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domingo, 31 de julho de 2016

ISRAEL SOFRE AS DORES DO DAESH


 

O general Herzi Halevy, chefe dos serviços de espionagem militar do Estado de Israel, declarou recentemente, numa conferência em Herzlia, que “não queremos a derrota do Daesh (ou Isis, ou Estado Islâmico) na Síria”. Os seus “actuais insucessos colocam Israel numa posição difícil”, lamentou, de acordo com uma transcrição publicada no jornal Maariv, conotado com a direita política sionista.
A última coisa de que o general Halevy pode ser acusado é de usar uma linguagem hermética, hipócrita, ao contrário de tantos dirigentes políticos mundiais, de Hollande a Obama, de Mogherini a Hillary Clinton, do secretário-geral da NATO aos autocratas da União Europeia. Ele é directo, fala com clareza, respeitando, aliás, a prática do seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que se deixa fotografar em hospitais israelitas visitando terroristas da Frente al-Nusra (al-Qaida) feridos durante a agressão à Síria soberana.
“Está fora de questão” que o Daesh “venha a ser derrotado na Síria”, prosseguiu o general Herzi Halevy, embora sem explicar o que tencionam fazer Israel e os seus aliados para evitar que os terroristas, ao que se diz combatidos pela “coligação internacional” onde se juntam os principais parceiros políticos e militares do exército israelita, sejam sacrificados pelas instituições sírias. Também não devemos esperar que um militar com tão secretas funções seja um boquirroto.
As declarações do chefe da espionagem militar israelita apenas devem ser consideradas intrigantes num aspecto: de que modo podem ser conjugadas com a propaganda norte-americana – e a europeia, por arrastamento – à luz da “aliança indestrutível” entre Israel e os Estados Unidos, na verdade dois países geminados nos termos dos famosos postulados de Henry Kissinger? O general Halevy foi factual, mas a sua franqueza confirma ao mundo que o envolvimento dos Estados Unidos e dos seus aliados da NATO na guerra contra o Daesh, pelo menos na Síria, não passa de um conto da carochinha para tentar amainar a revolta da opinião pública perante os atentados terroristas, principalmente na Europa.
Nas últimas semanas, a imprensa norte-americana, designadamente o New York Times, tem vindo a explicar que o pretenso combate apoiado militarmente pelos Estados Unidos contra o Daesh sofre de duas condicionantes de vulto: por um lado, tem de levar em consideração que os terroristas “moderados” sustentados pelo Pentágono e a NATO combatem quase sempre sob o comando operacional ou do Daesh ou da al-Qaida, pelo que, nestas circunstâncias, a “coligação internacional” não pode actuar em pleno, mesmo que queira, o que também ninguém garante; em segundo lugar, a mesma “coligação” abstém-se de agir contra o seus alegados inimigos sempre que estes estejam em posições que lhes permitam contribuir para a derrota do governo sírio, objectivo que parece ser a prioridade comum. De Washington, das principais capitais europeias e dos meios financeiros e mafiosos que manipulam a constelação mercenária do terrorismo dito islâmico.
Chegados a este ponto, as coisas fazem todas sentido e não existe qualquer contradição entre as declarações do superespião israelita e a prática dos principais aliados de Israel. Halevy diz o que todos pensam e executam, embora só ele possa expressar-se sem papas na língua. Israel não tem necessidade alguma de apregoar o seu empenho no combate ao terrorismo, uma vez que a sua intimidade com a conspiração e a prática terrorista é histórica, faz parte da essência do próprio Estado.
Já os Estados Unidos, tal como a França, o Reino Unido e outros aliados estão oficialmente do lado do combate ao terrorismo – originalmente a “guerra contra o terrorismo” de George W. Bush – e, por isso, sentem necessidade de, a cada passo, disfarçarem as suas evidentes cumplicidades com o Daesh e afins, tentando não ser vergonhosamente manchados com o sangue dos seus concidadãos vítimas do terrorismo. O êxito é limitado, mas o terrorismo mediático vai conseguindo esconder a verdade de grandes sectores da opinião pública.
No entanto, o que verdadeiramente conta para todos, em primeiro lugar e neste momento, é derrubar o governo legítimo e soberano da Síria, fazendo esse grande favor a Israel mesmo que isso signifique entregar o todo ou parte do território sírio ao Daesh, al-Qaida e parentes. Uma tal estratégia faz gato-sapato da ONU, do direito internacional e dos direitos humanos, mas quem os leva ainda a sério?
O general Halevy falou por todos: “A derrota do Isis na Síria está fora de causa”. Ou seja, destruir a Síria soberana é o objectivo último dos terroristas e dos que dizem combatê-los
Está dito e ficamos informados. Melhor do que nunca.

