O governo da Suécia decidiu trocar a sua intenção de
reconhecer a independência do Sahara Ocidental pela abertura de uma loja do Ikea
em Casablanca, que o governo de Marrocos estava a dificultar, mantendo o
negócio como refém. Aqui chegámos nesta Europa, que apregoa os “direitos
humanos”, o “direito internacional” e a “liberdade política” mas logo deles se
esquece quando está em causa um bom negócio, de preferência privado.
Não é novidade em lugar nenhum do mundo, nem mesmo no
interior de Marrocos, o sofrimento em que vive a população do Sahara Ocidental,
antiga colónia espanhola ocupada ilegalmente pelas tropas da monarquia de Rabat,
sem que a ONU consiga fazer valer as decisões descolonizadoras que entretanto
tomou.
Nos campos de refugiados em Tindouf, na Argélia, ou nos
Territórios Ocupados, a população saharaui está submetida a um pariato e a uma repressão
que esvaziam de conteúdo quaisquer direitos humanos, a começar pelo mais
elementar, o direito à vida. Tortura, prisões arbitrárias e sem culpa formada,
repressão da vida quotidiana que, não raramente, atinge a proporção de
massacres são realidades do Sahara Ocidental, de quem se diz que “é a última
colónia africana”, embora saibamos que para o dito ter validade haja que meter
entre parêntesis as neocolónias, que são muitas através do continente.
Ora houve tempos, por exemplo entre 2012 e 2014, em que
destacados partidos e políticos suecos, designadamente o Partido Social
Democrata e os Verdes, se declararam inquietos com as atrocidades de que é vítima
o povo saharaui, de tal modo que, no Parlamento de Estocolmo, se declararam
favoráveis ao reconhecimento da independência do Sahara Ocidental.
Agora que são governo, sociais-democratas e verdes já tinham
os instrumentos necessários para passarem da intenção à prática, o que seria um
verdadeiro marco no cenário da União Europeia.
Das melhores intenções, porém, estão o mundo, a Europa e o
inferno cheios. Eis então que o império comercial Ikea desenvolveu diligências
para instalar mais uma das suas megalojas, agora em Casablanca, Marrocos. Tudo
parece ter andado bem e depressa e só faltava praticamente cortar a fita; porém,
contra todas as aparências, as portas tardavam em abrir. Até que o governo da
Suécia, finalmente, pronunciou as palavras mágicas, sinónimos renovados do
velho “abre-te Sésamo”: declarou que optou por “focar toda a sua energia” no “processo
de mediação” da ONU no Sahara Ocidental, processo esse que “não seria ajudado
pelo reconhecimento da independência” do território. Por isso, segundo a
ministra dos Negócios Estrangeiros, Margo Wallstrom, “o governo da Suécia decidiu
não reconhecer o Sahara Ocidental e prefere seguir as posições dos governos
anteriores”.
Também não é segredo em qualquer lugar do mundo, e no
interior de Marrocos, que o dito “processo” conduzido pela ONU é uma ficção. Há
décadas que as instâncias de poder nas Nações Unidas aceitam e permitem todas
as manobras dilatórias de Marrocos impedindo que seja convocado um referendo no
qual os cidadãos do Sahara Ocidental decidam o seu destino. Referendo esse cuja
realização é sustentada por várias resoluções do Conselho de Segurança,
redigidas em letra morta. A ONU está para o Sahara Ocidental como está, na
prática, para a Palestina, como esteve para a Líbia, o Iraque, a Síria, o
Kosovo, a Bósnia-Herzegovina ou, se recuarmos mais de meio século, como esteve
para a Coreia: inútil ou então fazendo pior quando intervém
O “processo” no qual o governo da Suécia promete “focar toda
a sua energia” é o status quo que
permite a tortura, o assassínio político, o universo concentracionário de
campos de refugiados, a negação dos direitos de cidadãos que, segundo a Carta
da ONU – mas só a Carta – nasceram “livres e iguais”.
Nos areópagos da diplomacia diz-se que a Suécia “suavizou” a
sua posição em relação ao caso do Sahara, e tanto bastou para Marrocos levantar
o bloqueio à abertura do Ikea de Casablanca. Em política dir-se-á que o governo
sueco manifestou pragmatismo; em linguagem de todos os dias, Estocolmo virou o
bico ao prego e sacrificou o direito internacional no altar do híper negócio da
venda a retalho.
Amanhã, depois de amanhã, por tempo cada vez mais
indeterminado, graças à ONU, o povo saharaui continuará a sofrer o seu
martírio. Em compensação, o azul e amarelo do Ikea, tal como na bandeira sueca,
brilharão resplandecentes também em Casablanca. Tudo está bem quando acaba bem:
respeitou-se a vontade dos mercados – a vida humana é mau negócio.

