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sábado, 21 de novembro de 2015

O NOVO CARLUCCI


 
O sr. Sherman está “preocupado”. Ele que abandonou o seu bem-sucedido escritório de advogados em Boston, que descurou as reuniões do Conselho do Memorial do Holocausto para fazer um tranquilo período de repouso sabático na Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal, onde seria suposto nada ter que o incomodasse, agora encontrou razões para se inquietar. É verdade que antes de se instalar passou uns olhares despreocupados pelas aventuras do chefe da CIA, Frank Carlucci, quando destacado como embaixador neste “jardim à beira mar plantado”. Mas como, desde então, tudo entrou nos eixos e caducaram as intensas mas fugazes razões que sobressaltaram o império, Portugal voltou a ser o redil manso e obediente sempre que as simpáticas ovelhinhas ouvem ordens em inglês ou qualquer coisa parecida.
Contudo, de repente e quando nada o fazia prever, o sr. Sherman confessa-se preocupado, e di-lo bem alto, em rádios e jornais com muito boas referências e preferências na sua terra, para que tais inquietações cheguem ao homem do palácio de Belém antes de tomar uma decisão sobre o próximo governo. Ele – o homem do palácio de Belém – que teve a ousadia de receber uma torrente de sábios doutores, engenheiros e economistas pensando as mesmas coisas e não encontrou hora para acolher também o sr. Sherman.
O sr. Sherman, porém, nem precisa de ir a Belém para se fazer ouvir. Está “preocupado” porque o PS, entidade que até agora nunca dera motivos para preocupações a Sherman e antecessores, foi capaz de fazer acordos de incidência governamental com “ferozes inimigos da NATO”, coisa que é ainda pior que ser terroristas porque estes, como ficou bem explicado nos Balcãs, na Líbia, e não deixa dúvidas na Síria, são pragmáticos quanto baste para fazer serviços, por sinal bem sujos e sangrentos, em aliança com os senhores da Aliança Atlântica. Uma mão lava a outra.
O sr. Sherman ressalva, não haja mal-entendidos, que “respeita as escolhas políticas dos portugueses”, porque são assim os verdadeiros democratas como ele que, sendo conselheiro do Museu do Holocausto é, ao mesmo tempo, cúmplice ideológico de atrocidades cometidas em Gaza, da tortura e assassínio de garotos e adolescentes que são moeda corrente nas prisões e hospitais de Israel.
O sr. embaixador Sherman adverte de Sete Rios, em todas as direcções, que o comportamento do PS “levanta a questão sobre se o compromisso de Portugal, como membro fundador (da NATO), é firme como sempre foi”. Porque, como dizia seu pai, “diz-me quem são os teus amigos dir-te-ei quem és” e os socialistas “fizeram uma aliança amigável com dois partidos anti-NATO”.
Sabemos, como atrás ficou escrito, que o sr. Sherman “respeita as escolhas políticas dos portugueses”. Pelo menos, subentende-se, enquanto forem as escolhas que a NATO pretende. E se por acaso, um dia, as “escolhas legítimas dos portugueses” não agradarem à NATO o que acontecerá? O sr. Sherman chamará a NATO para devolver as “escolhas” à devida ordem? Quem assim nos alerta com as suas “preocupações” nosso amigo é?
O sr. Sherman deve saber – ou deverá ter quem o informe – que apesar de Portugal ser membro fundador da NATO os portugueses nunca foram consultados sobre isso, isto é, nunca puderam escolher. Até porque quando Portugal participou na fundação da NATO era governado por um tal Oliveira Salazar que se sucedeu a si mesmo, mandato após mandato, sem que os portugueses alguma vez o tivessem escolhido, tal como acontece com fazer ou não parte da NATO. A relação de Portugal com a NATO, tal como a submissão dos portugueses a Salazar, nunca teve a ver com democracia. Com essa situação, porém, não manifesta o sr. Sherman qualquer incómodo.
Durante anos a fio, durante as últimas décadas não se ouviu um pio da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa. A Oeste nada de novo, para o império tudo corria sobre rodas. De repente, eis que parece surgir uma ovelha tresmalhada e logo ficámos a conhecer quem ocupa o lugar que há 40 anos foi de Carlucci, chefe da CIA. O mastim do império não dorme, nunca dorme. Mas tal como o embaixador dos Estados Unidos, também os portugueses sabem citar provérbios universais, por exemplo o que diz que os cães ladram e a caravana passa. Assim queiram os portugueses honrar as suas escolhas legítimas, incomodem ou não o sr. Sherman e seus amos.
 

