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quinta-feira, 14 de maio de 2015

NAKBA


 
 
Nakba, palavra árabe que significa catástrofe, começou há 67 anos e ainda não acabou. É o holocausto de todo um povo, o povo da Palestina, cometido sem parança pelas décadas fora e vitimando já milhões de seres humanos através de perdas de vidas, bens, raízes, em suma, dos direitos humanos fundamentais.
Há 26 anos, no campo de refugiados palestinianos de Deishe, nos arredores da cidade de Belém, um homem com mais de 80 anos, o patriarca de uma família que nos acolheu por umas horas, ausentou-se sem darmos por isso. A grande actriz Maria de Céu Guerra lembrar-se-á por certo deste episódio, porque também fez parte dele e quem o viveu jamais poderá esquecê-lo. Quando o homem reapareceu trazia em cima de uma almofada uma chave enorme, daquelas que rangem nas fechaduras antigas das memórias das nossas aldeias. Mostrou-nos e explicou: era a chave da casa onde nascera, no princípio do século, na cidade de Yaffa, à beira do Mediterrâneo. Em 1948 ele e a família tiveram de fugir devido à violência de grupos terroristas e militares hebreus. Desses tempos guardava um sonho, o de voltar a usar a chave para abrir a porta de sua casa e o de tornar a sentir o cheiro da figueira do pequeno quintal, que então já só existia na sua memória como uma saudade embrulhada em nostalgia e enrugada pelo tempo. Nunca mais soube desse homem, que pela lei da vida não está entre nós. Levou consigo o sonho, porque os jovens da família, em omissão piedosa, lhe esconderam que nem casa nem figueira existiam mais. A gente selecta da cidade de Telavive que, sobretudo aos fins-de-semana, usufrui daqueles subúrbios agora chiques, jamais terá sabido da existência daquele velho, daquela família, da velha casa, da idosa figueira.
Porque ouvi um dia ao grande e corajoso jornalista israelita Gideon Levi, num encontro em Copenhaga, esta confissão: “vivemos a menos de 30 quilómetros de um outro povo, dos nossos vizinhos, e não o conhecemos, não sabemos quem são, o quanto lhes negamos”.
É assim a Nakba, a catástrofe. Um povo espoliado das suas vidas, dos seus bens, das suas aldeias e cidades pela violência, a arbitrariedade, a ira, a ganância de uma casta que, dizendo-se iluminada e portadora de mandatos divinos, se auto proclamou representante de um outro povo, manchando e ultrajando a memória das vítimas de uma outra catástrofe, o holocausto cometido pelos nazis.
A Nakba é uma limpeza étnica permanente, sistemática, cometida por quem tem a noção absoluta do que está a fazer, isto é, a substituição metódica, fria, de um povo por outro com base em ordens divinas que, em boa verdade, deus algum que hipoteticamente exista pode emitir porque a Nakba é coisa de homens sem escrúpulos, sem alma, sem uma réstia de sentimentos, como um qualquer carrasco de um campo de concentração nazi.
Uma limpeza étnica cometida, hora a hora, dia a dia, ano a ano, sob os olhos complacentes e colaborantes dos senhores que exercem o seu domínio sobre o mundo, chamem-se Estados Unidos da América, União Europeia e outros entes tão bem falantes quão mentirosos, que por isso se equiparam aos que praticam a chacina.
O drama é nosso contemporâneo, contudo não é gritado nas primeiras páginas dos jornais, gorjeado pelas vedetas das TV’s, cantarolado ante os microfones das rádios, e quando há excepções – porque as há – reconheçamos a coragem, a verticalidade, o bem da honra de quem as assume.
O drama é nosso contemporâneo. Não é obra do povo hebreu; não é obra dos povos dirigidos pelos cúmplices dos que se dizem condutores do povo hebreu. Saibamos distinguir os responsáveis e as responsabilidades para que venha a ser feita justiça.
Porque justiça terá de ser feita, se justiça ainda existe. A Nakba existe; é um crime contra a humanidade.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

