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quarta-feira, 11 de maio de 2016

ÁUSTRIA OUTRA VEZ


 
Dizem que a História não se repete; ou que se repete como farsa. Porém, ninguém pode garantir, apesar de asserções tão veementes, que ela não se repita como tragédia. Pode acontecer, parece mesmo que já está a acontecer sob os circunspectos narizes das eminências da União Europeia, porém tão ocupadas a estrangular a Grécia, a decifrar os oráculos de arbitrariedade do BCE e do Eurogrupo, a subverter as vontades legítimas dos portugueses, a devolver refugiados aos campos da morte, a minar o voto referendário dos britânicos, a bajular o sultão turco, a pretender caçar terroristas que não precisam de extraordinários talentos para estarem sempre dois passos à frente da parafernália de espionagem virada contra a privacidade do cidadão comum.

Adolf Hitler era austríaco, recorda-se. Isso não quer dizer que a Áustria seja um berço de führers nazis; mas também não se pode garantir que a semente geradora de um se tenha tornado improdutiva. Porque quando se lêem resultados eleitorais onde um herdeiro político do criminoso que desencadeou a Segunda Guerra Mundial atinge os 35 por cento à primeira – mais uns pozinhos do que os nazis alemães obtiveram no sufrágio que lhes ofereceu o governo em 1933 – deduz-se que o caso é de monta, deveria ser levado a sério.
Sobretudo porque não é um caso isolado na Europa, embora tenha a enorme carga, e não apenas simbólica, de ter emergido na Áustria. Há os bandos da senhora Le Pen em França; o governo e os seus grupos de assalto fascistas na Ucrânia, entronizado um pela santíssima aliança entre a União Europeia e os Estados Unidos, treinados outros por militares norte-americanos, na reserva ao que dizem; há também as maquinações governamentais fascistas nos países nórdicos e bálticos; os garrotes do nacionalismo aristocrático ultramontano com que os governos polaco e húngaro asfixiam metodicamente os seus povos; há ainda o imperador pan-turco Erdogan, o garante de que as guerras no Médio Oriente estão para durar enquanto brinca com as vidas de milhões de fugitivos, abrindo-lhes ou fechando-lhes as portas da sobrevivência com as mãos untadas pelo dinheiro surripiado aos contribuintes europeus.
Para lá do Atlântico, Trump reina como um vingativo salvador de desvalidos e descontentes sobre o pântano republicano e a criminosa mentira democrática; nas Filipinas triunfa eleitoralmente El Castigador, o nacionalismo terrorista que comanda hordas de esquadrões da morte invocando a injustiça social, assustadora, que as “elites políticas” – assim lhes chama – têm aprofundado usando o Estado como se fosse coisa sua.
Na Venezuela, na Argentina, no Brasil, amanhã na Bolívia, quiçá no Uruguai, os fascistas outrora com fardas de generais e carrancas de carrascos, hoje de polo de marca, ou de fato e gravata e sorriso de gel, estão a dar largas ao ódio de vingança há muito acumulado contra as transformações democráticas e populares, comandados, como sempre, pela batuta de Washington.
Tudo isto acontece, aqui e lá, sobre os escombros dos sistemas tradicionais de poder, entre eles o tão famoso “bloco central” em que a sanguessuga neoliberal assentou o seu regime, usando a democracia para subverter a democracia. A realidade não é assim tão simplista, tem variantes, mas o que conta são os resultados: alargamento do fosso das desigualdades, mais milhões empurrados para junto dos milhões de deserdados, a fome e as epidemias alastrando, centenas de milhões de seres humanos à deriva pelo planeta, e o mundo nas mãos de meia dúzia de eleitos que ninguém elegeu e que usam a Terra como o seu quintal, manejando os cordelinhos das marionetas políticas – parece ter chegado o momento em que só as genuinamente fascistas lhes servem.
Enquanto isto acontece, a comunicação social dominante oferece-nos uma realidade paralela embalada no basbaquismo das maravilhas tecnológicas, e assim transforma a ficção em vida para consumo, na mais conseguida e universal das lavagens aos cérebros.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

GRUPOS NAZIS INTEGRADOS NA NATO


 
 

Membro da Guarda Nacional da Ucrânia (foto AP)
Dezembro de 2015. A NATO e o governo instalado em Kiev pelas principais potências da aliança e da União Europeia anunciaram o “roteiro” para a integração da Ucrânia na organização militar comandada operacionalmente pelo Pentágono. O cerco europeu da Rússia pelas forças armadas às ordens dos interesses económicos, financeiros e militares dos Estados Unidos da América aperta-se; e quando se diz cerco está a falar-se de um passo fundamental de uma estratégia de guerra.
A palavra “roteiro” é enganadora, especialmente neste caso. Faria supor que ainda existem algumas etapas e percorrer para que a integração seja plena. Não é isso que acontece: falta apenas anunciar a adesão, na sequência de um “referendo” em relação ao qual as sondagens prevêem desde já um rotundo “sim”. Simples formalidades, portanto.
Antes que isso se concretize, o “roteiro” determina, desde já, a integração das forças armadas e da indústria militar da Ucrânia na estrutura da NATO – o que realmente interessa nestes casos. A partir de agora, afirma a Aliança Atlântica, a Ucrânia passa a ser “um dos mais sólidos parceiros da aliança, firmemente empenhado em realizar a democracia e a legalidade”.
Democracia, legalidade: duas palavras que dizem tudo sobre este acordo, que não passa da institucionalização de mais um protectorado político-militar da NATO e da União Europeia, a exemplo do que sucede no Kosovo, na Bósnia-Herzegovina e vem ocorrendo no Montenegro.
Quanto à democracia ucraniana, são muitos os exemplos de como é plena e vigorosa. O Partido Comunista acaba de ser ilegalizado, os símbolos comunistas proibidos, o acto de cantar a Internacional é punido com cinco a dez anos de prisão, jornalistas são assassinados por esquadrões da morte, foram encerrados dezenas de jornais, milhares de websites. No país onde foram reabilitados os carniceiros que colaboraram nas chacinas cometidas pelas tropas de Hitler, a área de defesa e de segurança é agora dirigida pela componente governamental nazi, escondida nas várias máscaras do Sector de Direita, da União Patriótica e dos grupos de assalto do tipo SA hitleriano, dos quais o mais conhecido é o Batalhão Azov.
O “roteiro” estabelece, portanto, a integração de forças organizadas nazis na estrutura militar da NATO, para defesa da “democracia” e da “legalidade”. No fundo, trata-se da formalização de uma cooperação que existe há muito. Em 2006, por exemplo, grupos de jovens ucranianos que vieram a destacar-se nos dias de terror na Praça Maidan – quando foi declarada a “libertação” do país – foram treinados em práticas terroristas numa base da NATO, na Estónia. Também não é novidade que centenas de instrutores da 173ª divisão aerotransportada da NATO, colocada em Vicenza, Itália, se deslocaram à Ucrânia para treinar os bandos nazis integrados na Guarda Nacional criada pelo novo regime. O assunto nem sequer é tabu para os súbditos da NATO em Kiev. Há menos de um ano, num programa da TV alemã, o embaixador do regime ucraniano em Berlim, Andriy Melnik, explicou que grupos neonazis como o Batalhão Azov, o Batalhão Donbass e o Sector de Direita integram de facto a Guarda Nacional, e com pleno direito, uma vez que sem eles o exército russo tinha chegado muito mais longe.
Teorização que nos leva da democracia para a legalidade subjacente à integração de Kiev na NATO. Sendo a Ucrânia um país em guerra civil, decorrente da limpeza étnica e cultural que o regime tenta efectuar nas regiões de língua russa, supõe-se que a integração da estrutura militar ucraniana na NATO terá como objectivo completar esse trabalho. Ou seja, a NATO achar-se-á dotada da “legalidade” para levar o poder de Kiev a todo o país, procurando dizimar a oposição dos ucranianos que têm o direito democrático de resistir às transformações arbitrárias impostas à sombra do golpe da Praça Maidan, na Primavera de 2014. Uma limpeza étnica que começou, aliás, com o massacre na Casa dos Sindicatos de Odessa, em 2 de Maio de 2014, cometido pelos bandos de assalto nazis – hoje na Guarda Nacional – massacre esse a que as estruturas dominantes no mundo fizeram vistas cegas e orelhas moucas.  
Hordas nazis integradas na estrutura militar da NATO. Aquilo que durante décadas foi secreto, clandestino, conhecido como “Gládio” e outras designações, é hoje assumido à luz do dia, em nome da democracia e da legalidade. E dirigentes da União Europeia curvam-se perante os avanços do fascismo, até em países que sofreram este regime na carne. Matteo Renzi, primeiro ministro de Itália que dizem ser “de esquerda”, saúda o presidente golpista ucraniano, Piotr Poroshenko, pela sua “sábia liderança”. Não há maior facilitadora do triunfo dos porcos que a prosápia amnésica dos irresponsáveis.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

