pub

Mostrar mensagens com a etiqueta grécia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta grécia. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O SEGREDO É A ALMA DA TRAPAÇA


 

Revela a comunicação social que o Banco Central Europeu proíbe o Ministério português das Finanças de fornecer à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o BANIF as mensagens relacionadas com os escândalos deste banco.

Lendo as coisas como elas devem ser lidas, verifica-se que os deputados eleitos pelos portugueses, e que tentam fazer alguma luz sobre uma monumental burla que vai custar muito pão para a boca a esses mesmos portugueses, estão impedidos de proceder à investigação plena por ordem de um sujeito não eleito emitindo arbitrariedades do seu cadeirão de Frankfurt. Diz o senhor Draghi, aliás solenemente convidado pelo chefe de Estado português para baptizar o Conselho de Estado, que os deputados não podem conhecer o conteúdo das “trocas de ideias” realizadas sobre o assunto. Por que não podem, e não se fala mais nisso.

Lei da rolha, documentos rasurados do Banco de Portugal, manutenção a toda a força de Carlos Costa, o desqualificado e manobrista governador desta instituição, são apenas alguns dos comportamentos golpistas que estão à vista de todos mas impedem que venha a saber-se tudo sobre os assaltos aos nossos bolsos cometidos pela banca.

Draghi, figura grada da linhagem corrupta da Goldman Sachs, a mesma que faz o papel de Deus na Terra, e que operou como maestro da quadrilha de luxo que viciou as contas públicas gregas na antecâmara do flagelo a que os foram condenados os gregos, não hesitará em fazer o mesmo aos portugueses, se isso for útil aos vampiros da finança internacional.

Draghi é a prova provada de que o segredo é a alma da trapaça. E o BCE que ele dirige – instrumento do império pan-europeu alemão solidificado através da moeda única – é o exemplo descarado de que as semelhanças entre o regime em que vivemos às ordens de Bruxelas (e Frankfurt) e a democracia já nem sequer chegam a ser coincidências. Vivemos sob a ditadura do euro através da qual – é um simples exemplo – os deputados eleitos democraticamente só podem conhecer o que o ditador de turno, neste caso Mário Draghi, permite que saibam sobre o latrocínio instalado na banca.

Por muito que me apeteça saudar os esforços do governo português em funções e da Assembleia da República para porem um pouco de transparência na burla institucional que nos leva o que temos e, sobretudo, o que não temos, as suas boas intenções não passam de fisgadas contra uma parede de betão.

Não foi para isto que se fez o 25 de Abril. Lembram-se dele?

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O MANOBRISMO É VÍCIO INCURÁVEL


 

O presidente do Banco Central Europeu participou na primeira reunião do novo Conselho de Estado da República Portuguesa.
Tal aberração pareceu normal à comunicação social oficial, que há muito perdeu as referências da soberania e cujo sentido crítico está limitado a qualquer beliscadura que seja dada na União Europeia e correlativos. Foi possível, até, detectar uma pontinha de orgulho por alguém tão revelante como o senhor Draghi ter descido do seu pedestal para aceitar dirigir-se a Belém.
O que aconteceu, porém, foi um gravíssimo acto de humilhação dos portugueses sob os próprios narizes, uma ingerência grosseira nos órgãos de soberania da República franqueada pelo “mais alto magistrado da nação” – não era assim que se dizia nos tempos da “democracia orgânica” dos padrinhos do actual chefe de Estado?
Zé Mário Branco, na sua “chulinha” desencantada, aquela em que “o mês de Novembro de vingou”, diria a propósito de mais este triste episódio, que “houve aqui alguém que se enganou”. Mas não: o equívoco é aparente e nada tem de inocente. O fabricante de factos políticos na TV catapultado para presidente da República continua a sua saga de manobrismo que lhe corre nas veias, e daqui em diante será sempre a refinar.
Mario Draghi, um tecnocrata ao serviço do regime de austeridade, veio a Lisboa com a missão de ilibar o governo anterior de todas as malfeitorias que fez aos portugueses, excedendo até Bruxelas nos atentados sociais cometidos; e dizer ao actual governo, aproveitando a porta aberta pelo presidente da República, “estou de olho em vós”, isto é, não caiam na tentação de emendar o caminho que vem de trás.
Foi esta a baixa manobra política organizada pelo presidente da República, em condições de absoluto desrespeito pela soberania de Portugal.
Mario Draghi é um dirigente não-eleito de uma instituição europeia que gere a moeda única dentro dos cânones não-democráticos e ao serviço de uma só potência da União, e que vêm da sua génese. Ninguém perguntou aos portugueses, por exemplo, se queriam a moeda única, se aceitavam os critérios de convergência e demais ingerências que não passam de instrumentos da austeridade.
Acresce que o não-eleito Draghi pertence à dinastia do terrorismo financeiro praticado pelo Goldman Sachs, a tal instituição que provocou a última crise e cujo presidente diz fazer “o papel de Deus na Terra” – pelos vistos a institucionalização da austeridade como regime político.
Draghi não foi um grumete do Goldan Sachs: desempenhou funções de vice-presidente e de director executivo, por sinal numa época em que a empresa martelava as contas públicas na Grécia que estão na origem do terrorismo social que continua a ser imposto ao povo grego, em parte por acção do Banco Central Europeu, presidido agora pelo mesmo Draghi.
Pelas mãos do chefe de Estado, foi este dirigente do submundo opaco das manobras da grande finança internacional que veio dar mais do que simples palpites na reunião inaugural do novo Conselho de Estado da República Portuguesa.
O carácter aberrante do acontecimento passou praticamente em claro aos portugueses, ao que parece entorpecidos de embevecimento com a actividade frenética do afamado politólogo-futurólogo transferido de Queluz para Belém.
O próprio governo, que em dois tempos levou uma rasteira sem bola, parece que nada sentiu.
Mas quem quiser perceber que perceba: o presidente da República Portuguesa tem agenda própria, orientada pela hora de Bruxelas, susceptível de funcionar como manobra capciosa para extravasar os seus poderes constitucionais – e não em benefício dos portugueses. O manobrismo político é um vício incurável.
 

segunda-feira, 7 de março de 2016

NATO DECLARA GUERRA AOS REFUGIADOS





A NATO iniciou no Mar Egeu a primeira guerra declaradamente contra civis desarmados, indefesos, buscando apenas a sobrevivência. Sob comando alemão, forças navais do Reino Unido, Turquia, Grécia e Canadá juntam-se no Mar Egeu para realizar uma operação conjunta contra os refugiados das guerras do Médio Oriente, com o objectivo de interceptar as barcaças onde procuram manter-se vivos, para os devolver aos países de origem.
O primeiro-ministro Britânico, David Cameron, confirmou a operação, “de importância vital”, anunciando o envio de um navio anfíbio equipado com um helicóptero Wildcat. Tudo isto acontece, segundo o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, “no meio de uma crise de nervos provocada principalmente por razões de fraqueza política”. Ficando então a saber-se que os dirigentes europeus não acham melhor remédio para tal debilidade, que é congénita, do que deitar mãos às armas para combater os fugitivos de guerras que eles criaram, e a quem sobra a alternativa de morrerem afogados. Chama-se a isto “guerra humanitária”, preservar “o nosso civilizado modo de vida” e consolidar “os padrões democráticos, depois de se terem multiplicado conflitos para “instaurar a democracia”
A primeira acção partiu da Alemanha, que passou do acolhimento festivo ao envio de três navios de guerra com destino ao Mar Egeu, dotados de meios de intervenção rápida, para agora combater os refugiados como criminosos. Nas mesmas águas estão igualmente navios de patrulha fronteiriça, aos quais se vão juntar meios militares gregos, turcos e canadianos. A Turquia será municiada com dados obtidos pela espionagem da NATO sobre os movimentos das massas em fuga.
O pretexto oficial para esta declaração de guerra contra um exército de seres humanos desesperados é o combate aos traficantes de pessoas, que montaram redes mafiosas à caça de lucros que, segundo dados de organizações de socorro aos refugiados, superam os gerados pelos tráficos de droga e de armas.
Entretanto, os dirigentes da União Europeia voltam a reunir-se para discutir o problema e a sua “crise de nervos”. Sejam quais forem os resultados, conhecemos já o espírito dominante: resolver a crise dos refugiados pela força, com recurso à guerra.
Não é difícil concluir, aliás, que não conhecem outro caminho. Em primeiro lugar, os dirigentes europeus são cúmplices dos comportamentos que desencadearam guerras e a completa desarticulação de países como o Afeganistão, o Iraque, a Síria e a Líbia – aos quais podemos acrescentar as consequentes situações caóticas existentes no Líbano e na Jordânia. Para que tal acontecesse, os dirigentes europeus, tal como os norte-americanos, convergindo na NATO, não hesitaram em fomentar e em articular-se com grupos terroristas sem excepção, o que significa terem as mãos sujas do sangue que a Al-Qaida e o Estado Islâmico fazem correr. Depois, aterrados com a vaga humana de fugitivos gerados por essas guerras, os dirigentes europeus toleraram que, através de toda a Europa, fossem levantadas barricadas em forma de muros, valas, cercas de arame farpado, grupos de assalto e milícias nazis. A seguir, respeitando a incontestada liderança alemã, consentiram que a União Europeia fosse aos cofres, trancados aos europeus mais necessitados, para deles sacarem milhões para o islamismo turco, cuidando que ele – que tanto ajuda as guerras na Síria e no Iraque – travaria os refugiados. Até que – fase em que agora entrámos – os dirigentes europeus organizam uma guerra que, em última análise, atinge as vítimas inocentes das guerras que eles próprios contribuíram para desencadear.
Sendo que a NATO, entidade que, directamente ou por interpostos aliados é parte original e activa nos conflitos no Iraque, na Líbia, no Afeganistão e na Líbia, conduz agora a guerra contra os que fogem desesperadamente dessas tragédias.
Fecha-se o ciclo através da fórmula mágica de lançar uma guerra contra as consequências de outras guerras? Certamente que não. Porque nada no comportamento dos dirigentes europeus denota o senso comum que aconselharia a tentar resolver, com seriedade e respeito pelos direitos humanos, as causas do problema, as guerras que em tempos ajudaram a desencadear. Preferem acolher-se à patranha cultivada pela NATO, que mais parece retirada dos confins da mais negra propaganda goebeliana, de que a Rússia e o regime sírio de Assad se mancomunaram para inundar a Europa de refugiados, tentando assim acabar com a União Europeia.
Não será preciso isso: a União Europeia é inimiga de si própria. O pior é que todos nós, refugiados ou não, sofremos as consequências; as quais, por este andar, ameaçam tomar proporções catastróficas.
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A SAGA DOS REFUGIADOS QUE A EUROPA CRIOU E AGORA DESPREZA


 

