pub

Mostrar mensagens com a etiqueta mohamed suleiman. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta mohamed suleiman. Mostrar todas as mensagens

sábado, 19 de dezembro de 2015

VEJA COMO ISRAEL SALVA TERRORISTAS DO ESTADO ISLÂMICO



Há pouco mais de uma semana descrevi aqui a situação de Mohamed Suleiman, um garoto palestiniano com 15 anos detido quando tinha 13 sob a acusação de atirar pedras numa estrada da Cisjordânia reservada a ocupantes – militares e colonos israelitas –, e agora condenado a 15 anos de prisão por 25 “tentativas de assassínio”. Pena que poderá tornar-se perpétua se até 26 de Janeiro a família não pagar uma multa de sete mil euros.
Compreendo que esta farsa de justiça e a correspondente agressão aos mais elementares direitos humanos possa ter indignados os leitores. Na verdade, actos de tortura, arbitrariedade e violência gratuita contra crianças cometidos por Israel, um Estado com elevada cotação na bolsa de civilização, liberdades fundamentais e guerra contra o terrorismo que serve de padrão à União Europeia e à NATO, deixam a inquietante sensação de que o Estado confessional hebraico não é aquilo que parece e diz ser.
Para desfazer a má impressão que esse episódio terá deixado vou dar-vos informações que ilustram como Israel é um Estado, por vezes, com elevadas preocupações humanitárias. Um jornalista ao serviço da versão online do britânico Daily Mail acompanhou uma operação de um grupo de comandos israelitas que, na calada da noite, socorrem feridos da guerra civil síria de modo a que sejam assistidos em hospitais israelitas e depois devolvidos ao teatro de guerra. Um desses feridos, cuja vida é salva graças aos procedimentos médicos de urgência israelitas acompanhados pela reportagem do Daily Mail – velha publicação conservadora britânica – é um “combatente anti-Assad” por sinal membro do Estado Islâmico, ou Daesh, ou ISIS, actual inimigo público nº 1 da “civilização ocidental”. Em linguagem sem rodeios, a reportagem mostra o salvamento de um terrorista por forças especiais israelitas, ocorrência tão politicamente incorrecta, na aparência, que leva o jornalista a enquadrá-la no âmbito da conhecida máxima “os inimigos dos nossos inimigos nossos amigos são”.
No caso, como vamos sabendo, nem seria preciso recorrer a sentenças tão arcaicas, uma vez que há generais norte-americanos sem dúvidas de que Israel está entre os criadores do Estado Islâmico. Já se sabia também que este grupo terrorista tem um santuário nos Montes Golã ocupados por Israel à Síria, onde dispõe de instalações hospitalares facultadas pelo exército com meios de evacuação para hospitais israelitas, nos casos mais graves. Há fotos do primeiro-ministro Netanyahu visitando feridos da mais recente versão de “combatentes da liberdade” tratados no seu país, mas nenhum documento é tão revelador dessa colaboração como o vídeo do Daily Mail. De acordo com a mesma fonte, aliás, esta humanitária legião israelita de boa vontade já salvou assim mais de 2000 vidas entre os terroristas injectados na Síria, e sem distinção de filiação: Estado Islâmico, Al-Nusra, que é o mesmo que dizer Al-Qaida e, ao que consta, até mesmo “moderados”, os que são oficialmente pagos pelos Estados Unidos e potências da União Europeia. O valor de 10 milhões de euros gasto até agora por Israel nesta operação é uma pechincha, tendo em conta o que o terrorismo fundamentalista islâmico representa, pelos vistos, para a segurança do país governado pelo fundamentalismo hebraico.
Para que não haja paralelismos que poderiam ser mal intencionados, um oficial israelita esclarece o Daily Mail que ocorrências deste tipo não podem ser postas em confronto, por exemplo, com o que frequentemente acontece em Gaza, onde o exército israelita asfixia e massacra populações civis indefesas. “O contexto é diferente e nós agimos de acordo com ele”, explica o oficial com uma transparência tão eficaz que todos nós entendemos: uma coisa é salvar terroristas do Estado Islâmico na fronteira com a Síria, outra é chacinar crianças, mulheres e idosos em Gaza. No fundo, porém, há uma inatacável coerência no comportamento do governo e das tropas israelitas: trata-se de uma questão estratégica de segurança do país, como sempre se ouve dizer.
Uma justificação que se aplica, como um fato feito por medida, ao episódio do jovem Mohamed Suleiman. Mas não se diga que Israel não se dedica por vezes, e quando lhe convém, a práticas humanitárias.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