POLÓNIA INICIA "TERAPIA PELA CENSURA"



O novo governo da Polónia, que a púdica linguagem politicamente correcta dos meios de “referência” qualifica como “ultraconservador”, decidiu abrir o ano “curando o país de algumas doenças” através da instauração da censura oficial nos meios de comunicação públicos. Bruxelas anuncia que vai pensar e debater o assunto para depois, eventualmente, tomar uma decisão, que daqui a não se sabe quanto tempo poderá culminar na suspensão do direito de voto do país – ou seja, tal como na Hungria, a resposta não dará em nada, os intuitos censórios vencerão.
O Partido Direito e Justiça (PIS) que governa a Polónia há algumas semanas, aproveitando o caminho que foi aberto pela cruel política económica da extrema-direita neoliberal, é, em português comum, um partido fascista entre os muitos que vão tomando posições governamentais e próximas disso através de toda a Europa. É um partido semelhante ao Fidesz de Viktor Orban, na Hungria, dito ultranacionalista ou ultraconservador e que, para encurtar definições e traduzir a realidade, é simplesmente fascista. Tal como os seus aliados Jobbik, que praticam o terrorismo através de grupos de assalto organizados à imagem e semelhança das SA de Hitler.
O partido governante da Polónia, é certo, não implanta a censura criando uma equipa de coronéis armados de lápis azuis à maneira do antigamente, por exemplo em Portugal. O método é mais polido, assente em leis aprovadas pelas instituições no poder: transforma os meios de comunicação públicos, que são sociedades de direito comercial controladas pelo Estado, em instituições “culturais” gerida pelo Conselho Nacional dos Media, a criar. “Será o primeiro passo para curar o país de algumas doenças”, adverte Jaroslav Kaczinsky, o chefe do partido.
Uma dessas doenças, explicada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Witold Waszcykowski, tem como sintoma o facto de a sociedade polaca caminhar no sentido “marxista” de “uma nova mistura de raças, um mundo de ciclistas e vegetarianos que só se interessa por energias renováveis e se opõe a todas as religiões, o que não tem a ver com as raízes polacas tradicionais”.
A União Europeia reage prometendo que a 13 de Janeiro iniciará o debate sobre a aplicação do “mecanismo do Estado Direito” a esta “suposta violação” pela Polónia, mas conhecendo o que se passou perante a implantação dos mecanismos da ditadura húngara, nada irá acontecer.
O Partido Direito e Justiça declara-se “eurocéptico”, mas cumpre papéis estratégicos que se tornaram fundamentais para a União Europeia no formato actual: é um aliado fulcral da política alemã, é um dos gendarmes que assegura a manutenção do regime fascista na Ucrânia, é um ponta de lança insubstituível nas acções de provocação à Rússia, governa uma grande potência determinante na transposição dos centros de decisão da União Europeia para Leste, sustenta as políticas agressivas e de tendência igualmente neofascistas dos países do Báltico e da Eslováquia. É significativo que o actual presidente do Conselho Europeu seja Donald Tusk, ex-primeiro ministro polaco e um dos maiores responsáveis para criação de condições que permitiram a subida dos fascistas ao poder no seu país.
Enquanto muitos políticos europeus debatem hoje a maneira de travar o passo à ascensão fascista de Marine Le Pen em França, o fascismo implanta-se sem restrições no Leste da Europa, a região onde tem raízes mais profundas e que não foram extirpadas durante os 70 anos que já passaram sobre o fim da última grande guerra.
 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

