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quinta-feira, 22 de outubro de 2015

UMA PORTA QUE ABRIL ABRIU




Apesar dos exorcistas, dos falsificadores da História e dos eternos salazarentos ora travestidos de democratas com via única, a verdade é que a revolução de 25 de Abril de 1974 abriu muitas portas em Portugal, e até no mundo. A porta da democracia, a porta da liberdade, a porta do desenvolvimento de um povo antes submetido às amarguras da escravidão, a porta da descolonização. Foram as portas que Abril abriu, cantadas pelo imortal José Carlos Ary dos Santos - poeta cuja obra, o talento e o poder das palavras o regime tem soterrado no situacionismo da cultura de bordel.
Não sei que frutos poderão dar as diligências em curso para encontrar um governo capaz de aplicar uma política alternativa à chacina social, ao holocausto da democracia instaurados pelos partidos herdeiros do passado autoritário, aggiornate pela ditadura financeira da União Europeia. Admito, porém, que o Ary esteja contente, como satisfeitos deverão sentir-se os democratas autênticos, porque vivemos um exercício de democracia verdadeiramente pluralista através da procura de uma convergência de interesses que possa corresponder aos anseios da esmagadora maioria dos portugueses, mesmo de muitos que, embalados pelas palavras venenosas da ex-maioria, se deixaram burlar mais uma vez.
O exercício da democracia foi uma das portas que Abril abriu e que uma fileira de políticos submetidos a ordens forasteiras foram encerrando paulatinamente, para dar espaço a uma forma tumoral de governação, uma degenerescência da democracia original. Chamam-lhe “arco da governação”, “bloco central”, “compromisso de centro-direita” e outras aleivosias atrás das quais se disfarça um conceito singular: a política de direita exercida como democracia única, uma forma de autoritarismo talvez ainda benévola, mas susceptível de endurecer ao compasso das resistências à arbitrariedade da casta dominante.
Já percebemos que a simples reabertura da porta da democracia provocou uma tempestade no sistema instalado. O que se diz, escreve, mente e atemoriza sobre as negociações e eventual entendimento entre o PS, o Bloco de Esquerda, o PCP, os Verdes e o PAN, que somam uma inquestionável maioria absoluta de 123 deputados numa Assembleia de 230, deveria passar a figurar em todos os tratados de manipulação, má-fé e até ignorância política. Desde ser “ilegal” porque “deverá governar quem teve mais votos” e menos deputados, até à entronização governamental de uma minoria em nome da estabilidade e ao argumento de que o país estaria a “desafiar” a União Europeia, o terrorismo ideológico tomou conta do povoado. Antes a troika que tal sorte, escrevem uns; “o gonçalvismo está de volta”, gritam outros, alguns dos quais sem fazerem a mínima ideia do que falam; o “arco da governação” é a “solução natural”, pregam em uníssono o cardeal de turno e o ex-ministro das Finanças que chamou a troika e ex-patrão da Bolsa, dando de barato que o Estado é laico e os interesses da grande maioria dos portuguesas e os do casino dos especuladores são divergentes.
No meio dos lugares comuns da propaganda mais boçal vão surgindo as mensagens elaboradas, logo ainda mais sinistras, daquelas que bebem do fino de Bilderberg, de Washington e Bruxelas, porém muito progressistas, prafrentex e “independentes”. Pede-se a mudança do sistema eleitoral para que a Assembleia da República esteja aberta apenas ao “arco da governação”; alvitram-se mais poderes para o Chefe do Estado, de modo a que este possa corrigir, a qualquer momento, desvios preocupantes para a ditadura do dinheiro; invocam-se os “compromissos internacionais” como troncos a que cada cidadão português seja amarrado para salvaguarda dos interesses dos que piratearam a democracia.
Negociar um governo alternativo, porém, é a essência da democracia, é o respeito pela vontade maioritária dos portugueses. Dos portugueses que não aceitam a austeridade, que estão fartos que lhes confisquem os salários, subsídios e pensões, que estão saturados de pagar fortunas para que os banqueiros possam continuar a esbanjar e a atafulhar paraísos fiscais. Dos portugueses que exigem direitos associados ao trabalho, que desejam horários laborais compatíveis com a cidadania e as vidas familiares, que pretendem o reforço dos investimentos - e não a penúria crescente - na saúde, na educação, na cultura, nas pescas, na agricultura, na restauração da economia. Negociar um governo alternativo é estancar a sangria das famílias e dos cidadãos vítimas da emigração; é deixar de ser carne para canhão dos agiotas que fazem a guerra aos povos manipulando as dívidas soberanas com os cordelinhos viciados de Bruxelas.
É difícil reabrir esta porta de Abril, talvez a mais essencial de todas elas? Mais duro é viver atascados no pântano social que nos criaram.
 

 

 

domingo, 27 de setembro de 2015

TRAIÇÕES CONTRA CHARLIE HEBDO


 

