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sábado, 21 de novembro de 2015

O NOVO CARLUCCI


 
O sr. Sherman está “preocupado”. Ele que abandonou o seu bem-sucedido escritório de advogados em Boston, que descurou as reuniões do Conselho do Memorial do Holocausto para fazer um tranquilo período de repouso sabático na Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal, onde seria suposto nada ter que o incomodasse, agora encontrou razões para se inquietar. É verdade que antes de se instalar passou uns olhares despreocupados pelas aventuras do chefe da CIA, Frank Carlucci, quando destacado como embaixador neste “jardim à beira mar plantado”. Mas como, desde então, tudo entrou nos eixos e caducaram as intensas mas fugazes razões que sobressaltaram o império, Portugal voltou a ser o redil manso e obediente sempre que as simpáticas ovelhinhas ouvem ordens em inglês ou qualquer coisa parecida.
Contudo, de repente e quando nada o fazia prever, o sr. Sherman confessa-se preocupado, e di-lo bem alto, em rádios e jornais com muito boas referências e preferências na sua terra, para que tais inquietações cheguem ao homem do palácio de Belém antes de tomar uma decisão sobre o próximo governo. Ele – o homem do palácio de Belém – que teve a ousadia de receber uma torrente de sábios doutores, engenheiros e economistas pensando as mesmas coisas e não encontrou hora para acolher também o sr. Sherman.
O sr. Sherman, porém, nem precisa de ir a Belém para se fazer ouvir. Está “preocupado” porque o PS, entidade que até agora nunca dera motivos para preocupações a Sherman e antecessores, foi capaz de fazer acordos de incidência governamental com “ferozes inimigos da NATO”, coisa que é ainda pior que ser terroristas porque estes, como ficou bem explicado nos Balcãs, na Líbia, e não deixa dúvidas na Síria, são pragmáticos quanto baste para fazer serviços, por sinal bem sujos e sangrentos, em aliança com os senhores da Aliança Atlântica. Uma mão lava a outra.
O sr. Sherman ressalva, não haja mal-entendidos, que “respeita as escolhas políticas dos portugueses”, porque são assim os verdadeiros democratas como ele que, sendo conselheiro do Museu do Holocausto é, ao mesmo tempo, cúmplice ideológico de atrocidades cometidas em Gaza, da tortura e assassínio de garotos e adolescentes que são moeda corrente nas prisões e hospitais de Israel.
O sr. embaixador Sherman adverte de Sete Rios, em todas as direcções, que o comportamento do PS “levanta a questão sobre se o compromisso de Portugal, como membro fundador (da NATO), é firme como sempre foi”. Porque, como dizia seu pai, “diz-me quem são os teus amigos dir-te-ei quem és” e os socialistas “fizeram uma aliança amigável com dois partidos anti-NATO”.
Sabemos, como atrás ficou escrito, que o sr. Sherman “respeita as escolhas políticas dos portugueses”. Pelo menos, subentende-se, enquanto forem as escolhas que a NATO pretende. E se por acaso, um dia, as “escolhas legítimas dos portugueses” não agradarem à NATO o que acontecerá? O sr. Sherman chamará a NATO para devolver as “escolhas” à devida ordem? Quem assim nos alerta com as suas “preocupações” nosso amigo é?
O sr. Sherman deve saber – ou deverá ter quem o informe – que apesar de Portugal ser membro fundador da NATO os portugueses nunca foram consultados sobre isso, isto é, nunca puderam escolher. Até porque quando Portugal participou na fundação da NATO era governado por um tal Oliveira Salazar que se sucedeu a si mesmo, mandato após mandato, sem que os portugueses alguma vez o tivessem escolhido, tal como acontece com fazer ou não parte da NATO. A relação de Portugal com a NATO, tal como a submissão dos portugueses a Salazar, nunca teve a ver com democracia. Com essa situação, porém, não manifesta o sr. Sherman qualquer incómodo.
Durante anos a fio, durante as últimas décadas não se ouviu um pio da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa. A Oeste nada de novo, para o império tudo corria sobre rodas. De repente, eis que parece surgir uma ovelha tresmalhada e logo ficámos a conhecer quem ocupa o lugar que há 40 anos foi de Carlucci, chefe da CIA. O mastim do império não dorme, nunca dorme. Mas tal como o embaixador dos Estados Unidos, também os portugueses sabem citar provérbios universais, por exemplo o que diz que os cães ladram e a caravana passa. Assim queiram os portugueses honrar as suas escolhas legítimas, incomodem ou não o sr. Sherman e seus amos.
 