sábado, 16 de julho de 2016

“O PRESENTE DE DEUS” A ERDOGAN


 

O presidente da Turquia, Recep Payyp Erdogan, afirma que a tentativa de golpe militar de sexta-feira foi um “presente de Deus”: vai permitir-lhe “limpar” as forças armadas.
Quem fala verdade não merece castigo, pelo que todos os deuses evitarão punir o autocrata turco, embora sabendo que muitos são os seus pecados.
E “limpezas” são a especialidade deste padrinho e protector de uma miríade de grupos de mercenários e terroristas entre os quais se destacam, para os que não estão lembrados ou o ignoram, o Daesh ou Estado e Islâmico e a Al-Qaida nos seus muitos e variados heterónimos.
Limpou o país da oposição, acusando os principais adversários de servirem os direitos nacionais curdos e ameaçando privá-los da nacionalidade turca. Para que não surgissem obstáculos à sua ascensão ao topo presidencial do poder fez manipular actos eleitorais através da propaganda, da censura e do medo, de tal modo que nem os observadores do Conselho a Europa e da OSCE, embora reconhecendo as irregularidades em privado, ousaram torná-las públicas e definitivas.
Limpou o aparelho judiciário e militar saneando centenas de juízes e os procuradores que denunciaram a corrupção governamental e da família Erdogan, designadamente a sua familiaridade pessoal e financeira com o banqueiro saudita Yassim al-Qadi, próximo de Bin Laden e conhecido internacionalmente como “o tesoureiro da Al-Qaida”. Por essa razão, está sob a mira da ONU, o que não o impede de deslocar-se a Ancara em avião privado para conviver e gratificar generosamente a família presidencial.
Vem limpando paulatinamente as forças armadas, mas este “presente de Deus”, como admitiu o próprio Erdogan, proporciona-lhe uma oportunidade de ouro para acelerar o processo. A partir de agora ruirá o maior obstáculo secular à confessionalização de um regime turco formatado em estrutura ditatorial e em teor fundamentalista islâmico.
Erdogan fala claro, disso não tenhamos dúvidas. Há 20 anos, em plena ascensão na carreira política, iniciada entre os fascistas e supremacistas “lobos cinzentos”, definiu a democracia como “um eléctrico que abandonamos quando chegamos à nossa paragem”. Recentemente falhou a consulta para impor uma Constituição “inspirada em Hitler” – as palavras são suas – de modo a consolidar um poder presidencial absoluto.
A seguir a esse intuito por ora fracassado, Erdogan começou então a receber “presentes de Deus”.
O atentado contra o aeroporto de Istambul parece ter sido um deles. Apear da autoria não ter sido reivindicada, Erdogan atribuiu-o ao Daesh, por conveniência da sua própria imagem internacional; mas por que razão os protegidos iriam atacar no coração do protector? Provavelmente por convergência de interesses – uma mão lava a outra, não é o que se diz? Um atentado é, sem dúvida, oportunidade de ouro para reforçar poderes de excepção e perseguir inimigos internos vários, mesmo que nada tenham a ver com a violência.
Quando ainda decorre o rescaldo do acto terrorista surge o golpe militar, com inegáveis debilidades de amadorismo num exército dos mais poderosos da NATO, precisamente com Erdogan ausente, “de férias”, circunstância excelente para um regresso triunfal, afirmativo, justificando limpezas. Deus não poderia ter sido mais generoso, em boa verdade.
Enfim, é a este ditador turco que a União Europeia paga anualmente três mil milhões de euros confiscados aos nossos impostos para impedir que cheguem à Europa os refugiados das guerras que os donos da Europa provocam. Para que conste, não há um vínculo formal entre o conselho Europeu e Erdogan sobre esta verba; foi estipulada apenas em comunicado de imprensa dos chefes de Estado e de governo da União Europeia.
Foi com este presidente turco que o governo francês negociou a garantia de não haver atentados do Daesh durante o Euro 2016, em troca do apoio à criação de um Estado curdo no Norte da Síria. Constatámos, da maneira mais trágica, que ao Daesh bastaram apenas quatro dias para se libertar do período de nojo, fazendo gato-sapato do securitarismo fanático e inconsequente de Hollande e Valls.
É a este presidente turco que a União Europeia ainda reconhece credenciais de democrata, apesar de o próprio rei Abdallah da Jordânia ter revelado o seu apoio ao Daesh, à Al-Qaida, ao contrabando de petróleo que serve de financiamento ao Estado Islâmico e de enriquecimento à mafia familiar de Erdogan.
Foi comovente – e patético – o apoio de grande parte da comunidade mediática a Erdogan durante as vicissitudes da tentativa de golpe e ao uso dos seus apoiantes como escudos humanos e carne para canhão nas ruas, praças e pontes das principais cidades da Turquia.
Entre a componente militar e a mafia governamental de Erdogan estavam em luta, durante a tentativa de golpe, dois conceitos de regime autoritário: um secular, outro fundamentalista islâmico. A democracia e os interesses populares não tinham nada a ver com aquela guerra entre elites interesseiras e pouco ou nada preocupadas com as pessoas.
O terrorismo islâmico, a guerra e a anarquia no Médio Oriente, porém, têm muito a ganhar com a absolutização do poder de Erdogan em Ancara. Ou seja, é impossível estar simultaneamente contra o terrorismo islâmico e temer pelo futuro político de Erdogan. A democracia não passa por aí, mas também já pouco se sabe dela nesta União Europeia.
Porém, quando a vida das pessoas está à mercê destes “presentes de Deus” é possível testemunharmos os acontecimentos e os ditos mais bizarros.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

