pub

domingo, 31 de maio de 2015

BALSEMÃO, BARROSO & Cia


 

Anuncia a comunicação dita “de referência”, que nestas coisas do chamado arco da governação tem obrigação de saber do que fala, que o senhor Pinto Balsemão, luso-imperador da comunicação social com sotaque global do comendador Marinho, escolheu sucessor na comissão permanente do universo conspirador conhecido por Grupo de Bilderberg. E esse sucessor é: o inefável Durão Barroso, pois quem havia de ser? De conspirador militante anti-25 de Abril, via mrpp, a intérprete dos desejos dos barões da especulação financeira a quem foi confiado o cutelo da austeridade, passando por anfitrião da cimeira de grandes mentirosos que acelerou o caos em que se encontra o Médio Oriente, o seu currículo merece tão valiosa recompensa como insigne distinção. Barroso não passa apenas a fazer parte do núcleo dos grandes conspiradores que, numa clandestinidade aristocrática, definem como deve funcionar a “democracia transparente” em todo o mundo; assume também funções executivas, isto é, empunha o facho com a chama acesa entre conclaves anuais e, por inerência, convida os portugueses a quem serão atribuídas as missões estratégicas a desempenhar nos próximos tempos.
Esta interpretação de factos tão relevantes que aqui vos transmito emana, como não podia deixar de ser, dos sinistros antros da teoria da conspiração. O senhor Balsemão foi um corajoso dissidente do fascismo, até integrou a Ala Liberal, uma engenhosa manobra de regeneração do marcelismo através do manto diáfano da democracia para que o capitalismo continuasse a ser o que sempre foi; foi apanhada em contrapé pelos militares, é verdade, mas logo se recompôs reencarnando em forma PSD. O senhor Balsemão foi até primeiro-ministro durante a longa marcha contra a herança do 25 de Abril conduzida juntamente com o dr. Soares e o prof. Freitas, sob a batuta ágil e enérgica do embaixador Carlucci, para devolver o país à essência da Ala Liberal, que hoje tanto pode chamar-se ala neoliberal como arco da governação. No entanto, a vocação autêntica do senhor Balsemão é a propaganda, tendo encontrado no Grupo de Bilderberg o lugar certo para desempenhar a missão que lhe foi outorgada, com vantagens inegáveis para o próprio e quem o escolheu e danos vultosos para a democracia. Danos vultosos estes que não são colaterais, mas sim a essência dos objectivos a atingir.
Quanto ao senhor Durão Barroso, uma geração abaixo, é a sucessão natural do agora fatigado guerreiro Balsemão, merecedor de repouso e de uma enxurrada de condecorações. De feroz inimigo da “educação burguesa” traulitando a eito contra o 25 de Abril a enfático presidente da Comissão Europeia com um pé ou os dois sempre em Washington – lembre-se a cruzada pelo “acordo de comércio transatlântico” lançada a todo o gás e com as urgências máximas no último ano do seu mandato - ele tem energia, contactos e experiência para dar e vender nos areópagos da conspiração mundial. Parece ser o homem certo no lugar certo porque nos últimos anos poucos dirigentes políticos têm conseguido ser tão eficazes contra a democracia e os direitos humanos em nome da democracia e dos direitos humanos. O senhor Barroso – há que reconhecer-lhe esse talento - tem o savoir-faire, a intrepidez e a flexibilidade de manobra fundamentais para executar missões e trabalhos de sapa encomendados pelos padrinhos, que assim conservam as mãos limpas e impolutas. Das Lages ao desempenho à cabeça da Comissão Europeia não faltam exemplos ilustrando uma tal vocação que lhe vem da meninice e à qual soube puxar o lustro exigido pela elegância da especulação financeira.
Neste mês de Junho, que promete ser quente, dar-se-á a passagem do testemunho de Balsemão para Barroso em mais um conclave anual de Bilderberg. Com as ondas de choque do acordo entre os Estados Unidos da América e o Irão no horizonte, os magnatas, generais, barões da propaganda, super-espiões, estrategos, ex-governantes, imperadores das telecomunicações vão formatar os acontecimentos do próximo ano e daí canalizarão as ordens a cumprir pelas múltiplas versões de arco da governação implantadas através do globo. Lá estarão também os portugueses, escolhidos quiçá a quatro mãos por Balsemão & Barroso, para serem instruídos nas missões a desempenhar, sejam quais foram os resultados das eleições, para que a lusitana versão do arco da governação prossiga no caminho em que deve prosseguir para que os ricos sejam cada vais mais ricos e os pobres cada vez mais pobres e mais numerosos.
Interpretação esta que não passa, como sempre, de mal-intencionada teoria da conspiração.
 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

OS SINAIS DE ESPANHA



As eleições autonómicas e autárquicas em Espanha, apesar de serem consultas com características próprias e muito associadas a situações, conjunturais ou não, de índoles local e regional, traduziram uma realidade que salta aos olhos: grandes massas de cidadãos declararam-se saturados com a política bipartidária amarrada a uma estratégia única do capitalismo neoliberal.
Esta é a realidade envolvente, traduzida directamente no facto de o Partido Popular, a face governamental nos últimos anos, ter sido castigado, e a face “alternante”, o PSOE (socialistas), não ter recolhido a fatia mais grossa do chamado “desgaste do poder”.
Em regra, porém, as massas descontentes, não procuraram as forças políticas tradicionais do exterior do “arco da governação”, pelo contrário, castigaram-nas igualmente, ainda que em menor escala, e optaram por movimentos novos nascidos da mobilização aparentemente espontânea dos cidadãos. Movimentos que têm a sua génese no descontentamento com a política em geral, englobando nesta responsabilização todas as organizações que, governando ou na oposição, têm figurado nas sucessivas listas de escolha apresentadas aos eleitores.
Os “cidadãos”, conceito que por esta via adquiriu uma conotação basista, próxima da democracia pura e directa, surgiram assim como um prometedor horizonte a todos os que se declaram “fartos da política”, “cansados dos partidos”.
Uma fadiga que tem a sua razão de ser nas consequências das práticas governativas e que acaba por atingir os que têm as mãos limpas, procuram seriamente outros caminhos não testados e, sobretudo, têm propostas e uma consistência política que não estão ao alcance do voluntarismo inconsequente que espreita por detrás dos “cidadãos”.
No caso espanhol é natural o enorme cansaço dos eleitores perante as manigâncias constantes, independentes ou em conjugação, dos neofranquistas do PP e dos socialistas, desde a corrupção por atacado, à mentira como meio de fazer política, à subserviência perante os desmandos da casta monárquica, à obediência aos agentes internos e externos da especulação financeira.
O facto de a procura de alternativa ter favorecido agora os “cidadãos”, em detrimento de organizações do exterior do arco da governação é compreensível à luz do tal “cansaço” com os partidos, mas traz perigos ainda mal medidos. Em Espanha há “cidadãos” e cidadãos”. Há os “Ciudadanos”, entalados entre os neofranquistas e os socialistas que mais não são do que a versão populista da mistura destes dois, mais um segmento do arco da governação aliás namorado em permanência pelos socialistas.
E há o Podemos, que mal contados os votos estava a lançar pontes para os socialistas contra os neofranquistas – nada de estranho afinal, como muito bem sabemos eles andam aí, pululando como papoilas saltitantes, em busca das suas cadeirinhas governamentais.
O Podemos é ainda uma massa informe, que vai largando aos poucos o lastro que lhe vem agarrado das manifestações de massas contra a austeridade, contra as ingerências externas, ancoradas num descontentamento compreensível contra a prática política mas, repete-se, metendo no mesmo saco do repúdio quem deve e não deve lá estar.
Sobre os perigos que o Podemos e afins podem conter em si próprios não tarda que o tempo se pronuncie. Mas existe ainda tempo antes do tempo: aquele que está a ser aproveitado já pelo arco da governação para, num pretenso e democrático desejo de fazer a vontade aos “cidadãos”, alterar as leis eleitorais para, no fundo, perpetuar o poder do arco da governação polvilhado aqui e ali com cidadãos que lhe reforcem a legitimidade dita “democrática”.
Dentro de si, o Podemos mistura descontentamentos e, quiçá, oportunismos. A política é muito mais do que isso. É consistência para desmontar e desmascarar os que a desvirtuam e criar alternativas que funcionem. De Espanha chegaram sinais: creio que é necessário lê-los com objectividade e, sobretudo, sem ilusões e libertos das dicas envenenadas semeadas através da propaganda social.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

COMO A CIA FALHOU NA MACEDÓNIA


O embaixador dos Estados Unidos com Fadil Fejzullahu, um dos terroristas mortos na intentona (Reseau Voltaire)
O golpe de Estado da CIA previsto para o passado dia 17 na Antiga República Jugoslávia da Macedónia foi desmantelado pelas forças governamentais quando já estava em andamento. É a segunda tentativa de mudança de regime fracassada pela ponta de lança do terrorismo de Estado norte-americano nos últimos meses, depois de o governo venezuelano ter feito abortar uma intentona fascista. Apesar dos insucessos, os acontecimentos revelam que as décadas passam e os Estados Unidos da América continuam a praticar a política de não olhar a meios para atingir os fins – instalar os seus agentes à cabeça de governos onde quer que seja.
O secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, lamentou os acontecimentos na Macedónia e pediu uma investigação “transparente”. Aqui se registam alguns dados já confirmados, num quadro de rigor e transparência. No dia 17 de Maio esteve prevista em Skopje, capital da Macedónia ex-jugoslava, uma manifestação da minoria albanófona na qual seriam distribuídas duas mil máscaras entre os participantes, a entregar pelos organizadores, o Partido Social Democrata de Zoran Zaev. Durante o desfile, alguns desses mascarados atacariam edifícios de várias instituições e tentariam provocar uma “revolução” inspirada nos acontecimentos na Praça Maidan e que deixaram a Ucrânia no estado saudável em que se encontra.
O golpe falhou porque os serviços governamentais macedónios conseguiram deter, em 11 de Maio, a infiltração do comando terrorista que, sob o disfarce das máscaras, iria lançar os ataques durante a manifestação. Todos os principais chefes do comando foram figuras destacadas do UCK, o grupo terrorista islâmico e albanófono a quem a NATO e a União Europeia entregaram o território do Kosovo arbitrariamente amputado à Sérvia. Um dos comandos foi identificado como sendo Rijai Bey, antigo membro da segurança de Ramush Haradinaj, traficante de drogas, antigo chefe militar do UCK e ex-primeiro ministro do Kosovo. Haradinaj compareceu duas vezes perante o tribunal dos crimes na antiga Jugoslâvia e foi absolvido em ambos os casos: durante os processos foram assassinadas nove testemunhas consideradas fundamentais.
A infiltração foi contida pelas forças governamentais durante um confronto no qual morreram 14 terroristas e oito membros dos serviços macedónios. Salomonicamente, o secretário-geral da NATO manifestou “simpatia” pelas famílias de todas as vítimas, abstendo-se de condenar o terrorismo e de manifestar apreço pelo facto de a legitimidade governamental ter prevalecido.
Porém, Washington e o seu embaixador em Skopje, Paul Wohlers, não vão desistir porque na Macedónia se joga também a guerra energética declarada contra a Rússia.
O expansionismo albanês na região, com o apoio da NATO e da União Europeia, é um combustível importante para objectivos como este. O mapa da Grande Albânia, com a integração do Kosovo e de parte da Macedónia, continua afixado nos gabinetes dos chefes de Tirana. Trata-se de uma estratégia a prazo e que, neste caso, serviu interesses mais imediatos. Através do golpe, de que já tinha havido sinais em Janeiro, os Estados Unidos tentaram frustrar a concretização do gasoduto alternativo ao South Stream, que Washington sabotou ao forçar a Bulgária a retirar-se.
Putin não desistiu e em Dezembro do ano passado convenceu a Turquia de Erdogan a colaborar numa alternativa; seguiu-se o acordo do novo governo grego de Tsipras e da Macedónia, negociado em Março. A Sérvia decidiu transitar do falhado South Stream para a nova alternativa e, com isso, passou a sentir os efeitos de novas pressões pela secessão da Voivodina. O novo projecto de gasoduto permitirá à Turquia distribuir gás russo através da Europa, contornando o embargo internacional decretado pelos Estados Unidos. Percebe-se pois, como absoluta “transparência”, talvez não a desejada pelo senhor Stoltenberg, onde queria chegar o “mundo civilizado” com esta tentativa de golpe na Macedónia. Outros capítulos se seguirão pois se dizem que Deus não dorme, Washington também não.
 

domingo, 24 de maio de 2015

QUE FUTURO PARA OS DIREITOS HUMANOS?




 

O meu querido amigo Assírio Bacelar convidou-me a reflectir um pouco para a chancela “Nova Vega” sobre o estado universal dos direitos humanos, já que tanto deles se fala, fazendo parte do menu obrigatório dos discursos dos dirigentes mundiais. Uma reflexão com olhos postos no futuro, pelo que me pareceu óbvio tomar como base uma enumeração dos direitos humanos reconhecidos universalmente como tal, observar o que em torno deles se passa na actualidade e, a partir daí, de acordo com as relações de força dominantes no mundo, tentar antever a sua evolução. Nada de feitiçaria ou adivinhação mas apenas, e tão só, um assentamento de pistas para reflexão com base em dados sobre de onde se partiu e onde estamos. Exercício aterrador, acreditem
Comecei por ir à fonte natural, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, o primeiro documento do género estabelecido à escala planetária, onde foram apostas as assinaturas dos países então existentes e cuja aceitação passou a ser uma condição para que cada novo Estado independente seja admitido nas Nações Unidas. Uma leitura elucidativa: como se o tempo estivesse à espera de poder mover-se, preso num magma de ideias e conceitos que os mais relevantes dirigentes mundiais aceitam e dizem aplicar, embora muitos deles se recusam a passa-los à prática, considerando-se a si mesmos os mais respeitadores dessas normas. Capazes até de fazer guerras e matar seres humanos em nome dos direitos humanos.
Sabem que o direito à vida é um direito humano, talvez o mais sagrado de todos eles? Que o direito à saúde universal e à educação, gratuita pelo menos nos primeiros quatro anos de escolaridade, são direitos humanos? Que o direito ao trabalho, à segurança social, a uma habitação decente, a um salário razoável capaz de garantir a subsistência digna das famílias são direitos humanos? Que a liberdade de expressão, mas também a de informar e ser informado e o acesso à cultura são direitos humanos? Que a comunicação quotidiana na língua materna, o acesso a uma pátria, a igualdade absoluta de direitos independentemente do género, opção sexual, raça, religião (ou não), etnia, lugar de nascimento e bens pessoais são direitos humanos? Que a preservação da privacidade pessoal e familiar são direitos humanos? São direitos humanos reconhecidos há quase 70 anos e que, na sua maioria e em muitos lugares do mundo, nunca saíram do papel. Sendo que, em circunstâncias que infelizmente não são raras, alguns que ganharam vida logo começaram a sofrer ataques para baterem em retirada.
Pois é, estes e outros direitos fundamentais têm as raízes na necessidade de garantir a dignidade de Ser Humano. No entanto, olhando em volta o que vemos? Todos os direitos humanos elencados na Declaração se tornaram subsidiários de um único, também aí citado: o direito à propriedade. Continuando ainda a olhar em volta, observando o drama que atinge os pequenos e médios empresários, os milhões de “empreendedores” que lutam pelo sustento em todo o mundo, o que vemos? Que todos os direitos humanos, incluindo os destes últimos, se vergam ao direito de uns quantos à grande propriedade. Fazem-se guerras para impor que assim seja, matam-se milhões de pessoas para que a especulação seja livre, condenam-se centenas de milhões de seres humanos à fome eterna, ao analfabetismo e a todas as velhas e novas doenças para que o mercado seja soberano, enfim livre.
No estado actual, os direitos humanos emanentes do Ser devem, pois, obediência aos direitos emanentes do Ter. E quando o Ser se submete ao Ter, o Ser Humano torna-se um actor secundário – um servidor - perante a arbitrariedade do lucro.
Os mais influentes dirigentes mundiais evocam e invocam os direitos humanos a todo o momento enquanto os desrespeitam; recorrem também a um descomunal e censório aparelho de propaganda capaz de encobrir e manipular actos que representam uma devastação dos direitos humanos fundamentais cometida, de facto, em favor do mais hipócrita de todos eles, o direito à especulação e à exploração.
Destas ideias nasceu um pequeno livro: O Futuro dos Direitos Humanos. Escrevi-o com o intuito de abrir pistas de reflexão e já está nas livrarias. Porém, se ficaram interessados/as convém pedi-lo expressamente – lê-se depressa e tem um preço módico – porque o tema é daqueles que “não vende” e por isso está condenado a ficar soterrado nas prateleiras e escaparates onde impera a lei do lucro. Ignorado, afinal, como os direitos humanos. Sinais do regime.



Encomendas:

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O AMBIENTE DENTRO DA NATO É DE CORTAR À FACA


 
Acreditem que não exagero. No Quartel-General da NATO, em Bruxelas, o ambiente é de cortar à faca. Os políticos queixam-se dos militares e os generais estão com vontade de engolir vivos alguns políticos, com gravata e tudo, sendo Obama e John Kerry os primeiros da fila.
Lá para as bandas de Moscovo, caso saiba deste estado de espírito, e podem crer que sabe, quem dá gargalhadas sonoras é Vladimir Putin. A seriedade e o respeito histórico com que assinalou o 70º aniversário da rendição da Alemanha nazi devolveram-lhe trunfos internacionais com uma rapidez que talvez o surpreenda: a mesquinhez, a mistificação da realidade histórica e o culto da própria insanidade que guiaram os dirigentes norte-americanos e da Europa Ocidental nestes dias funcionaram como tiros nos pés de tal maneira eficazes que Putin e os que com ele estiveram a assinalar o Dia da Vitória nada mais tiveram que fazer do que ser fiéis ao espírito da data.
No Quartel-General da NATO, em Bruxelas, generais e muitos diplomatas não se conformam com as “reviravoltas” de Obama. “Obrigou-nos a fazer de conta que a Europa Ocidental teria derrotado Hitler mesmo que o Exército Vermelho não tivesse dado cabo da Wermacht, sabendo nós que isso é uma impossibilidade e uma falsificação da História, e logo a seguir manda Kerry pedir a Putin que colabore o mais depressa possível numa solução pacífica para a Ucrânia, como se não tivéssemos andado nos últimos 14 meses a alimentar grupelhos nazis na Ucrânia servindo de iscos para colocarmos a NATO em peso nas fronteiras da Rússia”, afirma um general, off the record, como compreenderão e num vernáculo que aqui se atenua um pouco. “Isto não é política, isto não é uma estratégia, é uma deriva”.
O que mudou nesse Dia da Vitória e que fez Obama mandar o seu secretário de Estado mendigar a Putin que o recebesse? Entre os generais que se cruzam em Bruxelas correm comentários pouco abonatórios para com o presidente dos Estados Unidos, à mistura com dichotes que soam a piadas de caserna.
“Obama acobardou-se com o desfile na Praça Vermelha”, garante o mesmo general. “E não é apenas porque ao lado de Putin esteve o presidente chinês enquanto à frente deles desfilavam armas que são para levar muito a sério”, acrescenta. “O facto de aquele desfile ter demonstrado a possibilidade de se juntarem militarmente os países mais extensos e populosos do mundo como são a China, a Índia e a Rússia assustou Obama”, disse o general, “fê-lo sentir a urgência de apostar tudo na sua estratégia de pivot asiático”.
Para isso é preciso dar parcialmente o dito por não dito na Ucrânia, envolvendo Putin na estabilização do país – isto é, passando a parceiro ocasional em vez de adversário a abater; e de tirar o mais depressa possível o proveito desejado do acordo com o Irão, a entrar em vigor em 30 de Junho, de modo a que grande parte do esforço militar norte-americano no Médio Oriente seja transposto para o Extremo Oriente.
O que provoca o mal-estar nas cúpulas da NATO não é tanto a correcção de rota que Obama e o Pentágono tentam fazer, mas sim a confirmação da advertência que muitos militares europeus fizeram em tempo útil de que o golpe e as medidas tomadas na Ucrânia estavam erradas de uma ponta à outra. Sendo que agora é muito mais difícil corrigir o erro, mesmo que haja vontade disso – o que não está ainda absolutamente garantido. “Soltaram-se os cães selvagens quando teria sido muito mais ajuizado não os ressuscitar”, diz-se em pleno Quartel-General da NATO.
 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

FRANÇA, ESTADO POLICIAL


 
Depois da aprovação da nova lei de espionagem interna (e externa) no passado dia 5, a França governada pelos socialistas não necessita de fascistas para nada, pode expedir a senhora Le Pen, família e respectiva corte para a Ucrânia, por exemplo. Desde esse dia, e a não ser que o Conselho Constitucional trace um X gigantesco e a vermelho sobre esta “lei celerada”, como é conhecida nos meios democráticos, cada cidadão francês, ou mesmo cada estrangeiro que pise solo gaulês ou se atreva a navegar pela internet, é um potencial terrorista e, no caso provável de ser capturado por uma qualquer das muitas sondas comportamentais que os serviços de espionagem aplicam por atacado, terá enorme trabalheira para justificar que não o é.
 
Através da nova lei das informações, aprovada no Parlamento por 438 votos contra 86 (um número de opositores que, pela sua insignificância, já foi comparado à capitulação em 1940 através da entrega de plenos poderes ao general Pétain), os serviços de espionagem franceses vão dispor dos resultados de uma vigilância organizada e em massa com recurso aos meios convencionais e aos mais avançados equipamentos tecnológicos. Uma ofensiva global contra os direitos humanos, porque aplicada à margem das instituições de controlo judiciário e democrático, na maioria dos casos relegadas para papéis a posteriori em função de alegados procedimentos “de urgência”, digamos, de oportunidade.
Tal como os Estados Unidos da América deram asas à vigilância universal através da NSA, desenvolvida à luz da “Lei Patriótica” nascida com o 11 de Setembro de 2001, os socialistas franceses tiraram da cartola a sua “lei patriótica” e o estilo NSA dois meses depois do ainda muito mal explicado (em termos de falhanços dos serviços secretos, por exemplo) atentado contra o Charlie Hebdo.
A nova lei visa combater o terrorismo; por isso, tudo o que se diz sobre vigilância em massa é abusivo, explicam genericamente os autores e defensores da lei. “Descobrimos que umas coisas, umas máquinas chamadas algoritmos, podem ir ver se há ou não terroristas que utilizam as nossas comunicações criptografadas, e como não havia lei para enquadrar essa actividade” ela aí está, explicou François Hollande, o Presidente da República, dirigindo-se aos concidadãos como se fossem imbecis.
Qual é o “interesse público” definido pela nova lei como suporte para a acção dos espiões? Segurança nacional; salvaguarda dos elementos essenciais do potencial científico e económico de França; prevenção do terrorismo, criminalidade e delinquência organizados; reconstituição ou manutenção de grupos dissolvidos; prevenção da violência colectiva; defesa e prevenção dos interesses da política externa francesa. Imaginar um comportamento que não seja passível de caber neste menu, sobretudo conhecendo-se o enviesamento em que os espiões são peritos quando agem sem controlo, é pior que descobrir agulha em palheiro.
O esqueleto do projecto de lei é da autoria de um deputado socialista, Jean-Jacques Urvois, que não esconde a sua repulsa pelo norte-americano Edward Snowden, “um idiota útil ao serviço de grupos terroristas”. Além do primeiro-ministro Manuel Valls, outro dos grandes defensores da lei no Parlamento foi o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve. Em sua opinião, a lei é perfeita, não tem os defeitos que lhe apontam e não atenta contra a privacidade dos cidadãos. “A vida privada é outro assunto, não se trata de uma liberdade individual”, assegura este ministro, que continua no cargo apesar de se terem provado as suas mentiras a propósito do assassínio pela polícia de um manifestante contra a devastação de uma floresta.
Marc Trevic, um renomado juiz antiterrorista, desmonta os argumentos governamentais. “Não é uma lei antiterrorista”, garante. “Abre caminho à generalização de métodos intrusivos fora do controlo dos juízes judiciários, os garantes das liberdades individuais no nosso país”.
Que métodos intrusivos? De tudo um pouco. Escutas telefónicas comuns segundo procedimentos “de urgência” que escapam ao controlo das entidades judiciárias; distribuição pelos espiões de gadgets muito na moda nos Estados Unidos, como as “dirtboxes” ou “Imsi-catchers”, malas de dimensões insuspeitas que captam as comunicações móveis num raio de muitos metros em redor através da detecção dos dados dos cartões SIM e dos próprios telefones; perseguição através dos dados GPS de cidadãos que sejam detectados por quaisquer das sondas de vigilância instaladas em escala industrial pelos vários serviços de espionagem; vigilância generalizada da internet através da recolha de dados pessoais e das conexões entre internautas junto dos operadores dos serviços; instalação de tecnologia de vigilância nas empresas fornecedoras de acesso à internet e nas empresas de telecomunicações, imposição que tem suscitado protestos destas contra o facto de serem obrigadas a aceitar equipamentos que lhes são estranhos.
O sistema proporciona, portanto, uma recolha aleatória e em massa de dados pessoais e de instituições, que confluem para uma imensa “caixa negra” de que os serviços de espionagem se servem a seu belo prazer. Assim nasce o Estado policial francês, asfixiando o Estado de Direito.
O passo é de tal maneira grave que esta lei seria “inimaginável” na Alemanha, opinião compartilhada entre sectores da oposição e meios afectos à própria chanceler Merkel. “Inimaginável” na Alemanha; e em outros países europeus, sempre tão inclinados a fazer gato-sapato da vida privada do cidadão? Provavelmente poderão ser “imagináveis”, quando o mau exemplo está dado, é tentador e parte de uma das “locomotivas” da União Europeia, aliás bastante ronceira - o que não vem ao caso.
 

domingo, 17 de maio de 2015

AS “REFORMAS” NA UCRÂNIA ESTÃO EM BOAS MÃOS


 

Um ex-ditador fugido à justiça e um senador norte-americano ao mesmo tempo conselheiro do grupo de assassinos designado Estado Islâmico são as novas aquisições da equipa de conselheiros do chefe da junta ucraniana para as “reformas”. O foragido foi até elevado à posição de chefe do grupo, provavelmente porque o senador não terá disponibilidade integral devido aos seus múltiplos afazeres, o mais importante dos quais é transformar a Síria em qualquer coisa que se pareça com a Líbia actual.
Mikhail Saakashwilli, o antigo ditador da Geórgia, fugido à justiça no seu país e agora refugiado em Kiev, para não ter de enfrentar acusações de alta corrupção e de ataques a tiro contra manifestações democráticas, é um daqueles casos – cada vez mais frequentes sobretudo no Leste da Europa – de não se saber de que terra é, embora seja seguramente norte-americano, tal como a presidente da Croácia, a ministra das Finanças da Ucrânia, por exemplo. A exportação de agentes governamentais começa a consolidar-se como estratégia imperial.
Como existe acordo de extradição entre a Ucrânia e a Geórgia, o governo de Tblissi pediu a Kiev a captura e o envio do trânsfuga; mas como a junta ucraniana o que mais preza é a justiça, indeferiu a solicitação, certamente por considerar que o oligarca Poroshenko, a exercer funções de chefe de Estado, deposita muitas esperanças na capacidade “reformadora” do recomendado Saakashwilli.
Um pequeno parêntesis para recordar que o antigo ditador georgiano se distinguiu por mandar atacar a Ossétia do Sul sob administração russa enquanto decorria a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, acusando depois Moscovo de ter ordenado o assalto. Deu-se mal, mas ficou a perceber-se o seu conceito de “tréguas olímpicas”.
Quando ao senador norte-americano associado às “reformas” ucranianas é o ex-candidato presidencial John McCain, um verdadeiro cruzado globetrotter, também conhecido pelos seus laços íntimos com o terrorismo islâmico, uma espécie de controleiro ao serviço da CIA e do Pentágono e que tem no círculo de contactos o próprio chefe do Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh.
A chancela de McCain ficou inscrita, aliás, nas origens da “nova” Ucrânia, pois esteve ligado ao golpe que levou a junta fascista ao poder, articulando tarefas com a subsecretária de Estado Victoria Nuland e o embaixador norte-americano em Kiev, Geoffrey Pyatt. Para a história ficaram os registos telefónicos nos quais Nuland explica a Pyatt quem são “os nossos homens” a instalar no governo – e eles lá entraram e lá continuam – e o aconselha a (to) “fuck the EU” (União Europeia). Apesar deste elegante tratamento da subsecretária, e que na altura suscitou alguns protestos nas chancelarias, a União Europeia continua a sustentar as manobras da senhora Nuland – um produto Bush-Cheney – e de McCain para que o regime nazi se consolide em Kiev sob a capa de democracia. Manobras essas que incluem agora a reabilitação do foragido Saakashwilli, há muito um agente provocador integrado na estratégia de Washington contra a Rússia.
Sobre o espírito das “reformas” a desenvolver pelo clã “reformador” que ampara Proshenko não seriam necessárias muitas explicações, os currículos dos envolvidos e a estratégia da junta nazi de Kiev falam por si. McCain, porém, não deseja que fiquem dúvidas nos espíritos seja de quem for. Assumindo desde logo e em pleno as funções de conselheiro, o senador recomendou a Poroshenko que não respeite os acordos com os representantes do Leste do país por ele assinados em Minsk, porque “consolidam os ganhos adquiridos pela agressão russa”. Sem surpresas, com tais “reformadores” a Ucrânia vai de mal a pior.
 

sábado, 16 de maio de 2015

OBAMA REUNIU A CIMEIRA DOS DITADORES


 

O presidente dos Estados Unidos da América, o democrata Barack Obama, organizou e acolheu em Washington, durante esta semana, uma cimeira dos ditadores reunidos numa mafia militar e agressiva disfarçada sob a inofensiva designação de Conselho de Cooperação do Golfo. Organização essa que mais não é do que uma tropa de choque ao serviço da política expansionista da NATO em situações específicas do Médio Oriente, vide os casos do Bahrein, da Líbia, da Síria.
O desejo do presidente dos Estados Unidos da América, a potência mundial que organiza mais guerras para distribuir a democracia, teve de encontrar os chefes da Arábia Saudita, Bahrein, Koweit, Omã, Qatar e Emirados Árabes Unidos foi tanto que ignorou a desfeita que os padrinhos sauditas lhe fizeram. O rei não se deslocou e enviou os seus ministros do Interior e dos Negócios Estrangeiros em sinal de desprezo pelo facto de Obama estar a negociar com o Irão um acordo sobre a questão nuclear. Como se percebe por este assunto, as convergências entre o regime terrorista da Arábia Saudita e Israel são cada vez mais evidentes e nem sequer poupam Obama, principal aliado comum.
Pois Obama organizou a cimeira desta boa e recomendável gente para quê? Para lhes pedir que respeitem os direitos humanos nos seus países? Para evitarem, por exemplo, situações digamos, incómodas, como a de os carrascos sauditas estarem a chicotear publicamente um blogger por exercer a liberdade de expressão ao mesmo tempo que Riade se fazia representar a altíssimo nível na manifestação em Paris contra os atentados no Charlie Hebdo? Para solicitar explicações aos representantes sauditas sobre a lamentável coincidência de 15 dos 19 acusados de sequestro dos aviões do 11 de Setembro de 2001 terem partido da Arábia Saudita? Para recomendar ao chefe do Qatar, e também aos outros convidados, que acabem com o trabalho escravo dos imigrantes nos seus países? E, já agora, para sugerir que as tropas sauditas se retirem do Bahrein, onde entraram em 2011 para esmagar em sangue a “primavera árabe” e se esqueceram de sair? Para instar os seus hóspedes a deixaram de montar e financiar grupos terroristas (do treino trata ele), cujos expoentes máximos são hoje o Estado Islâmico e a Al Qaida? Para lembrar ao Conselho de Cooperação do Golfo que deve evitar as chacinas de inocentes no Iémen, no Iraque, na Líbia, na Síria? Para solicitar a tão prodigiosos machões o incómodo de concederem direitos às mulheres dos seus países?
Na verdade, ao que consta, alguns desses assuntos estiveram na agenda durante os dois dias de aturados e extenuantes trabalhos, embora abordados numa perspectiva da convergência de interesses, pondo de lado as críticas, sempre tão destrutivas quando se trata de ditaduras. Privilegiaram-se, pois, os pontos em comum para que a atmosfera fosse construtiva, como o soberano saudita desejaria, por certo, apesar da ausência.
Sabe-se também que o presidente dos Estados Unidos da América chamou a fina flor das petroditaduras mundiais para lhes garantir que qualquer que seja o acordo a estabelecer com o Irão ele nunca prejudicará os interesses dos seus países, nem os bons negócios bilaterais e multilaterais existentes. Ou seja, nos próximos quatro anos a ditadura saudita poderá comprar pelo menos tantas armas norte-americanas como no quadriénio findo, negócio que envolveu uma conta calada de 90 mil milhões de dólares. Ao dar esta garantia, Obama solicitou aos visitantes que tenham cuidado para que a situação no Iémen não promova uma alteração dos mapas do Médio Oriente, a não ser que tudo possa enquadrar-se nas alterações que nos últimos anos, e ao compasso de várias guerras, os Estados Unidos e Israel estão a conduzir para que o Médio Oriente tenha um novo mapa. Uma carta capaz de acabar com os anacronismos mas salvaguarde a proveitosa e jamais questionável convergência de interesses entre Washington, o regime israelita e esse farol da democracia nas arábias que é o Conselho de Cooperação do Golfo.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

NAKBA


 
 
Nakba, palavra árabe que significa catástrofe, começou há 67 anos e ainda não acabou. É o holocausto de todo um povo, o povo da Palestina, cometido sem parança pelas décadas fora e vitimando já milhões de seres humanos através de perdas de vidas, bens, raízes, em suma, dos direitos humanos fundamentais.
Há 26 anos, no campo de refugiados palestinianos de Deishe, nos arredores da cidade de Belém, um homem com mais de 80 anos, o patriarca de uma família que nos acolheu por umas horas, ausentou-se sem darmos por isso. A grande actriz Maria de Céu Guerra lembrar-se-á por certo deste episódio, porque também fez parte dele e quem o viveu jamais poderá esquecê-lo. Quando o homem reapareceu trazia em cima de uma almofada uma chave enorme, daquelas que rangem nas fechaduras antigas das memórias das nossas aldeias. Mostrou-nos e explicou: era a chave da casa onde nascera, no princípio do século, na cidade de Yaffa, à beira do Mediterrâneo. Em 1948 ele e a família tiveram de fugir devido à violência de grupos terroristas e militares hebreus. Desses tempos guardava um sonho, o de voltar a usar a chave para abrir a porta de sua casa e o de tornar a sentir o cheiro da figueira do pequeno quintal, que então já só existia na sua memória como uma saudade embrulhada em nostalgia e enrugada pelo tempo. Nunca mais soube desse homem, que pela lei da vida não está entre nós. Levou consigo o sonho, porque os jovens da família, em omissão piedosa, lhe esconderam que nem casa nem figueira existiam mais. A gente selecta da cidade de Telavive que, sobretudo aos fins-de-semana, usufrui daqueles subúrbios agora chiques, jamais terá sabido da existência daquele velho, daquela família, da velha casa, da idosa figueira.
Porque ouvi um dia ao grande e corajoso jornalista israelita Gideon Levi, num encontro em Copenhaga, esta confissão: “vivemos a menos de 30 quilómetros de um outro povo, dos nossos vizinhos, e não o conhecemos, não sabemos quem são, o quanto lhes negamos”.
É assim a Nakba, a catástrofe. Um povo espoliado das suas vidas, dos seus bens, das suas aldeias e cidades pela violência, a arbitrariedade, a ira, a ganância de uma casta que, dizendo-se iluminada e portadora de mandatos divinos, se auto proclamou representante de um outro povo, manchando e ultrajando a memória das vítimas de uma outra catástrofe, o holocausto cometido pelos nazis.
A Nakba é uma limpeza étnica permanente, sistemática, cometida por quem tem a noção absoluta do que está a fazer, isto é, a substituição metódica, fria, de um povo por outro com base em ordens divinas que, em boa verdade, deus algum que hipoteticamente exista pode emitir porque a Nakba é coisa de homens sem escrúpulos, sem alma, sem uma réstia de sentimentos, como um qualquer carrasco de um campo de concentração nazi.
Uma limpeza étnica cometida, hora a hora, dia a dia, ano a ano, sob os olhos complacentes e colaborantes dos senhores que exercem o seu domínio sobre o mundo, chamem-se Estados Unidos da América, União Europeia e outros entes tão bem falantes quão mentirosos, que por isso se equiparam aos que praticam a chacina.
O drama é nosso contemporâneo, contudo não é gritado nas primeiras páginas dos jornais, gorjeado pelas vedetas das TV’s, cantarolado ante os microfones das rádios, e quando há excepções – porque as há – reconheçamos a coragem, a verticalidade, o bem da honra de quem as assume.
O drama é nosso contemporâneo. Não é obra do povo hebreu; não é obra dos povos dirigidos pelos cúmplices dos que se dizem condutores do povo hebreu. Saibamos distinguir os responsáveis e as responsabilidades para que venha a ser feita justiça.
Porque justiça terá de ser feita, se justiça ainda existe. A Nakba existe; é um crime contra a humanidade.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

AS SONDAGENS NUNCA SE ENGANAM


 
 
É oficial. Analisados ao mais ínfimo pormenor os dados das últimas eleições britânicas, por sua vez cruzados com actos eleitorais anteriores, por sua vez lidos em conjunto com previsões em desenvolvimento sobre as próximas consultas no espaço europeu, surgiu um axioma, digamos mesmo um dogma: as sondagens nunca se enganam. São mais ou menos como as estatísticas do crescimento económico, do desemprego, da confiança dos consumidores, do clima empresarial, do barómetro das famílias, do número de espirros por pessoa por minuto, mas ainda mais firmes, mais absolutas. Fixem bem: as sondagens nunca se enganam.
Quem pode enganar-se são os eleitores, o que é, no fim das contas, o mais natural. Errar é humano, não é? Já as sondagens, ancoradas no que há de mais avançado na ciência, na sociologia, na tecnologia, na politologia, na geopolítica, nos ciclos de humores comportamentais do arco da governação, não erram. Pura e simplesmente porque não existe hipótese de erro. Por isso são comentadas, interpretadas, expurgadas, analisadas como se representassem a vontade dos eleitores, o que, como se percebe, tem um efeito pedagógico e cívico insubstituível, porque os eleitores ficam a saber não apenas como se comportam mas como devem comportar-se quando forem chamados às urnas.
Acresce, para quem não está ao corrente destes delicados circuitos da moderna democracia, que os ciclos virtuosos formados pelas entidades sondadoras, as agremiações com vocação governativa e os deuses manes da comunicação traduzem como nenhuma outra conjugação o sentir, o pulsar da sociedade, os seus interesses e comportamentos, detectando e eliminando à nascença a margem de erro induzida pelo factor humano.
Poderá argumentar-se que neste ciclo virtuoso podem surgir conflitos de interesses, ou até comportamentos pouco recomendáveis, nada que seja inquietante. Por um lado, porque uma andorinha não faz a Primavera e, embora não se sabendo se a proposição é extensiva aos abutres – é provável que seja, por maioria de razão – a estrutura tem em si mesma, como atrás se explicitou, a capacidade para erradicar o defeito inerente à essência humana.
As sondagens são, portanto, infalíveis. Por isso, no interior da entidade com inquestionável autoridade que é o arco da governação, se prevê uma concertação de vontades no sentido de transformar as sondagens no barómetro único do poder, substituindo as eleições com vantagens para todos. As sondagens permitem conhecer, sem margem de erro, as tendências da sociedade à semana, ao dia, quiçá ao minuto, ao instante, garantindo que os governos terão ao seu dispor, a cada momento, as indicações de como devem agir em proveito de todos.
Já deduziram, por certo, que se é possível fazer sondagens ao minuto tal não é exequível com as eleições, processo moroso, anacrónico, poluente até. Evitando eleições poupa-se o trabalho e a sujidade suscitados pelos milhões de votos que vão directamente para o lixo, eleição após eleição – veja-se como tal fenómeno foi exemplar na recente consulta britânica – porque os eleitores se enganaram não apenas tentando iludir as sondagens como também ousando desestabilizar o próprio arco da governação.
No entanto, os factos provaram que as sondagens resistiram ao erro humano, o arco da governação soube aguentar o desafio e assegurou a estabilidade. Como se não houvesse eleições, apenas sondagens, assim se demonstrando, para memória futura, a inutilidade das primeiras.
E a vida continua. Austera, é certo, porque assim são os fados estipulados pelo insigne arco da governação para que um dia – esse dia virá, não tenham dúvidas – a bonança que agora pertence a uns poucos seja por todos repartida. Haja fé, as sondagens nunca se enganam.
 

 

terça-feira, 12 de maio de 2015

A CARTA


 
 
Dizem ilustres politólogos, esses afamados feiticeiros da modernidade neoliberal, que o senhor primeiro-ministro inglês, o janota Cameron, ganhou as eleições por causa de uma carta. Uma carta, vejam bem, coisa mais prosaica nestes tempos em que nem a NSA, tão entretida a chafurdar nos nossos e-mails, se lembraria de vasculhar porque nas caixas de correio nada mais se depositam, hoje em dia, que panfletos publicitários e contas para pagar. De qualquer maneira se os politólogos dizem que é uma carta é porque foi uma carta, afinal de contas nada nos deve surpreender na Inglaterra tão tradicionalista e aristocrática.
Uma carta infeliz, como são as cartas com vocação dramática, e sabemos quão dramáticos são os resultados das eleições, sobretudo para os eleitores que fazem a cruzinha vincando esperanças para instantes depois o seu boletim estar a caminho do lixo reciclável.
Uma carta escrita pelo artigo ministro trabalhista das Finanças, missiva parca em palavras, é certo, valendo porém, cada uma, um gong de ressonâncias com elevado dramatismo: “não há dinheiro!”. É verdade, não havia dinheiro no reino de Sua Majestade e todos sabemos que a culpa foi do malfadado subprime em terras do outro lado do Atlântico, onde os papéis requintados da mais nobre especulação foram aviltados, logo contaminados, pela mistura com os imundos pedaços de papel higiénico de uma ralé que não tem onde cair morta, embora a polícia apure cada vez mais a pontaria para lhe arranjar lugar.
Pois bem, ou pois mal, o ministro trabalhista das Finanças confessou que não havia dinheiro, coisa que, ao que parece, deve esconder-se de todos, principalmente dos adversários políticos. Porque, sabendo isso, o flamejante Cameron foi-se ao bolso dos contribuintes e como tem moeda para manobrar e muita família nas Américas, o que lhe permitiu mandar às urtigas as conspirações de Merkel, BCE & troikas, engendrou umas estatísticas jeitosinhas para as nobres gentes da City e voltou a ganhar agora as eleições. Os mesmos de sempre não darão por nada disso, continuarão a sobreviver com a carga de austeridade que há muitos anos vêm aguentando, mas como a comunicação, toda ela nas boas mãos da City, garante que as coisas estão melhores é porque estão melhores e não se fala mais nisso mas sim na linda princesinha recém-nascida.
Aqui entre nós quero crer que isso da carta não será bem assim, os ilustres politólogos que me desculpem. Ainda nos lembramos de em Portugal haver alguém com nome de rei mago, Gaspar, ao que consta, que não era rei mas era mago sim senhor, multiplicou a miséria com dotes muito mais milagreiros que os dos pães bíblicos, repetindo muitas vezes: “não há dinheiro!”. Que o diga o antigo ministro dos pastéis de nata, a quem Gaspar invectivava perguntando, sarcástico “qual das três palavras ‘não há dinheiro’ o senhor não percebeu”? Pois bem, Gaspar confessou, repetiu, e como recompensa foi promovido para o FMI, deixando maga Patalógica a limpar os bolsos e as contas bancárias dos portugueses até anunciar, qual Cameron, embora menos estilosa, “os cofres estão cheios!”. E assim ficaram todos felizes: os da City e os especuladores de muitas pátrias e sem pátria nenhuma que “ajudando Portugal” se ajudaram sobretudo a si mesmos, porque em sua direcção se esvaziam agora os cofres, escorrendo o leite e o mel sugados sem dó nem piedade aos portugueses e às portuguesas.
Moral da história. Não castiguem o antigo ministro das Finanças inglês, esse digno representante dos socialismos neoliberais que tanto encantam as “Cities” deste mundo. Arranjem-lhe um lugar no FMI, Gaspar chega-se para o lado, haverá espaço para todos os autores de boas obras. Ele apenas foi vítima do arreigado tradicionalismo britânico. Se em vez de uma carta dizendo “não há dinheiro” tivesse soltado um sound bite com o mesmo conteúdo em menos de nada seria um herói e não o vilão em que o transformaram. O problema não foi a mensagem nem o mensageiro: foi o meio. Modernize-se, homem, que isso passa!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

UM POUCO DE FUTEBOL


 
 

Falemos um pouco de futebol. Não para desassossegar alguns referentes inquisidores de espíritos prontos a levar aos novos pelourinhos, privados é claro, os leitores de páginas desportivas, onde aliás se aprende, e muito, sobre o mundo cão em que vivemos. Ainda assim, enfrentemos as consequências.
E se vos falo de futebol é para chamar, com todas as letras e sem margem de erro, hipócrita e mentiroso ao senhor Joseph Blatter, presidente talvez vitalício, quem sabe, dessa coisa tão democrática que é a FIFA, a entidade que vê crescer os sete céus dos estádios do mundial do Qatar com base em trabalho escravo e faz que sim com a cabeça.
Não é apenas por isto, o que não seria de somenos, que o senhor Blatter é hipócrita.
O senhor Blatter é hipócrita e mentiroso quando pede à Federação Palestiniana de Futebol que não insista em pedir a suspensão da Federação Israelita de Futebol porque isso, e cito, “é misturar a política com o futebol”.
Tal frase, como certamente sabem até aqueles que não sujam os olhos lendo páginas desportivas, tem servido para dar cobertura a um sem número de atrocidades e arbitrariedades em campos que vão muito para além dos de futebol.
Neste campo a tradição ainda é o que era. Diz o senhor Blatter que a Federação Palestiniana não deve insistir no pedido de suspensão porque a Federação Israelita não pode ser responsabilizada pelos actos do governo de Israel contra os direitos humanos e contra leis desportivas estipuladas, aliás, pela própria FIFA.
Aí é que o senhor Blatter se engana. E como se engana deliberadamente, mente. A Federação Israelita de Futebol tem no seu cardápio de clubes, figurando, por inerência, no supracardápio da FIFA, cinco entidades cujas sedes existem em colonatos israelitas ilegais na Cisjordânia Palestiniana, além disso reservadas apenas a futebolistas judeus. Dois coelhos (salvo seja) de uma só cajadada: a Federação Israelita viola as leis internacionais ao estender a autoridade a estruturas ilegais de ocupação; e pratica segregacionismo étnico/racista. É muito bonita a campanha da FIFA contra o racismo, fica sobretudo bem nos cartazes, desde que daí não saia.
O senhor Blatter sabe igualmente que existem clubes israelitas, como o Beitar de Jerusalém, do qual o adepto mais ilustre é o senhor Benjamin Netanyahu, cujo grito de claques é “morte aos árabes”, claques essas que o vão gritando através da Europa durante as competições onde o Beitar participa, e nas quais não foi nunca penalizado por tais manifestações terroristas. Não pode o clube ser condenado pelos gritos das claques, invocará o hipócrita senhor Blatter. E o que fazer então quando o treinador do citado Beitar assegura que só por cima do seu cadáver – o sentido é figurado, claro – fará alinhar no clube um jogador israelita que tenha origem árabe. Um clube, uma equipa para israelitas puros… O que chamará o senhor Blatter a isto?
Ainda assim, o presidente da FIFA insiste em que futebol e política não deverão misturar-se, enquanto futebolistas palestinianos inscritos na instituição do senhor Blatter jazem nas cadeias israelitas por tempo indeterminado, sem julgamento e culpa formada, onde poderão até ter como carcereiros ilustres atletas das selecções israelitas. Dizem os estatutos da FIFA, que o senhor Blatter conhece muito bem porque os invoca a toda a hora, que as federações nacionais “devem gerir os seus assuntos sem ingerências de terceiros”. Ao que parece, tais estatutos são válidos para todas as federações… Menos uma. Exactamente essa, a Palestiniana, adivinharam. Em Agosto de 2013, numa carta à FIFA, os dirigentes do futebol israelita escreveram, isto é, estipularam, que “a Federação Palestiniana tem a obrigação de funcionar através dos canais oficiais do Estado de Israel”.
Não há margem de erro: o chefe do futebol mundial é hipócrita e mentiroso.

domingo, 10 de maio de 2015

CHAMA-SE A ISTO DEMOCRACIA




Cada deputado conservador da elegante maioria absoluta que compõe agora o Parlamento de Sua Majestade custou 34244 votos de suor ao denodado Cameron, esse produto com a legítima e legitimada chancela da City. Parece justo, o homem conseguiu tirar da cartola à última hora um milagroso anúncio de crescimento económico e vai daí os eleitores recompensaram-no, driblando até as empresas de sondagens, onde, ao que consta, vão rolar cabeças, já não na Tower, felizmente apenas em sentido figurado.
Cada deputado do sempre aplicado, e agora sacrificado, trabalhista Ed Miliband custou-lhe um preço mais alto, 40290 votos e, apesar de ter ampliado a percentagem em 1,5 pontos, acabou por perder 24 deputados. Será porque os eleitores britânicos preferem os originais às imitações e conservadores neoliberais por conservadores neoliberais antes os legítimos como Cameron e não os herdeiros de Blair, o tal que acabou de vez com o trabalhismo nas ilhas e, em boa verdade, em todo o continente? Só eles saberão responder.
Cada um dos 8 deputados liberais democratas do infeliz senhor Clegg, agora despromovido de adjunto de Cameron para a vileza do anonimato, custou-lhe 301986 votos, 10 vezes mais que cada deputado do seu ex-chefe. É obra. Tanta generosidade para cumprir as ordens da exigente City, numa coligação de sacrifício e serviço privado, e a paga foi esta.
E que dizer do truculento Neil Farage, o homem que não tolera que os restos do Império tenham vindo desabar na insigne Metrópole, manchando e sujando a pura linhagem britânica? Um deputado custou-lhe 3881128 votos, quase quatro milhões de votos, 113 vezes mais que cada deputado do iluminado Cameron. É bem feito, dirão. Que não trouxesse para a arena política o culto do racismo, da xenofobia, que ainda assim lhe valeram quatro milhões de votos, 12,6%.
Infelizmente ele não foi castigado por isso. Infelizmente continua a ter uma base eleitoral distribuída pelo todo nacional que o encorajará a envenenar as mentalidades contra a imigração, contra as outras culturas e costumes. Ele, Neil Farage, como muitos outros (um deputado verde custou mais de um milhão de votos), foi vítima de um sistema eleitoral apresentado como o paradigma da pátria da democracia e que não é democrático, isto é, não respeita a vontade dos eleitores e deita milhões de votos para o lixo. E cada voto, em democracia, deve contar, deve estar espelhado na composição final do Parlamento.
Dir-se-á que cada deputado do Partido Nacionalista Escocês custou apenas 26 mil votos, menos ainda que os de Cameron, o que parece contrariar a tese de o sistema estar imaginado para dois partidos desde as origens, quando tudo se resumia a conservadores e liberais, depois substituídos estes pelos trabalhistas. De facto os nacionalistas escoceses tiraram proveito da óbvia concentração do esforço nas 59 circunscrições nacionais das 650 do universo eleitoral britânico, conquistando 95% dos lugares com a vontade expressa de 50% dos escoceses. Mais uma prova de que o sistema não é democrático e, a sê-lo, deveria ser dada imediatamente a independência à Escócia.
Chamam democracia a este sistema designado uninominal maioritário a uma volta, mas ele nada tem de democrático. O Parlamento não representa as vontades manifestadas pelo corpo eleitoral, transforma pouco mais de um terço dos votos (36,9% foi quanto tiveram os conservadores) numa maioria absoluta. Chama-se a isto “estabilidade”. Aliás, para que conste, ele foi inventado pelos conservadores britânicos para se garantirem no poder transformando maiorias simples em maiorias absolutas. Nos tempos que correm, caso não haja maioria absoluta, como os dois maiores partidos conseguem 87% dos lugares com 66% dos votos, e lêem ambos pela mesma cartilha económica, teremos uma espécie de partido único institucionalizado. Mais “estabilidade” não é possível.
Por isso, através dessa Europa, as castas políticas dominantes fundidas no neoliberalismo conspiram nos bastidores, como acontece em Portugal, para transformar o sistema eleitoral britânico, e o seu sucedâneo norte-americano, em prática única. Faltando ao respeito às vontades manifestadas por milhões de eleitores em nome da democracia e da “estabilidade”. Uma fraude.

sábado, 9 de maio de 2015


 
EFEMÉRIDES, MESQUINHEZ E MORTE

Os russos ainda estão a enterrar os restos dos seus mortos, como aconteceu em quase mil funerais realizados há dias nos arredores de São Petersburgo, mas o senhor secretário-geral das Nações Unidas, a mando do senhor Obama, porque nada se passa no Palácio de Vidro sem o aval deste, foi celebrar a derrota dos nazis a Kiev na companhia dos novos nazis. Quero crer que o envio do pau-mandado Ban Ki-moon se deveu à falta de coragem do senhor Obama para assumir até ao fim a provocação que fez aos 25 milhões de mortos soviéticos, e também aos mais de 400 mil compatriotas mortos para que o nazismo não passasse, e deslocar-se em pessoa a Kiev para abraçar os herdeiros de Stepan Bandera, o bandido que colaborou nas chacinas de Hitler e agora tutelam o regime oficial ucraniano. Coragem, seja política seja física, é o que normalmente falta àqueles que da guerra só conhecem a parte de mandar matar. Barack Obama incarna na perfeição esse tipo de mandante e por isso, mesmo não tendo estado em corpo em Kiev, foi representado a preceito, em insensibilidade e arbitrariedade, através do seu imediato a quem foi entregue a desacreditada ONU. Mais desacreditada agora depois de o seu mais alto representante ter celebrado o fim da guerra, acontecimento que determinou o nascimento da organização, ao lado dos herdeiros dos que provocaram a tragédia e estão na calha para repetir a façanha. Com o beneplácito da dita cuja.
Se lermos os escritos e paleios que a chamada comunicação de referência vai debitando, todos muito certinhos e afinados no mote de assinalar o fim da guerra como se não tivesse havido guerra, apuramos que se escreve e fala sobre tudo, desde o senhor Putin se sentir isolado, coitado, no palanque presidencial assistindo à passagem de temíveis armas com que ameaça a pacífica NATO, obrigada a defender-se ali tão pertinho, nas suas fronteiras; passando pela sismografia que atinge territórios onde terão de passar maléficos gasodutos; até às patéticas perorações sobre a Crimeia – onde vem ao de cima a tacanhez histórica dos autores - mas não se fala sobre a guerra.
Em boa verdade, continuando a ler e a escutar essas figuras tão referentes, antes Putin tivesse ficado verdadeiramente isolado no palanque; mas afinal teve companhia, a do líder chinês, e logo numa altura em que a Rússia e a China conversam muito, tratam de cooperação mutuamente vantajosa, fazem até ameaçadoras manobras militares conjuntas no Mediterrâneo, tudo isto acontecendo pela primeira vez, sabendo-se que há sempre uma primeira vez para tudo, ideia que não deveria valer para este contexto. O facto de a Rússia, então União Soviética, e a China terem sofrido três quartos dos mortos da guerra contra o nazismo, 45 milhões de vítimas (45 milhões, quatro vezes e meia a população de Portugal, mais ou menos a população de Espanha) são pormenores que não contam para nada numa coisa que, afinal, acabou já lá vão 70 anos mesmo que muitas familiares ainda hoje andem à procura dos seus mortos para lhes dar sepultura.
Por isso, a centralização das comemorações da derrota do nazismo sob a tutela oficial da ONU junto do regime revanchista polaco e das suas criaturas neonazis ucranianas, abençoadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos da América, não é apenas uma via mesquinha para tentar reescrever a história. É um insulto grave, um atentado à memória de todos os seres humanos que sofreram as consequências do flagelo, incluindo, repete-se, os mais de 400 mil norte-americanos que pagaram com a vida o combate à loucura nazi.
Para o senhor presidente Obama, celebrar a derrota do nazismo é desenvolver uma política de “polo asiático” que assenta na ressurreição do militarismo nacionalista nipónico; é dar largas ao revanchismo nazi na Europa manipulando o velho mas não gasto artifício propagandístico da “ameaça russa”. O senhor presidente Obama não vê qualquer defeito nesta estratégia. Afinal ele só manda matar.