Todos temos muito viva na memória a tragédia do atentado contra o semanário satírico francês Charlie Hebdo, a emoção internacional que provocou, os milhões que se declararam ser também Charlie Hebdo e também alguns episódios bizarros, como o facto de os dirigentes mundiais, entre eles o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, terem formado uma cabeça clandestina de manifestação em torno de François Hollande numa rua parisiense fechada e afastada do epicentro da manifestação de solidariedade com as vítimas (foto).
Também houve os que desconfiaram, desde o início, das explicações oficiais do atentado, revelando até que o assassino detido, Amedi Coulibaly, era seguido desde 2009 pelos serviços secretos franceses e conseguiu, “malgré tout”, praticar o crime. Sobre os incrédulos recaiu imediatamente a chancela da “teoria da conspiração”.
Pois esses incrédulos desde a primeira hora continuam à espera de uma clarificação das ocorrências, e têm razões para manter as reservas sobre as explicações oficiais, desconfianças agora acrescidas.
Desconfianças acrescidas porque o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, uma das mais tenebrosas figuras da Administração Hollande dita “socialista”, impôs o “segredo de Defesa” para que os juízes de Lille não possam investigar as relações entre o atentado e o fornecedor das armas com que foi praticado, um indivíduo de nome Claude Hermant, antigo membro do “serviço de ordem” dos fascistas da Frente Nacional, nazi convicto e, acima de tudo, um credenciado informador da Polícia Nacional francesa. Do mesmo modo que os juízes de Paris, muito provavelmente por ordens do mesmo Cazeneuve, não deram seguimento aos pedidos de informação da Europol, a polícia europeia, sobre as ligações entre Coulabaly, o terrorista, e Hermant, o importador e fornecedor das armas.
Segundo os juízes de Paris, as investigações sobre o atentado contra o Charlie Hebdo e os negócios de tráfico de armas praticados por Claude Hermant “são estanques”, e como tal deverão continuar. Assim foi explicado aos juízes de Lille para que não apurem o evidente envolvimento do informador da polícia Claude Hermant no atentado contra o Charlie Hebdo, em nome do “segredo de Defesa” imposto pela Administração Hollande através de Bernard Cazeneuve.
Os factos que vieram a público, no entanto, são mesmo relevantes. A Polícia Nacional confirmou que Claude Hermant é, de facto e há longo tempo, um informador da corporação. Hermant, por seu lado, é o proprietário da Seth Outdoor, empresa de tráfico de armas e de treino de banditismo sob a cobertura de actividades de paintball. As duas espingardas de assalto Kalachnikov e as quatro pistolas semi-automáticas Tokarev usadas no Charlie Hebdo, compradas pela Seth Outdoor a fornecedores eslovacos, foram por esta empresa encaminhadas para Amedy Coulabaly e respectivos comparsas. Esta prova foi considerada suficiente pelos juízes de Lille para investigarem as ligações entre o informador da polícia e os terroristas, mas então funcionou o travão de Cazeneuve através do “segredo de Defesa” e da “estanquicidade” virtual das duas pistas.
O que tem a Administração Hollande a esconder através do “segredo de Defesa”? Receará que as informações surgidas logo a seguir ao atentado sobre o envolvimento dos serviços secretos franceses se tornem evidentes?
Por este caminho jamais haverá uma explicação credível para o que aconteceu no Charlie Hebdo em 7 de Janeiro de 2015. Jamais será respeitada a memória das vítimas desta chacina terrorista. Todos quantos foram e não foram Charlie Hebdo nessas horas de emoção e repulsa continuarão a ser enganados pela propaganda oficial e pretextos avulsos, entre os quais o “segredo de Defesa”. As provas reais serão chutadas para os subterrâneos das teorias da conspiração; as mentiras governamentais tornar-se-ão verdades oficiais. O terrorismo, como se percebe também neste episódio, tem muitas caras.
 

 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O ARCO DOS TRAPACEIROS


 
A última tendência de campanha dos partidos do arco da governação, certamente ditada pelos fumegantes brain storms produzidos por reputados técnicos de marketing alugados temporariamente para o efeito, é a de evitar fazer promessas aos eleitores. Para tal estratégia não seria preciso recorrer a renomados profissionais da manipulação publicitária, qualquer um percebe que os eleitores estão fartinhos de promessas, sabendo que invariavelmente vão desembocar no território da mentira.
Pois agora não há promessas, e até se promete não fazer promessas como suprassumo da transparência e da franqueza perante os donos do voto. A moda agora é números, os meus números para lá, os teus números para cá, os meus números são melhores e mais fiáveis que os teus, nada disso, os melhores e mais realistas são os meus. Números esses, os meus e os teus, produzidos todos pelos mesmos tecnocratas autores dos programas económicos do arco, devendo apenas discutir-se se os meus são mais amigos do mercado que os teus ou vice-versa, sendo certo que são todos muito neoliberais, nem de outra maneira poderia ser porque depois como se iriam explicar os resultados aos draghis, merkels, djesselboems, hollandes, camerons e obamas desta vida.
Enquanto se esgrimem números, os candidatos-governantes e governantes-candidatos do arco falam em pessoas. Tem de ser: são pessoas que votam, por uma vez de quatro em quatro anos também existem pessoas além dos centros de batota financeira e das máquinas de transformar ossos e sangue humanos em lucros. Para isso todos eles têm soluções, combinam números com pessoas, conseguem rimar famílias com boas intensões no versejar monocórdico e sem alma gritado em feiras e comícios de arregimentados – nisto (e noutras coisas) o fantasma salazarento não se faz velho.
Pois bem, não façam promessas para não serem apanhados em mentiras, a estratégia está queimada, qualquer papalvo a denuncia - sentenciaram os técnicos de marketing. Há coisas, porém, que já nem o mais pintado dos marketeers consegue disfarçar: a imagem de mentiroso do primeiro-ministro em exercício. Dela já não se livra; quem o escolher é porque gosta de ser enganado, uma escolha tão legítima como qualquer outra. O homem é mentiroso compulsivo, vive disso e a aldrabice congénita acompanhá-lo-á até à tumba.
Não julguem que é o único do arco da governação. Não, não estou a pensar no dr. Portas, manipulador e aldrabão com um talento que faz do seu chefe um mentiroso reles, tipo bufo de escola.
Falo do dr. Costa, correndo o país de lés-a-lés não fazendo promessas mas levando uma grande mentira na bagagem, embrulhada no papel pardacento de um dos mais gritados dos seus números: o de que ao fim de um pretendido consulado de quatro anos sob a sua regência a dívida portuguesa cairá dos impagáveis 130% do PIB para outros impagáveis 117% - sem mencionar uma hipotética renegociação, imagine-se. Deixo vénias ao blogue O País do Burro por ter alertado para a enormidade da mentira do dr. Costa através de cálculos que pessoalmente confirmei com algumas continhas de quarta classe, tirando as respectivas provas dos nove. Para que a promessa do dr. Costa se cumpra é preciso que a economia portuguesa suba entre 8 a 8,5% ao ano nos próximos quatro anos – mais do que a chinesa, pois claro, mas esses estão em crise – quando agora, muito timidamente e certamente manipulada por impulsos eleitorais, mal passa de 1%.
Várias conclusões se podem tirar desta promessa do dr. Costa, que não é promessa mas sim um número, e dos bons. Talvez ele seja um milagreiro; talvez ele e os seus mentores apenas não saibam fazer contas – seguindo as pisadas lendárias do dr. Soares; talvez ele tenha escondida na manga uma austeridade que fará parecer os agentes da troika uns anjinhos papudos, mas não o poderemos saber porque o dr. Costa foge das promessas como o diabo da cruz; ou talvez o dr. Costa seja um grande mentiroso, rivalizando com os companheiros de arco, o dr. Coelho e o dr. Portas, ficando tudo em família.
Confesso que não sei por qual destas hipóteses me decida. Deixo-vos o final em aberto.
 

