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terça-feira, 29 de setembro de 2015

FORTE ROMBO NA FORTALEZA DE MADRID


 


Algumas mentes formatadas com o software quadrado do “arco da governação” apressaram-se a concluir, nos meios de propaganda onde escrevinham e arengam, que os independentistas da Catalunha perderam as eleições. Que isto e que aquilo… Que tiveram maioria absoluta de lugares do Parlamento mas uma minoria de votos, o que não lhes dá legitimidade para aplicarem o programa separatista, enfim, que foram fragorosamente derrotados.
Passemos como por brasas sobre o facto de tais analistas serem os mesmos que defendem leis eleitorais tão distorcidas quanto possível, que admiram o exemplar caso britânico onde uma votação desconsoladoramente minoritária em números pode garantir uma trucidante maioria absoluta em lugares. A isto chama-se coerência e sentido de oportunidade.
Voltemos, porém, à Catalunha. Os independentistas de Mas (direita nacionalista), Oriol Junqueras (Esquerda Republicana) e Antonio Baños (Comités de Unidade Popular, CUP’s) não serão, talvez, as figuras certas nos lugares certos. Mobilizaram, no entanto, quase 48% do eleitorado numa votação que foi a maior de sempre na história catalã. O que não é dizer pouco, sendo que, além disso, têm uma confortável maioria absoluta parlamentar. É verdade ainda que Baños se demarcou já da estratégia independentista unilateral privilegiando, nos termos do seu discurso, a luta social contra as privatizações e a austeridade que o governo de Artur Mas tem praticado. O irredentismo independentista está a patinar nas profundas contradições ideológicas de quem hoje o interpreta.
Uma coisa é esta realidade parcial, outra é a observação global. Nesse aspecto, as eleições demonstraram que nada poderá ficar como está. Porque no meio das conjecturas e especulações sobre a independência, o conceito que triunfou, sem qualquer margem para dúvidas, foi o do soberanismo, o da afirmação democrática e autónoma da vontade do povo da Catalunha na gestão dos seus interesses, seja através da independência ou de uma autonomia de nível muito superior ao actual, seja no quadro de uma federação espanhola.
Olhando a situação segundo esta perspectiva, quem perdeu as eleições foi o situacionismo à madrilena. Contra esses factos não há argumentos: o arco madrileno da governação, formado pelo neofranquista Rajoy – que não conhece sequer a Constituição, doença de que não é o único a sofrer na União Europeia – os seus apêndices Ciudadanos e os socialistas representam 37% dos lugares parlamentares. Sendo que o PP de Rajoy, que governa a Espanha, não foi além de 11 deputados em 135.
Vitória do soberanismo, derrota do situacionismo, este é o resultado das eleições catalãs. É verdade que não existe um campo aberto para uma independência unilateral, porque a CUP já declarou que não apoia Artur Mas e, nessa matéria, deixa de haver maioria parlamentar absoluta. Mas existe um imenso espaço para negociar, porque o soberanismo tem mais de 62% dos lugares, incluindo os 11 eleitos pela coligação entre a Esquerda Unida e o Podemos.
As eleições catalãs, juntamente com algum paralelismo que existe num País Basco cada vez mais expectante, demonstraram que Espanha tem de olhar para uma nova estrutura e uma nova rede de vínculos no seu Estado nacional. São cada vez mais fortes os sinais de que os povos de Espanha querem ter outra relação com o centralismo de Madrid, um misto anacrónico de reis católicos e autoritarismo franquista aplicado por uma caricatura de suserano dos interesses financeiros internacionais e de uma igreja católica ultramontana, incapaz até de se rever no Papa Francisco. Regime este que é levado nas palminhas pelos poderes europeus, que chantagearam à tripa forra durante a campanha eleitoral catalã, sem esquecer a NATO, pois claro.
As eleições catalãs explicaram que a transição de 1975, um regime de índole franquista sem Franco com fachada democrática, ultrapassou já o prazo de validade.
Espanha deve a si mesma uma República e uma união de povos soberanos, como os eleitores decidiram antes de serem brutalmente arrasados pelo banho de sangue imposto há quase 80 anos por Franco e os seus esbirros. A direita independentista catalã provavelmente nem terá este débito em conta, e talvez por isso não tenha chegado à maioria pretendida. A mensagem global dos catalães foi outra, e muito sábia. O caminho apenas começou, mas a fortaleza de Madrid sofreu um forte rombo.
 