 

 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O IMPÉRIO ENTRA A GANHAR


Os anexos bilaterais do chamado acordo 5+1 estabelecido entre as principais potências mundiais e o Irão já começaram a fazer efeitos.
Não, nada disso, os êxitos militares contra os facínoras do Estado Islâmico (ou Isis ou Daesh) obtidos no âmbito da esfera norte-americana são apenas conjunturais ou mitigados, nada que impeça o grupo de prosseguir a transferência para zonas russas ou russófonas. Existem, é certo, algumas ideias negociais relacionadas com a pacificação da Síria; no Líbano movem-se pedras no sentido de clarificar o assassínio do anti presidente Hariri, cuja inspiração foi atribuída – contra todas as evidências – ao regime de Damasco e que tem sido o único pretexto para acusar a Síria da prática de terrorismo. No entanto, estes processos estão ainda no início e, embora inseridos no ambiente criado pelos acordos, não é certo que prossigam no sentido de acabar com as mistificações e fazer valer a realidade dos factos e o direito internacional.
O primeiro grande efeito do acordo Estados Unidos-Irão é a queda do Sul do Iémen, com a capital em Aden, nas mãos da chamada Força Árabe Comum, uma entidade que é, na prática e à luz entendimento entre Washington e Teerão, uma coligação militar encabeçada pela Arábia Saudita e Israel. Esta “santa aliança” – e como é apropriada a designação! – não é novidade: tem funcionado, por exemplo, no apoio ao Estado Islâmico contra a Síria e pelo desmantelamento do Iraque; sabe-se também que pilotos israelitas combatem aos comandos de caças sauditas na guerra civil no Iémen.
O facto é que esta coligação tomou conta de Aden, expulsando os xiitas fiéis a Mohamed Huti, presidente em exercício em Sanaa, a capital. Na sequência do triunfo, a coligação reinstalou Abd Mansour Hadi como presidente, para já na capital do Sul do país. E se Huti chegara ao poder por golpe de Estado a legitimidade de Hadi – o protegido da Arábia Saudita – não é maior, porque o prazo de validade do seu mandato terminou há muito.
A presença da Força Árabe Comum no Sul do Iémen significa a reinstalação da NATO na região, assumindo o controlo absoluto do estratégico Estreito de Bab el Mandeb, que separa a Península Arábica e a Ásia de África. Esse controlo quer dizer domínio militar e petróleo, muito petróleo, não apenas no Sul do Iémen mas também na região do Ogaden, na Etiópia.
Não se pense, porém, que o triunfo militar da santa aliança se deve aos seus muitos méritos. A razão principal é a saída de campo do Irão, que sustentava os xiitas Hutis na guerra civil iemenita. Teerão abandonou o terreno para cumprir o acordo estabelecido com Washington.
A chegada da coligação entre a Arábia Saudita e Israel à região meridional iemenita significa também que já não existem obstáculos para que a petroditadura de Riade e o regime confessional de Telavive transformem em realidade o projecto de construção da ponte sobre o estreito, ligando Aden a Djibuti, no extremo do Corno de África, na prática uma colónia francesa sob administração militar da NATO, logo norte-americana.
A adjudicação da imponente obra já foi feita. Ignora-se se houve concurso, mas isso são formalidades dispensáveis e irrelevantes. Quem construirá a ponte sobre o Estreito de Bab El Mandeb será o Ben Laden Group da Arábia Saudita. Não, não se trata de uma coincidência: é o grupo da família de Bin Laden, o terrorista-mor, dirigido por um irmão deste. 11 de Setembro? Tanta água passou já por debaixo das pontes, mesmo as que ainda estão por construir…
O marcador apenso ao acordo entre os Estados Unidos e o Irão já funcionou. Império, 1 – Irão, 0.