domingo, 30 de agosto de 2015

A EDUCAÇÃO É UMA GORDURA LETAL


 
Como génio das matemáticas que dizem ser, o ministro Crato só pode ser o homem certo no lugar certo, o da Educação, essa ferramenta essencial para que se fabriquem os robots que hão-de servir os generosos negócios da especulacia neoliberal.
Lembrei-me do cavalheiro que sonha criar uma elite de lusos cavaleiros educados em colégios enobrecidos pela tradição britânica do século XIX, que ainda hoje deve ser o que era, devido à notícia elogiada pelo nacional-propagandismo à portuguesa: ele “abateu”, de uma penada, 11 mil professores ao activo.
Acho o verbo “abater” aplicado de uma maneira esplêndida e inspirada ao acontecimento, fuzilamentos tiro-a-tiro-certeiro, como é próprio de alguém familiarizado com o rigor das matemáticas. Oxalá o megafone de turno não venha a ter problemas com a escolha do termo.
Pensando bem, talvez “abater” tenha a ver não com um fuzilamento massivo mas com a famosa dieta montada pelo governo do primeiro-ministro de Portugal em exercício, no sentido de cortar as malfadadas “gorduras” do Estado. Hoje em dia todos percebemos a importância das dietas para abater peso e conhecemos o quão importante é apurá-las, principalmente a partir do momento em que a Primavera desperta as forças da natureza, para que as silhuetas das pessoas e, neste caso, a da sociedade, correspondam aos figurinos do bem-parecer.
Pois nenhum governo em Portugal se esmerou tanto como o que está prestes a finar-se para espremer o Estado de modo a libertar-se das malditas gorduras. E se grande parte dos músculos foram atrás, também não é novidade que os grandes esforços, como este o é, estão sujeitos aos compreensíveis danos colaterais. E o ministro Crato ocupou-se da sua parte da tarefa com o esmero instintivo que é próprio dos génios – uma genialidade que nele beneficia da experiência adquirida na demonstração do teorema de que as extremas, esquerda e direita são, afinal, uma e a mesma coisa - ele é a imagem viva disso.
Onze mil professores eram, na realidade, uma inadmissível prega de gordura num Estado moderno – o Estado tendendo para zero – tal como o pretende o primeiro-ministro de Portugal ainda em exercício. Aliás, a Educação é, em si mesma, uma temível gordura, eventualmente até um abcesso vocacionado para inquietar a tão querida paz social. Uma Educação que o seja, e para tal seriam necessários esses 11 mil professores, provavelmente muitos mais, escolas públicas e estruturas indispensáveis à formação de cidadãos conhecedores, cultos e intervenientes, incomoda o governo ainda em exercício e, em especial, o ministro Crato. Se a esses 11 mil professores corresponderem 50 mil seres humanos ou mais, sobrevivendo com dificuldades acrescidas, paciência, azar deles, afinal as reformas podem ser como as guerras, por isso estão sujeitas aos já falados danos colaterais. Se a esses 11 mil professores correspondem mais escolas públicas fechadas, mais alunos encavalitados em turmas sem condições para funcionar, mais horários esclavagistas, mais anarquia e indisciplina, azar o das escolas, professores, alunos e pais, não cabe ao Estado sustentar vícios. Para lhes servir de escape, quiçá acolher alguns desses 11 mil professores já despidos de quaisquer direitos, existem muitos e cada vez mais colégios privados, que o Estado está pronto a subsidiar com os impostos de todos nós, melhor dizendo os que sobrarem do pagamento da dívida que não terá fim, do financiamento dos bancos recuperados e saldados a preços de uva mijona. É para isso que o Estado existe, e só por isso o Estado não é reduzido à situação ideal de conjunto vazio. Afinal, educar não é mais do que criar autómatos para emigrarem ou para enfileirarem na linha de produção de lucros e mordomias da meia dúzia de especuladores e negociantes salafrários a quem o Estado serve.
Onze mil professores “abatidos” pelo ministro Crato? Qual é o problema? Afinal não passam de 11 mil seres humanos sacrificados na guerra a essa gordura letal que é a Educação.
 