 

 

domingo, 8 de novembro de 2015

UNIDOS COMO OS DEDOS DA MÃO


Hoje é um dia especial, um dia capaz de relançar a esperança das pessoas em Portugal. Não lhe chamemos histórico, não toquemos trombetas como é usual e burocrático fazer quando alguma coisa de importante acontece e ainda está apenas em estado de embrião – forte, é certo – mas submetido a uma gestação sob tempestades de calúnias e mentiras, a um nascimento ameaçado por golpes de malfeitores, a um crescimento à mercê de anunciadas barragens de fogo sem quartel.
O edifício político inovador em Portugal resultante do acordo entre o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, ao qual está agregado o Partido Ecologista Os Verdes, é uma afirmação de vitalidade democrática num país onde a democracia tem estado sequestrada pelos que se olham como seus eternos proprietários. Os partidos citados têm maioria absoluta na Assembleia da República, um programa de governo que promete estabilidade durante a legislatura, o que significa legitimidade total e absoluta para governar nos termos da fórmula por eles acordada.
O processo beneficia de uma transparência onde se reflectem a vontade e a soberania populares. Portanto, qualquer outra solução governativa que venha a ser sugerida ou forçada pelo ainda chefe de Estado será ilegítima, corresponderá a um golpe contra a democracia. Sobre isto não resta qualquer dúvida, por muito que a mafia ainda governante se desmultiplique em manobras e mensagens inspiradas pelo terrorismo político e também sopradas pelos círculos autoritários e austeritários de Bruxelas ao serviço das quadrilhas económicas e financeiras internacionais.
A nova realidade política em Portugal é dominada por gente séria, que sabe o que quer para o país, que põe os portugueses acima dos negócios, que finalmente privilegia o que a une sobre o que a divide, que preza a soberania nacional. Toda uma situação que tem um potencial único para travar e começar a inverter as consequências trágicas da política de caos, desmantelamento e parasitismo a que os portugueses, com excepção das minorias servidas pelo governo cessante, têm estado submetidos.
O acordo político de governo agora estabelecido em Portugal é um marco na história dos últimos anos na União Europeia: uma machadada na imposição do regime de arco da governação, uma negação do bipartidarismo que passo-a-passo, baseado em manipulações também através de sistemas eleitorais, tem vindo a ser imposto como um disfarce mal-amanhado de um sistema de partido único pan-união. A nova realidade portuguesa é um exemplo de genuinidade democrática, uma afirmação livre da vontade popular que enfrenta corajosamente um sistema que se entreteve a destruir paulatinamente os mecanismos democráticos, procurando eternizar-se sem jamais ser questionado, qual ditadura light.
Hoje é um dia especial em Portugal. Abre-se uma porta que parecia irremediavelmente fechada. Honra às forças políticas e aos dirigentes que tiveram a ousadia – num ambiente de propaganda intimidatória interna e externa – de pensar em primeiro lugar nos portugueses, na restauração da dignidade do seu trabalho, dos seus salários e pensões, de direitos antes adquiridos e entretanto roubados, na reactivação do tecido económico nacional. De ousarem, em suma, travar o passo à austeridade, tenebroso sistema organizado para violação dos direitos humanos. O que surge, para muitos ilusionistas da política, como uma “aberração” ou uma opção “fora do tempo” pode ser, afinal, um tempo novo para Portugal, uma declaração de dignidade perante a indignidade europeia reinante.
A reacção está a ser e será ainda muito mais tremenda, intimidatória, avassaladora em termos de chantagens europeias e de propaganda, porque conhecemos o estado de sabujice e de manobrismo censório a que o sistema até agora reinante reduziu a comunicação social.
É importante ter a noção disso e de que a democracia, para o ser de facto, só pode ser fruto do combate diário e solidário dos democratas que se revêem nesta solução. A mudança potenciada pela nova realidade não poderá consumar-se apenas no hemiciclo e nos gabinetes de São Bento. Tem de ser tecida por todos nós, sobrepondo sempre, dia-a-dia, o que nos une ao que nos divide, formando uma barreira sólida, ombro-com-ombro e em todo o país, contra os interesses poderosos que manipulam e instrumentalizam a direita política.
O objectivo de devolver aos portugueses muita da dignidade perdida não foi atingido nem cabe unicamente ao governo fruto do entendimento entre PS, Bloco, PCP e Verdes. Apenas se concretizará com o empenho de todos nós, com muita coragem e toda a determinação frente aos que querem travar a mudança.
Hoje é um dia especial, um dia de partida para tempos melhores que estão apenas prometidos e que só o serão se formos capazes de lutar e agir unidos, unidos como os dedos da mão…

