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sábado, 26 de dezembro de 2015

SANÇÕES A QUEM COMBATE O TERRORISMO



Os Estados Unidos da América e os dirigentes da União Europeia, conhecidos estes pelo seu comportamento pavloviano salivando às sinetas Washington, decidiram reforçar as sanções económicas contra a Rússia. Só porque sim, por causa das coisas na Ucrânia, da reintegração da Crimeia na Rússia, da resistência das populações russófonas às limpezas étnicas em curso no Leste do país, enfim mais sanções por nada de novo.
Por isso, quando, por exemplo, os agricultores da União Europeia, portugueses incluídos, decidirem protestar contra a crise agravada pelas restrições impostas à importação dos seus produtos pela Rússia, deverão antes virar-se contra as decisões canhestras e anti económicas adoptadas pelos seus próprios governos.
Retomando o fio à meada das novas sanções à Rússia, observemos o contexto temporal e factual em que foram agravadas. Por exemplo, a multinacional norte-americana de sondagens Gallup dedicou-se a auscultar as opiniões dos ucranianos sobre o governo criado em Kiev, e as conclusões não poderiam ser mais incómodas para os adeptos da “revolução da Praça Maidan”, entre os quais se encontram mui progressistas eurodeputados e eurodeputadas. Nove em cada dez dos ucranianos ouvidos consideram que os níveis governamentais de corrupção são hoje muito mais elevados; e a popularidade do “rei do chocolate” Poroshenko, que usurpou a chefia do Estado, fica-se pelos 17%. Yakunovich, o presidente deposto pelo golpe, teve um mínimo de popularidade de 23%, e foi no auge da campanha de propaganda visando denegri-lo e afastá-lo.
Reconhece a Gallup que poucos são os ucranianos que ainda chamam “revolução” ao que se passou – assim o ordena a propaganda oficial - preferindo qualificá-lo como o que realmente foi: um golpe. A empresa de sondagens não incluiu perguntas sobre a crescente influência nazi no governo do país – a tanto não se atreveu – mas quanto a isso basta a realidade conhecida, é desnecessário produzir inquéritos. A realidade integra também uma temível bomba de relógio para a humanidade, que são as diligências de Obama e da NATO para instalar armas nucleares na Ucrânia, isto é, na fronteira com a Rússia. Quando qualquer coisa de semelhante aconteceu – o dirigente soviético Krustchev procurou instalar mísseis nucleares nas imediações dos Estados Unidos, em Cuba, em 1962 – o mundo esteve a beira de uma guerra entre as duas grandes potências.
Alarguemos um pouco mais o contexto das novas sanções norte-americanas e europeias à Rússia. Foram decididas durante uma das mais eficazes semanas da guerra da Rússia e do exército sírio contra o chamado Estado Islâmico, ou Isis, ou Daesh. Nos últimos sete dias a aviação russa na Síria fez 302 saídas, destruiu 1093 alvos terroristas em províncias estratégicas como Alepo e Hama, um extenso campo de treino de mercenários oriundos principalmente da Turquia e de Estados da antiga União Soviética, duas refinarias de petróleo, três áreas de extracção e dezenas de estações de abastecimento de combustíveis, além de veículos transportando terroristas e armas pesadas. As acções da aviação russa permitiram ao exército sírio reconquistar território e um aeroporto militar. As notícias do mesmo período são omissas quanto a danos provocados aos terroristas pela famosa “coligação militar” norte-americana, europeia e saudita. Porventura a eficácia terá sido zero: há períodos assim…
Em boa verdade, o tempo não chega para tudo: ou se fazem operações anti terroristas ou se organizam laboriosos conclaves sobre sanções a aplicar aos que fazem o favor ao mundo de combater o terrorismo. A famosa “coligação das democracias” deu prioridade às sanções. Ela lá sabe: o combate ao terrorismo pode esperar.
 

