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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

AS BIZARRIAS DO SR. SCHULZ


 

O alemão Martin Schulz é o presidente do Parlamento Europeu, por sinal o único órgão da União Europeia verdadeiramente eleito. Como tal, deveria sentir responsabilidades acrescidas no respeito pelos cidadãos dos países da confraria, um importante contingente de 500 milhões de contribuintes e pagadores de dívidas alheias.
Como Martin Schulz é um “social-democrata”, também há quem lhe chame “socialista”, serve frequentemente de bandeira aos seus companheiros de grupo em comícios eleitorais, como recentemente aconteceu em Portugal, onde normalmente se esconde que os “socialistas e democratas” do Parlamento Europeu são tão responsáveis como os conservadores na formação de maiorias que aprovaram as mais gravosas malfeitorias económicas e financeiras contra os cidadãos, por exemplo troikas, tratado orçamental, semestre europeu, germanização da moeda, entre muitas outras. Se o leitor tem dúvidas sobre o que acaba de ser escrito basta-lhe consultar os resultados das votações desses assuntos em plenário.

Do alto do seu cadeirão, Martin Schultz decidiu agora qualificar como uma “bizarria” a renovação da aliança entre o Syriza e os Gregos Independentes para governar a Grécia. Diz ele que não deveria o Syriza, “como partido de esquerda, aliar-se com um partido de extrema-direita”. Quem o ouve não o leva preso. Até parece um homem de esquerda a falar, assim tão preocupado com a imagem daqueles que apressadamente considera agora irmãos ideológicos depois de ter participado na operação terrorista que levou Alexis Tsipras a capitular perante a máquina incineradora da finança mundial manobrada pelos órgãos da União Europeia, Parlamento Europeu incluído.
Até pode ser que a citada aliança na Grécia seja uma “bizarria”, embora muito mais bizarro seja, salvo melhor opinião, o modo como Tsipras se rendeu aos credores, dispondo-se a tudo para manter o país no euro – isto é, na via da austeridade e da sangria dos gregos, mais ou menos light, a ver vamos.
O mais bizarro de tudo é que seja Schultz a dizê-lo. O homem que pertence à coligação alemã, chefiada por Merkel, a qual transformou a Grécia num protectorado submetido sem respeito nem dignidade, é muito pouco recomendável para criticar supostas bizarrias dos outros; o homem que considera democrático o governo fascista da Ucrânia tem pouca legitimidade para condenar alianças de outros com a suposta “extrema-direita”; o homem que, ao lado da patroa Merkel, tem acicatado os da troika a torturarem sem limites o povo da Grécia deveria medir as palavras quando emite sentenças sobre a maneira como os escolhidos pelos gregos se organizam; o homem que, como presidente do Parlamento Europeu ou simples dirigente “social-democrata”, não pronunciou uma palavra nem mexeu uma palha para evitar as guerras que dizimam milhões de pessoas e estão na origem da dramática onda de refugiados que procura a Europa, deveria pensar muito mais que duas vezes antes de aludir às supostas “bizarrias” de outros; o homem que assiste imóvel, logo cúmplice, a práticas de governos europeus, como o húngaro e o croata, inspiradas na sinistra figura do seu compatriota de antanho chamado Adolf Hitler, deveria ter a noção da gravidade do que diz quando se arvora em conselheiro da democracia como quem dá uns tabefes numa criança que fez uma diabrura.
Bizarro, bizarro mesmo é uma figura como Martin Schulz ser presidente do Parlamento Europeu. Em boa verdade, muito mais bizarra que tudo isso é a própria união Europeia.
 