 

domingo, 27 de setembro de 2015

TRAIÇÕES CONTRA CHARLIE HEBDO


 

Todos temos muito viva na memória a tragédia do atentado contra o semanário satírico francês Charlie Hebdo, a emoção internacional que provocou, os milhões que se declararam ser também Charlie Hebdo e também alguns episódios bizarros, como o facto de os dirigentes mundiais, entre eles o criminoso de guerra Benjamin Netanyahu, terem formado uma cabeça clandestina de manifestação em torno de François Hollande numa rua parisiense fechada e afastada do epicentro da manifestação de solidariedade com as vítimas (foto).
Também houve os que desconfiaram, desde o início, das explicações oficiais do atentado, revelando até que o assassino detido, Amedi Coulibaly, era seguido desde 2009 pelos serviços secretos franceses e conseguiu, “malgré tout”, praticar o crime. Sobre os incrédulos recaiu imediatamente a chancela da “teoria da conspiração”.
Pois esses incrédulos desde a primeira hora continuam à espera de uma clarificação das ocorrências, e têm razões para manter as reservas sobre as explicações oficiais, desconfianças agora acrescidas.
Desconfianças acrescidas porque o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, uma das mais tenebrosas figuras da Administração Hollande dita “socialista”, impôs o “segredo de Defesa” para que os juízes de Lille não possam investigar as relações entre o atentado e o fornecedor das armas com que foi praticado, um indivíduo de nome Claude Hermant, antigo membro do “serviço de ordem” dos fascistas da Frente Nacional, nazi convicto e, acima de tudo, um credenciado informador da Polícia Nacional francesa. Do mesmo modo que os juízes de Paris, muito provavelmente por ordens do mesmo Cazeneuve, não deram seguimento aos pedidos de informação da Europol, a polícia europeia, sobre as ligações entre Coulabaly, o terrorista, e Hermant, o importador e fornecedor das armas.
Segundo os juízes de Paris, as investigações sobre o atentado contra o Charlie Hebdo e os negócios de tráfico de armas praticados por Claude Hermant “são estanques”, e como tal deverão continuar. Assim foi explicado aos juízes de Lille para que não apurem o evidente envolvimento do informador da polícia Claude Hermant no atentado contra o Charlie Hebdo, em nome do “segredo de Defesa” imposto pela Administração Hollande através de Bernard Cazeneuve.
Os factos que vieram a público, no entanto, são mesmo relevantes. A Polícia Nacional confirmou que Claude Hermant é, de facto e há longo tempo, um informador da corporação. Hermant, por seu lado, é o proprietário da Seth Outdoor, empresa de tráfico de armas e de treino de banditismo sob a cobertura de actividades de paintball. As duas espingardas de assalto Kalachnikov e as quatro pistolas semi-automáticas Tokarev usadas no Charlie Hebdo, compradas pela Seth Outdoor a fornecedores eslovacos, foram por esta empresa encaminhadas para Amedy Coulabaly e respectivos comparsas. Esta prova foi considerada suficiente pelos juízes de Lille para investigarem as ligações entre o informador da polícia e os terroristas, mas então funcionou o travão de Cazeneuve através do “segredo de Defesa” e da “estanquicidade” virtual das duas pistas.
O que tem a Administração Hollande a esconder através do “segredo de Defesa”? Receará que as informações surgidas logo a seguir ao atentado sobre o envolvimento dos serviços secretos franceses se tornem evidentes?
Por este caminho jamais haverá uma explicação credível para o que aconteceu no Charlie Hebdo em 7 de Janeiro de 2015. Jamais será respeitada a memória das vítimas desta chacina terrorista. Todos quantos foram e não foram Charlie Hebdo nessas horas de emoção e repulsa continuarão a ser enganados pela propaganda oficial e pretextos avulsos, entre os quais o “segredo de Defesa”. As provas reais serão chutadas para os subterrâneos das teorias da conspiração; as mentiras governamentais tornar-se-ão verdades oficiais. O terrorismo, como se percebe também neste episódio, tem muitas caras.
 

 

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

BURLOCRACIA


 

A Wolkswagen e, ao que parece, a BMW, a Audi, a Seat, oficinas um pouco por todo o mundo, em Portugal também, e mais o que adiante talvez se venha a entrever, aplicam sistemas para esconder as suas operações poluentes; o que não é mais do que uma imitação do comportamento dos governos das grandes potências mundiais que todos os anos, sob o chapéu da ONU, fingem discutir os meios de salvar o planeta para que este continue a degradar-se irremediavelmente; grandes impérios da construção civil, como a Vinci e a Bouygues, estão mais uma vez a contas com processos de corrupção e atentados contra o ambiente, desta feita na ilha de Reunião, uma colónia de França; a NATO e os gigantes da produção de armamentos organizam guerras e manobras, fazem e desfazem governos para que o negócio da morte continue a reluzir; em Portugal sabe-se que as polícias secretas transmitem informações classificadas a empresas privadas; a procissão das tramas e tramóias em torno da figura de um ex-primeiro ministro ainda nem saíram do adro da pouca-vergonha; o primeiro-ministro em exercício engasga-se e mente quando confrontado, por simples eleitores, com os resultados das suas malfeitorias e falsifica números com a destreza de um mágico fracassado.
São apenas alguns exemplos, ao correr do teclado. Chegam para demonstrar, senhoras e senhores, que não vivemos em democracia, mas sim em burlocracia. Isto é, somos governados, em regime nacional e global, por um bando de burlões. Quando escrevo burlões não está em causa somente o comportamento governamental mas também, e sobretudo, o dos verdadeiros donos disto tudo, as wolkswagens e bmws, as vincis e companhia que mandam nos políticos e são, nem mais nem menos, que os senhores do regime.
A Vinci, por exemplo, a quem entregaram os aeroportos e a navegação aérea em Portugal, numa rifa risonha de compadres qualificada como “grande negócio”, é a mesma entidade que assalta os transeuntes das autoestradas do centro e sul de França com portagens escabrosas, também a mesma entidade que passa e embolsa as multas de trânsito nas ruas de Bruxelas, substituindo-se à administração pública. Funciona como um Estado multinacional ganancioso viciado no lucro, ocupando o lugar de Estados que deveriam pertencer aos cidadãos, consumando aquele que é o sonho de qualquer encartado capitalista neoliberal: a privatização absoluta do Estado.
Se dedicarmos algumas linhas a analisar o comportamento das entidades citadas, e também das que estão subentendidas através da certeza de que tais práticas não são excepções, mas a regra, concluiremos, sem surpresa, que tal é a cultura vigente, a mentalidade regimental, a sociedade em que vivemos. Tão enraizada e sedimentada que até o Papa, imagine-se, o Papa, fica a pregar aos peixinhos.
Ao instalar o kit fraudulento que mente sobre as emissões tóxicas para a atmosfera e os pulmões dos indefesos cidadãos, a Wolkswagen candidata-se às mais gratificantes medalhas do empreendedorismo, da competitividade, da modernidade e da argúcia concorrencial, apenas ao alcance de quem serve como deve ser o mercado livre. A burla e o mercado livre são a imagem da simbiose perfeita; e as entidades que mais se aproximarem desta fusão mais perto estarão da empresa ideal, do governo de excelência.
Transmitir informações reservadas, obtidas sabe-se lá por que métodos, a empresas privadas, ou montar sistemas que disfarçam o envenenamento do ambiente são atitudes que animam a verdadeira concorrência, que asseguram posições de topo nos rankings da produtividade, que garantem as mais relevantes cotas de mercado, que recompensam os inconformados devotos do empreendedorismo, enfim, são as imagens reluzentes da realidade imposta aos cidadãos, que de vez em quando votam para que haja um simulacro de democracia e tudo continue na mesma… Até ao dia das surpresas, façamos por isso. Entretanto os cidadãos, bem comportados, fazem separações de lixos, andam de bicicleta para poupar o ambiente e vomitam austeridade enquanto os donos disto tudo, com uma dimensão que nos faz parecer míseras bactérias perante cruéis dinossauros, sujam por atacado e a seu belo prazer numa guerra pela nobre coroa do ladrão mais apto, mais ganancioso e especulador, merecedor das mordomias e vénias do regime.
 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

A VINGANÇA DAS ARITMÉTICAS


 
O primeiro ministro de Portugal em exercício provocou os deuses das aritméticas e estes, secos, frios, saturados de manipulações, descarregaram-lhe em cima uma hecatombe de estatísticas que dir-se-iam combinadas para lhe tornar a última semana de campanha uma dolorosa via-sacra.
Malditos números!, terá bramado aquele a quem se aplica, como um fato feito por medida, a grande verdade de que a mentira tem as pernas curtas. Tudo começou, aliás, com um acto de esperteza saloia, a que alguns depois chamaram “lapso”, do dito chefe do governo, por certo excessivamente confiante na sabujice da comunicação social do regime, a mesma que lhe oferece diariamente sondagens de 40% desmentindo-se a si mesmas sob a capa esburacada do “empate técnico”. Ufanou-se o sujeito de que os cofres da Nação rebentam pelas costuras, de tal modo que iria remeter para o prestimoso FMI uma remessa de 5400 milhões de euros de amortizações antecipadas da benévola “ajuda” que a instituição nos prodigalizou. Afinal não tardou a saber-se que a entrega de tão volumoso tesouro não se deveu a novo gesto de agrado aos credores, tão da natureza do chefe do governo, mas sim a uma obrigação vencida perante os celebérrimos mercados, ainda para mais – o que depois veio a ser explicado como se de uma terrível malfeitoria se tratasse - decorrente de um empréstimo contraído há 10 anos “pelos socialistas”. Do mesmo modo que daqui a 10 anos, se ainda houver Nação, alguém terá de desembolsar alforges e alforges de dinheiro por conta dos sucessivos empréstimos contraídos pelo governo em funções – e que são, aliás, saudados como benesses dos mesmos mercados, rendidos ao bom comportamento governamental. Enfim, modos de ver as coisas.
O certo é que das catacumbas da comunicação regimental alguém se atreveu a explicar que o rei ia nu, neste caso o primeiro-ministro, ao corrigir o “lapso” governamental, denunciando que a amortização era uma obrigação, não um gesto prometedor insinuando aos eleitores que vêm aí tempos de vacas gordas se ao leme continuarem os mesmos.
Estavam as coisas nesse pé quando a hecatombe estatística desabou, e agora nem Santa Bárbara e muito menos São Bento chegam para acudir ao fulano.
Então não é que a dívida pública saltou já este Verão para 290 mil milhões de euros (não se esqueçam que a troika veio para nos “ajudar” a reduzi-la), continuando a crescer a um ritmo de 1300 milhões por mês?
E o défice? Então não é que em vez dos redondinhos 2,7% que o primeiro-ministro prometeu a Bruxelas como garantia da sua vassalagem, já vai em 4,2% e, no fim do ano, desafiará quaisquer rigores através de uns comprometedores 7,2%? Ora vejam, os algarismos até são os mesmos, um 2 e um 7, e não é que alguém os inverteu em desfavor do primeiro-ministro, só pelo prazer sádico de lhe estragar a campanha? Porém, que ninguém se alarme, garantiu a senhora ministra das contas marteladas. Os números são assim, maus de facto, mas não têm efeitos práticos, parecem ser virtuais, a culpa é do Novo Banco e de não ter sido rifado a tempo das eleições, nada que não se resolva logo a seguir desde que os contribuintes paguem tudo enquanto os tentam convencer de que nada pagam
Isto no meio dos tráficos estatísticos com os desempregados e respectivas famílias e das miradas liquidatárias lançadas contra a segurança social, redundando tudo numa tragicomédia interpretada por burlescos canastrões para quem as pessoas são meros instrumentos, ora úteis ora descartáveis, à mercê das suas ambições.
Olhando esta triste e deprimente peça a partir da plateia, será que alguém ainda tem dúvidas sobre o que nos está reservado pelas performances do primeiro-ministro em exercício e dos seus comparsas ungidos pela excelsa e democrática pertença ao “arco da governação”?
 