O QUE ESCONDE A CHACINA DE ISTAMBUL


 

Na sua visão esquemática e simplista de acontecimentos graves, designadamente os relacionados com o terrorismo, a comunicação social dominante aceita como boa e natural a tese das autoridades turcas segundo as quais o recente atentado no aeroporto de Istambul foi obra o Estado Islâmico, ou Isis, ou Daesh.
E assim se enganam as pessoas, induzindo-as em raciocínios também eles esquemáticos e simplistas que escapam à realidade e confundem deliberadamente os factos.
Em relação ao atentado de Istambul existe uma diferença relevante quando comparado com os de Paris ou Bruxelas: a autoria não foi reivindicada. O facto pode não ser determinante, mas, apesar de tudo, por alguma razão o Daesh não reclamou para si a execução do massacre. Poderá ser um pormenor, mas o mais certo é que não o seja.
O que não é um pormenor, antes uma realidade comprovada pelos factos e pela informação dos satélites, é que o Daesh funciona como uma extensão do regime ditatorial e expansionista do presidente turco Recep Tayyp Erdogan. Logo, não faz qualquer sentido que o grupo tenha atacado num local tão sensível da Turquia, a não ser que isso reverta em favor do regime de Erdogan.
Por isso, mais do que a reivindicação ou até os laços conhecidos, a maneira mais apropriada de perceber a razão de ser do massacre será seguir muito de perto, e com o máximo de informação possível, os próximos passos de Erdogan e dos seus agentes.
A primeira medida conhecida revelou logo muito sobre a pouca transparência dos círculos governamentais turcos perante o crime. O AKP, o partido fundamentalista islâmico que sustenta a ditadura, rejeitou a proposta da oposição para criação de uma comissão parlamentar de inquérito ao atentado. Isso faz com que a versão do presidente, a de que foi o Daesh, seja a única admitida, funcionando como verdade oficial adoptada internacionalmente.
Sabe-se que a França de Hollande e Valls e o fundamentalismo turco estabeleceram um acordo em que Ancara promete desenvolver todos os esforços para evitar que o Daesh execute qualquer atentado em território francês durante o Campeonato Europeu de futebol. Em contrapartida, a França compromete-se a apoiar os esforços da Turquia e de Israel, com a cumplicidade dos Estados Unidos, para que seja criado um “estado curdo” no Norte da Síria, através de uma limpeza étnica contra comunidades árabes e cristãs. A manobra conta com a traição da facção Salih Muslim do grupo curdo YPG, que se aliou ao regime turco permitindo a possível transformação desse “estado curdo” no lugar para onde serão expulsos os curdos da Turquia, que Erdogan ameaça destituir da nacionalidade turca. Não seria o primeiro ataque em massa das correntes supremacistas e fascistas da Turquia contra minorias existentes nos territórios sob seu controlo. Ainda muito recentemente o Papa Francisco lembrou o genocídio de centenas de milhares de arménios, cometido há 100 anos.
Sendo o terrorismo internacional um submundo no qual os rótulos têm reconhecida volatilidade – os mercenários mudam de grupo e de obediência consoante quem lhes paga e outras vantagens e recompensas – é muito provável que nunca venha a conhecer-se a verdade sobre o atentado no aeroporto de Istambul, prevalecendo a versão sem sentido, mas chancelada como verdade oficial, posta a circular pela ditadura de Erdogan.
Para quem não gosta de ser enganado e de comer gato por lebre, a sugestão que fica é a de seguir os próximos passos do regime de Erdogan e não lhe será difícil aperceber-se de quem irá tirar proveito de mais esta chacina de inocentes.