sábado, 19 de setembro de 2015

JEREMY CORBYN


 
A eleição de Jeremy Corbyn como dirigente máximo do Partido Trabalhista Britânico tem dado origem a um dos maiores chorrilhos de asneiras, demonstrações de ignorância e manifestações de manipulação propagandística nos tempos que correm. Ainda o homem não fora eleito para o cargo e já a sua simples candidatura era olhada como uma terrível avalancha de tempestades ameaçando a Europa, a qual, como se sabe, vive na paz dos deuses.
Vamos então a factos para que se entenda o significado profundo desta eleição, que mais não é do que uma expressão do sentimento profundo de revolta dos trabalhadores britânicos contra a austeridade em geral e contra a apropriação de um dos seus partidos, o Partido Trabalhista, por uma casta reacionária, direitista e neoliberal que o “thatcherizou” pelas mãos de um criminoso de guerra chamado Tony Blair.
O cujo, Tony Blair, patrocinou mil e uma conspirações e chantagens nas semanas que antecederam a eleição do novo presidente trabalhista para que Corbyn fosse apagado da lista dos candidatos, ou então derrotado. A democracia funcionou e Blair saiu escandalosamente derrotado.
A democracia funcionou, é verdade, mas não através do artifício das “eleições primárias”, cópia do modelo norte-americano que subverte o sistema de partidos através de mecanismos confusionistas criados para acabar de vez com a ideologia na política. Corbyn foi eleito sim, mas pelos militantes do partido e dos sindicados que lhe são afectos – nos termos da organização laboral britânica. Nas eleições trabalhistas, ao contrário do que se tornou moda através da Europa neoliberal, não há participação dos chamados “simpatizantes”, artimanha que dá origem aos desvios democráticos proporcionados pelo sistema de “primárias”.
Quase 60% dos trabalhistas britânicos escolheram então Corbyn, apostando num programa que nada tem de “radical”, como gritam os nossos analistas e politólogos de turno, e representa apenas um regresso à tradição ideológica trabalhista, permitindo a dissociação do partido da amálgama neoliberal que governa a Europa numa fusão inextrincável entre direitistas e socialistas/sociais-democratas.  
Se os tais analistas, comentadores, politólogos e papagaios soubessem um bocadinho de História da Europa e não se limitassem ao preguiçoso copy/paste dos escritos e dissertações dos tecnocratas que ainda lêem apenas a bíblia dos rapazes de Chicago, saberiam que Corbyn não é “radical”, nem um comunista disfarçado, nem um revolucionário, quiçá um terrorista ou bombista. O programa de Corbyn defende apenas a restauração de uma ordem mais democrática, laboral e social que existia no Reino Unido e outros países europeus antes de ser arrasada por Margareth Thacher e respectivos sequazes continentais, entre os quais avultou o já citado Tony Blair.
Corbyn é solidário com a Palestina e os palestinianos como defende uma Irlanda unida, é contra as armas nucleares e a guerra, esteve ao lado dos injustiçados seis de Birminghan, advoga o regresso de serviços básicos – transportes, correios, por exemplo – ao sector público, responsabiliza a NATO pela catástrofe na Ucrânia, é contra a austeridade, propõe impostos progressivos de acordo com os níveis de rendimentos, advoga o fim dos subsídios estatais ao sector privado. Coisas políticas que os papagaios – entre ignorância e maus instintos – apregoam como que saídas de horrendas catacumbas medievais.
Nada disto é radical, muito menos anacrónico; Corbyn não está “fora de moda” por não ser igual a Hollande e aos sociais-democratas amestrados pela senhora Merkel, nem se guia por coisas que já não se usam. Pelo contrário, o seu aparecimento, a par da experiência prometida pelo Syriza e pelo mesmo Syriza aniquilada, representam sinais de que o prazo de validade do neoliberalismo, estagnado no rumo único da austeridade, está a chegar ao fim.
Daí a falta de tino das reacções à eleição do líder trabalhista britânico, que já se manifestaram também a propósito do Syriza e ameaçam o Podemos e outras indignações – ainda que todos estes casos sejam diferentes entre si. Daí também alguns silêncios comprometidos dos que deveriam ser “compagnons de route” de Corbyn, e com ele solidários, insensíveis aos insultos e às deturpações programáticas de que o novo dirigente trabalhista é vítima. Provavelmente porque para esses “compagnons de route” os interesses da batota financeira se sobreponham à solidariedade, e antes Blair que tal sorte.
 