Durante o ano de 2015 entraram na Grécia mais de 800 mil refugiados oriundos de países do Médio Oriente em guerra, sobretudo da Síria. Em 2016 já chegaram pelo menos 50 mil. Juntando-lhes as centenas de milhares que conseguem sobreviver à travessia do Mediterrâneo e arribaram às ilhas italianas, pode afirmar-se, sem qualquer dúvida, que muito mais de um milhão de pessoas atingiram territórios europeus.
Embora de uma magnitude catastrófica, este número é inferior ao registado em países mais próximos dos cenários de conflitos: um milhão e 900 mil na Turquia; um milhão e cem mil no Líbano; e 650 mil na Jordânia. Percebe-se a dimensão trágica deste movimento de massas humanas desesperadas se olharmos, por exemplo, para o caso libanês. O país tem cerca de quatro milhões de habitantes, pelo que os refugiados que entraram, só na sequência da guerra na Síria, representam um quarto da população. O Líbano que, tal como a Jordânia e a própria Síria, já era lar dos palestinianos forçados por Israel a uma diáspora que dura há quase 70 anos, vive uma situação caótica, como se também estivesse em guerra.
As informações disponibilizadas pelas entidades públicas e não-governamentais de países europeus que, com todas as limitações impostas pelos responsáveis, vão tentando gerir a situação na Europa, são reveladores da pouca eficácia, das carências de vontade política e até da má vontade das instituições da União Europeia para enfrentar o problema.
Da hecatombe humanitária resultante da entrada de mais de um milhão de refugiados, o rateio efectuado entre os 28 Estados membros da União Europeia abriu espaço para a admissão de apenas 170 mil, isto é, muito menos de 17%. Acresce que até essas quotas ínfimas inicialmente estabelecidas e aceites estão agora a ser rejeitadas por vários países, cujos governos dão o dito por não dito.
Até ao momento, foram alojados e integrados no espaço europeu menos de 500 dos desesperados que pretendem asilo. Um número irrisório.
A maioria dos governos da União recorrem a um número interminável de pretextos para se escusarem a aceitar refugiados e a remeterem para outros essa responsabilidade. O mais corrente é o argumento de que o fluxo de refugiados é uma via de entrada de “terroristas” na Europa. Tal suposição não está comprovada e, pelo contrário, alguns factos revelam que não passa de um exercício de propaganda. Por exemplo, a comunicação social dominante apressou-se a fazer crer que os crimes da noite de Ano Novo em várias cidades alemãs, cometidos sobretudo contra mulheres, estavam relacionados com o comportamento dos refugiados. Semanas depois as autoridades alemãs apuraram que, dos 52 indivíduos indiciados, apenas três eram refugiados, e mesmo esses estavam nos locais dos acontecimentos devido ao facto de não terem abrigo.
Por outro lado, acompanhando as biografias dos terroristas que cometeram os atentados de Paris contra o Charkie Hebdo e de 13 de Novembro verifica-se que são cidadãos franceses, nascidos e criados no país, vítimas da crise social e das políticas de marginalização e exclusão pelas quais são responsáveis sucessivos governos franceses e as instituições europeias.
O actual governo francês do presidente François Hollande e do primeiro-ministro Manuel Valls, que impôs o estado de excepção na Constituição e o mantem em vigor por períodos prorrogáveis – “até que o Estado Islâmico seja derrotado”, segundo Valls – está, aliás, entre os que afirmam que não receberão mais refugiados, nem mesmo a quota a que se comprometeu. A sua agenda sobre este assunto e outros parece decalcada da que é invocada pelo movimento neofascista Frente Nacional, de Marine Le Pen, que está à frente nas intenções de voto para próximas eleições.
Através da Europa, aliás, o cenário tem contornos semelhantes ou comparáveis às atitudes das autoridades de Paris. Na Dinamarca e na Alemanha os governos confiscam os bens de valor aos refugiados alegadamente para custear a sua integração; a Áustria fechou as suas fronteiras; a Hungria afirma que não receberá qualquer refugiado e transforma as suas fronteiras em barreiras físicas; a Polónia afirma que está disponível para receber apenas “cristãos”; o Reino unido suspende por quatro anos parte dos direitos sociais dos imigrantes, com a anuência dos governos dos 27 Estados membros; na Noruega, que não é da União Europeia, mas é da NATO, milícias “populares” de camisas negras zelam pela “segurança” nas ruas; a Dinamarca e a Suécia restabeleceram os controlos nas suas fronteiras; partidos de extrema-direita e/ou neofascistas impõem políticas xenófobas graças às suas influências crescentes, ou mesmo fazendo parte de governos em países como Dinamarca, Finlândia, Eslováquia, Hungria, Letónia, Estónia, Polónia, Holanda. Entretanto, por diligência da Alemanha, a Europa mergulhada na crise económica pretende pagar três mil milhões de euros à Turquia para estancar o fluxo de refugiados.
A ineficácia política europeia perante a tragédia dos refugiados provoca outros efeitos perversos que degradam aceleradamente o panorama dos direitos humanos. Entidades que trabalham no acolhimento dos fugitivos das guerras consideram que existe grande falta de vontade política para criar corredores humanitários que permitam encaminhar e prestar apoio a essas pessoas, mais de um terço das quais são crianças. Esta situação transforma os desesperados que apenas pretendem sobreviver em presas fáceis de mafias traficantes de seres humanos e outros predadores, um negócio altamente rentável que, na Europa, pode já ter ultrapassado os lucros com os tráficos de droga e armas.
Por outro lado, torna-se evidente que a Europa pouco ou nada tem feito para tentar resolver as crises no Médio Oriente, além de privilegiar os conceitos securitários no combate aos refugiados, atitudes que, de acordo com a experiência já disponível, não contribuem – antes pelo contrário - para resolver o problema. Verifica-se até que entre os países europeus, a França e a Alemanha têm manifestado tendência para não acompanhar a convergência entre os Estados Unidos e a Rússia para solucionar a crise síria, parecendo mais sintonizados com as correntes intervencionistas – que, na prática, reforçam o terrorismo – interpretadas pela Arábia Saudita e pela Turquia.
 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

OS PRINCÍPIOS E O PRAGMATISMO EM TSIPRAS


 
Não é novidade para ninguém que o “pragmatismo” é a arma favorita de todos os governantes quando se atolam em medidas contra as maiorias que os escolheram e fazem gato-sapato dos seus programas políticos. “Pragmatismo” é a manta que serve para encobrir a putrefacção de promessas envelhecidas precocemente; também há quem lhe chame “realpolitik”, achando que é mais fino e menos gravoso recuperar linguajar de outrora.
Poderia o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, usufruir ainda de algum benefício da dúvida quando optou por entrar no comboio da troika, dos resgates e da austeridade light. É duro confrontar Bruxelas, tomar medidas para as quais é preciso ir buscar coragem ao cofre dos princípios e do respeito pela palavra dada; mais fácil é, ao que parece, ver o próprio país esvair-se em greves gerais e castigar quem já está castigado – assim-como-assim, os gregos estão habituados.
Mais inesperada é a fraternidade cada vez mais sólida entre o primeiro-ministro grego e o seu homólogo de Israel, Benjamin Netanyahu. Em três meses apenas Tsipras efectuou duas visitas oficiais a Israel e, na mais recente, levou com ele uma equipa de seis ministros para tratar de negócios com o governo que desrespeita ostensivamente o direito internacional, impede a criação do Estado Palestiniano, mantém as prisões repletas de resistentes contra a ocupação, prossegue a colonização em ritmo intensivo, mantém os habitantes de Gaza sujeitos à fome, num universo concentracionário e alvejado regularmente por actos de guerra que têm vitimado milhares de inocentes. É longo o rol de malfeitorias e violações atrozes dos direitos humanos atribuíveis ao governo de Benjamin Netanyahu.
Ao receber Tsipras com toda a galanteria, Netanyahu falou muito de “terrorismo” e proclamou que “seremos mais fortes se afrontarmos juntos este desafio”. Não especificou a que terrorismo aludia, se ao que ele pratica em Jerusalém, Gaza e na Cisjordânia, se ao apoio que dá aos radicais islâmicos do tipo Estado Islâmico e Al Nusra (Al Qaida) nos Montes Golã ocupados à Síria. Nem isso interessa para o caso, ao que parece.
O que interessa é que Tsipras e Netanyahu estabeleceram negócios que poderão ser frutuosos em matérias como turismo, energia, defesa e segurança.
Nos termos dos acordos já delineados, os governos grego e israelita vão cooperar no domínio da espionagem militar e Tsipras ofereceu os céus helénicos para que a aviação israelita possa ensaiar os seus raids, eventualmente contra Gaza, uma vez que perdeu há uns tempos a concessão para realizar tais manobras em espaço aéreo turco. Em contrapartida, Israel compromete-se a modernizar a aviação militar grega, por certo uma das necessidades mais prementes do povo grego.
Outra das convergências entre Tsipras e Netanyahu vai funcionar no domínio energético, juntando-se a eles os actuais chefes dos regimes nada recomendáveis da Bulgária e da Roménia e ainda o do governo direitista de Chipre. Um gasoduto levará o gás natural israelita até à Grécia, prevendo-se que o acordo deva alargar-se ao petróleo. Por isso é oportuno lembrar, para se avaliar até onde chega o “pragmatismo" de Tsipras, que Israel tenciona explorar o petróleo e o gás natural detectados nas águas territoriais da Faixa de Gaza, que naturalmente não lhe pertencem, o que configura um roubo do povo palestiniano em larga escala; e que Israel é um dos destinos do petróleo contrabandeado pelos mercenários do Estado Islâmico, funcionando então como intermediário do tráfico e também como “lavandaria” da operação.
No deve e haver e nos arranjos estabelecidos para que estes negócios sejam produtivos falta ainda revelar outra importante contrapartida dada por Tsipras a Netanyahu: a Grécia não aplicará a directiva europeia que coloca restrições à entrada no espaço europeu de produtos que tenham origem nos colonatos israelitas, isto é, em áreas cuja existência viola o direito internacional, as convenções de Genebra e que recorrem a mão-de-obra palestiniana escrava depois de terem secado a actividade produtiva em seu redor. A Bulgária, a Roménia e Chipre tomaram a mesma decisão, mas daí não vem surpresa alguma, são países que têm governos inconfundíveis com qualquer conotação de “esquerda”.
Ironia das ironias, Benjamin Netanyahu está por detrás e é um dos grandes beneficiários da estratégia que tem multiplicado guerras no Médio Oriente, originando a vaga de refugiados que atinge a Europa, em especial – com os dramas que se conhecem – a Grécia governada por Alexis Tsipras e pelo Syriza, em aliança com a direita nacionalista.
Nabil Shaat, ministro palestiniano e chefe da delegação palestiniana às negociações de paz – fracassadas por causa de Netanyahu e da sua insistência na colonização – teve um desabafo, em forma de pergunta, a propósito da estratégia do governo de Atenas: “a Grécia atraiçoará a Palestina?”
Fica a interrogação. É um facto que, década após década, a Grécia sempre foi um pilar do apoio aos palestinianos, quer governada à direita ou pelo PASOK. É certo que ainda há pouco o Parlamento de Atenas aprovou o reconhecimento do Estado Palestiniano. A verdade é que, neste caso, uma mão não lava a outra. A bandeira palestiniana também está içada na sede da ONU mas o Estado continua por construir e há cada vez menos terra para a sua viabilidade física. Por causa, sobretudo, da política anexionista dos governos de Netanyahu, grande parceiro de negócios de Alexis Tsipras. Sagacidade estratégica? Chamem-lhe o que quiserem, uma vez que os princípios políticos já lá vão.
 