 

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

TEORIA DA CONSPIRAÇÃO



Dissertar sobre aquilo a que é comum chamar-se teoria da conspiração e que, em boa verdade, não se sabe muito bem o que é, está na moda. Dir-se-á que é um tema aconselhado para o período de férias, silly season onde tudo é tratado como fait-divers, desde as estatísticas do desemprego às cidades melhores e piores para se viver – para o caso de estarem distraídos deve evitar-se Damasco, coisa de que ninguém suspeitava.
Pois as teorias da conspiração também têm os seus top-ten com os quais não vale a pena gastar tempo e espaço, a não ser para sublinhar que nessas listas se misturam alhos com bugalhos, isto é, coisas muito sérias manipuladas e escondidas deliberadamente da opinião pública com delírios e bizarrias que alimentam a internet e também alguns órgãos de comunicação social que encabeçam as listas dos mais respeitáveis – listas essas fabricadas pelos próprios.
O tema pode ser estival, porém nada tem de inocente. Muito menos quando se misturam coisas que não cabem, nem podem caber, no mesmo saco. Por exemplo, quando se colocam ao mesmo nível as investigações que não coincidem com a versão oficial dos atentados de 11 de Setembro de 2001 com as lendas sobre o facto de figuras como Elvis Presley ou Michael Jackson não terem morrido.
Tratar com ligeireza e imbecilidade um tema como este, o da chamada teoria da conspiração, é uma maneira de colar o mesmo rótulo de descrédito em denúncias fundamentadas sobre assuntos importantes mal contados por quem nos governa e em idiotices chafurdadas em revistas de fofocas e websites para alarves. Ou seja, é uma mistificação que, no limite, desvaloriza trabalhos sérios – como acontece em investigações sobre o 11 de Setembro – que não coincidam com as versões dos poderes sobre este ou aquele acontecimento. Trata-se de uma manobra insidiosa para invalidar o contraditório, para amarrar a opinião pública a uma explicação única e definitiva das coisas em vez de a por a reflectir sobre as realidades que nos cercam. É interessante, por exemplo, que haja jornalistas a colaborar nesta mistificação mesmo sabendo – ou devendo saber – que estão a enviar para o grupo dos aldrabões e lunáticos os seus camaradas de profissão que fazem o que têm a fazer: investigar, procurar verdades, sobretudo quando são escondidas.
Encafuar as investigações sérias e os factos já apurados sobre assuntos que determinam o andamento do mundo em que vivemos na mesma gaveta das teses peregrinas sobre a Terra ser oca e o homem nunca ter ido à Lua é um exercício estival de quem passa o tempo a catalogar como teorias da conspiração as demonstrações de actos e acontecimentos que não cabem na verdade oficial, logo seguidas e repetidas até à exaustão pela corte dos comentadores papagaios avençados pelo sistema único. Gente para quem o facto de o golpe na Ucrânia ter conduzido a um governo fascista, ou a possibilidade de o MH 17 não ter sido derrubado por um míssil russo, ou a circunstância de haver produtos comercializados pela multinacional Monsanto que envenenam pessoas e o planeta, ou a invasão do Iraque ter sido baseada num chorrilho de mentiras, ou o neoliberalismo existir e ter criado a crise como regime global estão ao mesmo nível de seriedade das teses segundo as quais o presidente Eisenhower assinou acordos com extraterrestres ou Saddam Hussein preparou a invasão do planeta por alienígenas.
Quando exercícios deste tipo se realizam com a participação de centrais de propaganda como por exemplo as que servem as estratégias desenhadas pelo Grupo de Bilderberg percebe-se que neles nada há de inocente. Tais órgãos justificam, nesta matéria, o porquê de se auto intitularem “meios de referência”. De facto, basta-lhes seguir o rasto para se conhecerem, passo a passo, as tendências dominantes de quem segue as regras de manipulação e intoxicação dos cidadãos ao serviço do regime único.