O CASO BÁRBARO DE MOHAMED SULEIMAN




Poucos conhecerão as notícias abjectas sobre Mohamed Suleiman nestas horas em que tanto se fala de terrorismo, barbárie e selvajaria como contraponto à nossa superioridade civilizacional plena de virtudes e bênçãos divinas, provenham elas de entidades supremas ou dos não menos supremos mercados.
Não, Mohamed Suleiman não é nenhum dos bandidos armados que praticaram as chacinas de Paris ou Madrid ou Nova Iorque, ou decapitaram um qualquer “cidadão ocidental”; estes são os verdadeiros terroristas, assim definidos pelos lugares onde actuam e as vítimas que provocam, mas de que ninguém ouviria falar entre nós caso se ficassem pelos massacres simultâneos de centenas de sírios e iraquianos, previamente forçados a cavaram as valas comuns para nelas partirem em busca da eternidade, porque isso era assunto lá entre eles, entre bárbaros, que não encaixa nos padrões exigentes e ilustrados de direitos humanos.
Mohamed Suleiman tem 15 anos, é um adolescente palestiniano de Hares, perto de Nablus, na Cisjordânia, detido numa masmorra israelita desde os 13 anos por “atirar pedras”, pecado gravíssimo porque cometido numa estrada reservada a colonos – a designação verdadeira, ocupantes, é politicamente incorrecta – exemplo das obras públicas israelitas que institucionalizam um civilizado regime de apartheid um quarto de século depois de o apartheid original ter sido extinto.
As autoridades israelitas foram buscar Mohamed Suleiman a casa há dois anos, não havendo qualquer flagrante a invocar, e mantiveram-no na cadeia até completar 15 anos. Torturaram-no, juntamente com mais quatro jovens, até confessarem o crime de “atirar pedras” e agora, que já tem idade para ser “julgado”, um tribunal militar israelita condenou-o a 15 anos de prisão por “25 tentativas de assassínio”, judiciosa versão da acusação original baseada no arremesso de calhaus; mas se a família não conseguir pagar uma multa de sete mil euros até 26 de Janeiro a pena transforma-se automaticamente em prisão perpétua. Como os parentes do garoto não têm esse dinheiro – vivem sob ocupação numa terra submetida à violência sádica e fundamentalista dos colonos, espoliados de todos os meios de sobrevivência pelo Estado de Israel - Mohamed Suleiman corre o sério risco de passar o resto dos seus dias que vão para lá dos 15 anos, idade dos sonhos para os adolescentes livres, numa masmorra às ordens dos civilizados esbirros ocupantes.
Esta é a história de Mohamed Suleiman. Ela não corre nos nossos tão informados telejornais, nos nossos periódicos ditos de referência, nas nossas rádios inundadas de cachas, apesar de tais meios não descansarem um segundo na denúncia do terrorismo, do terrorismo mau, pois claro, mas onde deveria caber, por simples misericórdia, um cantinho para Mohamed Suleiman, ao que parece insuspeito de ser do Estado Islâmico ou da Al-Qaida, cujos mercenários às vezes podem ser terroristas, outras nem tanto, depende.
Tão pouco a ONU, a UNICEF, a omnipresente e justiceira NATO, a democratíssima e vigilante União Europeia, tantos observatórios e organizações não-governamentais parecem conhecer a barbárie terrorista de que é vítima Mohamed Suleiman e os seus companheiros. Já me esquecia das boas razões para tal alheamento: Israel, tal como esse farol da democracia que é a Arábia Saudita e também a fraternal Turquia, agora às portas da União Europeia desde que sirva de tampão à entrada de refugiados na Europa, enquanto nutre bandos terroristas, são exemplos brilhantes de civilização e de respeito pelos direitos humanos. Os amigos e aliados jamais praticam terrorismo, tratam da nossa “segurança”.
O caso de que são vítimas Mohamed Suleiman e os cinco de Hares é um exemplo de terrorismo puro e duro, sem adjectivação porque o terrorismo é um fenómeno único, não existem terroristas bons ou maus, civilizados ou bárbaros. Mas esta é uma tese vinda dos bas-fonds da teoria da conspiração, não conta para a vida nos nossos dias.
Ainda sobram no mundo, porém, algumas organizações solidárias que, enquanto denunciam esta aberração selvática, procuram, para já, ajudar a reunir os sete mil euros necessários para tentar travar, no mínimo, a perpetuidade da prisão do jovem.
Quanto ao resto, a história de Mohamed Suleiman e tantas outras histórias que preenchem o quotidiano trágico de Jerusalém Leste, Cisjordânia e Gaza, as histórias de degredos, demolição de casas, assassínios selectivos, escolas e hospitais arrasados, asfixia económica, privação de água e energia, checkpoints e rusgas arbitrárias, muros e outras formas de segregação física e psicológica, mais não é do que exposição da hipocrisia terrorista pela qual se guia a chamada “comunidade internacional”.
Agora que a bandeira da Palestina, Estado fantasma, ondula junto ao palácio de vidro da ONU as boas consciências dos nossos civilizados e democráticos dirigentes sentem-se apaziguadas. Casos escabrosos de terrorismo como o de Mohamed Suleiman poderia, é certo, mascarar essa “paz” tão laboriosamente aparentada, mas que não haja problema: varre-se para o fundo dos tapetes da diplomacia e do desconhecimento, com a prestimosa colaboração do amestrado aparelho de propaganda.