 

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

BRUXELAS ENREDA-SE NA TEIA QUE CRIOU



A Comissão Europeia decidiu colocar pela primeira vez em movimento os procedimentos previstos no Tratado de Lisboa contra suspeitas de alegadas violações do Estado de Direito cometidas pelos Estados membros. O alvo escolhido é a Polónia, na sequência de decisões recentes do governo de extrema-direita que atingem a independência da Justiça e da Comunicação Social através de medidas de controlo do Tribunal Constitucional e dos média públicos.
Independentemente das razões para lançamento desde processo que, no limite, poderia conduzir à aplicação de sanções a Varsóvia, existe um contexto intrigante que não escapa aos bastidores de Bruxelas, onde se sabe que as relações entre a Comissão e a Presidência do Conselho, a cargo do polaco Donald Tusk, não são as melhores. Numerosos são os eurocratas para quem a abertura deste procedimento poderá conduzir a uma “argumentação de troca de culpas e acusações” sobre o comportamento padrão da União Europeia em matéria de Estado de Direito e diretos humanos, argumentação essa que acabará por enredar e diluir o processo.
“Dá-se enfase ao facto de esta ser a abertura do primeiro procedimento quando, na verdade, já é tardia e acabará enovelada na burocrática teia de interesses e contradições em que vive a União”, considera um funcionário da Comissão familiarizado com as questões que levaram o comissário Frans Timmermans a lançar o processo. O que o funcionário pretende dizer é que não faltaram à Comissão desde Março de 2014 – altura em que o mecanismo foi regulamentado - muitas razões para abrir processos contra outros Estados Membros relacionados com atitudes susceptíveis de desrespeitar o Estado de Direito. É o caso, por exemplo, da situação de ditadura política vigente na Hungria; das práticas de segregação de minorias linguísticas existentes na Estónia e na Letónia – idênticas à praticada pelo governo fascista da Ucrânia -; de numerosas medidas austeritárias contra populações indefesas aceites por governos às ordens das troikas, e até largamente excedidas, como aconteceu nos casos de Portugal e da Grécia; da discriminação de comunidades étnicas na Croácia; ou ainda da declaração do estado de excepção em França violando direitos elementares dos cidadãos. Sem esquecer o modo autoritário como a Alemanha utiliza as estruturas da União e a moeda única em proveito próprio.
O que se reconhece nas instituições europeias é que antes da Polónia outros governos deveriam ter ser alvo de procedimentos para avaliação de atitudes passíveis de violar o Estado de Direito. Sendo certo também, como lembra o mesmo funcionário, que as instituições europeias têm estado prioritariamente focadas nas “violações do direito dos mercados, assim confundido com o Estado de Direito, pelo que esta medida surge fora do contexto habitual”.
A primeira fase do processo relativo à Polónia, aberta no dia 13, é a de “avaliação e diálogo” entre Bruxelas e Varsóvia sobre as polémicas medidas que governamentalizam o Tribunal Constitucional e a comunicação social na Polónia, o que, neste caso, significa a implantação da censura. Depois seguir-se-á uma fase de “recomendações”, no caso de Bruxelas entender que existe incumprimento. Só depois se avaliará se haverá razões ou não para a aplicação de sanções.
O Partido da Lei e da Justiça, entidade da extrema-direita nacionalista que domina com maioria absoluta o panorama político polaco, reagiu com surpresa e acrimónia à atitude de Bruxelas, por não ser este o tom habitual usado pelas instituições europeias perante abusos de poder em Estados Membros. Segundo o governo de Varsóvia, trata-se apenas de um processo de informação “baseado em especulações surgidas na Europa Ocidental”. Para o ministro da Justiça polaco, Zbigniew Ziobro, governamentalizar o Tribunal Constitucional e os meios de comunicação social é “uma acusação injustificada e uma conclusão injusta”.
A Polónia é a 6ª economia da União Europeia e um pivot do rearmamento da NATO e do apoio à ditadura ucraniana num cenário geral e prioritariamente estratégico de pressão sobre a Rússia. “Este processo contra o governo de Varsóvia é completamente deslocado no tempo e nas realidades”, queixa-se um diplomata da NATO em Bruxelas.
O ambiente de polémica que envolve o procedimento, enquanto outras agressões ao Estado de Direito passam em claro, é o prenúncio de que, mais tarde ou mais cedo, a iniciativa dará em nada. Ao mesmo tempo que envolve a União Europeia na teia de contradições e de agressões a princípios democráticos que tem vindo a tolerar, o seu fracasso deixará campo ainda mais aberto para a anarquia absoluta na Europa em matéria de respeito pelo Estado de Direito. Se o caso polaco for o único sob a alçada de Bruxelas, o mais certo é terminar com vantagem para Varsóvia devido a uma espécie de jurisprudência tácita: por quê a Polónia e não os outros? Assim se criarão as condições para que o Estado de Direito venha a ser espezinhado no que resta da União Europeia porque, como revela o exemplo polaco, o que está a acontecer e estará para vir é ainda bem pior ainda do que o que ficou para trás.
A única atitude corajosa de Bruxelas, reconhecem experientes quadros das instituições europeias, seria abrir processos contra os múltiplos casos de violações do Estado de Direito em vigência na União, e não apenas contra a Polónia de Kaczinsky. Ora isso não passa pela cabeça de Timmermans ou qualquer outro membro da Comissão, a começar por Jean-Claude Juncker, porque até agora o seu forte e o dos seus antecessores tem sido a coragem contra os mais fracos, isto é, contra os povos e não contra os governos. A Polónia será apenas uma frágil excepção que virá confirmar a regra: a manipulação do conceito de Estado de Direito à medida de conveniências, interesse e circunstâncias.  
 