sábado, 31 de outubro de 2015

A CHOLDRA



Portugal continua a esbracejar numa esterqueira. A choldra estrangeirada e submissa, que despreza as pessoas e se considera proprietária do poder, está viva e actuante cozinhando novo golpe para travar as ameaças latentes ao seu autoritarismo.
Olhe-se o chefe do Estado, um agente dos mercados financeiros internacionais usurpando um cargo de soberania republicana e popular, apadrinhando o quebra-cabeças de recadinhos e ameaças entre Bruxelas e Lisboa para que o regime de austeridade, sistema único adoptado pelo terrorismo neoliberal, se mantenha como se nada tivesse acontecido, isto é, pretendendo reduzir os resultados eleitorais a pó.
Um chefe do Estado que mexe cordelinhos estratégicos da Nação há mais de 30 anos, como padrinho de uma facção política herdeira da mentalidade salazarenta e que pôs o que restava do 25 de Abril sob os rolos compressores dos mercados manobradores daquilo a que chamam União Europeia, desmantelando a economia entregando-a a banqueiros gananciosos e corruptos, a interesses tutelados pelos casinos da finança internacional e a sistemas monopolistas privados disfarçados de empresários “de sucesso”. Pois a 130 dias apenas de terminar o mandato, o chefe do Estado não hesitou em dar posse a um governo austeritário que, em princípio, não poderá governar porque, de acordo com as mais elementares regras democráticas, não tem maioria parlamentar para o fazer. Manobra essa que, segundo a realidade disponível aos olhos dos portugueses, apenas servirá para prejudicar ainda mais a economia portuguesa, protelando por não sei quanto tempo mais a entrada em funções de um governo com legitimidade para governar. Ou seja, o senhor professor economista que usurpa a Presidência da República não hesita, deste modo, em continuar a atolar a economia de Portugal e os portugueses, o que sempre fez enquanto pregava exactamente o contrário.
A não ser que…
A não ser que o senhor saiba coisas que à populaça não comunica, as quais lhe prometem vida longa a um governo que, nos termos das mais elementares normas democráticas, é um nado-morto.
Aqui chegados resta-nos especular, coisa sempre um pouco traiçoeira mas que adquire legitimidade como processo de advertência e autodefesa perante um provável golpe em marcha.
Lembremos que o chefe do Estado, numa das suas várias intervenções pós-eleitorais, indigitou o chefe da coligação mais votada – e não do partido mais votado – para formar um governo ao qual faltam nove lugares parlamentares para ter legitimidade governante. Nas linhas e entrelinhas das declarações proferidas sobre a decisão, e entre apelos aos mercados para que aterrorizem os portugueses, o chefe do Estado lançou convites abusivos e intriguistas aos deputados do partido mais votado para que se revoltem contra as iniciativas do secretário-geral e da direcção do partido no sentido de formarem um governo anti-austeridade com maioria parlamentar e, além disso, esmagadora sustentação popular. Isto é, temendo ser incapaz de reconstruir o famigerado “bloco central”, versão light de partido único, o agente dos mercados em comissão de serviço na Presidência da República Portuguesa arvorou-se em manipulador do cenário político e alcoviteiro de querelas partidárias.
Talvez o senhor, porém, estivesse não apenas armado de intenções cisionistas, mas também na posse de dados até agora dispersos no pântano infecto em que o poder lusitano esbraceja.
É que no dia em que o governo nado-morto tomou posse e foi anunciada a irreversibilidade do processo de acordo de incidência governativa entre o PS, o Bloco de Esquerda e o PCP, do lado do PS consta que um tal Francisco Assis está disposto a servir-se do “direito de tendência” – como sempre uma tendência para a direita – para se opor ao entendimento entre o seu partido e partidos à esquerda. Pergunta-se: será que o “direito de tendência” de Assis irá tão longe como arrebanhar deputados do PS aritmeticamente necessários para viabilizar o governo nado-morto, gémeo do que arrasou Portugal e avassalou os portugueses com a miséria e a emigração para cumprir as ordens dos credores? Será que entre o chefe do Estado, os serviçais de agiotas Passos e Portas e o citado Assis terá havido um acordo secreto austeritário para que a choldra governante possa continuar a burlar a democracia e a torturar os portugueses? Sem o colaboracionismo de Assis ou outro que tal, o governo empossado não se aguentará com uma moção de rejeição, quanto mais com três.
Vamos crer que a democracia continue a despertar em Portugal e que um governo ilegítimo nascido morto jaz morto e arrefece. E, contudo, Assis mexe-se; ou seja, há uma conspiração em marcha para ressuscitar o cadáver.
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