ANO FATAL PARA A UNIÃO EUROPEIA


 
O ano de 2015 foi nefasto para a União Europeia, certamente o mais letal para aquilo que alguns designam ainda, com piedosa boa vontade, como “projecto europeu”.
A responsabilidade pelo desastre deve ser assacada por inteiro, mesmo em assuntos que parecem de origem externa ao espaço europeu – como é o caso da tragédia dos refugiados – aos dirigentes de Bruxelas e aos dos Estados nacionais. Já não havia quaisquer ilusões sobre o destino desastroso de tal “projecto”, porque o que torto nasce tarde ou nunca se endireita e, além disso, ao longo de gerações, os sucessivos dirigentes europeus entretiveram-se a entortar anda mais as intenções, já de si falaciosas, dos “pais fundadores”, apurando sem pudor as mentiras originais.
No ano de 2015 convergiram, como nunca, os factores que vinham correndo mal e os que explodiram entretanto nas mãos aventureiras, oportunistas e irresponsáveis dos dirigentes europeus – aliás tanto mais irresponsáveis quanto mais elevada a responsabilidade que desempenham. Uma catástrofe.
Comecemos pela crise económica, que só na demagogia primária e na descarada manipulação das estatísticas parece no caminho da solução. Nada disso: a economia não sai da estagnação e o modelo político inventado para dar cobertura a um regime que coloca a produção económica como subsidiária da especulação financeira está a rebentar pelas costuras. Como sabem, esse modelo político é a asfixia democrática sob o poder absoluto de dois braços partidários defensores das mesmas práticas económicas neoliberais – conservadores e sociais-democratas. Mas o que parecia consolidar-se passo a passo, desde o início da década de noventa, começou a explodir em 2015. Três eleições gerais consecutivas – Grécia, Portugal e Espanha – puseram em causa o regime dito bipolar, ou de arco da governação, ou de bloco central (bloco de direita é a designação adequada), alterando profundamente os contornos da “moderna” União Europeia: um sistema de dominação económica sobre mais de uma vintena de protectorados do único país a quem verdadeiramente serve a moeda única.
Ora o renascimento da política observado em Portugal, Espanha e Grécia, conjugado com outras alterações de cenário em desenvolvimento, por exemplo em França e no Reino Unido, introduziram um quase esquecido debate político numa dominação económica presa na ratoeira dos casinos financeiros. Isto é, no ano de 2015 confirmou-se com absoluta certeza que os mecanismos de ditadura económico-financeira sobre a política, isto é, a sobreposição de restrições orçamentais e monetárias sobre a soberania dos Estados membros – o federalismo encapotado – começam a chocar com a vontade dos povos expressa democraticamente, o que é o princípio do fim do regime em vigor.
O limite de 3% do défice, imposto pela dominação alemã através da moeda única, trava o investimento público e paralisa a economia, sem resolver os problemas das dívidas; e o controlo orçamental de Bruxelas impede os países de fazerem opções económicas de acordo com os seus interesses e os dos seus povos. Estas duas realidades estão claras aos olhos dos cidadãos, que começaram a agir em conformidade. O modelo autoritário e austeritário está a ruir. E os cidadãos percebem também, cada vez mais, que o investimento público é fundamental porque a maioria do capital privado não beneficia a economia uma vez que é desviado para a especulação e os paraísos fiscais.
Acresce que os bons ventos financeiros deixaram de soprar porque, por muito que a massa monetária em circulação corresponda maioritariamente a riqueza virtual, a paralisação da economia infecta o sistema bancário, como está à vista, e expande a crise ao sistema de especulocracia. A União Europeia está enredada na teia de funcionamento ganancioso e errático que ela própria criou, como se a tese do “fim da história” regenerada pela corrida à guerra e às riquezas naturais ganhasse novo alento.
Em termos de União Europeia essa estratégia foi o maior erro da sua história, porque pode ser a causa determinante do seu fracasso absoluto.
A crise dos refugiados e os seus efeitos no continente, somados à crise económica e social, transformaram a União Europeia numa bomba de relógio que entrou em contagem decrescente em 2015. A União Europeia, que nunca teve uma política de imigração muito menos terá uma política coerente e humanitária para com os refugiados. E, no entanto, criou a crise: participou aberta e criminosamente nas guerras que do Médio Oriente à África do Norte e subsaariana provocaram as vagas de refugiados e também o pânico com o terrorismo.
A resposta europeia tem-se baseado nas tendências securitárias e de criação de barricadas em forma de muros, cercas, encerramentos de fronteiras, pagamentos a terceiros para servirem de tampão (caso da Turquia); acoitando-se, além disso, sob a protecção expansionista da NATO, estrutura que, sob comando norte-americano, é tão responsável como os dirigentes europeus pelo caos em que a União Europeia está a mergulhar.
Num cenário de crise económica e social, agravado pela tragédia dos refugiados, as tendências xenófobas, revanchistas e nazis avivam-se de lés-a-lés na Europa, sem que os dirigentes da União pareçam incomodados com esse imenso potencial terrorista. Pelo contrário, a participação dos dirigentes europeus no golpe ucraniano e na consolidação da sua componente nazi é mais um sinal da irresponsabilidade dominante. À boleia da nazificação ucraniana, a NATO e Barack Obama encaram a possibilidade de instalar armas nucleares na fronteira russa, provocação cuja gravidade não necessita de ser explicada. Com a agravante de essa mesma Ucrânia ser o centro onde se intensifica a cooperação de terrorismos que só na designação são distintos: o nazi e o islâmico.
Do “projecto europeu” pouco resta. Para os cidadãos, noutras condições, tal seria uma excelente notícia. O problema é que a derrocada da grande mentira histórica que esse “projecto” foi e é vem arrastando todo o continente para a hipótese aterradora da reaparição de provações como as que desde há cem anos estão escritas com o sangue de dezenas de milhões de seres humanos da Europa, e também do resto do mundo.


 
 

sábado, 26 de dezembro de 2015

SANÇÕES A QUEM COMBATE O TERRORISMO



Os Estados Unidos da América e os dirigentes da União Europeia, conhecidos estes pelo seu comportamento pavloviano salivando às sinetas Washington, decidiram reforçar as sanções económicas contra a Rússia. Só porque sim, por causa das coisas na Ucrânia, da reintegração da Crimeia na Rússia, da resistência das populações russófonas às limpezas étnicas em curso no Leste do país, enfim mais sanções por nada de novo.
Por isso, quando, por exemplo, os agricultores da União Europeia, portugueses incluídos, decidirem protestar contra a crise agravada pelas restrições impostas à importação dos seus produtos pela Rússia, deverão antes virar-se contra as decisões canhestras e anti económicas adoptadas pelos seus próprios governos.
Retomando o fio à meada das novas sanções à Rússia, observemos o contexto temporal e factual em que foram agravadas. Por exemplo, a multinacional norte-americana de sondagens Gallup dedicou-se a auscultar as opiniões dos ucranianos sobre o governo criado em Kiev, e as conclusões não poderiam ser mais incómodas para os adeptos da “revolução da Praça Maidan”, entre os quais se encontram mui progressistas eurodeputados e eurodeputadas. Nove em cada dez dos ucranianos ouvidos consideram que os níveis governamentais de corrupção são hoje muito mais elevados; e a popularidade do “rei do chocolate” Poroshenko, que usurpou a chefia do Estado, fica-se pelos 17%. Yakunovich, o presidente deposto pelo golpe, teve um mínimo de popularidade de 23%, e foi no auge da campanha de propaganda visando denegri-lo e afastá-lo.
Reconhece a Gallup que poucos são os ucranianos que ainda chamam “revolução” ao que se passou – assim o ordena a propaganda oficial - preferindo qualificá-lo como o que realmente foi: um golpe. A empresa de sondagens não incluiu perguntas sobre a crescente influência nazi no governo do país – a tanto não se atreveu – mas quanto a isso basta a realidade conhecida, é desnecessário produzir inquéritos. A realidade integra também uma temível bomba de relógio para a humanidade, que são as diligências de Obama e da NATO para instalar armas nucleares na Ucrânia, isto é, na fronteira com a Rússia. Quando qualquer coisa de semelhante aconteceu – o dirigente soviético Krustchev procurou instalar mísseis nucleares nas imediações dos Estados Unidos, em Cuba, em 1962 – o mundo esteve a beira de uma guerra entre as duas grandes potências.
Alarguemos um pouco mais o contexto das novas sanções norte-americanas e europeias à Rússia. Foram decididas durante uma das mais eficazes semanas da guerra da Rússia e do exército sírio contra o chamado Estado Islâmico, ou Isis, ou Daesh. Nos últimos sete dias a aviação russa na Síria fez 302 saídas, destruiu 1093 alvos terroristas em províncias estratégicas como Alepo e Hama, um extenso campo de treino de mercenários oriundos principalmente da Turquia e de Estados da antiga União Soviética, duas refinarias de petróleo, três áreas de extracção e dezenas de estações de abastecimento de combustíveis, além de veículos transportando terroristas e armas pesadas. As acções da aviação russa permitiram ao exército sírio reconquistar território e um aeroporto militar. As notícias do mesmo período são omissas quanto a danos provocados aos terroristas pela famosa “coligação militar” norte-americana, europeia e saudita. Porventura a eficácia terá sido zero: há períodos assim…
Em boa verdade, o tempo não chega para tudo: ou se fazem operações anti terroristas ou se organizam laboriosos conclaves sobre sanções a aplicar aos que fazem o favor ao mundo de combater o terrorismo. A famosa “coligação das democracias” deu prioridade às sanções. Ela lá sabe: o combate ao terrorismo pode esperar.
 