 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

AS BIZARRIAS DO SR. SCHULZ


 

O alemão Martin Schulz é o presidente do Parlamento Europeu, por sinal o único órgão da União Europeia verdadeiramente eleito. Como tal, deveria sentir responsabilidades acrescidas no respeito pelos cidadãos dos países da confraria, um importante contingente de 500 milhões de contribuintes e pagadores de dívidas alheias.
Como Martin Schulz é um “social-democrata”, também há quem lhe chame “socialista”, serve frequentemente de bandeira aos seus companheiros de grupo em comícios eleitorais, como recentemente aconteceu em Portugal, onde normalmente se esconde que os “socialistas e democratas” do Parlamento Europeu são tão responsáveis como os conservadores na formação de maiorias que aprovaram as mais gravosas malfeitorias económicas e financeiras contra os cidadãos, por exemplo troikas, tratado orçamental, semestre europeu, germanização da moeda, entre muitas outras. Se o leitor tem dúvidas sobre o que acaba de ser escrito basta-lhe consultar os resultados das votações desses assuntos em plenário.

Do alto do seu cadeirão, Martin Schultz decidiu agora qualificar como uma “bizarria” a renovação da aliança entre o Syriza e os Gregos Independentes para governar a Grécia. Diz ele que não deveria o Syriza, “como partido de esquerda, aliar-se com um partido de extrema-direita”. Quem o ouve não o leva preso. Até parece um homem de esquerda a falar, assim tão preocupado com a imagem daqueles que apressadamente considera agora irmãos ideológicos depois de ter participado na operação terrorista que levou Alexis Tsipras a capitular perante a máquina incineradora da finança mundial manobrada pelos órgãos da União Europeia, Parlamento Europeu incluído.
Até pode ser que a citada aliança na Grécia seja uma “bizarria”, embora muito mais bizarro seja, salvo melhor opinião, o modo como Tsipras se rendeu aos credores, dispondo-se a tudo para manter o país no euro – isto é, na via da austeridade e da sangria dos gregos, mais ou menos light, a ver vamos.
O mais bizarro de tudo é que seja Schultz a dizê-lo. O homem que pertence à coligação alemã, chefiada por Merkel, a qual transformou a Grécia num protectorado submetido sem respeito nem dignidade, é muito pouco recomendável para criticar supostas bizarrias dos outros; o homem que considera democrático o governo fascista da Ucrânia tem pouca legitimidade para condenar alianças de outros com a suposta “extrema-direita”; o homem que, ao lado da patroa Merkel, tem acicatado os da troika a torturarem sem limites o povo da Grécia deveria medir as palavras quando emite sentenças sobre a maneira como os escolhidos pelos gregos se organizam; o homem que, como presidente do Parlamento Europeu ou simples dirigente “social-democrata”, não pronunciou uma palavra nem mexeu uma palha para evitar as guerras que dizimam milhões de pessoas e estão na origem da dramática onda de refugiados que procura a Europa, deveria pensar muito mais que duas vezes antes de aludir às supostas “bizarrias” de outros; o homem que assiste imóvel, logo cúmplice, a práticas de governos europeus, como o húngaro e o croata, inspiradas na sinistra figura do seu compatriota de antanho chamado Adolf Hitler, deveria ter a noção da gravidade do que diz quando se arvora em conselheiro da democracia como quem dá uns tabefes numa criança que fez uma diabrura.
Bizarro, bizarro mesmo é uma figura como Martin Schulz ser presidente do Parlamento Europeu. Em boa verdade, muito mais bizarra que tudo isso é a própria união Europeia.
 

sábado, 19 de setembro de 2015

JEREMY CORBYN


 
A eleição de Jeremy Corbyn como dirigente máximo do Partido Trabalhista Britânico tem dado origem a um dos maiores chorrilhos de asneiras, demonstrações de ignorância e manifestações de manipulação propagandística nos tempos que correm. Ainda o homem não fora eleito para o cargo e já a sua simples candidatura era olhada como uma terrível avalancha de tempestades ameaçando a Europa, a qual, como se sabe, vive na paz dos deuses.
Vamos então a factos para que se entenda o significado profundo desta eleição, que mais não é do que uma expressão do sentimento profundo de revolta dos trabalhadores britânicos contra a austeridade em geral e contra a apropriação de um dos seus partidos, o Partido Trabalhista, por uma casta reacionária, direitista e neoliberal que o “thatcherizou” pelas mãos de um criminoso de guerra chamado Tony Blair.
O cujo, Tony Blair, patrocinou mil e uma conspirações e chantagens nas semanas que antecederam a eleição do novo presidente trabalhista para que Corbyn fosse apagado da lista dos candidatos, ou então derrotado. A democracia funcionou e Blair saiu escandalosamente derrotado.
A democracia funcionou, é verdade, mas não através do artifício das “eleições primárias”, cópia do modelo norte-americano que subverte o sistema de partidos através de mecanismos confusionistas criados para acabar de vez com a ideologia na política. Corbyn foi eleito sim, mas pelos militantes do partido e dos sindicados que lhe são afectos – nos termos da organização laboral britânica. Nas eleições trabalhistas, ao contrário do que se tornou moda através da Europa neoliberal, não há participação dos chamados “simpatizantes”, artimanha que dá origem aos desvios democráticos proporcionados pelo sistema de “primárias”.
Quase 60% dos trabalhistas britânicos escolheram então Corbyn, apostando num programa que nada tem de “radical”, como gritam os nossos analistas e politólogos de turno, e representa apenas um regresso à tradição ideológica trabalhista, permitindo a dissociação do partido da amálgama neoliberal que governa a Europa numa fusão inextrincável entre direitistas e socialistas/sociais-democratas.  
Se os tais analistas, comentadores, politólogos e papagaios soubessem um bocadinho de História da Europa e não se limitassem ao preguiçoso copy/paste dos escritos e dissertações dos tecnocratas que ainda lêem apenas a bíblia dos rapazes de Chicago, saberiam que Corbyn não é “radical”, nem um comunista disfarçado, nem um revolucionário, quiçá um terrorista ou bombista. O programa de Corbyn defende apenas a restauração de uma ordem mais democrática, laboral e social que existia no Reino Unido e outros países europeus antes de ser arrasada por Margareth Thacher e respectivos sequazes continentais, entre os quais avultou o já citado Tony Blair.
Corbyn é solidário com a Palestina e os palestinianos como defende uma Irlanda unida, é contra as armas nucleares e a guerra, esteve ao lado dos injustiçados seis de Birminghan, advoga o regresso de serviços básicos – transportes, correios, por exemplo – ao sector público, responsabiliza a NATO pela catástrofe na Ucrânia, é contra a austeridade, propõe impostos progressivos de acordo com os níveis de rendimentos, advoga o fim dos subsídios estatais ao sector privado. Coisas políticas que os papagaios – entre ignorância e maus instintos – apregoam como que saídas de horrendas catacumbas medievais.
Nada disto é radical, muito menos anacrónico; Corbyn não está “fora de moda” por não ser igual a Hollande e aos sociais-democratas amestrados pela senhora Merkel, nem se guia por coisas que já não se usam. Pelo contrário, o seu aparecimento, a par da experiência prometida pelo Syriza e pelo mesmo Syriza aniquilada, representam sinais de que o prazo de validade do neoliberalismo, estagnado no rumo único da austeridade, está a chegar ao fim.
Daí a falta de tino das reacções à eleição do líder trabalhista britânico, que já se manifestaram também a propósito do Syriza e ameaçam o Podemos e outras indignações – ainda que todos estes casos sejam diferentes entre si. Daí também alguns silêncios comprometidos dos que deveriam ser “compagnons de route” de Corbyn, e com ele solidários, insensíveis aos insultos e às deturpações programáticas de que o novo dirigente trabalhista é vítima. Provavelmente porque para esses “compagnons de route” os interesses da batota financeira se sobreponham à solidariedade, e antes Blair que tal sorte.
 

 

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A TORTURA COMO SEGREDO DE ESTADO


 
Todos sabemos que os Estados Unidos da América são os campeões dos direitos humanos, qualidade que lhes faculta a possibilidade de actuarem como juízes na matéria e promoverem guerras, assassinando milhares de seres humanos e espalhando multidões de refugiados através do mundo, lá onde os direitos humanos são violados sem qualquer pudor.
É sabido que os Estados Unidos nada têm a ver com o desmantelamento de um país chamado Líbia, a fragmentação do Iraque em múltiplos cenários de guerra, a transformação do Afeganistão no Eldorado dos empresários multinacionais de heroína, ou com a destruição de um país chamado Síria e a liquidação massiva de milhares dos seus habitantes. O apego norte-americano aos direitos humanos é tal que os seus dirigentes, com o presidente Obama à cabeça, estão consternados com a proliferação de refugiados na Europa provocada pelos enunciados conflitos, mostrando-se disponíveis – por enquanto apenas em palavras – para acolher um lote de 10 mil enquanto mandam erguer mais muros e cercas para dissuadir uma praga de mexicanos que sempre os ameaça.
Em matéria de direitos humanos os Estados Unidos da América são igualmente um exemplo no combate à tortura, actividade que não praticam e, como diz gente carregada de más intenções, nem voltam a praticar.
Confirmou-se agora, porém, através das repercussões na comunicação social das notas de um advogado de um detido de Guantanamo, esse campo de férias erguido pelo Pentágono e a CIA em território cubano ilegalmente ocupado, que os presos ali confinados são submetidos a sessões de tortura com alguma regularidade. Um deles, de nome Abu Zubaidah, foi vítima de waterboarding – simulação de afogamento até à inconsciência - 83 vezes num único mês, além de ser alvo de continuados espancamentos e tratamentos humilhantes. Zubaidah, preso há nove anos sem culpa formada – norma corriqueira em qualquer catálogo de direitos humanos – já cegou de um olho em consequência de tão generosa hospitalidade.
Notas de outros advogados revelam que as atrocidades são cometidas por indivíduas e indivíduos embriagados, que recorrem ao que estiver mais à mão sejam martelos, tacos de basebol, prosaicos varapaus ou mesmo aos próprios cintos, como qualquer pai disciplinador com mente medieval. Claro que pessoas com estes comportamentos não podem ser da CIA e outras instituições igualmente democráticas e respeitadoras dos valores básicos “da nossa civilização”. Por isso o presidente Obama, os seus ministros e secretários, os seus conselheiros e agentes de censura decidiram que tais actos não podem ser reconhecidos oficialmente, incluindo as notas dos advogados de defesa, que agora vão ter de se haver com a lei apesar de reclamarem que as suas denúncias são feitas de acordo com a Lei e a Constituição.
Há meses ainda vieram a lume, por acção voluntarista de membros do Congresso – certamente quintas colunas do terrorismo universal – algumas denúncias dessa tortura, ainda que poupando os cidadãos à identificação dos esbirros e aos lugares clandestinos onde praticam tortura, embora se saiba que alguns se situam na democrática Europa. As ondas de choque das revelações, porém, terão incomodado a CIA e o Pentágono, consideradas até nocivas para o esforço de guerra desenvolvido pelos denodados destacamentos libertadores.
Agora o presidente Obama e os seus declararam que tais assuntos são confidenciais, uma vez que segredo de Estado deve continuar a ser segredo de Estado, em nome da segurança do Estado e dos cidadãos, mesmo que o Estado tenha deixado de ter alguma coisa a ver com estes.
Ignore, portanto, tudo quanto atrás ficou escrito sobre práticas violadoras dos direitos humanos pelo país que mais os defende. Ignore que a Administração norte-americana gere lugares clandestinos, ou nem tanto, onde se praticam sessões de tortura. Tal não existe; o que é oficialmente escondido não existe. A bem do respeito pelos direitos humanos.
 
 