 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

ANO FATAL PARA A UNIÃO EUROPEIA


 
O ano de 2015 foi nefasto para a União Europeia, certamente o mais letal para aquilo que alguns designam ainda, com piedosa boa vontade, como “projecto europeu”.
A responsabilidade pelo desastre deve ser assacada por inteiro, mesmo em assuntos que parecem de origem externa ao espaço europeu – como é o caso da tragédia dos refugiados – aos dirigentes de Bruxelas e aos dos Estados nacionais. Já não havia quaisquer ilusões sobre o destino desastroso de tal “projecto”, porque o que torto nasce tarde ou nunca se endireita e, além disso, ao longo de gerações, os sucessivos dirigentes europeus entretiveram-se a entortar anda mais as intenções, já de si falaciosas, dos “pais fundadores”, apurando sem pudor as mentiras originais.
No ano de 2015 convergiram, como nunca, os factores que vinham correndo mal e os que explodiram entretanto nas mãos aventureiras, oportunistas e irresponsáveis dos dirigentes europeus – aliás tanto mais irresponsáveis quanto mais elevada a responsabilidade que desempenham. Uma catástrofe.
Comecemos pela crise económica, que só na demagogia primária e na descarada manipulação das estatísticas parece no caminho da solução. Nada disso: a economia não sai da estagnação e o modelo político inventado para dar cobertura a um regime que coloca a produção económica como subsidiária da especulação financeira está a rebentar pelas costuras. Como sabem, esse modelo político é a asfixia democrática sob o poder absoluto de dois braços partidários defensores das mesmas práticas económicas neoliberais – conservadores e sociais-democratas. Mas o que parecia consolidar-se passo a passo, desde o início da década de noventa, começou a explodir em 2015. Três eleições gerais consecutivas – Grécia, Portugal e Espanha – puseram em causa o regime dito bipolar, ou de arco da governação, ou de bloco central (bloco de direita é a designação adequada), alterando profundamente os contornos da “moderna” União Europeia: um sistema de dominação económica sobre mais de uma vintena de protectorados do único país a quem verdadeiramente serve a moeda única.
Ora o renascimento da política observado em Portugal, Espanha e Grécia, conjugado com outras alterações de cenário em desenvolvimento, por exemplo em França e no Reino Unido, introduziram um quase esquecido debate político numa dominação económica presa na ratoeira dos casinos financeiros. Isto é, no ano de 2015 confirmou-se com absoluta certeza que os mecanismos de ditadura económico-financeira sobre a política, isto é, a sobreposição de restrições orçamentais e monetárias sobre a soberania dos Estados membros – o federalismo encapotado – começam a chocar com a vontade dos povos expressa democraticamente, o que é o princípio do fim do regime em vigor.
O limite de 3% do défice, imposto pela dominação alemã através da moeda única, trava o investimento público e paralisa a economia, sem resolver os problemas das dívidas; e o controlo orçamental de Bruxelas impede os países de fazerem opções económicas de acordo com os seus interesses e os dos seus povos. Estas duas realidades estão claras aos olhos dos cidadãos, que começaram a agir em conformidade. O modelo autoritário e austeritário está a ruir. E os cidadãos percebem também, cada vez mais, que o investimento público é fundamental porque a maioria do capital privado não beneficia a economia uma vez que é desviado para a especulação e os paraísos fiscais.
Acresce que os bons ventos financeiros deixaram de soprar porque, por muito que a massa monetária em circulação corresponda maioritariamente a riqueza virtual, a paralisação da economia infecta o sistema bancário, como está à vista, e expande a crise ao sistema de especulocracia. A União Europeia está enredada na teia de funcionamento ganancioso e errático que ela própria criou, como se a tese do “fim da história” regenerada pela corrida à guerra e às riquezas naturais ganhasse novo alento.
Em termos de União Europeia essa estratégia foi o maior erro da sua história, porque pode ser a causa determinante do seu fracasso absoluto.
A crise dos refugiados e os seus efeitos no continente, somados à crise económica e social, transformaram a União Europeia numa bomba de relógio que entrou em contagem decrescente em 2015. A União Europeia, que nunca teve uma política de imigração muito menos terá uma política coerente e humanitária para com os refugiados. E, no entanto, criou a crise: participou aberta e criminosamente nas guerras que do Médio Oriente à África do Norte e subsaariana provocaram as vagas de refugiados e também o pânico com o terrorismo.
A resposta europeia tem-se baseado nas tendências securitárias e de criação de barricadas em forma de muros, cercas, encerramentos de fronteiras, pagamentos a terceiros para servirem de tampão (caso da Turquia); acoitando-se, além disso, sob a protecção expansionista da NATO, estrutura que, sob comando norte-americano, é tão responsável como os dirigentes europeus pelo caos em que a União Europeia está a mergulhar.
Num cenário de crise económica e social, agravado pela tragédia dos refugiados, as tendências xenófobas, revanchistas e nazis avivam-se de lés-a-lés na Europa, sem que os dirigentes da União pareçam incomodados com esse imenso potencial terrorista. Pelo contrário, a participação dos dirigentes europeus no golpe ucraniano e na consolidação da sua componente nazi é mais um sinal da irresponsabilidade dominante. À boleia da nazificação ucraniana, a NATO e Barack Obama encaram a possibilidade de instalar armas nucleares na fronteira russa, provocação cuja gravidade não necessita de ser explicada. Com a agravante de essa mesma Ucrânia ser o centro onde se intensifica a cooperação de terrorismos que só na designação são distintos: o nazi e o islâmico.
Do “projecto europeu” pouco resta. Para os cidadãos, noutras condições, tal seria uma excelente notícia. O problema é que a derrocada da grande mentira histórica que esse “projecto” foi e é vem arrastando todo o continente para a hipótese aterradora da reaparição de provações como as que desde há cem anos estão escritas com o sangue de dezenas de milhões de seres humanos da Europa, e também do resto do mundo.