sábado, 12 de dezembro de 2015

O FUNDAMENTALISMO DO DÉFICE



A União Europeia continua mergulhada na estagnação, os alentos económicos que diz sentir são fogachos mortiços, ateados e mantidos por um Banco Central Europeu que faz de fogueiro a contragosto, muito mais tentado em confiar cegamente no bendito axioma de que o mercado se regula a si próprio.
Em Bruxelas, porém, quando se juntam os dirigentes europeus, tanto os maiorais como os sectoriais, a inquietação é só uma: que se respeite a meta dos 3% de défice.
A União Europeia sofre uma das maiores crises sociais dos seus tempos de vida, os níveis de desemprego continuam assustadores, o regime de austeridade faz alastrar as bolsas de miséria e pobreza como uma epidemia de peste.
No entanto, quando os representantes dos governos dos 28 se juntam para conversar uma só coisa os incomoda: que se cumpra o limite dos 3% de défice.
A União Europeia sofre a pressão provocada por uma vaga de refugiados sem comparação na sua história, onda essa resultante de guerras que a União Europeia se entreteve e entretém a alimentar paulatinamente e que agora pretende enfrentar dando passos de gigante na direcção da instauração de Estados policiais, do encerramento de fronteiras, do pagamento de fortunas a terceiros, com alma de ditadores, para que façam os trabalhos sujos em troca da agilização dos mecanismos facilitadores de adesão.
Contudo, quando os chefes de governo e ministros dos 28 se juntam para discutirem os seus assuntos um só os faz espremer as meninges e tirar dos coldres as armas das ameaças: ou se cumpre a meta de 3% de défice ou…
Os muros, as cercas electrificadas, as ordens de atirar a matar contra refugiados que podem ser terroristas e vice-versa crescem e disseminam-se através de todo o espaço europeu; dos cacos do muro de Berlim renascem barreiras que separam famílias e isolam países; com eles reforça-se a fortaleza Europa.
Porém, sempre que os dirigentes da União, imunes a essas restrições, chegam a Bruxelas para trocar umas ideias sobre os seus assuntos um só muro os apoquenta: que a barreira dos 3% de défice seja intransponível.
Os fascismos ressuscitam em toda a Europa. O regime com sustentação neonazi criado pelos Estados Unidos, a União Europeia a NATO na Ucrânia continua a desmantelar o país; o nacionalismo doentio da aristocracia húngara, no poder com a cumplicidade dos governos dos restantes 27, restaura-se como máquina de repressão, segregação e prenúncios de morte; em França a Srª Le Pen faz de Donald Trump enquanto Trump faz de Le Pen nos Estados Unidos, uma confraria que parece vender saúde; do Báltico a Paris recuperam-se as memórias, os ideários e a vocação exterminadora dos colaboradores de Hitler.
Apesar da ameaça que tal situação traz no bojo, provavelmente não passará de um fait-divers à sobremesa dos banquetes dos chefes europeus, porque o assunto que os motiva, o que agora e sempre os mantém alerta e com os dedos tensos nos gatilhos é o respeito pelo défice máximo de 3%.
Enquanto isso, a NATO pede – e quando a NATO pede é uma ordem – que os orçamentos dos Estados da União Europeia pertencentes à aliança reflictam os denodados esforços que o atlantismo distribui por todo o mundo, ao que diz com o intuito de instaurar a paz e a democracia multiplicando as guerras e expandindo o caos.
Essas exigências, helas, obrigam Bruxelas a refazer contas, mas o problema nada tem de dramático. Os dirigentes europeus estão sempre do lado das soluções e para isso cortam, voltam a cortar, e se for preciso cortam ainda mais na saúde, na educação, nos salários, na capacidade de sobrevivência das pequenas e médias empresas, nas reformas dos contribuintes. Porque os orçamentos, para o serem a valer, têm de assegurar que o défice em nada exceda o valor sagrado dos 3%.
A barreira do défice de 3% é a pedra de toque da União – a bem dizer a pedra filosofal para uns quantos. Ela é o verdadeiro segredo da existência da União, a sua razão de ser. É o disfarce de uma União federativa que não ousa assumir-se com franqueza, porque criada à revelia dos povos; significa a instauração de um regime económico comum aos 28, subalternizando-se assim a vontade dos cidadãos manifestada em urnas; é a liquidação da soberania dos Estados, porque impedidos de produzir os seus próprios orçamentos; é a transformação de 27 governos e dos povos desses países, respectivamente, em serviçais e reféns de uma moeda que apenas serve os poderosos de um único e poderoso país; é a erradicação do Estado ao serviço dos cidadãos, reduzido a facilitador da ganância dos gigantes privados e, ao mesmo tempo, impedido de proceder a qualquer investimento público capaz de beneficiar as pessoas e criar emprego.
A União Europeia irá afundar-se no caos em que vive e que continua a alimentar, fatalidade que se aproxima com celeridade porque a comunidade tem amarrado aos pés o pedregulho do fundamentalismo do défice.
A morte da União Europeia não será uma tragédia, antes pelo contrário, poderia ser uma bênção. O trágico é a probabilidade de tal ocorrer num ambiente de convulsão, ou mesmo de guerra, em que as vítimas sejam os povos - como se induz que irá acontecer.
 