terça-feira, 15 de setembro de 2015

O ARCO DOS TRAPACEIROS


 
A última tendência de campanha dos partidos do arco da governação, certamente ditada pelos fumegantes brain storms produzidos por reputados técnicos de marketing alugados temporariamente para o efeito, é a de evitar fazer promessas aos eleitores. Para tal estratégia não seria preciso recorrer a renomados profissionais da manipulação publicitária, qualquer um percebe que os eleitores estão fartinhos de promessas, sabendo que invariavelmente vão desembocar no território da mentira.
Pois agora não há promessas, e até se promete não fazer promessas como suprassumo da transparência e da franqueza perante os donos do voto. A moda agora é números, os meus números para lá, os teus números para cá, os meus números são melhores e mais fiáveis que os teus, nada disso, os melhores e mais realistas são os meus. Números esses, os meus e os teus, produzidos todos pelos mesmos tecnocratas autores dos programas económicos do arco, devendo apenas discutir-se se os meus são mais amigos do mercado que os teus ou vice-versa, sendo certo que são todos muito neoliberais, nem de outra maneira poderia ser porque depois como se iriam explicar os resultados aos draghis, merkels, djesselboems, hollandes, camerons e obamas desta vida.
Enquanto se esgrimem números, os candidatos-governantes e governantes-candidatos do arco falam em pessoas. Tem de ser: são pessoas que votam, por uma vez de quatro em quatro anos também existem pessoas além dos centros de batota financeira e das máquinas de transformar ossos e sangue humanos em lucros. Para isso todos eles têm soluções, combinam números com pessoas, conseguem rimar famílias com boas intensões no versejar monocórdico e sem alma gritado em feiras e comícios de arregimentados – nisto (e noutras coisas) o fantasma salazarento não se faz velho.
Pois bem, não façam promessas para não serem apanhados em mentiras, a estratégia está queimada, qualquer papalvo a denuncia - sentenciaram os técnicos de marketing. Há coisas, porém, que já nem o mais pintado dos marketeers consegue disfarçar: a imagem de mentiroso do primeiro-ministro em exercício. Dela já não se livra; quem o escolher é porque gosta de ser enganado, uma escolha tão legítima como qualquer outra. O homem é mentiroso compulsivo, vive disso e a aldrabice congénita acompanhá-lo-á até à tumba.
Não julguem que é o único do arco da governação. Não, não estou a pensar no dr. Portas, manipulador e aldrabão com um talento que faz do seu chefe um mentiroso reles, tipo bufo de escola.
Falo do dr. Costa, correndo o país de lés-a-lés não fazendo promessas mas levando uma grande mentira na bagagem, embrulhada no papel pardacento de um dos mais gritados dos seus números: o de que ao fim de um pretendido consulado de quatro anos sob a sua regência a dívida portuguesa cairá dos impagáveis 130% do PIB para outros impagáveis 117% - sem mencionar uma hipotética renegociação, imagine-se. Deixo vénias ao blogue O País do Burro por ter alertado para a enormidade da mentira do dr. Costa através de cálculos que pessoalmente confirmei com algumas continhas de quarta classe, tirando as respectivas provas dos nove. Para que a promessa do dr. Costa se cumpra é preciso que a economia portuguesa suba entre 8 a 8,5% ao ano nos próximos quatro anos – mais do que a chinesa, pois claro, mas esses estão em crise – quando agora, muito timidamente e certamente manipulada por impulsos eleitorais, mal passa de 1%.
Várias conclusões se podem tirar desta promessa do dr. Costa, que não é promessa mas sim um número, e dos bons. Talvez ele seja um milagreiro; talvez ele e os seus mentores apenas não saibam fazer contas – seguindo as pisadas lendárias do dr. Soares; talvez ele tenha escondida na manga uma austeridade que fará parecer os agentes da troika uns anjinhos papudos, mas não o poderemos saber porque o dr. Costa foge das promessas como o diabo da cruz; ou talvez o dr. Costa seja um grande mentiroso, rivalizando com os companheiros de arco, o dr. Coelho e o dr. Portas, ficando tudo em família.
Confesso que não sei por qual destas hipóteses me decida. Deixo-vos o final em aberto.
 

domingo, 13 de setembro de 2015

UMA BANDEIRA VIRTUAL



A ONU vai hastear a bandeira da Palestina entre as dos membros da organização em frente ao palácio de vídeo em Nova Iorque, por decisão da Assembleia Geral. Acontecimento histórico, dizem uns; decisão tardia, argumentam outros; movimento simbólico, asseguram uns tantos; faz-se justiça, consideram mais alguns.
A verdade é que todos e nenhum têm razão. A iniciativa é tudo isso, histórica, tardia, simbólica, justa, mas nada altera. A decisão da Assembleia Geral, como muitas aprovadas por este órgão que deveria representar a vontade dos povos do mundo, é ineficaz – mais do que isso, inútil.
Será importante, sem dúvida, para os palestinianos e todos os que com eles se solidarizam na luta pelos seus inalienáveis direitos, ver a bandeira da Palestina reflectida nos vidros do palácio que deveria representar o respeito pela vontade e os direitos de todos os cidadãos da Terra. Mais importante seria, porém, que a presença dessa bandeira correspondesse à concretização absoluta e sem ambiguidades de um Estado da Palestina - um Estado viável, é claro - um conceito que a ONU aprovou há 77 anos em decisão inscrita no direito internacional e a cujo cumprimento se tem furtado durante as quase oito décadas transcorridas.
Os palestinianos revêem-se, orgulhosos, nessa bandeira. Acreditam que talvez a nova realidade, simbólica e formal, possa acelerar a instauração do Estado viável que lhes é devido pela chamada comunidade internacional, mas isso não determina que alguma coisa mude. A bandeira é virtual e tudo indica que continue a sê-lo por muitos e maus tempos.
Porque a ONU é uma farsa. Quase sempre o foi, mas o quadro tem-se degradado para patamares inconcebíveis, sobretudo desde que há um quarto de século acabou a bipolaridade como sistema não convencionado, mas real, de funcionamento das coisas internacionais.
Observando como este caso da bandeira da Palestina simboliza a degeneração da ONU em relação aos seus princípios fundadores avulta, desde logo, o facto de a Assembleia Geral, o órgão de estatuto mais democrático da instituição, não mandar nada. Vota e pronto; depois nada acontece, porque os países supostamente mais democratas de todos – a democracia da força em vez da força da democracia -, os membros permanentes do Conselho de Segurança, que se barricam atrás de normas por si estabelecidas para proveito próprio, mandam e desmandam em tudo o que acontece ou há-de acontecer no mundo.
Assim sucede, uma vez mais, por detrás da decisão sobre a bandeira da Palestina. Os Estados Unidos da América votaram contra – enquanto dizem que são a favor de um Estado da Palestina, ironia das ironias – porque para que tal aconteça é preciso levar a bom porto o “processo de paz” que eles e o seu “inseparável aliado” Israel patrocinam e ao mesmo tempo sabotam. Um processo de paz cuja invocação é caricata, mas cujo conceito serve para que se vá consumando a ocupação israelita de toda a Palestina, invalidando a criação do tal Estado – viável, repete-se, porque nenhuma outra coisa será admissível, muito menos uma caricatura - cuja bandeira virtual irá agora ondular em frente à sede da ONU. Anoto que o governo português se absteve nesta matéria, isto é, tomou a posição dos cobardes num assunto com tal gravidade, como quem se refugia num canto para não incomodar seus amos: a Alemanha, que também se absteve; e os Estados Unidos, que chefiam os anglo-saxónicos e seus apêndices secundando a sanha terrorista de Israel.
Pela ordem natural – e aberrante – das coisas, quando a bandeira da Palestina for hasteada em Manhattan o povo de Gaza continuará a tentar sobreviver no campo de concentração em que o território foi transformado pelo regime de Israel, com beneplácito das principais potências da ONU; o muro que confina o povo da Palestina a bantustões miseráveis, isolados, verdadeiros campos de morte lenta, estará ainda mais sólido e longo; milhares de palestinianos continuarão a penar nas prisões israelitas, vítimas de actos arbitrários e cruéis que violam quaisquer compêndios de direito, mesmo os coligidos pelos mais sórdidos regimes; os colonatos sionistas estarão, ainda e sempre, absorvendo metro a metro o território da Palestina, numa ocupação para já irreversível que desmonta qualquer “processo de paz”; uma nova cerca ou muro já em construção – estão na moda – tornará estanque a transição de seres humanos entre a Palestina ocupada e a Jordânia; os militares israelitas continuarão a fazer o que muito bem lhes apetece contra os indefesos palestinianos; as deportações prosseguirão. A Nakba, a catástrofe do povo da Palestina, segue o seu caminho sinistro.
Uma bandeira, por muito orgulhosa e legítima que seja, não elimina nada disto. Porque tudo isto faz dela uma bandeira justa e insubstituível, mas ainda virtual.
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