UMA PORTA QUE ABRIL ABRIU




Apesar dos exorcistas, dos falsificadores da História e dos eternos salazarentos ora travestidos de democratas com via única, a verdade é que a revolução de 25 de Abril de 1974 abriu muitas portas em Portugal, e até no mundo. A porta da democracia, a porta da liberdade, a porta do desenvolvimento de um povo antes submetido às amarguras da escravidão, a porta da descolonização. Foram as portas que Abril abriu, cantadas pelo imortal José Carlos Ary dos Santos - poeta cuja obra, o talento e o poder das palavras o regime tem soterrado no situacionismo da cultura de bordel.
Não sei que frutos poderão dar as diligências em curso para encontrar um governo capaz de aplicar uma política alternativa à chacina social, ao holocausto da democracia instaurados pelos partidos herdeiros do passado autoritário, aggiornate pela ditadura financeira da União Europeia. Admito, porém, que o Ary esteja contente, como satisfeitos deverão sentir-se os democratas autênticos, porque vivemos um exercício de democracia verdadeiramente pluralista através da procura de uma convergência de interesses que possa corresponder aos anseios da esmagadora maioria dos portugueses, mesmo de muitos que, embalados pelas palavras venenosas da ex-maioria, se deixaram burlar mais uma vez.
O exercício da democracia foi uma das portas que Abril abriu e que uma fileira de políticos submetidos a ordens forasteiras foram encerrando paulatinamente, para dar espaço a uma forma tumoral de governação, uma degenerescência da democracia original. Chamam-lhe “arco da governação”, “bloco central”, “compromisso de centro-direita” e outras aleivosias atrás das quais se disfarça um conceito singular: a política de direita exercida como democracia única, uma forma de autoritarismo talvez ainda benévola, mas susceptível de endurecer ao compasso das resistências à arbitrariedade da casta dominante.
Já percebemos que a simples reabertura da porta da democracia provocou uma tempestade no sistema instalado. O que se diz, escreve, mente e atemoriza sobre as negociações e eventual entendimento entre o PS, o Bloco de Esquerda, o PCP, os Verdes e o PAN, que somam uma inquestionável maioria absoluta de 123 deputados numa Assembleia de 230, deveria passar a figurar em todos os tratados de manipulação, má-fé e até ignorância política. Desde ser “ilegal” porque “deverá governar quem teve mais votos” e menos deputados, até à entronização governamental de uma minoria em nome da estabilidade e ao argumento de que o país estaria a “desafiar” a União Europeia, o terrorismo ideológico tomou conta do povoado. Antes a troika que tal sorte, escrevem uns; “o gonçalvismo está de volta”, gritam outros, alguns dos quais sem fazerem a mínima ideia do que falam; o “arco da governação” é a “solução natural”, pregam em uníssono o cardeal de turno e o ex-ministro das Finanças que chamou a troika e ex-patrão da Bolsa, dando de barato que o Estado é laico e os interesses da grande maioria dos portuguesas e os do casino dos especuladores são divergentes.
No meio dos lugares comuns da propaganda mais boçal vão surgindo as mensagens elaboradas, logo ainda mais sinistras, daquelas que bebem do fino de Bilderberg, de Washington e Bruxelas, porém muito progressistas, prafrentex e “independentes”. Pede-se a mudança do sistema eleitoral para que a Assembleia da República esteja aberta apenas ao “arco da governação”; alvitram-se mais poderes para o Chefe do Estado, de modo a que este possa corrigir, a qualquer momento, desvios preocupantes para a ditadura do dinheiro; invocam-se os “compromissos internacionais” como troncos a que cada cidadão português seja amarrado para salvaguarda dos interesses dos que piratearam a democracia.
Negociar um governo alternativo, porém, é a essência da democracia, é o respeito pela vontade maioritária dos portugueses. Dos portugueses que não aceitam a austeridade, que estão fartos que lhes confisquem os salários, subsídios e pensões, que estão saturados de pagar fortunas para que os banqueiros possam continuar a esbanjar e a atafulhar paraísos fiscais. Dos portugueses que exigem direitos associados ao trabalho, que desejam horários laborais compatíveis com a cidadania e as vidas familiares, que pretendem o reforço dos investimentos - e não a penúria crescente - na saúde, na educação, na cultura, nas pescas, na agricultura, na restauração da economia. Negociar um governo alternativo é estancar a sangria das famílias e dos cidadãos vítimas da emigração; é deixar de ser carne para canhão dos agiotas que fazem a guerra aos povos manipulando as dívidas soberanas com os cordelinhos viciados de Bruxelas.
É difícil reabrir esta porta de Abril, talvez a mais essencial de todas elas? Mais duro é viver atascados no pântano social que nos criaram.
 

 