UM POUCO DE FUTEBOL


 
 

Falemos um pouco de futebol. Não para desassossegar alguns referentes inquisidores de espíritos prontos a levar aos novos pelourinhos, privados é claro, os leitores de páginas desportivas, onde aliás se aprende, e muito, sobre o mundo cão em que vivemos. Ainda assim, enfrentemos as consequências.
E se vos falo de futebol é para chamar, com todas as letras e sem margem de erro, hipócrita e mentiroso ao senhor Joseph Blatter, presidente talvez vitalício, quem sabe, dessa coisa tão democrática que é a FIFA, a entidade que vê crescer os sete céus dos estádios do mundial do Qatar com base em trabalho escravo e faz que sim com a cabeça.
Não é apenas por isto, o que não seria de somenos, que o senhor Blatter é hipócrita.
O senhor Blatter é hipócrita e mentiroso quando pede à Federação Palestiniana de Futebol que não insista em pedir a suspensão da Federação Israelita de Futebol porque isso, e cito, “é misturar a política com o futebol”.
Tal frase, como certamente sabem até aqueles que não sujam os olhos lendo páginas desportivas, tem servido para dar cobertura a um sem número de atrocidades e arbitrariedades em campos que vão muito para além dos de futebol.
Neste campo a tradição ainda é o que era. Diz o senhor Blatter que a Federação Palestiniana não deve insistir no pedido de suspensão porque a Federação Israelita não pode ser responsabilizada pelos actos do governo de Israel contra os direitos humanos e contra leis desportivas estipuladas, aliás, pela própria FIFA.
Aí é que o senhor Blatter se engana. E como se engana deliberadamente, mente. A Federação Israelita de Futebol tem no seu cardápio de clubes, figurando, por inerência, no supracardápio da FIFA, cinco entidades cujas sedes existem em colonatos israelitas ilegais na Cisjordânia Palestiniana, além disso reservadas apenas a futebolistas judeus. Dois coelhos (salvo seja) de uma só cajadada: a Federação Israelita viola as leis internacionais ao estender a autoridade a estruturas ilegais de ocupação; e pratica segregacionismo étnico/racista. É muito bonita a campanha da FIFA contra o racismo, fica sobretudo bem nos cartazes, desde que daí não saia.
O senhor Blatter sabe igualmente que existem clubes israelitas, como o Beitar de Jerusalém, do qual o adepto mais ilustre é o senhor Benjamin Netanyahu, cujo grito de claques é “morte aos árabes”, claques essas que o vão gritando através da Europa durante as competições onde o Beitar participa, e nas quais não foi nunca penalizado por tais manifestações terroristas. Não pode o clube ser condenado pelos gritos das claques, invocará o hipócrita senhor Blatter. E o que fazer então quando o treinador do citado Beitar assegura que só por cima do seu cadáver – o sentido é figurado, claro – fará alinhar no clube um jogador israelita que tenha origem árabe. Um clube, uma equipa para israelitas puros… O que chamará o senhor Blatter a isto?
Ainda assim, o presidente da FIFA insiste em que futebol e política não deverão misturar-se, enquanto futebolistas palestinianos inscritos na instituição do senhor Blatter jazem nas cadeias israelitas por tempo indeterminado, sem julgamento e culpa formada, onde poderão até ter como carcereiros ilustres atletas das selecções israelitas. Dizem os estatutos da FIFA, que o senhor Blatter conhece muito bem porque os invoca a toda a hora, que as federações nacionais “devem gerir os seus assuntos sem ingerências de terceiros”. Ao que parece, tais estatutos são válidos para todas as federações… Menos uma. Exactamente essa, a Palestiniana, adivinharam. Em Agosto de 2013, numa carta à FIFA, os dirigentes do futebol israelita escreveram, isto é, estipularam, que “a Federação Palestiniana tem a obrigação de funcionar através dos canais oficiais do Estado de Israel”.
Não há margem de erro: o chefe do futebol mundial é hipócrita e mentiroso.