domingo, 17 de janeiro de 2016

LÍBIA: DEPOIS DO TERROR, O TERROR


 

A NATO “está prestes a intervir na Líbia”, anuncia o secretário-geral da organização, Jens Stoltenberg. Segundo uma resenha obtida de várias fontes, a acção já começou: mil britânicos dos serviços de operações especiais estão no terreno; Londres reforçou com 10 Tornados e seis Typhoon o seu dispositivo aéreo em Chipre; comandos da Navy Seal dos Estados Unidos chegaram também à Líbia. Prevê-se que um total de seis mil marines norte-americanos e tropas de vários países europeus (da União Europeia) participem na operação, que envolve carros de assalto, artilharia pesada, aviação e forças navais. A NATO regressa oficialmente à Líbia, país que deixou em destroços, cinco anos e 120 mil mortos depois.
Há poucos dias, em 8 de Janeiro, o AfriCom, comando das forças norte-americanas em África, expôs o seu “plano quinquenal” de intervenção manifestando-se pronto para “afrontar as ameaças crescentes provenientes do continente africano”. Entre os objectivos está o de “concentrar esforços no Estado falhado da Líbia, contendo a instabilidade no país”.
Descodificando:
A NATO volta a intervir na Líbia, país que desmantelou há cinco anos “para instaurar a democracia”, agora, na verdade, para retomar o controlo dos campos petrolíferos que, um após outro, têm caído nas mãos da organização terrorista Estado Islâmico, ou Isis, ou Daesh, mercenários que no Magrebe, segundo a Interpol, são comandados pelo líbio Abdel Hakim Belhadj. Os extremistas ditos “islâmicos” encaminham-se agora de Syrte em direcção à maior refinaria do Norte de África, a de Marse-el-Brega.
Ao contrário do que aconteceu em 2011, a NATO ocupa-se agora também da guerra terrestre, e não é difícil perceber porquê: em primeiro lugar, os seus aliados de há meia década, os grupos terroristas que convergiram no Estado Islâmico, são agora seus rivais no controlo sobre as riquezas petrolíferas líbias, as maiores reservas de África; em segundo lugar, tratando-se de instalações petrolíferas não há que confiar em absoluto na “cirurgia” dos bombardeamentos aéreos, é preciso dar o corpo ao manifesto recorrendo a rambos de várias especialidades.
Petróleo é sempre petróleo e se em 2011 a NATO e os terroristas tomaram Tripoli graças a operações nas quais foram sacrificadas as vidas de mais de cem mil civis, agora é preciso recuperar as refinarias com os menores danos materiais possíveis, de preferência intactas, isentas de custos de restauração.
Formalmente a operação da NATO vai desenrolar-se sob comando italiano, a potência colonial tradicional da Líbia. Na prática decorrerá sob a cadeia de comando da NATO e controlo norte-americano. A aliança terá à sua disposição todas as bases e estruturas italianas, principalmente as de Vicenza e Nápoles, onde funcionará o centro de operações sob comando de um almirante dos Estados Unidos subordinado ao supremo comando aliado na Europa, também em mãos norte-americanas.
“Chegámos, vimos e ele morreu”, exclamou em risada aberta a cesarina Hillary Clinton, candidata presidencial então em funções de secretária de Estado de Obama, em 2011, depois do assassínio de Muammar Khadaffi. Uns tempos antes, o mesmo Khadaffi, em conversa telefónica com o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, agora divulgada, preveniu que “se eu for derrubado será a jihad (“guerra santa”) na Líbia”, ou seja, o terror e o caos. Em 2011 quando os terroristas islâmicos tomaram o poder em Tripoli sob a protecção da NATO, a aliança nomeou comandante militar da capital o atrás citado Abdelhakim Belhadj, actualmente o chefe do Estado Islâmico no Magrebe e que há menos de dois anos foi recebido em Paris no Ministério dirigido por Laurent Fabius. Isto é, a NATO além de prevenida fez com que se cumprisse o vaticínio catastrófico do defunto.
A guerra da NATO regressa oficialmente à Líbia, onde nunca deixou de estar em cinco anos. Bem vistas as coisas, o Estado “falhado” líbio é apenas um pretexto e poderá continuar à espera, pois tem-se mantido assim desde que a Aliança Atlântica meteu as mãos no país. E a democracia já nem faz parte do discurso oficial.
É apenas terror, seja qual for o lado do conflito. É apenas petróleo.
 