 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O DIREITO À DIGNIDADE


De um lado um grito de dignidade; do outro a surdez e o manobrismo irresponsável do costume.
A senhora Merkel e o senhor Hollande responderam à declaração clara e transparente do povo grego de que não aceitam continuar a pagar com austeridade mortal os erros que não lhe podem ser assacados, assumindo que é preciso respeitar a vontade manifestada nas urnas. No entanto, o espectáculo que as instituições europeias estão a dar no arranque do pós-referendo, e ainda a procissão vai no adro, é o de um circo de manobras e declarações onde se percebe tudo menos o desejo de respeitar a mensagem grega.
Isto é, no seu formalismo habitual, os chefes do Directório que dá ordens na União Europeia proclamaram o respeito pela democracia; e logo os seus subordinados voltaram ao mesmo comportamento chantagista, com destaque para o inenarrável socialista holandês Djesselboem, que chefia a Zona Euro – uma espécie de pau mandado do senhor Schauble às ordens dos especuladores financeiros - em cujas declarações apenas se lê um desejo de vingança e de ajuste de contas contra os gregos. Entretanto, em segundo tempo, a senhora Merkel contradiz o que declarou poucas horas antes advogando que “ainda não há condições para recomeçar as negociações entre a União Europeia e a Grécia”. Por outras palavras, quiseram democracia e agora esperem para dançar a música que nós tocamos.
O ministro grego Varoufakis terá sido uma das primeiras vítimas deste manobrismo, a acreditar na versão oficial de Atenas. Não custa nada perceber, relendo declarações proferidas por alguns dirigentes europeus, que o afastamento do ministro que não se arrojava aos pés dos mandantes europeus e do FMI às ordens dos credores seja uma das condições impostas para o reinício das negociações. Os senhores da Europa, que chamam terroristas a quem lhes aprouver e convenha, estão muito indignados por o senhor Varoufakis lhes ter chamado terroristas a propósito da campanha de intimidação, medo e terror que montaram para que os gregos respondessem sim à austeridade. Afinal não é de Varoufakis que pretendem vingar-se, é dos gregos, contra quem o terrorismo não funcionou.
No domingo, a povo grego não se limitou a reabilitar a democracia como instrumento ao serviço de todos os europeus – assim o saibam aproveitar liquidando, país a país, a ditadura do chamado arco da governação.
Os gregos reabilitaram também o direito à dignidade e, para isso, derrotaram a monstruosa campanha de propaganda local, com ecos mundiais, que a si mesma se chama comunicação social; derrotaram a chantagem contra a democracia emitida de Bruxelas, prometendo o caos no caso de o não vencer; torpedearam o terrorismo do Banco Central Europeu, que tentou criar a anarquia nos bancos gregos seguida de um esvaziamento dos cofres através da fuga de capitais em massa; por fim, derrotaram ainda as sondagens – não nos esqueçamos do papel nefasto destas contra a democracia – que prometeram um “empate técnico” até ao derradeiro instante num referendo em que as duas partes ficaram, afinal, separadas por um fosso superior a 22 pontos percentuais. Isto é não “margem de erro”, nem “engano”, nem fruto de “situações imprevisíveis”. Isto foi, sem qualquer margem de erro, uma burla.
Ao darem um tão sonoro grito de dignidade, os gregos vão precisar de ser firmes e de contar com a solidariedade dos outros povos europeus vítimas desta tragédia, porque o contra-ataque vai ser terrível. Não é possível pagar a dívida grega e não é por isso que existe qualquer legitimidade em chamar caloteiros aos cidadãos da Grécia em geral. Em primeiro lugar, as dívidas renegoceiam-se, reestruturam-se de maneira a que seja criadas condições de crescimento económico e de funcionamento pleno das economias para que possam ser amortizadas.
Além disso, não são os gregos em geral, e entre eles as maiores vítimas da austeridade, os responsáveis pelo estado calamitoso a que chegou a dívida soberana do país. Os vícios de corrupção, nepotismo, evasão fiscal, de viver acima das possibilidades são fruto de décadas de governação desempenhada pelas duas famílias políticas que formaram o arco da governação, agora desfeito na Grécia – socialistas (PASOK) e direita - em conluio com os bancos nacionais e internacionais, entre eles o famigerado Goldman Sachs, como se sabe. Foram elas que fizeram chegar a dívida a 120 por cento do PIB, quando soaram as campainhas de alarme, e que depois disso, rastejando perante Bruxelas e a troika, se submeteram a um memorando de “ajuda” que a fez trepar, até agora, para 170 por cento do PIB.
O primeiro ministro de Portugal em exercício disse, a propósito da Grécia, que não se pode ajudar quem não quer ser ajudado. Está a ver o filme ao contrário, tal como lhe acontece em relação a Portugal: a Grécia (e os outros países assim submetidos) não têm recebido ajudas, têm sido assaltados e saqueados. Os gregos limitaram-se a dizer, pela segunda vez em seis meses, que não querem continuar a ser roubados.