sábado, 19 de setembro de 2015

JEREMY CORBYN


 
A eleição de Jeremy Corbyn como dirigente máximo do Partido Trabalhista Britânico tem dado origem a um dos maiores chorrilhos de asneiras, demonstrações de ignorância e manifestações de manipulação propagandística nos tempos que correm. Ainda o homem não fora eleito para o cargo e já a sua simples candidatura era olhada como uma terrível avalancha de tempestades ameaçando a Europa, a qual, como se sabe, vive na paz dos deuses.
Vamos então a factos para que se entenda o significado profundo desta eleição, que mais não é do que uma expressão do sentimento profundo de revolta dos trabalhadores britânicos contra a austeridade em geral e contra a apropriação de um dos seus partidos, o Partido Trabalhista, por uma casta reacionária, direitista e neoliberal que o “thatcherizou” pelas mãos de um criminoso de guerra chamado Tony Blair.
O cujo, Tony Blair, patrocinou mil e uma conspirações e chantagens nas semanas que antecederam a eleição do novo presidente trabalhista para que Corbyn fosse apagado da lista dos candidatos, ou então derrotado. A democracia funcionou e Blair saiu escandalosamente derrotado.
A democracia funcionou, é verdade, mas não através do artifício das “eleições primárias”, cópia do modelo norte-americano que subverte o sistema de partidos através de mecanismos confusionistas criados para acabar de vez com a ideologia na política. Corbyn foi eleito sim, mas pelos militantes do partido e dos sindicados que lhe são afectos – nos termos da organização laboral britânica. Nas eleições trabalhistas, ao contrário do que se tornou moda através da Europa neoliberal, não há participação dos chamados “simpatizantes”, artimanha que dá origem aos desvios democráticos proporcionados pelo sistema de “primárias”.
Quase 60% dos trabalhistas britânicos escolheram então Corbyn, apostando num programa que nada tem de “radical”, como gritam os nossos analistas e politólogos de turno, e representa apenas um regresso à tradição ideológica trabalhista, permitindo a dissociação do partido da amálgama neoliberal que governa a Europa numa fusão inextrincável entre direitistas e socialistas/sociais-democratas.  
Se os tais analistas, comentadores, politólogos e papagaios soubessem um bocadinho de História da Europa e não se limitassem ao preguiçoso copy/paste dos escritos e dissertações dos tecnocratas que ainda lêem apenas a bíblia dos rapazes de Chicago, saberiam que Corbyn não é “radical”, nem um comunista disfarçado, nem um revolucionário, quiçá um terrorista ou bombista. O programa de Corbyn defende apenas a restauração de uma ordem mais democrática, laboral e social que existia no Reino Unido e outros países europeus antes de ser arrasada por Margareth Thacher e respectivos sequazes continentais, entre os quais avultou o já citado Tony Blair.
Corbyn é solidário com a Palestina e os palestinianos como defende uma Irlanda unida, é contra as armas nucleares e a guerra, esteve ao lado dos injustiçados seis de Birminghan, advoga o regresso de serviços básicos – transportes, correios, por exemplo – ao sector público, responsabiliza a NATO pela catástrofe na Ucrânia, é contra a austeridade, propõe impostos progressivos de acordo com os níveis de rendimentos, advoga o fim dos subsídios estatais ao sector privado. Coisas políticas que os papagaios – entre ignorância e maus instintos – apregoam como que saídas de horrendas catacumbas medievais.
Nada disto é radical, muito menos anacrónico; Corbyn não está “fora de moda” por não ser igual a Hollande e aos sociais-democratas amestrados pela senhora Merkel, nem se guia por coisas que já não se usam. Pelo contrário, o seu aparecimento, a par da experiência prometida pelo Syriza e pelo mesmo Syriza aniquilada, representam sinais de que o prazo de validade do neoliberalismo, estagnado no rumo único da austeridade, está a chegar ao fim.
Daí a falta de tino das reacções à eleição do líder trabalhista britânico, que já se manifestaram também a propósito do Syriza e ameaçam o Podemos e outras indignações – ainda que todos estes casos sejam diferentes entre si. Daí também alguns silêncios comprometidos dos que deveriam ser “compagnons de route” de Corbyn, e com ele solidários, insensíveis aos insultos e às deturpações programáticas de que o novo dirigente trabalhista é vítima. Provavelmente porque para esses “compagnons de route” os interesses da batota financeira se sobreponham à solidariedade, e antes Blair que tal sorte.
 