 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

PERFIL DE UM TERRORISTA DOS NOSSOS DIAS


Recebendo homenagens do senador McCain, dos amigos americanos
 
As informações estão em poder da Interpol. Deitar-lhe a mão nestes tempos em que as leis e as fronteiras não são problema para assaltos a vidas, soberanias e privacidades, seria apenas uma questão de, digamos, “vontade política”, não é assim que costuma invocar-se? O seu paradeiro não é certamente segredo para a miríade de serviços secretos que apregoam defender “o nosso modo de vida”: é a Líbia, depois de tão bem democratizada pela NATO, onde ele exerce altos cargos políticos e operacionais no governo dominante, o mesmo que invoca para si próprio “o islamismo puro”.
Nome: Abdelhakim Belhadj. A história da sua vida dava um filme daqueles bem a gosto de Holywood, tanto mais que o seu currículo – em poder da Interpol, repito – corresponde às imagens dos rambos de séries A, B ou C cujos feitos heróicos coincidem com as vontades objectivas dos Estados Unidos e de Israel, países onde os fins e os agentes escolhidos para os executar justificam quaisquer meios e o recurso a psicopatas sanguinários.
Sabe a Interpol que Abdelhakim Belhadj é, no presente, o chefe do Estado Islâmico, ou ISIS ou Daesh, no Magrebe e que, operacionalmente, criou e orienta campos de treino de mercenários assassinos na Líbia, concretamente em Derna, Syrte e Sebrata, além de um escritório do ISIS em Djerba, na Tunísia.
Antes disto, Belhadj chefiou os terroristas do Grupo Islâmico Combatente na Líbia (GICL), que em 2007 mudou de nome para Al-Qaida, mais sintonizado com os tempos. Por quatro vezes, entre 1995 e 1998, tentou assassinar Khadaffi a mando do MI6, os serviços secretos ao serviço do terrorismo de Estado britânico. Perseguido na Líbia mudou-se para o Afeganistão, onde se instalou e agiu ao lado de Ussama bin-Laden, o qual dispensa apresentações.
Como a polícia espanhola suspeita de que foi um dos mandantes do atentado ferroviário em Madrid Atocha, em Março de 2004, foi detido logo a seguir na Malásia. Como se percebe, não terá sido difícil identificá-lo e prendê-lo, porque meia dúzia de dias e milhares de quilómetros mediaram entre crime e captura. Passou então maus bocados numa prisão secreta da CIA para onde foi transferido e onde ficou alojado para experimentar as famosas técnicas de tortura – “condicionamento de comportamento”, chamam-lhe nos Estados Unidos – do professor Seligman, métodos de cujas provas a CIA tentou desesperadamente impedir a divulgação.