 
 

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

UM TESTE À UNIÃO EUROPEIA


 

Depois da Grécia, e em condições com alguns pontos de contacto e abundantes dissemelhanças, Portugal está a deixar a União Europeia perante um novo teste ao conceito de democracia que pretende tornar único no universo dos 28 Estados membros. Na Grécia, por razões que agora não vêm ao caso uma vez que, como costuma dizer-se, “quem mora no convento é que sabe o que lá vai dentro”, os tecnocratas à solta em Bruxelas e que ninguém elegeu conseguiram fazer vingar as suas vozes de pequenos gauleiters do grande reich do mercantilismo.
Como será em Portugal no caso de os acordos estabelecidos à esquerda se transformarem num governo legítimo acima de qualquer suspeita, imaculado nos termos da mais elementar democracia?
Uma primeira dedução creio não levantar dúvidas. As afirmações de soberania popular contra a crueldade autoritária de Bruxelas começaram pelos dois países mais fustigados e destratados pela arbitrariedade austeritária. O que não acontece por acaso: os povos, por mais conformados que pareçam, não aceitam eternamente as cangas com que lhes carregam os corpos e, mais tarde ou mais cedo, lá chega o dia das surpresas.
Surpresas para alguns, sem dúvida: os partidos portugueses até agora governantes – e os seus gémeos em escala europeia - ainda não recuperaram do choque com o que lhes está a acontecer através da derrocada do “arco da governação”, erguido sobre caboucos de segregação e apartheid político que supostamente lhes outorgava o direito natural, quiçá divino, de governarem ad aeternum como se as eleições não passassem de pró-formas.
Agora, a maioria parlamentar portuguesa, unida em torno de objectivos muito claros e democráticos, propõe-se governar pondo as pessoas em primeiro lugar, privilegiando os direitos destas e não as supostas legitimidades dessa entidade arrogante mas volátil, cruel mas cada vez mais difusa conhecida como “mercado”. Nada, afinal, de muito surpreendente: a maioria parlamentar portuguesa limita-se a seguir os caminhos livres da democracia e a fazer funcionar a soberania do voto popular genuinamente expresso, tudo aquilo que Bruxelas, respectivos mentores e súbditos pregam mas não praticam.
De modo que a declaração de soberania que devolve a Portugal um orgulho e uma esperança que se julgavam perdidos vem questionar, no fundo, a essência actual da própria União Europeia, sobretudo a partir do momento em que instaurou a austeridade como política única a cargo de um sistema de falsificação da democracia através de um partido único com dois polos, o tal “arco da governação”.
O sr. Rajoy, um neofranquista que trata os povos do Estado espanhol como lacaios que o servem e à casa real, diz que “não gosta” do que acontece em Portugal. Em boa verdade, ninguém lhe pediu opinião, mas já que a dá serve para entender o espírito que percorre o espaço da União, provavelmente desde a Península até aos revanchistas fascistoides do Báltico, pequeninos mas com os dentes bem aguçados pelos donos em Berlim. Ao ponto de Bruxelas parecer mais incomodada com o governo que ainda não existe em Portugal e as suas previsíveis declarações de soberania perante os mercados do que com as preocupações da senhora Le Pen, aterrorizada com “a epidemia bacteriana da imigração”, isto é, as supostas doenças contagiosas trazidas pelos refugiados e que mancham a pureza sanitária dos franceses, um mal que ela promete erradicar se lhe entregarem os bastões governamentais.
De qualquer modo deixemos o teste no ar. O que mais tira o sono aos tecnocratas austeritários de Bruxelas? O eventual governo de esquerda em Portugal construído segundo as normas básicas da democracia e da soberania nacional? Ou declarações racistas e incendiárias, potencialmente pré governamentais, proferidas por uma dirigente política de um dos dois mais poderosos países da União que não esconde o seu programa fascista mas respeita sabujamente “o mercado”?
Creio que sabemos a resposta. Por isso a União Europeia deu no que deu.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

AS BIZARRIAS DO SR. SCHULZ


 

O alemão Martin Schulz é o presidente do Parlamento Europeu, por sinal o único órgão da União Europeia verdadeiramente eleito. Como tal, deveria sentir responsabilidades acrescidas no respeito pelos cidadãos dos países da confraria, um importante contingente de 500 milhões de contribuintes e pagadores de dívidas alheias.
Como Martin Schulz é um “social-democrata”, também há quem lhe chame “socialista”, serve frequentemente de bandeira aos seus companheiros de grupo em comícios eleitorais, como recentemente aconteceu em Portugal, onde normalmente se esconde que os “socialistas e democratas” do Parlamento Europeu são tão responsáveis como os conservadores na formação de maiorias que aprovaram as mais gravosas malfeitorias económicas e financeiras contra os cidadãos, por exemplo troikas, tratado orçamental, semestre europeu, germanização da moeda, entre muitas outras. Se o leitor tem dúvidas sobre o que acaba de ser escrito basta-lhe consultar os resultados das votações desses assuntos em plenário.

Do alto do seu cadeirão, Martin Schultz decidiu agora qualificar como uma “bizarria” a renovação da aliança entre o Syriza e os Gregos Independentes para governar a Grécia. Diz ele que não deveria o Syriza, “como partido de esquerda, aliar-se com um partido de extrema-direita”. Quem o ouve não o leva preso. Até parece um homem de esquerda a falar, assim tão preocupado com a imagem daqueles que apressadamente considera agora irmãos ideológicos depois de ter participado na operação terrorista que levou Alexis Tsipras a capitular perante a máquina incineradora da finança mundial manobrada pelos órgãos da União Europeia, Parlamento Europeu incluído.
Até pode ser que a citada aliança na Grécia seja uma “bizarria”, embora muito mais bizarro seja, salvo melhor opinião, o modo como Tsipras se rendeu aos credores, dispondo-se a tudo para manter o país no euro – isto é, na via da austeridade e da sangria dos gregos, mais ou menos light, a ver vamos.
O mais bizarro de tudo é que seja Schultz a dizê-lo. O homem que pertence à coligação alemã, chefiada por Merkel, a qual transformou a Grécia num protectorado submetido sem respeito nem dignidade, é muito pouco recomendável para criticar supostas bizarrias dos outros; o homem que considera democrático o governo fascista da Ucrânia tem pouca legitimidade para condenar alianças de outros com a suposta “extrema-direita”; o homem que, ao lado da patroa Merkel, tem acicatado os da troika a torturarem sem limites o povo da Grécia deveria medir as palavras quando emite sentenças sobre a maneira como os escolhidos pelos gregos se organizam; o homem que, como presidente do Parlamento Europeu ou simples dirigente “social-democrata”, não pronunciou uma palavra nem mexeu uma palha para evitar as guerras que dizimam milhões de pessoas e estão na origem da dramática onda de refugiados que procura a Europa, deveria pensar muito mais que duas vezes antes de aludir às supostas “bizarrias” de outros; o homem que assiste imóvel, logo cúmplice, a práticas de governos europeus, como o húngaro e o croata, inspiradas na sinistra figura do seu compatriota de antanho chamado Adolf Hitler, deveria ter a noção da gravidade do que diz quando se arvora em conselheiro da democracia como quem dá uns tabefes numa criança que fez uma diabrura.
Bizarro, bizarro mesmo é uma figura como Martin Schulz ser presidente do Parlamento Europeu. Em boa verdade, muito mais bizarra que tudo isso é a própria união Europeia.
 