 

domingo, 6 de dezembro de 2015

PETRÓLEO DE SANGUE


Camiões cisterna na fronteira entre a Síria e a Turquia
O chamado Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh – um dos muitos heterónimos da rede terrorista mundial de índole “islâmica” – é uma espécie de inimigo público nº 1, autor putativo de toda e qualquer acção de violência que seja praticada, monstro de mil e uma cabeças que atingiu uma dimensão criminosa dir-se-ia imbatível e que, para admiração geral, nasceu do nada, ninguém apoia, nem sustenta, nem financia, nem arma, nem protege, nem dele se serve. O terror dos terrores nasceu por geração espontânea, de um ovo vazio, de um ventre estéril.
A Al-Qaida, por exemplo, teve um embrião, um lugar de gestação e nascimento, procriadores conhecidos. Fale-se em CIA, MI6, serviços secretos paquistaneses e sauditas, Afeganistão, Bin Laden e resumem-se os primórdios da rede que haveria de simbolizar o terrorismo mercenário “islâmico” até à emersão relampejante do Estado Islâmico.
Em relação a este sabe-se, por exemplo, que o general norte-americano Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, acusa os próprios Estados Unidos e Israel de terem as mãos sujas na sua origem. Clark deve saber do que fala, não só pelo cargo que ocupou como pela folha de serviços pouco recomendável no processo de invenção do Kosovo.
Digamos que estas informações, mesmo significativas, são avulsas: faltam dados globais que ajudem a sistematizar o processo de criação e desenvolvimento de uma seita terrorista que conseguiu avançar num ápice do Leste da Síria quase até Bagdade, a capital do Iraque, ao mesmo tempo que se coligava com os nazis ucranianos para tentarem destruir o Leste da Ucrânia e “libertar” a Crimeia, ao mesmo tempo que pretende desmantelar a Síria, manter o caos na Líbia, solidificar o “califado” proclamado em vastos territórios sírio e iraquiano, onde controla o generoso maná petrolífero de Mossul, “capital” dos curdos do Iraque.
Petróleo, uma palavra-chave para se conhecer o ISIS, como agora se vai sabendo no meio de um ruído de comunicação gerado para que a realidade se dissolva na mentira, como muitas vezes acontece neste mundo quando os assuntos são problemáticos e as cumplicidades incómodas.
O ISIS ou Estado Islâmico vive e desenvolve-se a petróleo, petróleo de sangue tendo em conta as suas actividades. Há elementos suficientes para não existirem dúvidas de que os seus principais financiadores são petroditaduras como a Arábia Saudita e o Qatar, íntimos aliados militares, políticos e económicos de entidades que se consideram faróis da civilização como os Estados Unidos da América e a União Europeia.
Sabe-se agora também, desde que as tropas russas empenhadas em salvar a Síria como país o denunciaram com provas abundantes, que o ISIS ou Estado islâmico se financia através de contrabando de petróleo que “lava”, por exemplo, através da chancela oficial da região autónoma do Curdistão iraquiano.
É surpreendente que não tenhamos sabido deste processo antes de os russos se envolverem na Síria, porque os movimentos deste contrabando nada têm de discretos aos olhos da nuvem de satélites. Envolvem comboios de 8500 camiões cisterna por dia em direcção a portos e refinarias da Turquia – membro da NATO como todos sabemos – entrando neste país a partir de regiões ocupadas pelo Estado Islâmico na Síria e sem qualquer controlo fronteiriço das autoridades turcas. Na Turquia, o extenso e quotidiano desfile cai sob o controlo da mafia do “dr. Farid”, de dupla nacionalidade grega e israelita, e de outras mafias de outros drs. Farids, seguindo depois a mercadoria para o mundo a partir de portos israelitas e turcos. Ao que parece, segundo o Financial Times, Israel assegura assim cerca de três quartos das suas necessidades energéticas. Cada barril de petróleo clandestino é traficado a cerca de metade do preço dos mercados – até estes são burlados – proporcionando ao Estado Islâmico receitas por baixo de 3,2 milhões de dólares por dia, quase cem milhões por mês, mil e duzentos milhões por ano. O movimento envolve também navios de bandeira japonesa da empresa BMZ pertencente a Bilal Erdogan, filho do presidente da Turquia Recepp Tayyp Erdogan, e a outros membros da família. Acresce que parte do petróleo roubado na Síria e no Iraque transita através da região de Sanliurfa na Turquia, onde funcionam campos de treino da Al-Qaida e do Estado Islâmico e existe também um hospital clandestino para tratar terroristas feridos em combate na Síria, por sinal gerido pela senhora Summyie Erdogan, filha do presidente turco e irmã de Bilal. A família presidencial de Ancara, que a União Europeia encarregou agora de travar o fluxo de refugiados em troca de mais uns milhares de milhões de dólares e da promessa de adesão à confraria, desmente a pés juntos estas realidades, tal como negou ter negócios ilegais e acolher frequentemente o príncipe saudita conhecido por ser o tesoureiro da Al-Qaida. Facto mais do que confirmado pela comunicação social turca e que esteve na origem de um saneamento brutal nos aparelhos judicial e policial, vitimando quem tinha as provas e os responsáveis pelas investigações e processos.
Ocorrendo estas práticas terroristas sob o chapéu de um membro da NATO não será difícil perceber as razões pelas quais o tráfico de petróleo em favor do Estado Islâmico tenha sido poupado durante mais de um ano pela “guerra” que os Estados Unidos dizem conduzir contra esse mesmo grupo terrorista. Até ao dia em que Moscovo demonstrou os factos durante a cimeira do G20 e o Pentágono decidiu agir pontualmente, tal como a França fez a seguir aos atentados de Paris, violando aliás a soberania síria porque ambos o fizeram à revelia do governo de Damasco.
Porque os resultados das investigações às vezes também são como as cerejas, conhecem-se agora outras fontes de financiamento do Estado Islâmico: o tráfico de escravos sexuais, assaltos a bancos da Síria e do Iraque, mercado negro de produtos cultivados nas terras férteis que confiscou no interior do “califado”. Mas as chaves da sua existência e da sua actividade são o petróleo de sangue em conjunto com enredadas cumplicidades onde avultam pessoas e entidades que se miram ao espelho e nos ecrãs como gente de bem e assim entendem defender o nosso “civilizado modo de vida.”
 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

NATO ANEXA PENÍNSULA BALCÂNICA


Distribuindo democracia desde 1949

A NATO, ou seja, o braço armado do império norte-americano, acaba de engolir mais um Estado europeu, o Montenegro, sendo que para abocanhar toda a antiga Jugoslávia faltam o que resta da Sérvia e a Antiga República Jugoslava da Macedónia.
Em termos formais, trata-se apenas de um “convite” dos falcões do Pentágono ao pequeno Estado banhado pelo Adriático e cercado pela Bósnia, a Sérvia, a Croácia e a Albânia, mas como o presidente montenegrino se declarou “orgulhoso” perante o chamamento este é um dos tais casos em que podem fazer-se prognósticos antes do fim do jogo, sem risco de errar. Com a inclusão do Montenegro na teia de bases militares imperiais formada pelos países da Aliança Atlântica, são já 12 as nações e regiões do antigo “mundo socialista”, com ou sem influência soviética, engolidas pelo expansionismo do Pentágono desde que a NATO ficou sozinha na arena mundial: Albânia, Croácia, Bulgária, Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Letónia, Lituânia, Hungria, Polónia e República Checa – mais de 40 por cento do número de membros da estrutura. Não será exagero somar a esta lista os territórios da Bósnia-Herzegovina, do Kosovo, e da região Oeste da Ucrânia, simples protectorados da aliança.
Ouvindo os analistas que tudo sabem dir-se-á que o “convite” ao Montenegro é uma espécie de gesto generoso e de boa vontade dos generais da NATO para com um país minúsculo, montanhoso, economicamente dependente e sem qualquer interesse militar, a não ser representar mais uma espinha cravada nas gargantas da Rússia e da Sérvia. Talvez os estrategos se tenham esquecido de olhar os mapas, ou então fazem deles uma leitura descuidada. A integração do Montenegro fecha o Adriático como lago atlantista, facilita rotas entre o Mediterrâneo e a Europa Central e de Leste contornando agora a Sérvia, tal como já acontecia com a Macedónia (efeito do Kosovo), fecha o conjunto de países formado pela Grécia, Albânia, Montenegro, Bósnia, Croácia e Eslovénia como um arco da NATO. Em termos geoestratégicos liquida-se o que restava da antiga Jugoslávia a favor da aliança expansionista. Milhões de mortos e feridos depois, no seguimento de chacinas sanguinárias resultantes de guerras artificiais e induzidas a partir do exterior, a inclusão de facto do Montenegro na NATO é o passo decisivo para a anexação da Península Balcânica pelo insaciável atlantismo.
Tal como por exemplo o Kosovo – a quem países da União Europeia pedem agora que não sustente e não dissemine o jihadismo, manhoso eufemismo para não dizer terrorismo – o Montenegro de hoje tem tudo para ser membro da NATO. Não consta que o “orgulhoso” presidente Filip Vujanovic se prenda com o formalismo de organizar um referendo popular sobre o assunto, sobretudo depois do susto com a consulta sobre a independência, declarada em 2006 por meia dúzia de votos duvidosos depois de sucessivos adiamentos, por causa das sondagens desfavoráveis. Além disso, o regime escolheu o euro como moeda depois de ter usado o marco durante parte do período em que a Jugoslávia se fragmentou. Também a corrupção praticada pela casta dominante e o governo do primeiro-ministro Dukanovic, sobretudo o chamado “Escândalo Moldavo” – tráfico de mulheres com epicentro no território montenegrino – parece não incomodar os dirigentes atlantistas e dos Estados membros da democrática aliança. O que é natural em entidades que conhecem as actividades do vizinho e islamita Kosovo nos ramos do apoio ao terrorismo, tráfico de drogas e comércio clandestino de órgãos humanos, tudo a bem da liberdade e da democracia.
Não é difícil nem abusivo estabelecer paralelos entre o novo mapa dos Balcãs e o também designado “novo mapa” que membros da NATO, com os Estados Unidos à cabeça, procuram estabelecer no Médio Oriente. O desmantelamento e a destruição de países como o Iraque, a Líbia e a Síria reflecte o mesmo método usado contra a antiga Jugoslávia logo que ruiu o muro de Berlim: declaração de guerras artificiais sem olhar a meios, e muito menos à vida humana, para concretizar os fins da estratégia imperial de expansão e dominação. No Médio Oriente, Afeganistão incluído – onde a NATO deu o dito por não dito e decidiu agora manter 12 mil ocupantes -, o número global de mortos já atingiu quatro milhões; quatro milhões foi também o número de desalojados na antiga Jugoslávia, onde se registaram pelo menos 140 mil mortos.
Enfim, o combate “civilizacional” tem os seus danos colaterais, a tanto monta a defesa intransigente do “nosso modo de vida” assumido pela valente Aliança Atlântica de motu próprio, sem que os cidadãos sejam tidos e achados. O que aconteceu na Jugoslávia é disso uma lição de história moderna.  
 

domingo, 18 de outubro de 2015

A VERDADE DA MENTIRA


Orifícios de balas e não a acção de um míssil
A comissão de inquérito institucional ao derrube na Ucrânia do avião malaio que fazia o voo MH17, em 17 de Julho de 2014, anunciou finalmente o que toda a gente já sabia desde o primeiro momento: que o aparelho, com 300 pessoas a bordo, foi abatido por um míssil russo Bulk, operado por serviços especiais russos.
O que poderá não passar de uma grandessíssima peta tornou-se verdade oficial. Não é a primeira vez que isso acontece à escala da propaganda global, e provavelmente não será a última.
As conclusões da comissão de inquérito, de inspiração holandesa e apadrinhada pela NATO e os principais governos desta aliança, esfumam de uma penada todos os indícios susceptíveis de responsabilizar o governo fascista de Kiev pela tragédia. Através de supostas reconstituições informáticas – como se os computadores não respondessem em função dos dados que lhes são fornecidos – desapareceram de cena os aviões Sukhoi ucranianos que escoltaram o Boeing malaio alguns segundos antes de este ser abatido; os orifícios redondos observados na fuselagem, na zona do kokpit, eclipsaram-se da investigação, o que não é de somenos porque remetiam para disparos realizados pelos citados caças Sukhoi; as manipulações fotográficas baralhando tempos e espaços e que serviram de sustentação à tese do míssil transformaram-se em documentos credíveis; as informações dos controladores de voo em serviço em Kiev no momento da tragédia, e que deram conta da presença dos caças Sukhoi e também de um suspeitíssimo desvio de rota indicado ao aparelho, por sinal para um corredor perigoso por causa da guerra civil, foram ignoradas no processo de inquérito.
Enfim, não se fez um inquérito; por artes mágicas, montou-se um quebra-cabeças de supostos dados fidedignos para alcançar o resultado anunciado pelas autoridades de Kiev poucos segundos depois do derrube do avião. De facto, o senhor Anton Gerashenko, um figurão nazi que serve de conselheiro ao ministro ucraniano do Interior, Arsen Avakov, revelou em cima do acontecimento que o avião fora derrubado por um míssil russo Bulk. E fê-lo no momento em que forças especiais do mesmo ministério, manipulado pelo aparelho neonazi ucraniano, tomaram conta da torre de controlo do aeroporto de Kiev e passaram a filtrar todas as informações sobre o sucedido. O assalto da torre pelos comparsas fascistas não provocou qualquer constrangimento aos inquiridores oficiais, pelo contrário, deve ter-lhes facilitado o trabalho para engendrarem uma conclusão que já conheciam quando iniciaram a produção da mentira.
A criação e o funcionamento da comissão institucional de inquérito não passou de um pró-forma com o objectivo de dar credibilidade a uma teoria que não resistiria ao mais elementar contraditório, se este contraditório fosse possível e não esbarrasse numa sinistra barragem de mistificação.
A utilidade de tal comissão não se resume, neste caso, ao que atrás ficou escrito. O seu papel foi apurado através do momento escolhido para anúncio dos resultados, precisamente aquele em que as forças armadas russas tomam a seu cargo, praticamente sozinhas, o desmantelamento do grupo de facínoras que dá pelo nome de Estado Islâmico. Não é por acaso que Anton Gerashenko, o citado conselheiro do ministério do Interior de Kiev, acaba de incentivar o mesmo Estado Islâmico a lançar uma “guerra santa” contra os russos onde quer se encontrem. Os amigos dos nossos amigos nossos amigos são: sendo a NATO unha e carne com o governo fascista de Kiev é natural que este sinta afinidades com o Estado Islâmico, ainda há poucos dias contemplado com lançamentos de reforços de armas feitos por aviões norte-americanos. Não com destino ao Estado Islâmico, segundo a versão oficial, mas para “as oposições sírias”. Conhecendo nós o histórico destes abastecimentos e o que vale uma versão oficial emanada de Washington e seus acólitos, que também podem ser holandeses como no caso do MH17, não nos faltam caminhos para entender a verdade destas mentiras.
Entretanto, no campo de batalha sírio os efectivos russos e o exército regular de Damasco prosseguem a tarefa antiterrorista, tendo como principal óbice, porém, a destruição das instalações petrolíferas através das quais o Estado Islâmico se financia alimentando um generoso mercado negro de hidrocarbonetos. Claro que estes proveitos seriam cortados se os terroristas não tivessem quem lhes compre o contrabando. Mas clientes não faltam, sobretudo Israel e as ditaduras do Golfo, que por sua vez assim alumiam faróis da democracia como são os países da União Europeia e da NATO.
 

