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quarta-feira, 11 de novembro de 2015

UM TESTE À UNIÃO EUROPEIA


 

Depois da Grécia, e em condições com alguns pontos de contacto e abundantes dissemelhanças, Portugal está a deixar a União Europeia perante um novo teste ao conceito de democracia que pretende tornar único no universo dos 28 Estados membros. Na Grécia, por razões que agora não vêm ao caso uma vez que, como costuma dizer-se, “quem mora no convento é que sabe o que lá vai dentro”, os tecnocratas à solta em Bruxelas e que ninguém elegeu conseguiram fazer vingar as suas vozes de pequenos gauleiters do grande reich do mercantilismo.
Como será em Portugal no caso de os acordos estabelecidos à esquerda se transformarem num governo legítimo acima de qualquer suspeita, imaculado nos termos da mais elementar democracia?
Uma primeira dedução creio não levantar dúvidas. As afirmações de soberania popular contra a crueldade autoritária de Bruxelas começaram pelos dois países mais fustigados e destratados pela arbitrariedade austeritária. O que não acontece por acaso: os povos, por mais conformados que pareçam, não aceitam eternamente as cangas com que lhes carregam os corpos e, mais tarde ou mais cedo, lá chega o dia das surpresas.
Surpresas para alguns, sem dúvida: os partidos portugueses até agora governantes – e os seus gémeos em escala europeia - ainda não recuperaram do choque com o que lhes está a acontecer através da derrocada do “arco da governação”, erguido sobre caboucos de segregação e apartheid político que supostamente lhes outorgava o direito natural, quiçá divino, de governarem ad aeternum como se as eleições não passassem de pró-formas.
Agora, a maioria parlamentar portuguesa, unida em torno de objectivos muito claros e democráticos, propõe-se governar pondo as pessoas em primeiro lugar, privilegiando os direitos destas e não as supostas legitimidades dessa entidade arrogante mas volátil, cruel mas cada vez mais difusa conhecida como “mercado”. Nada, afinal, de muito surpreendente: a maioria parlamentar portuguesa limita-se a seguir os caminhos livres da democracia e a fazer funcionar a soberania do voto popular genuinamente expresso, tudo aquilo que Bruxelas, respectivos mentores e súbditos pregam mas não praticam.
De modo que a declaração de soberania que devolve a Portugal um orgulho e uma esperança que se julgavam perdidos vem questionar, no fundo, a essência actual da própria União Europeia, sobretudo a partir do momento em que instaurou a austeridade como política única a cargo de um sistema de falsificação da democracia através de um partido único com dois polos, o tal “arco da governação”.
O sr. Rajoy, um neofranquista que trata os povos do Estado espanhol como lacaios que o servem e à casa real, diz que “não gosta” do que acontece em Portugal. Em boa verdade, ninguém lhe pediu opinião, mas já que a dá serve para entender o espírito que percorre o espaço da União, provavelmente desde a Península até aos revanchistas fascistoides do Báltico, pequeninos mas com os dentes bem aguçados pelos donos em Berlim. Ao ponto de Bruxelas parecer mais incomodada com o governo que ainda não existe em Portugal e as suas previsíveis declarações de soberania perante os mercados do que com as preocupações da senhora Le Pen, aterrorizada com “a epidemia bacteriana da imigração”, isto é, as supostas doenças contagiosas trazidas pelos refugiados e que mancham a pureza sanitária dos franceses, um mal que ela promete erradicar se lhe entregarem os bastões governamentais.
De qualquer modo deixemos o teste no ar. O que mais tira o sono aos tecnocratas austeritários de Bruxelas? O eventual governo de esquerda em Portugal construído segundo as normas básicas da democracia e da soberania nacional? Ou declarações racistas e incendiárias, potencialmente pré governamentais, proferidas por uma dirigente política de um dos dois mais poderosos países da União que não esconde o seu programa fascista mas respeita sabujamente “o mercado”?
Creio que sabemos a resposta. Por isso a União Europeia deu no que deu.

sábado, 10 de outubro de 2015

NATO, JOGOS DE GUERRA, TERRORISMO E FASCISMO


 

