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sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O MILAGRE OU A VIDA


 
Todos os anos o ano começa assim, com o dia internacional da paz: muita paz, muito amor, muita esperança, este ano houve até quem desejasse menos terrorismo. Os governantes e até os que os governam fazem discursos bonitos, prometem que agora é que vai ser, mais justiça, mais igualdade, mais trabalho pela paz, enfim uma vida nova e redentora.
Amanhã, como sabemos, tudo está na mesma, provavelmente um pouco pior. As mesmas guerras e mais algumas, a via-sacra dos refugiados a fugir do martírio e a esbarrar nas barreiras e cercas que os esmagam, direitos sociais e humanos dos cidadãos e das famílias em degradação contínua, as esperanças concretizadas representando uma ínfima parcela das malfeitorias cometidas.
O Papa fala, apela, e as suas mensagens entram por um ouvido e saem pelo outro não apenas dos malvados dos senhores da guerra, sabendo nós muito bem que estes não são apenas os bandidos armados que combatem pelas suas quintas, pelas suas regiões, pelo leilão dos bens que a natureza colocou na sua zona de influência, mas são-no também, e com acrescidas responsabilidades, os generais e chefes políticos da NATO e outras natos, que hipocritamente fazem da invocação de defender a arte de matar e a destreza de conquistar.
O ano novo começou igualzinho ao ano velho porque por muito bem-intencionados que todos sejamos, incluindo, nestas horas, todos os senhores da guerra, não é fazendo votos a cada uma de uma dúzia de passas engolidas, mudando de calendário e de agenda que o mundo se despovoa da cáfila de malfeitores que o destroem ora governando-o, ora apropriando-se em privado dos bens que são de todos, ora organizando as pessoas em exércitos e rebanhos ao serviço de interesses que não dizem respeito a cada individualidade que os compõe, ora poluindo-o enquanto asseguram que o irão despoluir com resultados que poderão talvez ser observados a partir de 2050, quem viver verá.
Acreditar que cada novo ano é capaz de trazer a paz é o mesmo que passar a vida inteira à espera de um milagre sabendo que milagres não existem, a não ser os que forem obra de cada um de nós. E se for juntando forças, ideias e convicções, tanto melhor. Isso não acontecerá num dia em que mudar o ano ou num dia internacional de qualquer coisa, mas sim quando finalmente existirem as forças e condições para nos vermos livres dos famosos donos disto tudo. Impossível? Impossíveis são os milagres: isto podemos tentar. É a escolha entre o milagre e a vida, entre a espera inútil e a acção capaz de produzir efeitos, até quando menos se espera.  

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

BURLOCRACIA


 

A Wolkswagen e, ao que parece, a BMW, a Audi, a Seat, oficinas um pouco por todo o mundo, em Portugal também, e mais o que adiante talvez se venha a entrever, aplicam sistemas para esconder as suas operações poluentes; o que não é mais do que uma imitação do comportamento dos governos das grandes potências mundiais que todos os anos, sob o chapéu da ONU, fingem discutir os meios de salvar o planeta para que este continue a degradar-se irremediavelmente; grandes impérios da construção civil, como a Vinci e a Bouygues, estão mais uma vez a contas com processos de corrupção e atentados contra o ambiente, desta feita na ilha de Reunião, uma colónia de França; a NATO e os gigantes da produção de armamentos organizam guerras e manobras, fazem e desfazem governos para que o negócio da morte continue a reluzir; em Portugal sabe-se que as polícias secretas transmitem informações classificadas a empresas privadas; a procissão das tramas e tramóias em torno da figura de um ex-primeiro ministro ainda nem saíram do adro da pouca-vergonha; o primeiro-ministro em exercício engasga-se e mente quando confrontado, por simples eleitores, com os resultados das suas malfeitorias e falsifica números com a destreza de um mágico fracassado.
São apenas alguns exemplos, ao correr do teclado. Chegam para demonstrar, senhoras e senhores, que não vivemos em democracia, mas sim em burlocracia. Isto é, somos governados, em regime nacional e global, por um bando de burlões. Quando escrevo burlões não está em causa somente o comportamento governamental mas também, e sobretudo, o dos verdadeiros donos disto tudo, as wolkswagens e bmws, as vincis e companhia que mandam nos políticos e são, nem mais nem menos, que os senhores do regime.
A Vinci, por exemplo, a quem entregaram os aeroportos e a navegação aérea em Portugal, numa rifa risonha de compadres qualificada como “grande negócio”, é a mesma entidade que assalta os transeuntes das autoestradas do centro e sul de França com portagens escabrosas, também a mesma entidade que passa e embolsa as multas de trânsito nas ruas de Bruxelas, substituindo-se à administração pública. Funciona como um Estado multinacional ganancioso viciado no lucro, ocupando o lugar de Estados que deveriam pertencer aos cidadãos, consumando aquele que é o sonho de qualquer encartado capitalista neoliberal: a privatização absoluta do Estado.
Se dedicarmos algumas linhas a analisar o comportamento das entidades citadas, e também das que estão subentendidas através da certeza de que tais práticas não são excepções, mas a regra, concluiremos, sem surpresa, que tal é a cultura vigente, a mentalidade regimental, a sociedade em que vivemos. Tão enraizada e sedimentada que até o Papa, imagine-se, o Papa, fica a pregar aos peixinhos.
Ao instalar o kit fraudulento que mente sobre as emissões tóxicas para a atmosfera e os pulmões dos indefesos cidadãos, a Wolkswagen candidata-se às mais gratificantes medalhas do empreendedorismo, da competitividade, da modernidade e da argúcia concorrencial, apenas ao alcance de quem serve como deve ser o mercado livre. A burla e o mercado livre são a imagem da simbiose perfeita; e as entidades que mais se aproximarem desta fusão mais perto estarão da empresa ideal, do governo de excelência.
Transmitir informações reservadas, obtidas sabe-se lá por que métodos, a empresas privadas, ou montar sistemas que disfarçam o envenenamento do ambiente são atitudes que animam a verdadeira concorrência, que asseguram posições de topo nos rankings da produtividade, que garantem as mais relevantes cotas de mercado, que recompensam os inconformados devotos do empreendedorismo, enfim, são as imagens reluzentes da realidade imposta aos cidadãos, que de vez em quando votam para que haja um simulacro de democracia e tudo continue na mesma… Até ao dia das surpresas, façamos por isso. Entretanto os cidadãos, bem comportados, fazem separações de lixos, andam de bicicleta para poupar o ambiente e vomitam austeridade enquanto os donos disto tudo, com uma dimensão que nos faz parecer míseras bactérias perante cruéis dinossauros, sujam por atacado e a seu belo prazer numa guerra pela nobre coroa do ladrão mais apto, mais ganancioso e especulador, merecedor das mordomias e vénias do regime.