 

domingo, 9 de agosto de 2015

A TRAIÇÃO DOS VOTOS PIEDOSOS


 
O primeiro ministro do Japão, o nacionalista Shinzo Abe, e o secretário-geral da ONU, um sul-coreano ao serviço dos Estados Unidos da América, protagonizaram os votos piedosos e de circunstância proferidos a propósito da chacina cometida há 70 anos pela Administração norte-americana contra a população civil da cidade de Nagasaki.
No memorial que recorda e homenageia as vítimas do maior atentado terrorista da História, a seguir ao praticado três dias antes contra Hiroxima, Shinzo Abe e Ban Ki-moon declararam-se favoráveis a um mundo livre de armas nucleares e o segundo manifestou até o desejo de que a bomba de Nagasaki tenha sido a última usada contra seres humanos.
Piedosas palavras estas. Piedosas e traiçoeiras, porque ambos os dirigentes não tiveram pejo em usar o luto e a emoção do lugar e do momento ao serviço de uma doentia manobra de propaganda. No exercício das suas importantes funções, Shinzo Abe e Ban Ki-moon não apenas agem em sintonia com os interesses que recorrem à ameaça terrorista nuclear como sabem que, pelo caminho seguido por eles próprios, jamais haverá um mundo livre da ameaça atómica. Os dois dirigentes mentiram e traíram num momento que lhes deveria ter merecido o maior dos respeitos porque entre os seus contemporâneos e compatriotas, no caso do chefe do governo nipónico, ainda há quem morra hoje por causa da bomba de Nagasaki, mesmo que tenha nascido depois do dia do horror de 9 de Agosto de 1945.
O que Shinzo Abe e Ban Ki-moon fizeram é revoltante, emerge da mais repugnante insensibilidade e entra pelos caminhos da propaganda terrorista.
Shinzo Abe representa o regresso do Japão à mentalidade nacionalista imperial, num quadro de rearmamento das suas tropas e de retorno às tentações intervencionistas. O Japão de Shinzo Abe é um peão da estratégia de “pivot asiático” engendrada pela Administração Obama para deslocalizar o núcleo duro do posicionamento militar imperial para o interior da Ásia. Ou seja, o Japão afirma-se como o mais importante aliado regional dos Estados Unidos da América na sua estratégia de confrontação assumida com a China, a Rússia e os demais países que decidam por si próprios e não através das ordens emanadas de Washington.
Como Shinzo Abe sabe muito bem, o arsenal assassino de armas nucleares faz parte dos instrumentos de terror manipulados no âmbito da estratégia de “pivot asiático”, como de qualquer outra estratégia imperial. Com a diferença de que, por esta via, as cidades japonesas podem considerar-se livres da ameaça nuclear directa – mas não dos seus ricochetes.
Shinzo Abe é um militarista, um frequentador atento, venerador e obrigado das cimeiras do G7, um dos chapéus usados pelo imperialismo, e sabe muito bem que as doutrinas expansionistas assentam na intimidação terrorista na qual se inserem as armas nucleares.
Quanto a Ban Ki-moon, não será preciso perder mais tempo e espaço com este ex-chefe do regime da Coreia do Sul, um zeloso servente de Washington levado para o topo de uma Organização das Nações Unidas tornada uma caricatura de si mesma e das intenções com que foi criada. Olhe-se para o estado em que se encontra o Médio Oriente, onde as responsabilidades da ONU pelo caos existente são gritantes, tanto por intervenção como por omissão.
As faces compungidas e as palavras solenes de Shinzo Abe e Ban Ki-moon no memorial às vítimas do terrorismo nuclear de Nagasaki são uma traição a quantos sofreram e sofrem ainda os seus efeitos; e são um exemplo da propaganda hipócrita que deve considerar-se ainda mais terrorista quando, como é o caso, recorre a votos piedosos. É feio, muito feio mesmo manipular a sensibilidade e o desgosto das pessoas para que, ao-fim-e-ao-cabo, continuem a viver no meio do medo e do sofrimento.
 

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

TRINITY, LITTLE BOY, FAT MAN…


 
 
Trinity, Little Boy, Fat Man… Ou Trindade, Rapazinho, Homem Gordo, três designações inócuas e inocentes para um dos maiores crimes contra a humanidade, por certo o maior crime de guerra que continua impune.
Três nomes inócuos e inocentes para três bombas nucleares paridas pelo chamado Projecto Manhattan, em segredo máximo e através de financiamentos clandestinos inspirados em práticas mafiosas de lavagem de dinheiro. Dois mil milhões de dólares foi quanto custou a produção dos três primeiros protótipos de bombas atómicas construídas pelos Estados Unidos, duas das quais foram testadas, por exigência do presidente Truman, nas cidades japonesas de Hiroxima e Nakasaki, tragédias sobre as quais se completam agora 70 anos de luto universal.
A Alemanha nazi rendera-se; a Itália fascista também; o Japão nacionalista estava de rastos, negociando nos bastidores, com as potências vencedoras, a sua rendição. De acordo com versões coincidentes de numerosos historiadores, Tóquio pretendia somente salvaguardar a figura do imperador, circunstância com significado interno mas sem qualquer repercussão externa ou de índole militar.
O uso da bomba de urânio sobre Hiroxima, em 6 de Agosto de 1945, e da bomba de plutónio sobre Nakasaki, em 9 de Agosto, não era necessário para ganhar uma guerra cujo desfecho estava decidido. O sacrifício de centenas de milhares de japoneses inocentes foi o investimento feito pelo complexo militar-industrial norte-americano para mostrar quem ganhara efectivamente a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, quem iria ganhar as guerras seguintes, isto é, quem iria reinar imperialmente sobre o mundo. Essas eram então as circunstâncias.
Por razões estratégicas que se relacionam com os grandes avanços das investigações científicas nos processos da cisão nuclear e das reacções em cadeia, a corrida à bomba atómica mobilizou a Alemanha e os aliados nos últimos anos da guerra. Os Estados Unidos, que entraram tardiamente na guerra, estavam na frente graças aos trabalhos de cientistas de várias nacionalidades, entre os quais se destacou Julius Oppenheimer, de ascendência alemã, a quem Roosevelt entregou a chefia do Projecto Manhattan, nome de código para a produção da bomba atómica em instalações secretas construídas em Los Alamos, no Novo México. Los Alamos não existia, a não ser como uma posta-restante: “1663 Santa Fe”.
Do projecto resultaram três protótipos. Um deles, Trinity, foi testado em segredo no deserto, perto de Alamogordo, em 16 de Julho de 1945. A guerra na Europa terminara havia dois meses e caminhava para o fim na Ásia. Pode afirmar-se, sem erro, que apesar dos avanços científicos a bomba atómica chegou atrasada à Guerra Mundial. Truman sucedera a Roosevelt por morte deste e a sua administração desdobrou-se em pretextos para testar os dois outros protótipos ainda em cenário real, como sinal de superioridade global. Oppenheimer calculara que o lançamento de uma bomba atómica sobre uma cidade poderia provocar cerca de 20 mil mortos. Vaticínios conservadores, dir-se-ia hoje. Em Hiroxima, sob o impacto de Little Boy, morreram mais de cem mil pessoas nos dois primeiros dias e ainda há seres humanos que morrem hoje devido ao efeito continuado das radiações, incluindo pessoas que herdaram de pais e avós as degenerações genéticas por elas provocadas. Em Nakasaki, sob o impacto de Fat Man, perderam a vida entre 60 mil a 80 mil pessoas nos primeiros dias. A primeira foi lançada em 6 de Agosto: deveria ter sido em 1 de Agosto, mas um tufão alterou os planos; a segunda abateu-se sobre Nagasaki, mas deveria ter sido sobre Kokura: tal não aconteceu devido ao facto de esta cidade se encontrar sob céu nublado. Pelo carácter fortuito das decisões percebe-se que não foram tomadas em função de necessidades objectivas de guerra, mas sim pelo desejo arrogante de intimidar tanto inimigos como aliados.
Os segredos de Los Alamos não tardaram a tornar-se de Polichinelo. Hoje há 17 mil ogivas nucleares no mundo, segundo organizações de físicos norte-americanos, desconhecendo-se se esse número inclui ou não as de países, como Israel, que escondem as suas capacidades. Todas elas multiplicam exponencialmente o potencial de morte das três estreantes. O sacrifício das populações de Hiroxima e Nagasaki foi em vão. Um conflito nuclear na actualidade não deixará ninguém em condições de registar quem o ganhou, porque não terá vencedores.
 
 
 

quinta-feira, 25 de junho de 2015

TSUNAMI SILENCIOSO NO MÉDIO ORIENTE



A notícia passou quase despercebida, mas ainda assim causou algumas dúvidas e perplexidades: a Arábia Saudita e a Rússia, arqui-inimigos de longa data, assinaram um acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos. Em termos mais prosaicos: a petromonarquia comprou 16 centrais nucleares a Moscovo para entrarem em funcionamento dentro de meia dúzia de anos.
Isto é, o maior exportador mundial de petróleo decidiu poupar nos combustíveis fósseis, aproveita a tecnologia associada para desenvolver projectos de dessalinização de águas e elegeu como parceira uma empresa tutelada pelo governo do infiel Vladimir Putin.
É assim, tal e qual. Mas a notícia não passa de um pequeno abalo, uma simples réplica do enorme e silencioso tsunami que por estes dias atinge o Médio Oriente.
O epicentro do magno sismo, como já se focou nestas linhas, é a próxima assinatura de um acordo (que são pelo menos dois) entre outros arqui-inimigos, os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão. Para consumo geral, um dos acordos é o chamado 5+1, que teoricamente acaba de vez com o mito das nunca existentes ambições iranianas ao nuclear militar; outro é bilateral e traduz uma espécie de partilha de zonas de influência norte-americanas e iranianas em amplos espaços do Médio Oriente, com repercussões colaterais, que podem ou não ser danosas, consoante a perspectiva.
Rezam as fugas de bastidores que os Estados Unidos reconhecerão tacitamente as zonas de influência do Irão em dois terços do Iraque, na Síria, em grande parte do Líbano; em contrapartida, Teerão conforma-se em não “exportar” a revolução islâmica.
Os Estados Unidos e o Irão vêm negociando secretamente este acordo em paralelo com as conversações internacionais realizadas na Suíça. O que praticamente não se sabia até aqui é que, também em paralelo, Israel e a Arábia Saudita já realizaram pelo menos cinco sessões de negociações secretas, a primeira das quais na Índia. Pode dizer-se até, sempre segundo as fugas de bastidores, que as negociações já deram frutos, uma vez que pilotos israelitas comandam bombardeiros sauditas nos massacres cometidos no Iémen, prenúncio de uma cooperação muito mais profunda em perspectiva entre o Estado fundamentalista hebraico e o Estado fundamentalista islâmico. Ao que se sabe, o quartel-general israelita para esta operação foi instalado na Somalilândia, um Estado fantasma.
Todos estes abalos são frutos do entendimento-base entre os Estados Unidos e o Irão, a assinar muito em breve. O acordo prevê que a chamada “força árabe comum”, sob a bandeira da Liga Árabe, tecnicamente encabeçada pela Arábia Saudita, tenha comando operacional israelita. A cooperação israelo-saudita não ficará por aqui: os dois países irão explorar em comum o petróleo do terrível deserto de Rub Al Khali e também as reservas do Ogaden, estas sob controlo etíope, outro satélite norte-americano. Israel será responsável por garantir a “estabilidade” no porto sul-iemenita de Aden, um dos terminais de uma projectada ponte que ligará o Iémen ao Djibuti. Iémen este que fará parte de uma “federação” formada em torno da Arábia Saudita e que incluirá provavelmente Omã e os Emirados Árabes Unidos.
A Arábia Saudita dará o seu aval à criação do Estado do Curdistão sob controlo israelita, tal como vem sendo planeado, sendo que os patronos da estratégia tentarão estendê-lo do Iraque aos “Curdistões” turco e iraniano. A ser assim, confirma-se que a Turquia de Erdogan está mesmo a cair em desgraça, a braços com as teias terroristas, principalmente as que actuam na Síria, que Riade lhe foi passando aos poucos. Israel aceitará a aplicação dos acordos de Oslo sobre o estatuto final dos territórios palestinianos, que ganharão a independência mas perderão o direito ao retorno dos refugiados pelo qual gerações se sacrificaram.

É assim o tsunami que abala os bastidores diplomáticos do Médio Oriente, sabendo-se que tsunami algum pode ser planeado, muito menos desenhando e redesenhando fronteiras. Dois enormes pontos de interrogação emergem só para se terem em conta situações que não podem apagar-se com uma borracha ou carregando na tecla “delete”: Netanyahu, o novo profeta do Grande Israel, é um feroz inimigo destes arranjos tutelados por prestigiados militares sionistas, pelo que ou se adapta, ou reage, ou se demite levando atrás de si a irada horda de colonos que já foi capaz de liquidar um primeiro-ministro. E o Estado Islâmico? Que fazer com o monstro sustentado por Israel, tolerado por Washington? A Síria, país que teoricamente será um dos beneficiados por este tsunami, vai tratando do assunto; os padrinhos poderão deixá-lo cair, mas tendo em conta o histórico de relações entre criadores e criaturas as perspectivas não são animadoras. A não ser que os sanguinários mercenários se contentem episodicamente com a Líbia, cujas receitas do tráfico clandestino (mas pouco) de petróleo não são de deitar fora. Será?

segunda-feira, 8 de junho de 2015

MENTES DOENTES


O presidente de turno nos Estados Unidos da América pretende instalar mísseis de médio alcance com capacidade nuclear no Reino Unido e, ao mesmo tempo que combina com Angela Merkel a imposição de novas sanções à Rússia, pede ao primeiro-ministro britânico que não permita a saída do seu país da União Europeia.
O imperador falou e deu ordens aos súbditos, que continuam a sê-lo mesmo que, aqui e ali, pretendam disfarçá-lo. O caso da chanceler alemã é flagrante: depois de fingir que tem política própria em relação a Moscovo acaba de explicar que a sua posição sobre o assunto é a norte-americana e fica tudo dito. Mesmo que tenha sido enxovalhada por simples funcionários de Washington a propósito da Ucrânia, mas isso já lá vai, desculpas aceites, tudo se esquece.
Moscovo informa que acompanha “de muito perto” estas movimentações. É natural, todas elas se dirigem, em primeira e última análise, contra a Rússia. Até porque as mentiras em tempos usadas por Washington, segundo as quais a instalação de equipamentos militares “defensivos” na Europa de Leste pretendiam ameaçar o Irão, tornaram-se inúteis. Os Estados Unidos e o regime de Teerão vão assinar um acordo dentro de dias cujo principal objectivo estratégico para o Pentágono é o de ficar com as mãos mais livres no Médio Oriente para poder reforçar o nível das ameaças contra a China e contra a Rússia. É o que está a acontecer sob os nossos olhos.
A instalação de mísseis nucleares de médio alcance no Reino Unido, virados contra a Rússia, fará com que Moscovo responda da mesma maneira, com armas viradas “para cá”. É um regresso ao passado nos episódios de corrida aos armamentos, o retorno a uma guerra fria que, nunca deixando verdadeiramente de existir, se reactiva em cima de um mundo repleto de guerras quentes.
Durante os primeiros anos deste século, Washington ainda deu a sensação de que o terrorismo internacional passaria a fazer as vezes da extinta União Soviética como argumento imperial para cometer ingerências onde lhe interessa, alimentar guerras para escoar stocks de armamentos ultrapassados, para por e tirar governos a seu belo prazer. Esse tempo já lá vai, até porque qualquer cidadão medianamente informado e que pretenda olhar o mundo com olhos de ver conhece as cumplicidades entre os Estados Unidos e o terrorismo internacional.
Tal como a União Soviética de antanho, a Rússia é o inimigo principal do império – em boa verdade a Rússia e os seus potenciais aliados militares, China e Índia. Foi sobre isto que incidiram os recentes encontros do senhor Obama, que passa mais tempo no espaço da União Europeia do que no seu país. E quando ele chega aos países da União Europeia não é para pedir, é para exigir a rogo de quem o fez presidente e como tal o sustenta, o complexo militar, industrial e tecnológico que governa os Estados Unidos e pretende governar o mundo, em “democracia”, claro está.
Por isso Obama veio dizer ao seu confrade Cameron, eleito de fresquinho, que prepare as bases para que nelas sejam instalados os mísseis nucleares norte-americanos e que se deixe de alimentar as dúvidas sobre se o Reino Unido deve ou não continuar na União Europeia. É do interesse dos Estados Unidos que a União Europeia continue inteira, estável e dócil, por isso que se deixe Cameron de falar em referendos sobre a saída ou não, que ainda podem dar mau resultado mesmo que o sistema eleitoral funcione de modo a evitar incómodos, mas nunca se sabe.
Dir-se-á: Cameron foi reeleito agora, porém o mesmo não poderá acontecer com Obama. Pois não – e o que interessa isso? A seguir virá um outro, com um dos dois rótulos regimentais, para fazer a mesma coisa, quem sabe se logo à partida agraciado com um Nobel para que tudo o que ele decida em prol da guerra seja apresentado como denodados esforços pela paz. Estando todos nós reféns destas mentes doentes.



segunda-feira, 1 de junho de 2015

JUNHO ANUNCIA-SE SANGRENTO


 
O mês de Junho anuncia-se sangrento na arena internacional. É um mês decisivo para os senhores da guerra de vários matizes, que tentarão ganhar e definir posições ainda antes da assinatura do acordo dito de prevenção nuclear a assinar no dia 30 entre os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irão sob a batuta do presidente Hassan Rohani.
O acordo, em si mesmo, fecha uma história batoteira que serviu para alimentar sanções e outras medidas de isolamento do Irão, sobretudo para conter a sua influência regional até que o regime de Teerão se “moderou”. Qualquer dirigente norte-americano, mesmo os que não o admitem, sabe que o Irão não tinha qualquer projecto nuclear militar na manga, o seu objectivo estratégico através da energia atómica é meramente civil. O regime iraniano pretende gerir as suas riquezas petrolíferas da maneira que melhor entende, de forma a não depender energeticamente apenas delas. É importante recordar, a propósito da enorme mentira mundial que foi a possível “bomba atómica” do Irão, o decreto religioso emitido em 1988 pelo líder histórico da revolução, o ayatollah Khomeiny, proclamando a renúncia da República Islâmica à utilização da energia atómica com fins militares.
O que significa então o acordo a assinar em 30 de Junho, negociado em segredo nos últimos dois anos entre Washington e Teerão, em paralelo e muitas vezes à revelia das chamadas conversações 5+1 na Suíça? Significa que Estados Unidos e Israel, por um lado, e o Irão, pelo outro, vão partilhar esferas de influência no Médio Oriente estabelecendo, de certa maneira, um novo mapa da região. Escreveu-se Israel, mas sabe-se que o primeiro-ministro Netanyahu está contra este arranjo, uma vez que ele traduz, se funcionar, uma possível rejeição norte-americana do projecto de Grande Israel. Este ponto levanta uma série de interrogações sobre o futuro do governo de Netanyahu recém-constituído, ao qual a administração norte-americana não parece agora disposta a facilitar a vida.
O acordo entre Washington e Teerão formaliza a rejeição, pelo Irão, do uso da energia atómica para fins militares, a renúncia à “exportação da revolução islâmica” e, em contrapartida, determina o levantamento das sanções internacionais contra a República Islâmica. O Irão conservará as suas esferas de influência na Síria, no Líbano, no Iraque e a questão palestiniana deverá regressar aos objectivos de Oslo; os Estados Unidos e Israel reinarão sobre uma grande aliança no Golfo acrescida do Egipto, que assentará num eixo militar entre Israel e a Arábia Saudita, cuja existência é cada vez mais nítida. A administração Obama não se compromete, porém, a garantir preto no branco a sobrevivência das actuais monarquias corruptas, o que se percebeu através do meio fracasso da recente cimeira das ditaduras realizada em Washington.