NATO e Hungria vão tratar dos refugiados
A polícia de choque global, também conhecida por NATO, está numa fase das mais trauliteiras da sua história, superando os próprios e mais sinistros recordes, além de alargar o raio de acção em presença, eficácia, mobilidade e número de efectivos. Dos jogos de guerra no flanco sul, em áreas de intervenção às vezes também conhecidas pelas designações de Portugal, Espanha e Itália, agora considerados ainda mais importantes devido à “crise dos refugiados”, à proliferação de quartéis-generais em redor das fronteiras russas, ao reforço dos contingentes operacionais na Turquia ditado pelas operações russas contra os mais activos grupos terroristas, à multiplicação por três dos meios da “força de resposta” – A NATO nunca ataca, limita-se a responder – os gendarmes atlantistas não descansam na missão suprema, dir-se-ia divina, de preservar a democracia formatada pela ditadura financeira.
Numa comunicação feita há poucas horas, o social-democrata norueguês Jens Stoltenberg, destacado em funções de secretário-geral da aliança expansionista, anunciou que os efectivos da “força de resposta” vão ser aumentados para 40 mil apenas um ano depois de, em Gales, os expoentes doutrinários os terem fixado em 13 mil. O que mudou em menos de 365 dias exigindo esta ampliação exponencial? Stoltenberg respondeu por metade: o aparecimento da “crise dos refugiados”, decorrente das convulsões a sul “do nosso flanco sul”. Quanto à outra metade, o secretário-geral foi omisso, mas nem precisou de ser explícito. A Rússia é a Rússia e agora não lhe bastava ter a querida “democratização” da Ucrânia debaixo de olho como se atreveu a ir combater o terrorismo no Médio Oriente, esse mesmo terrorismo que a NATO enfrenta heroicamente – e com tanta eficácia que os resultados da “primavera árabe” são os que estão à vista de todos.
No quadro da nova situação provocada pela “crise dos refugiados”, uma tragédia humanitária que para os governos dos membros da NATO é assunto a tratar manu militari, a aliança decidiu criar mais dois quartéis-generais em países para lá da antiga “cortina de ferro”. Tratando-se de refugiados, a NATO não poderia ter escolhido melhor a localização das duas novas estruturas operacionais: a Hungria e a Eslováquia, onde dois governos fascistas tratam como terroristas os que fogem da guerra em luta pela sobrevivência. A intimidade da NATO com o fascismo não é de fresca data, não se evidencia apenas na Ucrânia, na Hungria, em Estados do Báltico. Ela foi inscrita no seu código genético ao ter como fundador – logo como grande defensor da democracia – o Portugal salazarento. Por isso, quando um nazi como Anton Gerashenko, conselheiro do ministério do Interior de Kiev, apela ao Estado Islâmico para combater os russos seja no Cáucaso seja no Médio Oriente, em nome da democracia e da sharia (vertente política da ortodoxia islâmica), mais não faz do que respeitar o espírito de missão dos tutores atlantistas. O mesmo Gerashenko que, poucos segundos depois da queda sobre a Ucrânia do avião que fazia o voo MH17, anunciou que fora derrubado por um míssil russo. Uma sentença que ficou como versão oficial, em que ninguém acredita mas prevalece, quanto mais não seja porque é a da NATO e o que a NATO diz não se discute.
Para os que não estar a par do afã expansionista – e defensivo, claro – da NATO lembro que os quartéis-generais na Eslováquia e na Hungria vêm juntar-se aos que já funcionam na Bulgária, na Estónia, na Letónia, na Lituânia, na Polónia e na Roménia, sem contar com o servilismo do governo de Kiev, o qual integra a aliança sem lhe pertencer. O cerco à Rússia é evidente, comprovando-se assim que a NATO é uma instituição de cariz absolutamente defensivo através do respeito estrito por aquela máxima que não é apenas futebolística: a melhor defesa é o ataque.
Por isso, uma nota também sobre os exemplos mais recentes das acções defensivas da NATO e respectivas consequências. Foi em actos de defesa pura que a NATO atacou o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e que desencadeou a guerra civil na Síria, tal como esfrangalhara a Jugoslávia. Então, quando o secretário-geral Stoltenberg se queixa da “crise dos refugiados” como resultante das “convulsões” no sul do “nosso flanco sul”, saibam todos que a NATO nada tem a ver com isso, apenas alarga a sua presença e reforça a sua eficácia para se defender do maldito e insidioso terrorismo, o qual a NATO nunca treinou e financiou, nem nunca foi, como agora também não é, seu aliado na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo…