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sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

A VIDA HUMANA É MAU NEGÓCIO


O governo da Suécia decidiu trocar a sua intenção de reconhecer a independência do Sahara Ocidental pela abertura de uma loja do Ikea em Casablanca, que o governo de Marrocos estava a dificultar, mantendo o negócio como refém. Aqui chegámos nesta Europa, que apregoa os “direitos humanos”, o “direito internacional” e a “liberdade política” mas logo deles se esquece quando está em causa um bom negócio, de preferência privado.
Não é novidade em lugar nenhum do mundo, nem mesmo no interior de Marrocos, o sofrimento em que vive a população do Sahara Ocidental, antiga colónia espanhola ocupada ilegalmente pelas tropas da monarquia de Rabat, sem que a ONU consiga fazer valer as decisões descolonizadoras que entretanto tomou.
Nos campos de refugiados em Tindouf, na Argélia, ou nos Territórios Ocupados, a população saharaui está submetida a um pariato e a uma repressão que esvaziam de conteúdo quaisquer direitos humanos, a começar pelo mais elementar, o direito à vida. Tortura, prisões arbitrárias e sem culpa formada, repressão da vida quotidiana que, não raramente, atinge a proporção de massacres são realidades do Sahara Ocidental, de quem se diz que “é a última colónia africana”, embora saibamos que para o dito ter validade haja que meter entre parêntesis as neocolónias, que são muitas através do continente.
Ora houve tempos, por exemplo entre 2012 e 2014, em que destacados partidos e políticos suecos, designadamente o Partido Social Democrata e os Verdes, se declararam inquietos com as atrocidades de que é vítima o povo saharaui, de tal modo que, no Parlamento de Estocolmo, se declararam favoráveis ao reconhecimento da independência do Sahara Ocidental.
Agora que são governo, sociais-democratas e verdes já tinham os instrumentos necessários para passarem da intenção à prática, o que seria um verdadeiro marco no cenário da União Europeia.
Das melhores intenções, porém, estão o mundo, a Europa e o inferno cheios. Eis então que o império comercial Ikea desenvolveu diligências para instalar mais uma das suas megalojas, agora em Casablanca, Marrocos. Tudo parece ter andado bem e depressa e só faltava praticamente cortar a fita; porém, contra todas as aparências, as portas tardavam em abrir. Até que o governo da Suécia, finalmente, pronunciou as palavras mágicas, sinónimos renovados do velho “abre-te Sésamo”: declarou que optou por “focar toda a sua energia” no “processo de mediação” da ONU no Sahara Ocidental, processo esse que “não seria ajudado pelo reconhecimento da independência” do território. Por isso, segundo a ministra dos Negócios Estrangeiros, Margo Wallstrom, “o governo da Suécia decidiu não reconhecer o Sahara Ocidental e prefere seguir as posições dos governos anteriores”.
Também não é segredo em qualquer lugar do mundo, e no interior de Marrocos, que o dito “processo” conduzido pela ONU é uma ficção. Há décadas que as instâncias de poder nas Nações Unidas aceitam e permitem todas as manobras dilatórias de Marrocos impedindo que seja convocado um referendo no qual os cidadãos do Sahara Ocidental decidam o seu destino. Referendo esse cuja realização é sustentada por várias resoluções do Conselho de Segurança, redigidas em letra morta. A ONU está para o Sahara Ocidental como está, na prática, para a Palestina, como esteve para a Líbia, o Iraque, a Síria, o Kosovo, a Bósnia-Herzegovina ou, se recuarmos mais de meio século, como esteve para a Coreia: inútil ou então fazendo pior quando intervém
O “processo” no qual o governo da Suécia promete “focar toda a sua energia” é o status quo que permite a tortura, o assassínio político, o universo concentracionário de campos de refugiados, a negação dos direitos de cidadãos que, segundo a Carta da ONU – mas só a Carta – nasceram “livres e iguais”.
Nos areópagos da diplomacia diz-se que a Suécia “suavizou” a sua posição em relação ao caso do Sahara, e tanto bastou para Marrocos levantar o bloqueio à abertura do Ikea de Casablanca. Em política dir-se-á que o governo sueco manifestou pragmatismo; em linguagem de todos os dias, Estocolmo virou o bico ao prego e sacrificou o direito internacional no altar do híper negócio da venda a retalho.
Amanhã, depois de amanhã, por tempo cada vez mais indeterminado, graças à ONU, o povo saharaui continuará a sofrer o seu martírio. Em compensação, o azul e amarelo do Ikea, tal como na bandeira sueca, brilharão resplandecentes também em Casablanca. Tudo está bem quando acaba bem: respeitou-se a vontade dos mercados – a vida humana é mau negócio.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

AS BIZARRIAS DO SR. SCHULZ


 

O alemão Martin Schulz é o presidente do Parlamento Europeu, por sinal o único órgão da União Europeia verdadeiramente eleito. Como tal, deveria sentir responsabilidades acrescidas no respeito pelos cidadãos dos países da confraria, um importante contingente de 500 milhões de contribuintes e pagadores de dívidas alheias.
Como Martin Schulz é um “social-democrata”, também há quem lhe chame “socialista”, serve frequentemente de bandeira aos seus companheiros de grupo em comícios eleitorais, como recentemente aconteceu em Portugal, onde normalmente se esconde que os “socialistas e democratas” do Parlamento Europeu são tão responsáveis como os conservadores na formação de maiorias que aprovaram as mais gravosas malfeitorias económicas e financeiras contra os cidadãos, por exemplo troikas, tratado orçamental, semestre europeu, germanização da moeda, entre muitas outras. Se o leitor tem dúvidas sobre o que acaba de ser escrito basta-lhe consultar os resultados das votações desses assuntos em plenário.

Do alto do seu cadeirão, Martin Schultz decidiu agora qualificar como uma “bizarria” a renovação da aliança entre o Syriza e os Gregos Independentes para governar a Grécia. Diz ele que não deveria o Syriza, “como partido de esquerda, aliar-se com um partido de extrema-direita”. Quem o ouve não o leva preso. Até parece um homem de esquerda a falar, assim tão preocupado com a imagem daqueles que apressadamente considera agora irmãos ideológicos depois de ter participado na operação terrorista que levou Alexis Tsipras a capitular perante a máquina incineradora da finança mundial manobrada pelos órgãos da União Europeia, Parlamento Europeu incluído.
Até pode ser que a citada aliança na Grécia seja uma “bizarria”, embora muito mais bizarro seja, salvo melhor opinião, o modo como Tsipras se rendeu aos credores, dispondo-se a tudo para manter o país no euro – isto é, na via da austeridade e da sangria dos gregos, mais ou menos light, a ver vamos.
O mais bizarro de tudo é que seja Schultz a dizê-lo. O homem que pertence à coligação alemã, chefiada por Merkel, a qual transformou a Grécia num protectorado submetido sem respeito nem dignidade, é muito pouco recomendável para criticar supostas bizarrias dos outros; o homem que considera democrático o governo fascista da Ucrânia tem pouca legitimidade para condenar alianças de outros com a suposta “extrema-direita”; o homem que, ao lado da patroa Merkel, tem acicatado os da troika a torturarem sem limites o povo da Grécia deveria medir as palavras quando emite sentenças sobre a maneira como os escolhidos pelos gregos se organizam; o homem que, como presidente do Parlamento Europeu ou simples dirigente “social-democrata”, não pronunciou uma palavra nem mexeu uma palha para evitar as guerras que dizimam milhões de pessoas e estão na origem da dramática onda de refugiados que procura a Europa, deveria pensar muito mais que duas vezes antes de aludir às supostas “bizarrias” de outros; o homem que assiste imóvel, logo cúmplice, a práticas de governos europeus, como o húngaro e o croata, inspiradas na sinistra figura do seu compatriota de antanho chamado Adolf Hitler, deveria ter a noção da gravidade do que diz quando se arvora em conselheiro da democracia como quem dá uns tabefes numa criança que fez uma diabrura.
Bizarro, bizarro mesmo é uma figura como Martin Schulz ser presidente do Parlamento Europeu. Em boa verdade, muito mais bizarra que tudo isso é a própria união Europeia.