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

TOMBAM AS MÁSCARAS DO REGIME


 
A hipocrisia assaltou definitivamente os ecrãs portugueses. O que tanto se denunciou sobre os desvios impostos ao regime democrático no sentido de neutralizar o funcionamento dos mecanismos de respeito pela vontade e os interesses dos cidadãos, e que, de acordo com a propaganda oficial, não passava de opiniões de marginais do sistema, de antieuropeístas, quiçá de terroristas encapotados, está confirmado. Não era teoria da conspiração, era a demonstração do que se pretendia e pretende atingir com a mascarada de democracia apresentada como a democracia única, possível e desejável, afinal um regime em que a soberania nacional e a maioria das pessoas têm de submeter-se aos interesses minoritários dos predadores da sociedade, dos parasitas dos cidadãos.
Bastaram umas eleições e umas sessões de diálogo – esse diálogo tão enaltecido quando não passa de monólogo em que finge falar-se do que já está decidido – para que a inquietação, os medos, no fundo as pulsões antidemocráticas e trauliteiras subissem ao palco. Elas aí estão, ridículas nos conteúdos, perigosas nas intenções, intimidatórias na prática.
Cito alguns exemplos ao acaso porque a memória e a capacidade de registo não conseguem acompanhar a criatividade dos canais de propaganda do regime os quais, como é sabido, são o suprassumo do pluralismo desde que ele seja monolítico e esteja sintonizado com os agentes de Bruxelas, os seguranças dos credores, os magarefes dos mercados.
Na cegada desfilam politólogos e comentadores independentes que, por acaso, ocupam ou ocuparam altas posições no chamado arco da governação, analistas e papagaios amestrados, comentadores, jornalistas ditos de referência e recadeiros, enfim a corte dos bobos que conseguem especular horas a fio sobre supostas variantes de um mesmo cenário, o único, o permitido, aquele de que vivem e que por sua vez alimentam, num ciclo vicioso e viciado.
Assim sendo, António Costa transformou-se num “radical” com tendências “suicidárias” ao aceitar que o PS dialogue com o PCP e o Bloco de Esquerda. Portugal deve ser governado pelo grupo que teve mais votos, mesmo que seja em minoria, devendo os outros membros do Parlamento fazer de patetas. É assim a “tradição política”, a mesma “tradição” que proíbe a entrada de partidos à esquerda do PS na área governativa, porque isso “não está no ADN” da democracia portuguesa. Partidos esses, como o PCP e o Bloco de Esquerda, que foram acusados de se esquivarem a assumir responsabilidades governativas e que, quando manifestam essa disponibilidade, são acusados se meterem onde não são chamados, de acordo com a bem conhecida trama de morto por ter cão, morto por não ter. E atenção que isto da “tradição” é muito importante em Portugal, sobretudo a “tradição” que manda o bom povo ser ordeiro e marchar em rebanho.   
Além disso, e a cegada continua, fiquem sabendo que uma minoria de 107 deputados é muito mais estável e responsável que uma maioria absoluta de 122, susceptível de viabilizar um governo à esquerda da clique da troika; maioria esta que não passa “de uma coligação negativa”, formada à partida por imbecis mal-intencionados e incapazes sem legitimidade porque, por exemplo, não aceita a austeridade nem dá como plenamente adquirido que os portugueses sejam governados de Bruxelas pelos credores e o sobe-e-desce dos juros da dívida e das manipulações estatísticas. Vejam bem, que legitimidade teria essa maioria se porventura se questionasse sobre o tratado orçamental, manobra suja de Bruxelas e Berlim escamoteada aos cidadãos e que transforma os países da União em pobres protectorados de uma Alemanha expansionista e das praças financeiras? Como seria possível admitir um governo de Portugal capaz de governar para as pessoas, segundo os interesses de Portugal e dos portugueses, quando o que interessa são números, cifrões, milhões manipulados pelo casino financeiro mundial e armazenados em paraísos fiscais?
A austeridade provoca miséria, desemprego, emigração? Pois é, mas não existe outra saída, mesmo que as eleições tenham dito claramente que os portugueses a rejeitam, porque Bruxelas é que sabe o que é bom “para o futuro dos portugueses”, como esse futuro ficará ainda mais risonho estraçalhando o Estado social e a segurança social; e se Bruxelas manda, assim seja. Para lhe obedecer existe a minoria que desejavelmente deveria assumir-se como maioria em forma de “bloco central”, esse partido único garante da democracia da austeridade. Mas se assim não for, que essa minoria governe com a “estabilidade” e a governabilidade” que lhe são inerentes, capaz de ressuscitar em versão actualizada a “democracia orgânica”, uma inspirada criação da propaganda marcelista, não a de hoje, a de ontem. Fora desse quadro, como por exemplo a hipótese de um entendimento entre PS, Bloco de Esquerda e PCP, que permitiria governar Portugal com maioria parlamentar e para a maioria dos portugueses, seria um “absurdo”, uma “batota política”, “um mergulho no desconhecido”; a “instauração da miséria”, uma “irresponsabilidade antieuropeísta”, um “pandemónio ingovernável”, uma “aberração”, uma “vergonha nacional”, um alvo da “chacota internacional”, “mudar as regras a meio do jogo”, “uma conspiração”, um “delírio”, a “restauração do gonçalvismo”, até “um golpe de Estado” – como se percebe nem o céu será o limite para a criatividade chantagista.
Tombam as máscaras dos democratas oficiais, os que sabem corrigir o regime dos enganos dos eleitores para defesa dos interesses dos próprios eleitores, uns pobres idiotas incapazes de saber o que é bom para eles.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

NÃO HÁ CONFUSÃO: A AUSTERIDADE PERDEU



A tese de que os resultados das eleições gerais em Portugal aumentaram a confusão política é própria daqueles para quem a confusão política, associada à falta de transparência, à austeridade, aos arranjinhos de bastidores e às análises em torno de ficções são o modo de vida. Os resultados são muito claros para quem os quiser ler e, sobretudo, para quem tiver a coragem de assumir responsabilidades deles decorrentes e enfrentar o status quo, que se resume a um conceito falacioso e ilegítimo - o de arco da governação.
Portugal apenas caiu na ingovernabilidade para aqueles que entendem a política parlamentar e executiva em versão única e totalitária, a das combinações estatísticas possíveis entre três partidos ditos “responsáveis”, “moderados”, “europeístas” – seja lá o que isso for – em suma, fadados para governar. Como se os 230 lugares no Parlamento não tivessem todos o mesmo valor e alguns deputados fossem “mais iguais” do que outros. Não há políticos da elite e os outros; não há coligações políticas proibidas à partida porque desagradam ao mercado ou aos senhores e senhoras de Bruxelas, Washington ou Berlim; não há qualquer ilegitimidade na procura de novas plataformas de governação. O que é ilegítimo é a perpetuação do “arco da governação” a todo o custo, incluindo a falsificação da vontade dos eleitores. Não existem coligações negativas, partidos do poder e partidos da contestação, todas essas patetices não passam de máscaras da mesma coisa, o poder absoluto e a política única em vez de democracia e pluralismo.
O que os eleitores portugueses fizeram, apesar do cenário de medo, terror manipulador e viciação das explicações da realidade que os envolve, foi arejar o ambiente democrático, dizendo aos dirigentes políticos que há mais caminhos que o do costume, assim eles queiram e tenham coragem para os procurar. O que os eleitores portugueses transmitiram, corajosamente, repete-se, foi a mensagem de que existem alternativas aos obscuros jogos de poder praticados por uma casta de supostos iluminados através de tabus, recados cifrados, ciências ocultas e outras manigâncias para manter os cidadãos à margem dos assuntos que decidem as suas vidas, como se estes fossem idiotas incapazes de saber o que desejam e a quem é preciso corrigir quando não votam como querem os que se acham donos disto tudo.
Um dos exemplos mais crus desse vício manifestou-se nas noites eleitorais das televisões generalistas, onde os exercícios de análise e futurologia se mantiveram agarrados à ficção das sondagens até ao último suspiro de sapiência dos convidados, enquanto os resultados reais e oficiais corriam em rodapé dos ecrãs a alta velocidade, tantos deles desmentindo, através de um golpe de vista possível, deturpações reles e primárias baseadas em conjecturas – essas sim confusas e mistificadoras – disparadas sobre os espectadores. Quantas palavras se gastaram, quantas ditirâmbicas declarações se fizeram elogiando a suposta diminuição da abstenção quando, afinal, a afluência às urnas caiu dois pontos percentuais, votando menos 180 mil pessoas do que em 2011, apesar de haver agora mais 10 mil inscritos.
Porque a realidade se perdeu no ruído e na névoa das elucubrações inspiradas na ficção, para criar a confusão da qual seja suposto não nascer a luz, recupero alguns factos numéricos com inegável valor político.
A mediaticamente venerada coligação governamental, declarada vencedora em processo sumário, perdeu 730 mil votos e mais de um quarto do seu eleitorado – 26 por cento dos seus votantes de 2011 esfumaram-se, isto é, agarraram no boletim de voto e fugiram a sete pés do terror austeritário e da ditadura da troika. A sua tranquila maioria governamental de 132 deputados, mãe de todas as arbitrariedades, de todas as violações dos direitos das pessoas, resume-se agora a uma minoria de 107, um corpo parlamentar emagrecido em 19 por cento. A coligação PaF (PSD+CDS), aliás, não conseguiu atingir sequer a votação simples do PSD em 2011; faltaram-lhe 78 mil votos e o resto foi como se o CDS, que valera mais ou menos 650 mil votos em 2011, se tivesse evaporado.