sábado, 15 de agosto de 2015

RACISMO À FLOR DA PELE


 
Os grupos declaradamente racistas e xenófobos do Reino Unido, como por exemplo o UKIP, não conseguiram transformar os seus milhões de votos em deputados, mas a mensagem segregacionista não se perdeu e foi tomada em mãos pelo primeiro-ministro David Cameron e respectivo governo. Reeleito de fresco, Cameron soltou a língua e escancarou o que lhe vai na alma a propósito da “ameaça” que a “praga” da emigração representa para a loira pureza britânica.
“Praga” foi a palavra escolhida pelo chefe do governo de Sua Majestade para citar o movimento de refugiados desejando entrar no Reino Unido, onde muitos têm familiares, a partir do porto francês de Calais. Autorizado pela franqueza do discurso do seu chefe, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Philip Hammond, assumiu essa preocupação de maneira mais abrangente, em nome de toda a Europa, durante uma entrevista à BBC. “A Europa não conseguirá proteger-se e preservar o seu estilo de vida e a sua estrutura social se absorver os milhões de imigrantes vindos de África”, disse. E logo a comunicação social tablóide e não só se sentiu encorajada a soltar os impropérios racistas, até agora tão dificilmente recalcados, para associar os refugiados e imigrantes a “pilhagens”, “marés de desordeiros”, “correntes de malfeitores” – enfim, a escalada verbal corresponde a uma desbragada perda de compostura, à libertação da natureza autêntica de quem nela participa e, por este andar, não tardará a passar à fase da acção repressiva e punitiva.
O reaparecimento da insolência racista através da Europa, observável em comportamentos como estes, da construção de vedações, redis e muros anti refugiados e também da instauração de governos de índole fascista, é inquietante.
O que torna ainda mais assustadora a proliferação destas manifestações de desassombro racista é a sua conjugação com a irresponsabilidade política dos dirigentes que as proferem. Enquanto se queixa da “praga” de refugiados, David Cameron defende como uma das panaceias para o problema a restauração da estabilidade política em países de onde chegam os imigrantes, citando explicitamente a Líbia, a Síria, o Iraque e o Afeganistão. Precisamente as nações onde ele mesmo, parceiros, antecessores e aliados instauraram o caos de onde fogem aqueles tudo arriscam, inclusive a vida, para chegarem à Europa. Isto é, queixam-se da “praga” e barricam-se contra ela os mesmos que a criaram. Os mais cegos dos cegos são os que não querem ver.
No caso de David Cameron e respectivo ministro dos Negócios Estrangeiros – que por sinal foi conselheiro avençado do governo do Malawi antes de se dedicar a altas cavalarias políticas – registe-se que tinham o racismo à flor da pele, de tal modo que nem precisaram que o problema assumisse dimensões exasperantes para gritarem o que lhes vai na alma. Os pedidos de entrada no Reino Unido nos primeiros meses deste ano foram da ordem dos 7500, cerca de quatro por cento dos registados em toda a União Europeia, número muito inferior ao de países como a Áustria, Suécia, França, Itália, Alemanha e da própria Grécia, onde o pedido de entradas foi 16 vezes superior. Um valor que representa, aliás, uma ínfima gota de água quando comparado com os refugiados sírios no Líbano (1,1 milhões, um quarto da população do país), na Turquia (1,8 milhões) ou na Jordânia (630 mil), países assim atingidos devido à irresponsabilidade de um governo fazedor de guerras como é o do Reino Unido – entre alguns outros aliados, claro.
Se a Europa “não consegue preservar o seu estilo de vida e a sua estrutura social”, como se queixa o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, então os principais responsáveis são os dirigentes políticos que tomaram conta dos países e instituições da União Europeia.
 
