novos inimigos, a China e a Rússia.
Isto é, através destes acordos os Estados Unidos contam com uma pacificação do Médio Oriente mediante novas esferas de influência por eles teórica e implicitamente determinadas, abrindo terreno para reposicionamentos estratégicos.
Pode e deve perguntar-se: assim sendo, como é que a Rússia e a China foram nisso? Esta é a grande interrogação, embora não seja de excluir que os arranjos encontrados no quadro de um novo Médio Oriente também lhes interessem e permitam ganhar tempo. Sabe-se que as derradeiras dificuldades existentes antes de serem anunciados os acordos foram levantadas pela Rússia, que não está disposta a transformar-se no alvo principal do Estado Islâmico, transferido presumivelmente das terras árabes para o Cáucaso. As primeiras reacções de Putin, salientando que o mundo agora respira melhor, podem significar que as suas principais exigências foram atendidas, mas os acordos são apenas papéis.
Há ainda a histeria manifestada por Israel, deve dizer-se antes, pelo primeiro ministro de Israel. Porque em Israel, na esfera militar, há quem conheça muito bem os acordos e os aceite. São, aliás, os mesmos sectores, responsáveis do Mossad incluídos, que há longos meses vinham desautorizando o chefe do governo quanto às supostas ameaças nucleares iranianas. Daí que o tempo de duração de Netanyahu à frente do governo israelita seja, a partir de agora, uma pedra de toque para avaliar o funcionamento dos novos arranjos.
Em termos gerais, os Estados Unidos e os seus principais aliados no Médio Oriente, leia-se Israel e Arábia Saudita, têm como zona de influência as petromonarquia da Península Arábica mais o Iémen e respectiva ponte para o Corno de África, a Jordânia, o Egipto e a Palestina – o acordo prevê que o processo de Oslo seja retomado, outra medida que deixa Netanyahu fora de si. O Irão, que se compromete a “não exportar a revolução”, mantém as suas influências na Síria, no governo iraquiano instalado em Bagdade e nas correntes islâmicas mais intervenientes no Líbano, devendo o Hamas adaptar-se ao que seja estabelecido em relação à Palestina.
Nos termos destes arranjos, o Curdistão Iraquiano tornar-se-á independente como satélite de Israel, país que deverá tutelar, em última análise, o aparelho militar da Liga Árabe, entidade que ficará na esfera norte-americana.
A Turquia, um dos grandes perdedores nestes arranjos, a Arábia Saudita e o Qatar deverão abster-se de apoiar o Estado Islâmico, o que, teoricamente, repete-se, deveria implicar a pacificação da Síria e o respeito pelo mandato de Bachar Assad. O corte dos apoios aos mercenários islâmicos deverá ter como resultado a sua neutralização pelos exércitos iraquiano e sírio e, ao mesmo tempo, impedir a transferência do grupo para o Cáucaso, exigência de Moscovo que fez arrastar o fim das negociações. Os Estados Unidos e Israel resistiram até onde lhes foi possível para conservar esse instrumento terrorista, de preferência orientado contra Moscovo, como já acontece na Ucrânia, sabendo-se que os árabes têm vindo a ser substituídos por caucasianos na direcção operacional dos mercenários. Aparentemente, Washington e aliados cederam, mas até onde e quando?
Com o fim das sanções, o petróleo e o gás iraniano vão inundar o mercado e, por certo, substituir exportações russas para a Europa. Moscovo considera que os efeitos desse problema são temporários, até estarem concluídos os gasodutos que irão atravessar a Ásia, sobretudo em direcção à China; enquanto isso, o Irão, livre de sanções, e a Arábia Saudita perfilam-se como grandes clientes económicos da Rússia, sobretudo no domínio militar. Os contactos entre Moscovo e Teerão são intensos, as encomendas volumosas, e o rei da Arábia Saudita é esperado em breve na capital russa, uma visita que ouviremos certamente qualificar como “histórica”.
Em traços gerais, eis o que ficou acordado num processo de “pacificação” do Médio Oriente que, em Washington, é olhado como garantia da estabilidade regional num período de pelo menos 10 anos.
O cotejo entre os objectivos enumerados e a realidade permitir-nos-á aferir de que modo se cumprem, ou não, as vontades e os cálculos desta geração de dirigentes muito mais habituada à guerra e ao terrorismo que à diplomacia – ainda que enviesada como a que estes acordos ilustram.