O “fragorosamente derrotado” PS, cuja prestação, de facto, foi tudo menos brilhante, cresceu, no entanto, em número e percentagem de votos. Obteve mais 182 mil, equivalentes a uma subida de quase 12 por cento. Foi escasso para os objectivos proclamados, foi muito curto para quem almejava o primeiro lugar – o que as circunstâncias sociais justificariam – mas não deixou de ser um crescimento à luz fria e indesmentível dos números. Assim os seus dirigentes o usem a bem das causas sociais e humanitárias que dizem defender.
Os partidos a quem a propaganda do regime e os que abusivamente dele se apropriaram recusam a legitimidade para governar, cresceram com uma consistência que não deixa dúvidas nem confusões. O Bloco de Esquerda foi recompensado por uma campanha muito inteligente e de uma grande eficácia na transmissão das suas propostas: cresceu 110 por cento em número de votos e de 8 para 19 deputados, expressiva demonstração de que a política agarra as pessoas quando deixa de ser tratada como uma coisa doutoral só ao alcance de quem manda; a CDU, vítima dos velhos hábitos de marginalização e difamação mediática, também cresceu, apesar disso e das distorções à volta da falácia do “voto útil”: mais um deputado, de 16 para 17, e mais 3400 votos.
Contas feitas, incorramos numa heresia que tanto incomoda os comentadores regimentais, pelo simples facto de aritmeticamente ser passível de concretizar. O PS, o Bloco de Esquerda e a CDU somaram mais 446 mil votos que em 2011 e atingiram 50,9 por cento do universo votante, obtendo uma maioria absoluta de 122 deputados (mais 24 que em 2011, correspondentes a 53 por cento do hemiciclo e seis lugares a acima do necessário para governar em maioria).
A leitura política deste resultado não se presta a confusões, porque deixa bem clara a existência de uma maioria absoluta dos partidos parlamentares que se têm declarado contra a austeridade. Ao contrário da versão “oficial” sobre o que é legítimo ou não, estes partidos têm o direito – e o dever agora imposto pelos eleitores – de pelo menos se sentarem a negociar de boa-fé uma possível plataforma de governo. As pressões internas e externas serão muitas, parecerão insustentáveis, mas as transformações políticas capazes de repor direitos civis, sociais e económicos, de respeitar as pessoas e de abolir os efeitos do trágico ciclo da austeridade apenas serão alcançáveis com a coragem correspondente à que ficou estampada na votação dos cidadãos portugueses. Prometer é fácil, ter ideias é meritório, passar tudo isso à prática é difícil, mas não viola qualquer norma democrática, pelo contrário, seria o regresso à democracia, tal como os eleitores exigiram.
Uma coisa é certa: os que têm governado e se consideram donos do país e dos portugueses perderam a legitimidade para continuar as malfeitorias. Só conseguirão legitimidade para o fazer se alguém lhes estender a mão – e se tal acontecer os responsáveis serão fáceis de identificar. Não é de somenos anotar que o chamado “arco da governação” perdeu bastante mais de meio milhão de votos (550) mil, uma erosão de 12,6 por cento e de 13 deputados. Tem a sua versão de maioria absoluta, é certo, mas contra natura, apesar de habitual, porque associa os esbirros da austeridade com parte dos que alegadamente a contestam.
Os resultados eleitorais não deixaram espaço para confusões. As organizações políticas ao serviço do terror austeritário perderam a maioria e já não podem fazer o que lhes apetece.
Entre os aplicantes da austeridade e os que garantem combatê-la houve uma inversão da relação de poderes, agora claramente favorável aos que se recusam a continuar uma política de violação dos direitos humanos e da democracia. Se estes se juntarem e, em vez de se debaterem com as armadilhas dos que os atiçam por causa de diferenças legítimas e naturais, fizerem do que os une um programa de governo, então nem o Presidente da República, por muito que esprema as meninges, poderá rejeitá-lo.