Abdelhakim Belhadj restabeleceu-se depressa: para ele não se seguiram penas eternas no campo de concentração de Guantanamo, também ele eterno se a este Obama se sucederem outros obamas, coisa mais do que provável. É verdade que ainda foi extraditado para a Líbia, através de um acordo entre os Estados Unidos e o regime de Khadaffi, onde voltou a ser torturado, dessa feita às mãos do MI6 que antes servira. Nestas coisas, a CIA e a sua irmã MI6 são muito ciosas, separam as águas, cada uma quer fazer a sua tarefa ainda que repetindo-se.
Khadaffi libertou-o em 2010, no quadro de uma “reconciliação nacional”, e mal teve tempo para se arrepender. Abdelhakim Belhadj viajou para o Qatar e no ano seguinte estava à frente de grupos de mercenários que, ao lado e protegidos pelos bombardeamentos da NATO – França e Reino Unido, principalmente – derrubaram e assassinaram Khadaffi. Como recompensa pelos serviços prestados, e por recomendação na NATO, o Conselho de Transição nomeou-o governador militar de Tripoli, a capital.
Belhadj não aqueceu o lugar. Ainda teve tempo, porém, para exigir e obter desculpas dos Estados Unidos e do Reino Unido pelas sevícias sofridas noutros tempos, e o que lá ia lá foi. Outras tarefas estratégicas o aguardavam. Partiu em finais de 2011 para a Síria, onde foi um dos principais fundadores do Exército Livre da Síria, os famosos “moderados” tão queridos da senhora Clinton, da NATO, da União Europeia - com destaque para a França - e dos regimes fundamentalistas do Golfo, Arábia Saudita à cabeça. O objectivo era derrubar Assad, mas Assad resiste e já lá vão mais de 250 mil mortos, milhões de refugiados e um país destroçado, massacre cujas responsabilidades nenhum intervencionista ilegal e ilegítimo assume.
Sempre sem perder tempo, Abdelhakim Belhadj regressou à Líbia natal, onde fundou um partido governante, a maneira que encontrou, num cenário de caos, para instalar os terroristas islâmicos no poder em Tripoli.
Na qualidade de figura de proa na Líbia, provavelmente já na posição de chefe do Estado Islâmico no Magrebe, que a Interpol reconhece, Abdelhakim Belhadj foi recebido em 2 de Maio de 2014 no Ministério dos Negócios Estrangeiros em Paris, tutelado por Laurent Fabius, ministro de Hollande e também um incondicional amigo de Israel.
 Laurent Fabius, exactamente: que é ainda o ministro dos Negócios Estrangeiros de Hollande nestes dias em que continuam a sangrar as feridas abertas pelo assalto às vidas dos parisienses, ao que dizem cometido pela organização de que Abdelhakim Belhadj é um dos chefes máximos.
As informações sobre este terrorista-modelo dos nossos dias e o seu currículo estão nas mãos da Interpol. “Estamos em guerra”, proclama o presidente Hollande com os acenos concordantes do chefe da sua diplomacia. Vamos então esperar pelo que se segue, para ver o que acontece.
 
 

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NATO ATACADA NO SISTEMA NERVOSO