 
 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

NAZISMO ECONÓMICO


 
Um estudo de uma entidade alemã, o Instituto de Investigação Económica de Leibniz, reconhece que a crise da dívida soberana grega proporcionou vantagens de pelo menos 100 mil milhões de euros à República Federal da Alemanha. De acordo com os autores da investigação, estes lucros faustosos resultam de um mecanismo simples: as más notícias sobre a situação financeira grega minimizam as taxas de juro das obrigações alemãs nos mercados e as boas notícias sobre a situação grega (onde estão?) fariam subir os juros das obrigações germânicas. Em termos corriqueiros, o sofrimento dos gregos permite à Alemanha financiar-se a preços de saldo.
As revelações deste estudo, cujo conteúdo coincide com os de outros trabalhos do género divulgados igualmente na Alemanha, representam a ínfima parte que se vai conhecendo de uma realidade clandestina e criminosa que é o assalto dos mercados financeiros internacionais, através do FMI e de instituições da União Europeia, contra o povo grego e os povos mais desprotegidos pelos seus governos – como é também o caso de Portugal.
Um assalto consumado sob o pretexto do combate às dívidas soberanas e que, através de acordos impostos pelos credores com normas e anexos clandestinos, serve para financiar bancos e outras instituições financeiras privadas graças à venda dos activos públicos e aos sacrifícios impostos às populações dos países “ajudados” – expressão cujo cinismo é próprio do léxico dos mais refinados ladrões.
Elementos sobre a dívida soberana grega apurados no âmbito da auditoria cidadã realizada para esclarecer os dados mais importantes da crise revelam que a dívida pública helénica em 2010 era de 200 mil milhões em títulos e subiu para 227 mil milhões até 2014, na sequência da intervenção da troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI).
Pelo caminho, e correspondendo a anexos clandestinos apensos aos acordos desenhados e impostos pela própria troika, a dívida foi transferida para credores de âmbito bilateral – 14 países europeus e o banco público alemão KfW – um processo segundo o qual grande parte do dinheiro supostamente emprestado à Grécia nem sequer chegou ao país e seguiu directamente para bancos e outras instituições financeiras privadas. Para tal activaram-se mecanismos e manigâncias tendo como base uma conta aberta para o efeito no Banco Central Europeu. Verifica-se, deste modo, que as receitas originadas pela aceleração das privatizações e os produtos da cruel austeridade serviram para financiar estabelecimentos financeiros privados e delapidar os bens públicos.
O Estado alemão não integra o grupo dos credores; a parte germânica no processo é garantida pelo KfW, um banco público alemão criado ironicamente no quadro do Plano Marshall que permitiu o relançamento económico da Alemanha no pós-guerra e que tem como presidente uma pessoa que dispensa apresentações: Wolfgang Schauble, o ministro das Finanças do governo de Merkel, um conhecido serviçal dos mercados financeiros e correspondente processo de nazismo económico, um inimigo jurado dos gregos e outros povos europeus.
Não se choquem com a expressão “nazismo económico”. Como se sabe, as dívidas soberanas dos menos poderosos e desprotegidos países da União Europeia, aumentadas e transformadas através das criminosas políticas de austeridade, são a matéria de que vive o chamado Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), que não passa de uma instituição financeira privada e especuladora com sede no Luxemburgo, criada em 2010 pela União Europeia, a pretexto da crise, para sustentar o euro e, supostamente, ajudar a combater as dívidas soberanas – aumentando-as.
O FEEF é o coração de um processo que gere os empréstimos aos países em dificuldades de maneira a que as “ajudas” sigam para as instituições financeiras privadas e os activos tóxicos onerem as dívidas públicas, no caso grego através de um fundo helénico, também privado, e transitando via Banco Central.
Como se disse, o FEEF é um fundo privado, com títulos cotáveis em bolsas, mas tem como suporte operacional a Agência Alemã de Administração de Dívida, entidade sob controlo público ao serviço de investidores privados e supervisão do Ministério das Finanças, via pela qual é possível reencontrar a tutela do omnipresente Schauble.
Os círculos fecham-se e mostram de onde vem a voz do dono disto tudo. As auditorias independentes que se vão fazendo provam a falácia do argumento segundo o qual os contribuintes alemães sustentam os vícios e desmandos dos madraços dos sulistas; o esquema das dívidas soberanas está montado segundo modelos especulativos em benefício de interesses privados com a cumplicidade de agentes públicos ao serviço dos privados, incluindo na Alemanha.
Tais mecanismos são alavancas de um sistema de germanização da Europa, que dos tempos de Hitler tem objectivos semelhantes, porém a alcançar por via financeira e económica. Por detrás do monstruoso aparelho militar do Reich estavam os expoentes da economia e dos mercados financeiros; por detrás do nazismo económico actual estão as novas gerações dos expoentes da economia e dos mercados financeiros.
 
 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A DÍVIDA E O PAI NATAL


O primeiro ministro de Portugal em exercício, mais o seu vice, mais o resto do governo, mais os ex-governantes e respectivos deputados, enfim, o “arco da governação” que chamou e alimentou a troika continuam a querer fazer de todos nós imbecis. É que a dívida pública portuguesa, além de ser parte de uma dívida soberana incobrável, no que não difere da situação grega mais milhar de milhão menos milhar de milhão, continua a subir como um míssil - mas em absoluto descontrolo - enquanto os responsáveis pelo fenómeno trocam culpas e acusações exigindo às vítimas que continuem a lançar os seus cada vez mais minguados rendimentos para um poço sem fundo.
Portugal é diferente da Grécia? Será… Mas apenas por enquanto, porque para lá caminha e outros se seguirão se os candidatos a imbecis, que somos todos nós vivendo dentro da União Europeia e da Zona Euro, não lhes dissermos que já chega.
Não se pense que os dados demonstrativos de que a dívida trepa sem cessar resultam de contas distorcidas elaboradas por mal-intencionados economistas de esquerda, como o “arco” e seus cúmplices gostam de argumentar. Os números são do Banco de Portugal, e se a instituição em si mesma, ou pelo menos quem a dirige, não deva ser considerada de confiança, os valores parecem sê-lo, porque se fossem alvo das conhecidas marteladas estatísticas não apareceriam tão nus e crus ante os nossos olhos.
Pois revela o Banco de Portugal que num só mês, de Abril para Maio, a dívida pública portuguesa cresceu 3777 milhões de euros, atingindo a soma astronómica de 229204 milhões de euros, uma coisa que chega quase aos 20850 euros por cada português – um pouco mais porque, como sabemos, as elites estão dispensadas de participar neste “esforço nacional”. Ou seja, só num mês a dívida pública portuguesa cresceu quase cinco por cento do valor total da “ajuda” da troika, como se sabe no valor de 76 mil milhões e que tinha como objectivo proclamado pelos governos responsáveis pagar uma dívida que cresce…Cresce… Cresce…
Recordando um pouco os argumentos dos últimos primeiros-ministros portugueses, sempre indispostos para renegociar a dívida, o que, segundo eles, seria coisa de “caloteiros”, os caminhos para sermos uns devedores bem comportados estão bifurcados em austeridade e competitividade, panaceia esta que nos transformaria em bons exportadores e menos bons importadores, assim se virando a balança comercial a nosso favor. Pois bem, ou mal, neste caso, sobre os efeitos da austeridade na vida dos cidadãos, provocando ainda o caos no tecido económico nacional, estamos conversados; quando à balança comercial, eis o que também nos diz o Banco de Portugal: nos cinco primeiros meses deste ano o défice foi de 911,1 milhões de euros, contra um balanço também negativo de 776,1 milhões no mesmo período do ano passado. A panaceia fracassou, como se sabia e o governo contrariava a pés juntos com base em meros e episódicos afloramentos positivos.
O Banco de Portugal, que por esta via não tardará a engrossar as “forças de bloqueio” apontadas a dedo pelo primeiro-ministro em exercício e seu excitado vice, diz-nos ainda que as contas externas do país registaram de Janeiro a Maio um défice de 103 milhões de euros, um valor que – reparem nisto – traduz uma degradação de 471,6 milhões em comparação com os primeiros cinco meses de 2014.
Eis pois, senhoras e senhores, o país saudável e recuperado, como ele gosta de dizer, que o senhor primeiro-ministro de Portugal nos deixa a menos de três meses das próximas eleições gerais. Ele, coitado, diz-se enganado pelo governo anterior, e por isso teve de aumentar brutalmente os impostos quando prometera diminuí-los, carregou selvaticamente na austeridade quando jurara acabar com ela, expulsou quase meio milhão de portugueses depois de garantir que viria aí emprego e crescimento económico. Enquanto a dívida soberana, de 102 por cento do PIB há quatro anos já passou por cima dos 130 por cento e assim continua a galope.
Pois se ele se diz enganado pelo anterior governo, os cidadãos foram burlados por ambos e também por quantos os antecederam até ao primeiro – já lá vão décadas – que resolveu ajustar contas com o 25 de Abril a coberto dos interesses malfeitores que gerem a União Europeia e a moeda única.

É oficial: se daqui dois meses e picos os portugueses aceitarem ir pelos mesmos caminhos é porque acreditam no pai natal e outros mitos mágicos.