Os Estados Unidos pretendem, através dos arranjos com o Irão, estabilizar a situação no Médio Oriente de maneira a transferirem para a Ásia grande parte dos efectivos afectados actualmente à região. A estratégica asiática, de maneira a fazer frente à China e à Rússia, é agora o principal objectivo imperial e por isso está a nascer no sultanato do Brunei a maior base militar norte-americana e mundial.
Na perspectiva do acordo a assinar no dia 30 desenvolvem-se agora intensas operações militares buscando a conquista de posições que, muito hipoteticamente, ficariam congeladas nesse dia. Daí o recrudescimento da ofensiva israelita-americana-europeia em território sírio, de que é exemplo a conquista em dois dias, pelos terroristas do Estado Islâmico, de duas das principais cidades da Síria e do Iraque, Palmyra e Ramadi. Salta aos olhos que o Estado Islâmico faz parte da estratégia norte-americana e israelita para a fase que se segue à assinatura do acordo. Alguém acredita que um grupo terrorista alegadamente sujeito, há vários meses, a uma campanha de bombardeamentos aéreos norte-americanos mantenha vitalidade para lançar uma bem sucedida ofensiva, e logo em duas frentes? A guerra ocidental contra o Estado Islâmico é falsa porque este grupo, sustentado logisticamente também por Israel, faz parte dos arranjos territoriais em curso.
A guerra pela conquista de posições antes de dia 30 vai marcar todo o mês de Junho. Daí falar-se também, cada vez mais insistentemente, na possível criação de um Estado Curdo no Curdistão iraquiano patrocinado pelos Estados Unidos, Israel, e tolerado pelo Irão.
Os arranjos existem no papel, o que não quer dizer que funcionem. O mais provável é que não funcionem, como demonstra toda a história do Médio Oriente desde os acordos entre o Reino Unido e a França (Sykes-Picot) a seguir à Primeira Guerra Mundial. As variáveis são mais que muitas, a começar pelo facto de a administração Obama estar em fim de carreira e em Israel existir, embora mais frágil que anteriormente, um governo que fará tudo para minar o entendimento entre Washington e Terrão. Acresce que a proliferação de grupos terroristas islâmicos e o estado de degradação a que chegaram as situações na Síria, no Iraque, no Iémen e a questão palestiniana não se compadecem com geometrias diplomáticas, mesmo que parecessem realistas e aplicáveis – o que nem sequer é o caso. Não é certo, sequer, que depois de assinado o acordo a propaganda global silencie as mentiras sobre a opção nuclear militar iraniana.