sábado, 1 de agosto de 2015

BANDO DE MALFEITORES


Poderia ter acontecido em Portugal, na Estónia, em Itália, em qualquer outra nação da tão democrática e incorruptível União Europeia, mas desta vez foi em França. Poderia ter sido obra de uma gestão da direita, de uma administração socialista, mas desta feita o desprezo por bens públicos e a reverência ante os mais poderosos do dinheiro é obra conjugada das duas ideologias fundidas na ideologia do lucro, interpretada por verdadeiros bandos de malfeitores.
O caso desenvolve-se à volta da frequência audiovisual analógica terrestre no canal 23, entregue gratuitamente pelo Estado francês para criação da TVous Diversité, que logo mudou de nome para Numero 23 e vai cair agora nas mãos do terceiro homem mais rico de França, um dos donos de L’Express, Libération e respectiva irmandade sob o nome de Next RadioTV (por enquanto). Pela história passam nomes ligados às administrações Sarkozy e Hollande, ex-ministros e ex-conselheiros presidenciais, um oligarca russo cujo dinheiro chegou a Paris via Chipre, dirigentes e funcionários dos partidos do chamado “arco da governação”.
As frequências audiovisuais são bens raros e públicos, que deveriam ser geridos pelos Estados – como representantes dos cidadãos – ao serviço da informação, cultura e diversão destes. Sabemos que entre a teoria e a prática vai uma longa distância nas sociedades que se dizem modernas; ainda assim, a situação é tão escandalosa que não merece ir para a conta das indiferenciadas.
Em Julho de 2012, o Conselho Superior do Audiovisual de França, organismo estatal que gere as frequências de rádio e televisão, entregou o canal 23 a uma candidatura encabeçada por um lobista da fina flor do capital parisiense, Pascal Houzelot, que surgiu em cena acompanhado por Valérie Bernis, ex-colaboradora do ex-primeiro ministro Balladour e ocupando uma posição de topo na administração do império GDF Suez; e David Kessler, um gestor de vários e conhecidos meios de comunicação trabalhando então na campanha eleitoral de Hollande, de onde transitou para conselheiro de comunicação social do novo presidente. O projecto por eles apresentado, a TVous Diversité, uma televisão “aberta ao mundo e às outras culturas”, segundo as palavras de Kessler, mereceu desde logo os maiores encómios da comunicação agindo como propaganda bem-falante.
A frequência foi entregue gratuitamente à candidatura encabeçada por Houzelot, a qual, quase sem se dar por isso, passou a chamar-se Numero 23, deixando de lado não apenas a designação TVous Diversité como a própria multiculturalidade. Além de congregar parte da casta financeira parisiente em torno do seu projecto, Pascal Houzelot – que sempre navegou bem tanto em gestões socialistas como de direita – contou ainda com o apoio financeiro do oligarca russo Alicher Uzmanov, a 71ª fortuna mundial pelas contas da revista Forbes. Para que os trâmites decorressem de acordo com as normas europeias, o dinheiro russo foi previamente lavado em Chipre.
Exactamente dois anos e meio depois, o período estabelecido por lei para que seja possível a transferência de mãos de uma frequência audiovisual, a Numero 23 foi vendida ao grupo Next RadioTV de Alain Weill (Radio Monte Carlo Info, por exemplo) por 88,5 milhões de euros, 48,5 milhões dos quais em dinheiro vivo, nos termos de um negócio acordado muito tempo antes e que apenas esperou pelo período de nojo imposto por lei para ser anunciado. Isto é, o projecto TVous Diversité, recebido gratuitamente das mãos do Estado francês, rendeu 88,5 milhões limpos aos seus financiadores, sendo que Pascal Houzelot transitou directamente para a administração da Next RadioTV.
Ao revelar a venda, Houzelot argumentou que optou pelo negócio com Alain Weill por ser um “grupo independente” entre os tubarões da comunicação social. Porém, ainda as assinaturas do contrato estavam frescas e já a Next RadioTV passava para as mãos de um desses tubarões, Patrick Drahi, a terceira fortuna de França, que a engolirá gradualmente até 2019. Drahi representa um conglomerado onde avultam nomes como a Societé Française de Radiofusion (SFR), L´Express, Libération, Strategies e mais uma dúzia de revistas, os serviços por cabo Numericable, vários meios de comunicação e uma empresa de telefones móveis israelitas.

Assim se vão partilhando os lucros obtidos através de um bem público que o Estado francês, supostamente em nome dos cidadãos, alienou sem nada obter em troca a não ser – na verdade está aqui o grande segredo da teia de perversidades – a garantia de poder contar com um aparelho de propaganda ao serviço de um falso pluralismo transformado em ideologia única e absoluta.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

UM PAÍS QUE ODEIA OS SEUS CIDADÃOS


Há um país que odeia os seus cidadãos. Outros haverá, mas fixemo-nos neste que dá pelo nome de Portugal, se gaba de ser muito antigo, muito cheio de história, saudoso de tempos imperiais e que, em cima destas glórias, maltrata os seus cidadãos.
Quando se escreve país não se faz alusão a uma entidade abstracta, mítica, mas sim aos seus dirigentes que, através de gerações e sob diferentes rótulos políticos, têm como traço de união o ódio aos seus concidadãos.
A acusação é grave, mas os comportamentos em causa são-no ainda mais. Tal ódio ressalta de estudos sociológicos apresentados tempos atrás de tempos e que, merecendo as reservas que exige a inexactidão inerente às ciências humanas, têm a credibilidade de corresponder ao que cada cidadão, se tiver os sentidos despertos para a realidade envolvente, vai captando dia após dia.
Dizem as investigações mais recentes, cujos resultados foram divulgados apenas há meia dúzia de horas, que Portugal é o país com maior taxa de emigração entre os 28 da União Europeia, o país que demonstra menos apetência por livros e outras coisas da cultura, o país onde 20 por cento da sua força de trabalho tem um vínculo precário – isto é, um estado paredes meias com o trabalho escravo.
Este é o Portugal do século XXI, com 30 anos de integração europeia e cujos dirigentes fizeram transferir-se do “orgulhosamente só” para o muito mal acompanhado com um ligeiro e prometedor interregno que os dirigentes, sempre eles, renegaram proibindo o país de ter a alforria de decidir por si. Um Portugal, é bom que se diga, que não consultou os cidadãos sobre a entrada na União Europeia, a adesão ao euro, as visitas rapinantes na troika e o amontoar de uma dívida que cresce enquanto se esvaziam os bolsos dos cidadãos.
Poder-se-ia dizer também que Portugal é dos países da União Europeia com menos Estado e pior Estado, dos que menos gasta em saúde e educação no caminho para arrasar de vez com o Serviço Nacional de Saúde e a Escola Pública, hábitos que sobram do tempo escasso em que os cidadãos tiveram algum poder, mas dediquemos algumas linhas apenas aos estudos mais recentes.
Cinco milhões de cidadãos portugueses ou de origem lusa em diáspora é meio país fora de casa, em boa verdade corrido pela ameaça de fome, de miséria, de desemprego, aconselhado a fazê-lo implícita e até explicitamente pelos dirigentes. Portugueses fora é a promessa de reservas de dinheiro em casa para redistribuir pelos poucos e mesmos de sempre, habituados como estão a medrar com a desgraça da maioria. Sendo a maior taxa de emigração da União, significa que Portugal tem mais elevada percentagem da população fora de portas que alguns países caricaturados como os patinhos feios, como a Roménia, a Bulgária, a Lituânia, a Grécia, isso mesmo, a pobre Grécia.
Vinte por cento de trabalho precário devem ser olhados em conjunto com mais de 20 por cento de desemprego real – esqueçamos as estatísticas oficiais, mais marteladas ainda que as sondagens eleitorais – com a percentagem desconhecida dos que já nem procuram trabalho e também levando em conta o meio país que fugiu para o estrangeiro para não ter de ficar nestas situações.
Num cenário assim, a cultura poderia ser uma fuga, uma via de luta pela dignidade, mas as anestesias são outras e disso cuida o bem comportado aparelho de propaganda, que puxa logo de talkshows idiotas, novelas imbecis, séries terroristas, noticiários de faz de conta quando lhe falam em serviço público, cuidando para que seja este o único serviço disponível tal como única é a mentalidade governante.