 
Depois de ter afirmado pelo menos 16 vezes que jamais enviaria tropas para o terreno na Síria, o presidente dos Estados Unidos decidiu remeter um grupo de operações especiais para o norte deste país. Pouco tempo antes, a mesma ordenança do complexo militar e industrial transnacional dera outro dito por não dito ao anunciar que afinal as tropas da NATO vão continuar a ocupar o Afeganistão. A explicação foi a mesma para ambos os casos, também escutada da mesma boca não 16 mas algumas centenas de vezes: ajudar os “moderados” contra os terroristas.
Especula-se muito sobre o que estará por detrás destas mentiras da Casa Branca, também apresentadas como “mudanças de opinião” ou, de acordo com os porta-vozes do presidente, decisões que em nada violam os compromissos anteriores, uma vez que se trata de tropas que não irão entrar em combate.
Deixemos as especulações para os especuladores – e eles não faltam usando mil e uma línguas – e vamos a alguns factos no terreno, nos ares, ou até no ciberespaço, para sermos abrangentes.
Os agentes de “operações especiais” dos Estados Unidos – digamos também da NATO, sem receio de cometer qualquer imprecisão – irão para o Norte da Síria, prevendo-se que possam desenvolver acções transfronteiriças no que resta do Iraque, havendo consultas com o governo de Bagdade sobre essa possibilidade.
No Norte da Síria, a parceria expansionista formada pelos Estados Unidos e Israel, em colaboração com o regime fundamentalista turco, está a criar um “Estado Curdo” em território árabe, a exemplo do que fez através da invenção do “Sudão do Sul”, com os excelentes resultados humanitários à vista de todos. A amputação do território sírio pelo norte é um velho objectivo de Israel – por questões “militares e de segurança”, como sempre – e está em marcha através da colonização curda, a partir do Iraque e da Turquia, de um território que excede em muito o da minoria de curdos na Síria. A violência contra os não-curdos já começou, tendo entre as vítimas os cristãos assírios, mas presume-se que a chegada dos tropas especiais da NATO não seja para a evitar, mas sim para reforçar a partição da Síria com carácter de urgência, no âmbito da bem conhecida política de factos consumados.
No entanto, recorrendo a um teórico benefício da dúvida, poderá admitir-se que o lançamento de tropas no terreno tenha como objectivo reforçar o suposto combate norte-americano contra o terrorismo do Estado Islâmico, ou Daesh, ou ISIS. Será? O que acrescentará um grupo de operações especiais a um esforço militar tão empenhado da NATO que em mais de um ano deixou incólume a estrutura terrorista? Sem tropas no terreno, em pouco mais de um mês e em 1400 saídas, as forças russas destruíram 1600 alvos dos terroristas islâmicos, entre os quais 249 postos de comando, 51 campos de treino, 131 depósitos de munições e combustíveis, 768 bases terrestres, além de terem eliminado 28 altos quatros mercenários. A diferença das eficácias anti terroristas é esmagadora.
Outra pista, esta de grande impacto na relação mundial de forças, poderá também explicar as botas norte-americanas no teatro de guerra sírio. Numa operação que deixou o Pentágono e os gendarmes da NATO estupefactos, a Rússia cegou e ensurdeceu as comunicações militares norte-americanas e terroristas num raio de 300 quilómetros a partir de um ponto a norte da cidade síria de Latáquia, através de um sistema de interferências que neutralizou as comunicações entre satélites, aviões, drones, bases militares – incluindo a de Incirlik, na Turquia, usada pela NATO – e esquadrões de blindados. Um golpe em cheio no sistema nervoso operacional atlantista. Dando agora uma expressão muito mais vasta à neutralização do destroyer USS Donald Cook, então em missão no Mar Negro no Outono de 2014, as interferências russas nas comunicações militares dos terroristas e seus patrões da NATO na Síria permitiram a Damasco reconquistar vilas e aldeias numa área de 300 quilómetros quadrados e protegeram as recentes incursões de aviões russos na Turquia, onde foram identificar os campos de treino de grupos terroristas, Estado Islâmico incluído. Percebe-se agora melhor a irritação de Ancara e Washington com essas operações.
Somado ao êxito dos disparos de 26 novos mísseis de tipo cruzeiro russos a partir do Mar Cáspio, com 100% dos alvos atingidos, o dispositivo de interferência nas comunicações accionado por Moscovo, capaz de paralisar um sofisticado exército desactivando-lhe o sistema nervoso, coloca novos dados nos mapas das guerras modernas, não apenas na Síria mas em termos globais. A NATO deixou de ser dona e senhora nos conflitos convencionais, e não apenas porque os seus tanques se atascam pateticamente em manobras intimidatórias nas areias das praias do Alentejo.
Posto isto, as botas americanas no teatro sírio valem o que valem em defesa do terrorismo, porque não se crê irem servir a legitimidade de Damasco. Daí que, em simultâneo, os Estados Unidos se vejam obrigados a apoiar a reactivação das negociações diplomáticas de Viena sobre a Síria, a desenvolver num quadro de respeito pelas resoluções da ONU sobre o Médio Oriente e não já, como pretendiam Washington e os aliados da União Europeia, sobre “a partida imediata de Assad”.
O Médio Oriente continua em convulsão, mas existem dados novos a induzir que as mudanças não se processam em sentido único, e a proporcionar oportunidades alargadas às vias diplomáticas. A relação de forças internacional altera-se.