sábado, 10 de outubro de 2015

NATO, JOGOS DE GUERRA, TERRORISMO E FASCISMO


 

NATO e Hungria vão tratar dos refugiados
A polícia de choque global, também conhecida por NATO, está numa fase das mais trauliteiras da sua história, superando os próprios e mais sinistros recordes, além de alargar o raio de acção em presença, eficácia, mobilidade e número de efectivos. Dos jogos de guerra no flanco sul, em áreas de intervenção às vezes também conhecidas pelas designações de Portugal, Espanha e Itália, agora considerados ainda mais importantes devido à “crise dos refugiados”, à proliferação de quartéis-generais em redor das fronteiras russas, ao reforço dos contingentes operacionais na Turquia ditado pelas operações russas contra os mais activos grupos terroristas, à multiplicação por três dos meios da “força de resposta” – A NATO nunca ataca, limita-se a responder – os gendarmes atlantistas não descansam na missão suprema, dir-se-ia divina, de preservar a democracia formatada pela ditadura financeira.
Numa comunicação feita há poucas horas, o social-democrata norueguês Jens Stoltenberg, destacado em funções de secretário-geral da aliança expansionista, anunciou que os efectivos da “força de resposta” vão ser aumentados para 40 mil apenas um ano depois de, em Gales, os expoentes doutrinários os terem fixado em 13 mil. O que mudou em menos de 365 dias exigindo esta ampliação exponencial? Stoltenberg respondeu por metade: o aparecimento da “crise dos refugiados”, decorrente das convulsões a sul “do nosso flanco sul”. Quanto à outra metade, o secretário-geral foi omisso, mas nem precisou de ser explícito. A Rússia é a Rússia e agora não lhe bastava ter a querida “democratização” da Ucrânia debaixo de olho como se atreveu a ir combater o terrorismo no Médio Oriente, esse mesmo terrorismo que a NATO enfrenta heroicamente – e com tanta eficácia que os resultados da “primavera árabe” são os que estão à vista de todos.
No quadro da nova situação provocada pela “crise dos refugiados”, uma tragédia humanitária que para os governos dos membros da NATO é assunto a tratar manu militari, a aliança decidiu criar mais dois quartéis-generais em países para lá da antiga “cortina de ferro”. Tratando-se de refugiados, a NATO não poderia ter escolhido melhor a localização das duas novas estruturas operacionais: a Hungria e a Eslováquia, onde dois governos fascistas tratam como terroristas os que fogem da guerra em luta pela sobrevivência. A intimidade da NATO com o fascismo não é de fresca data, não se evidencia apenas na Ucrânia, na Hungria, em Estados do Báltico. Ela foi inscrita no seu código genético ao ter como fundador – logo como grande defensor da democracia – o Portugal salazarento. Por isso, quando um nazi como Anton Gerashenko, conselheiro do ministério do Interior de Kiev, apela ao Estado Islâmico para combater os russos seja no Cáucaso seja no Médio Oriente, em nome da democracia e da sharia (vertente política da ortodoxia islâmica), mais não faz do que respeitar o espírito de missão dos tutores atlantistas. O mesmo Gerashenko que, poucos segundos depois da queda sobre a Ucrânia do avião que fazia o voo MH17, anunciou que fora derrubado por um míssil russo. Uma sentença que ficou como versão oficial, em que ninguém acredita mas prevalece, quanto mais não seja porque é a da NATO e o que a NATO diz não se discute.
Para os que não estar a par do afã expansionista – e defensivo, claro – da NATO lembro que os quartéis-generais na Eslováquia e na Hungria vêm juntar-se aos que já funcionam na Bulgária, na Estónia, na Letónia, na Lituânia, na Polónia e na Roménia, sem contar com o servilismo do governo de Kiev, o qual integra a aliança sem lhe pertencer. O cerco à Rússia é evidente, comprovando-se assim que a NATO é uma instituição de cariz absolutamente defensivo através do respeito estrito por aquela máxima que não é apenas futebolística: a melhor defesa é o ataque.
Por isso, uma nota também sobre os exemplos mais recentes das acções defensivas da NATO e respectivas consequências. Foi em actos de defesa pura que a NATO atacou o Afeganistão, o Iraque, a Líbia e que desencadeou a guerra civil na Síria, tal como esfrangalhara a Jugoslávia. Então, quando o secretário-geral Stoltenberg se queixa da “crise dos refugiados” como resultante das “convulsões” no sul do “nosso flanco sul”, saibam todos que a NATO nada tem a ver com isso, apenas alarga a sua presença e reforça a sua eficácia para se defender do maldito e insidioso terrorismo, o qual a NATO nunca treinou e financiou, nem nunca foi, como agora também não é, seu aliado na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, na Síria, na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo…
 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

AS BIZARRIAS DO SR. SCHULZ


 

O alemão Martin Schulz é o presidente do Parlamento Europeu, por sinal o único órgão da União Europeia verdadeiramente eleito. Como tal, deveria sentir responsabilidades acrescidas no respeito pelos cidadãos dos países da confraria, um importante contingente de 500 milhões de contribuintes e pagadores de dívidas alheias.
Como Martin Schulz é um “social-democrata”, também há quem lhe chame “socialista”, serve frequentemente de bandeira aos seus companheiros de grupo em comícios eleitorais, como recentemente aconteceu em Portugal, onde normalmente se esconde que os “socialistas e democratas” do Parlamento Europeu são tão responsáveis como os conservadores na formação de maiorias que aprovaram as mais gravosas malfeitorias económicas e financeiras contra os cidadãos, por exemplo troikas, tratado orçamental, semestre europeu, germanização da moeda, entre muitas outras. Se o leitor tem dúvidas sobre o que acaba de ser escrito basta-lhe consultar os resultados das votações desses assuntos em plenário.

Do alto do seu cadeirão, Martin Schultz decidiu agora qualificar como uma “bizarria” a renovação da aliança entre o Syriza e os Gregos Independentes para governar a Grécia. Diz ele que não deveria o Syriza, “como partido de esquerda, aliar-se com um partido de extrema-direita”. Quem o ouve não o leva preso. Até parece um homem de esquerda a falar, assim tão preocupado com a imagem daqueles que apressadamente considera agora irmãos ideológicos depois de ter participado na operação terrorista que levou Alexis Tsipras a capitular perante a máquina incineradora da finança mundial manobrada pelos órgãos da União Europeia, Parlamento Europeu incluído.
Até pode ser que a citada aliança na Grécia seja uma “bizarria”, embora muito mais bizarro seja, salvo melhor opinião, o modo como Tsipras se rendeu aos credores, dispondo-se a tudo para manter o país no euro – isto é, na via da austeridade e da sangria dos gregos, mais ou menos light, a ver vamos.
O mais bizarro de tudo é que seja Schultz a dizê-lo. O homem que pertence à coligação alemã, chefiada por Merkel, a qual transformou a Grécia num protectorado submetido sem respeito nem dignidade, é muito pouco recomendável para criticar supostas bizarrias dos outros; o homem que considera democrático o governo fascista da Ucrânia tem pouca legitimidade para condenar alianças de outros com a suposta “extrema-direita”; o homem que, ao lado da patroa Merkel, tem acicatado os da troika a torturarem sem limites o povo da Grécia deveria medir as palavras quando emite sentenças sobre a maneira como os escolhidos pelos gregos se organizam; o homem que, como presidente do Parlamento Europeu ou simples dirigente “social-democrata”, não pronunciou uma palavra nem mexeu uma palha para evitar as guerras que dizimam milhões de pessoas e estão na origem da dramática onda de refugiados que procura a Europa, deveria pensar muito mais que duas vezes antes de aludir às supostas “bizarrias” de outros; o homem que assiste imóvel, logo cúmplice, a práticas de governos europeus, como o húngaro e o croata, inspiradas na sinistra figura do seu compatriota de antanho chamado Adolf Hitler, deveria ter a noção da gravidade do que diz quando se arvora em conselheiro da democracia como quem dá uns tabefes numa criança que fez uma diabrura.
Bizarro, bizarro mesmo é uma figura como Martin Schulz ser presidente do Parlamento Europeu. Em boa verdade, muito mais bizarra que tudo isso é a própria união Europeia.
 

sábado, 19 de setembro de 2015

JEREMY CORBYN


 
A eleição de Jeremy Corbyn como dirigente máximo do Partido Trabalhista Britânico tem dado origem a um dos maiores chorrilhos de asneiras, demonstrações de ignorância e manifestações de manipulação propagandística nos tempos que correm. Ainda o homem não fora eleito para o cargo e já a sua simples candidatura era olhada como uma terrível avalancha de tempestades ameaçando a Europa, a qual, como se sabe, vive na paz dos deuses.
Vamos então a factos para que se entenda o significado profundo desta eleição, que mais não é do que uma expressão do sentimento profundo de revolta dos trabalhadores britânicos contra a austeridade em geral e contra a apropriação de um dos seus partidos, o Partido Trabalhista, por uma casta reacionária, direitista e neoliberal que o “thatcherizou” pelas mãos de um criminoso de guerra chamado Tony Blair.
O cujo, Tony Blair, patrocinou mil e uma conspirações e chantagens nas semanas que antecederam a eleição do novo presidente trabalhista para que Corbyn fosse apagado da lista dos candidatos, ou então derrotado. A democracia funcionou e Blair saiu escandalosamente derrotado.
A democracia funcionou, é verdade, mas não através do artifício das “eleições primárias”, cópia do modelo norte-americano que subverte o sistema de partidos através de mecanismos confusionistas criados para acabar de vez com a ideologia na política. Corbyn foi eleito sim, mas pelos militantes do partido e dos sindicados que lhe são afectos – nos termos da organização laboral britânica. Nas eleições trabalhistas, ao contrário do que se tornou moda através da Europa neoliberal, não há participação dos chamados “simpatizantes”, artimanha que dá origem aos desvios democráticos proporcionados pelo sistema de “primárias”.
Quase 60% dos trabalhistas britânicos escolheram então Corbyn, apostando num programa que nada tem de “radical”, como gritam os nossos analistas e politólogos de turno, e representa apenas um regresso à tradição ideológica trabalhista, permitindo a dissociação do partido da amálgama neoliberal que governa a Europa numa fusão inextrincável entre direitistas e socialistas/sociais-democratas.  
Se os tais analistas, comentadores, politólogos e papagaios soubessem um bocadinho de História da Europa e não se limitassem ao preguiçoso copy/paste dos escritos e dissertações dos tecnocratas que ainda lêem apenas a bíblia dos rapazes de Chicago, saberiam que Corbyn não é “radical”, nem um comunista disfarçado, nem um revolucionário, quiçá um terrorista ou bombista. O programa de Corbyn defende apenas a restauração de uma ordem mais democrática, laboral e social que existia no Reino Unido e outros países europeus antes de ser arrasada por Margareth Thacher e respectivos sequazes continentais, entre os quais avultou o já citado Tony Blair.
Corbyn é solidário com a Palestina e os palestinianos como defende uma Irlanda unida, é contra as armas nucleares e a guerra, esteve ao lado dos injustiçados seis de Birminghan, advoga o regresso de serviços básicos – transportes, correios, por exemplo – ao sector público, responsabiliza a NATO pela catástrofe na Ucrânia, é contra a austeridade, propõe impostos progressivos de acordo com os níveis de rendimentos, advoga o fim dos subsídios estatais ao sector privado. Coisas políticas que os papagaios – entre ignorância e maus instintos – apregoam como que saídas de horrendas catacumbas medievais.
Nada disto é radical, muito menos anacrónico; Corbyn não está “fora de moda” por não ser igual a Hollande e aos sociais-democratas amestrados pela senhora Merkel, nem se guia por coisas que já não se usam. Pelo contrário, o seu aparecimento, a par da experiência prometida pelo Syriza e pelo mesmo Syriza aniquilada, representam sinais de que o prazo de validade do neoliberalismo, estagnado no rumo único da austeridade, está a chegar ao fim.
Daí a falta de tino das reacções à eleição do líder trabalhista britânico, que já se manifestaram também a propósito do Syriza e ameaçam o Podemos e outras indignações – ainda que todos estes casos sejam diferentes entre si. Daí também alguns silêncios comprometidos dos que deveriam ser “compagnons de route” de Corbyn, e com ele solidários, insensíveis aos insultos e às deturpações programáticas de que o novo dirigente trabalhista é vítima. Provavelmente porque para esses “compagnons de route” os interesses da batota financeira se sobreponham à solidariedade, e antes Blair que tal sorte.