Assim ambos se irmanando no desprezo pelos cidadãos, que mais não é do que uma sinistra forma de ódio.

terça-feira, 23 de junho de 2015

AGORA ESCOLHA: AUSTERIDADE OU AUSTERIDADE?


A estação de TV gerida por um misto de executivo de Bilderberg e lobby Marinho saudoso de um Brasil governado a partir de Washington começou a apregoar o seu próximo atentado ao direito dos portugueses à informação, recorrendo ao inconfundível paleio de banha de cobra do nacional-bacoquismo lusitano que se acha iluminado.
Podia ser qualquer das outras TV’s existentes no menu disponível, porque não há quem as diferencie em vocação, conteúdos e espírito censório já que devem todas elas obediência ao arco da governação e, como muito bem sabemos, nem a censura escapou à fúria privatizadora dos governos das últimas décadas, mesmo quando exercida por entidades nominalmente públicas.
É verdade que as leis eleitorais estabelecem um tratamento igual para todas as forças políticas que se apresentam a eleições. Porém, como também sabemos, as leis fizeram-se para ser violadas, e quando não existem alçapões para tal inventam-se. O Estado, é certo, deveria travar estas manobras para que, pelo menos, o espírito da lei que rege as escolhas dos cidadãos, a lei eleitoral, prevalecesse perante o desrespeito ostensivo praticado pelos órgãos de propaganda. Mas o Estado, helas!... O Estado são eles mesmos.
Pois a dita estação apregoa importantes e sem dúvida muito esclarecedoras entrevistas a dois cabeças de lista às próximas eleições gerais. Não sabemos ainda quantos se apresentarão às urnas, mas a TV em causa já decidiu: um destes dois vai ganhar, aos portugueses cabe escolher ou um ou outro, o resto é paisagem para fazer de conta que os votos contam para alguma coisa ou, como se diz no jargão futebolístico, joga-se para cumprir o calendário.
Assim sendo, num canto do ringue teremos o campeão em título, um dos caniches favoritos com que a senhora Merkel se passeia nas cimeiras europeias e que se alguma vez consegue arreganhar a taxa é contra o malfadado homólogo grego; no outro canto o candidato ao título, um retrato robot desenhado com inspiração nas caricaturas do senhor Hollande, do senhor Blair e do senhor Soares, de preferência ainda com os contornos que usou para nos encafuar à viva força no monte de trabalhos com que nos debatemos. Existe um pequeno challenger, que em última análise será o emplastro sempre ao lado do vencedor, esse resultante de uma manipulação genética aleatória conseguida metendo numa moulinex os genes de figuras como as senhoras Le Pen e Lagarde e de outros valerosos democratas nacionalistas e/ou neofascistas entre os quais se citam apenas, para não enfastiar, nomes como os de Farage, Viktor Orban e Poroshenko. Este pequeno challanger não será entrevistado, mas conhecendo nós o que a casa gasta, é como se fosse.
Vale este critério por dizer que, para felicidade dos portugueses garantida pela prestimosa estação, não precisam de matar a cabeça a escolher o seu futuro no próximo quinquénio. Podem decidir se querem mais austeridade ou mais austeridade, mais dívida ou mais dívida, mais despedimentos ou mais despedimentos, ainda mais miséria ou ainda mais miséria, mais troika ou mais troika, menos salários ou menos salários, mais impostos ou mais impostos, arco da governação ou arco da governação. Entre Coelho ou Costa, tal como quer a TV de Bilderberg, e as outras quererão também, os portugueses poderão escolher o neoliberalismo à moda de Centeno ou de Loureiro/Cavaco/Nogueira. É assim como escolher entre decapitação ou fuzilamento, forca ou injecção letal.
Pode dize-ser: as televisões apenas se limitam a seguir o que é dado como certo. Tal como o que é dado como certo foi ajudado a fabricar pelas práticas censórias das televisões e afins. No fundo um ciclo tão vicioso como o próprio arco da governação, não funcionassem eles em harmonia perfeita.
Seja como for, mesmo envolvidos por tais manobras – sem contar as que a NATO virá para cá fazer nesses dias - os portugueses terão no segredo do voto uma oportunidade única de, em liberdade e sem medos, pregarem uma enorme partida a esta clique corrupta que nos governa através de todos os mecanismos podres do arco da governação, incluindo os principais meios de comunicação social.

Se cada um pensar pela sua cabeça, se fizer cego e surdo perante a censura e não aceitar a canga que insistem em por-lhe, Portugal ganhará um novo alento. O único voto útil é o que nos pode livrar do arco da governação. E assim poderá chegar, mais uma vez, o dia das surpresas.

sábado, 6 de junho de 2015

O DIA DOS PEQUENOS CONSUMIDORES


O dia da criança já lá vai, mais um na rotina dos anos em que multiplicam votos e desejos, se apregoam iniciativas, se prometem mudanças de que nada sobra cumpridas as 24 horas regimentais. O dia depois é pelo menos igual ao dia antes, provavelmente pior tendo em consideração as cavalgadas das guerras, as procissões trágicas de refugiados, as angústias crescentes da fome, a multiplicação dos bombardeamentos cegos, com ou sem pilotos ou artilheiros.
Este ano houve pelo menos uma novidade, no mínimo abusiva e temperada com veneno de propaganda que foi a colagem do dia do leite ao dia da criança, autorizada por quem de direito onde o direito também é bastas vezes uma questão de propaganda. “Dia da criança é também o dia do leite”, mas do leite de uma determinada marca que assim se enfunou com penas de pavão beneficiando da benevolência cúmplice perante os atentados quotidianos aos dias da decência, que deviam ser todos os dias.
E por falar em marcas, tropecei por acaso num espaço dedicado pela estação do retirante de Bilderberg ao dia da criança, não podia deixar de ser, fica sempre bem. E também ao dia da criança e das marcas, fica melhor ainda.
Um alegre espaço inspirado talvez no velho rifão “de pequenino se torce o pepino” transposto para a era do marketing, das marcas, do mercado, agora sim, estamos no que mais interessa, os pequenos seres transformados em fontes de grandes lucros.
Um mercado de 700 milhões de crianças, ouvia-se em voz off, “os pequenos consumidores” de hoje, os grandes consumidores de amanhã, daí que as marcas pretendam desde já criar com eles “uma relação duradoura” que os acompanhará por certo através da vida, podendo até garantir-lhes a escolha do caixão quando chegar a hora, porque marca que é marca e que se preza trata dos dias de hoje com os olhos sempre postos no amanhã, mesmo no mais distante.
Setecentos milhões de pequenos consumidores é obra. Com toda a franqueza não consegui perceber se a cifra engloba os que fogem das guerras afogando-se no Mediterrâneo, os que nascem com fome e irão morrer com fome, os que estão vocacionados a não ir além das primeiras lições, soterrados nos escombros de uma escola bombardeada, os que são fuzilados sumariamente, com o resto da família, por um drone enviado por sua excelência o presidente Obama, na verdade um patriarca de todas as marcas. Ou se essa cifra mágica e prometedora dos 700 milhões de pequenos consumidores já integra os descontos óbvios e elimina das estatísticas aqueles que nascem condenados a não consumir coisa nenhuma, nem o leite ao menos no dia do leite e da criança, nem a chucha aerodinâmica de última geração.
É verdade, as marcas preocupam-se com as crianças, pensam até muito nelas, nas maneiras de as ajudar, de as educar, assim se ouvia no programa. Deseja-se, por isso, que esses recém-nascidos membros da planetária família do mercado ganhem muito cedo os hábitos de consumo para que estes fiquem enraizados de maneira duradoura, porque criança que se preze deve saber decidir desde o berço, de preferência muito antes de conseguir articular palavras, desde que escolha produtos de marca, quanto mais recomendada melhor - e nisso não haverá aliado mais saudável dos pais e dos próprios que a honestíssima publicidade.
Pequenos consumidores activos, mercado satisfeito. Uma aliança para a vida porque, como se percebe pela sociedade em que vivemos, nada há que o mercado mais aprecie que as crianças como prometedoras, prolongadas e inesgotáveis fontes de lucro. As que, por razões colaterais, não atingirem esse estádio de contribuintes líquidas do mercado desde as mais tenras idades podem então servir de carne para canhão, com isso se aliviando o planeta de uma ganga indesejável, imprestável para o consumo. O mercado trata disso. 


quarta-feira, 13 de maio de 2015

AS SONDAGENS NUNCA SE ENGANAM


 
 
É oficial. Analisados ao mais ínfimo pormenor os dados das últimas eleições britânicas, por sua vez cruzados com actos eleitorais anteriores, por sua vez lidos em conjunto com previsões em desenvolvimento sobre as próximas consultas no espaço europeu, surgiu um axioma, digamos mesmo um dogma: as sondagens nunca se enganam. São mais ou menos como as estatísticas do crescimento económico, do desemprego, da confiança dos consumidores, do clima empresarial, do barómetro das famílias, do número de espirros por pessoa por minuto, mas ainda mais firmes, mais absolutas. Fixem bem: as sondagens nunca se enganam.
Quem pode enganar-se são os eleitores, o que é, no fim das contas, o mais natural. Errar é humano, não é? Já as sondagens, ancoradas no que há de mais avançado na ciência, na sociologia, na tecnologia, na politologia, na geopolítica, nos ciclos de humores comportamentais do arco da governação, não erram. Pura e simplesmente porque não existe hipótese de erro. Por isso são comentadas, interpretadas, expurgadas, analisadas como se representassem a vontade dos eleitores, o que, como se percebe, tem um efeito pedagógico e cívico insubstituível, porque os eleitores ficam a saber não apenas como se comportam mas como devem comportar-se quando forem chamados às urnas.
Acresce, para quem não está ao corrente destes delicados circuitos da moderna democracia, que os ciclos virtuosos formados pelas entidades sondadoras, as agremiações com vocação governativa e os deuses manes da comunicação traduzem como nenhuma outra conjugação o sentir, o pulsar da sociedade, os seus interesses e comportamentos, detectando e eliminando à nascença a margem de erro induzida pelo factor humano.
Poderá argumentar-se que neste ciclo virtuoso podem surgir conflitos de interesses, ou até comportamentos pouco recomendáveis, nada que seja inquietante. Por um lado, porque uma andorinha não faz a Primavera e, embora não se sabendo se a proposição é extensiva aos abutres – é provável que seja, por maioria de razão – a estrutura tem em si mesma, como atrás se explicitou, a capacidade para erradicar o defeito inerente à essência humana.
As sondagens são, portanto, infalíveis. Por isso, no interior da entidade com inquestionável autoridade que é o arco da governação, se prevê uma concertação de vontades no sentido de transformar as sondagens no barómetro único do poder, substituindo as eleições com vantagens para todos. As sondagens permitem conhecer, sem margem de erro, as tendências da sociedade à semana, ao dia, quiçá ao minuto, ao instante, garantindo que os governos terão ao seu dispor, a cada momento, as indicações de como devem agir em proveito de todos.
Já deduziram, por certo, que se é possível fazer sondagens ao minuto tal não é exequível com as eleições, processo moroso, anacrónico, poluente até. Evitando eleições poupa-se o trabalho e a sujidade suscitados pelos milhões de votos que vão directamente para o lixo, eleição após eleição – veja-se como tal fenómeno foi exemplar na recente consulta britânica – porque os eleitores se enganaram não apenas tentando iludir as sondagens como também ousando desestabilizar o próprio arco da governação.
No entanto, os factos provaram que as sondagens resistiram ao erro humano, o arco da governação soube aguentar o desafio e assegurou a estabilidade. Como se não houvesse eleições, apenas sondagens, assim se demonstrando, para memória futura, a inutilidade das primeiras.
E a vida continua. Austera, é certo, porque assim são os fados estipulados pelo insigne arco da governação para que um dia – esse dia virá, não tenham dúvidas – a bonança que agora pertence a uns poucos seja por todos repartida. Haja fé, as sondagens nunca se enganam.
 

 

terça-feira, 12 de maio de 2015

A CARTA


 
 
Dizem ilustres politólogos, esses afamados feiticeiros da modernidade neoliberal, que o senhor primeiro-ministro inglês, o janota Cameron, ganhou as eleições por causa de uma carta. Uma carta, vejam bem, coisa mais prosaica nestes tempos em que nem a NSA, tão entretida a chafurdar nos nossos e-mails, se lembraria de vasculhar porque nas caixas de correio nada mais se depositam, hoje em dia, que panfletos publicitários e contas para pagar. De qualquer maneira se os politólogos dizem que é uma carta é porque foi uma carta, afinal de contas nada nos deve surpreender na Inglaterra tão tradicionalista e aristocrática.
Uma carta infeliz, como são as cartas com vocação dramática, e sabemos quão dramáticos são os resultados das eleições, sobretudo para os eleitores que fazem a cruzinha vincando esperanças para instantes depois o seu boletim estar a caminho do lixo reciclável.
Uma carta escrita pelo artigo ministro trabalhista das Finanças, missiva parca em palavras, é certo, valendo porém, cada uma, um gong de ressonâncias com elevado dramatismo: “não há dinheiro!”. É verdade, não havia dinheiro no reino de Sua Majestade e todos sabemos que a culpa foi do malfadado subprime em terras do outro lado do Atlântico, onde os papéis requintados da mais nobre especulação foram aviltados, logo contaminados, pela mistura com os imundos pedaços de papel higiénico de uma ralé que não tem onde cair morta, embora a polícia apure cada vez mais a pontaria para lhe arranjar lugar.
Pois bem, ou pois mal, o ministro trabalhista das Finanças confessou que não havia dinheiro, coisa que, ao que parece, deve esconder-se de todos, principalmente dos adversários políticos. Porque, sabendo isso, o flamejante Cameron foi-se ao bolso dos contribuintes e como tem moeda para manobrar e muita família nas Américas, o que lhe permitiu mandar às urtigas as conspirações de Merkel, BCE & troikas, engendrou umas estatísticas jeitosinhas para as nobres gentes da City e voltou a ganhar agora as eleições. Os mesmos de sempre não darão por nada disso, continuarão a sobreviver com a carga de austeridade que há muitos anos vêm aguentando, mas como a comunicação, toda ela nas boas mãos da City, garante que as coisas estão melhores é porque estão melhores e não se fala mais nisso mas sim na linda princesinha recém-nascida.
Aqui entre nós quero crer que isso da carta não será bem assim, os ilustres politólogos que me desculpem. Ainda nos lembramos de em Portugal haver alguém com nome de rei mago, Gaspar, ao que consta, que não era rei mas era mago sim senhor, multiplicou a miséria com dotes muito mais milagreiros que os dos pães bíblicos, repetindo muitas vezes: “não há dinheiro!”. Que o diga o antigo ministro dos pastéis de nata, a quem Gaspar invectivava perguntando, sarcástico “qual das três palavras ‘não há dinheiro’ o senhor não percebeu”? Pois bem, Gaspar confessou, repetiu, e como recompensa foi promovido para o FMI, deixando maga Patalógica a limpar os bolsos e as contas bancárias dos portugueses até anunciar, qual Cameron, embora menos estilosa, “os cofres estão cheios!”. E assim ficaram todos felizes: os da City e os especuladores de muitas pátrias e sem pátria nenhuma que “ajudando Portugal” se ajudaram sobretudo a si mesmos, porque em sua direcção se esvaziam agora os cofres, escorrendo o leite e o mel sugados sem dó nem piedade aos portugueses e às portuguesas.
Moral da história. Não castiguem o antigo ministro das Finanças inglês, esse digno representante dos socialismos neoliberais que tanto encantam as “Cities” deste mundo. Arranjem-lhe um lugar no FMI, Gaspar chega-se para o lado, haverá espaço para todos os autores de boas obras. Ele apenas foi vítima do arreigado tradicionalismo britânico. Se em vez de uma carta dizendo “não há dinheiro” tivesse soltado um sound bite com o mesmo conteúdo em menos de nada seria um herói e não o vilão em que o transformaram. O problema não foi a mensagem nem o mensageiro: foi o meio. Modernize-se, homem, que isso passa!