MOMENTO HISTÓRICO DE MISTIFICAÇÃO


 
Um dos figurantes da noite d’”O Debate” assegurou, empolgado, que estávamos a viver um momento histórico e não serei eu que irei retirar-lhe a razão. Foi histórico, sim senhoras e senhores, aquele “Debate”, porque além de ter sido a maior operação de propaganda situacionista que Portugal viveu – e não é dizer pouco num país que sofreu quase meio século sob um regime fascista – também foi bastante esclarecedor para os cidadãos com os olhos abertos: revelou-se o mais consistente exemplo da mistificação a que chegou a democracia portuguesa como subproduto do conceito de democracia vigente na União Europeia.
Em boa verdade, os figurantes e os actores pareciam ter chegado de outro planeta, quiçá de Marte, numa confirmação do advento ainda há pouco proclamado pelo dr. Costa sobre a iminente arribação de marcianos. Esclarecer não era o objectivo, como se percebeu através da penosa série de perguntas retóricas e dos monólogos a corresponder-lhes, para que no fim triunfasse, como triunfou, o todo-poderoso arco da governação, porque outro resultado não seria possível, o 1 era igual ao X e ambos igualíssimos ao 2, nunca foi tão fácil acertar no Totobola. Todos os cinco em cena corresponderam ao que deles se esperava como micro universo do sistema político-propagandístico que destina a vida dos portugueses, a exemplo dos outros que controlam as vidas dos 27 povos da União. E o desfecho também não surpreendeu, porque “O Debate” não foi montado para que dele nascesse a luz mas antes alastrasse a confusão, de modo a transformar a escolha eleitoral num duelo entre dois clubes, à maneira de uma refrega futebolística.
O lado mais importante do “Debate”, e daí a importância histórica desta mega operação propagandística do chamado arco da governação, é o que está para além dele. Creio que é essencial reflectir sobre isso.
O momento d’”O Debate” não foi escolhido por acaso. Travou-se a cerca de um mês antes da data das eleições, ainda no exterior da campanha eleitoral, e não em cima da votação, por uma razão muito simples: marcar a agenda e os temas da campanha. Do mesmo modo que a magna manobra foi organizada de maneira a convencer os eleitores que não há escolha para lá destes dois figurões e respectivas famílias políticas – família política, para ser mais preciso – ficaram também estabelecidos os tons e os temas da campanha. Disso se encarregam os dois ilustres senhores e, sobretudo, a corte de analistas, comentadores e especuladores oficiais do regime, os quais irão espremer o “Debate” e respectivas nuances, inflexões e sound-bites criando a confusão e o ruído necessários para que não se faça política, mas sim lavagem cerebral.
Os que ainda conseguem lembrar-se de qualquer coisa que tenha acontecido n’”O Debate” sabem muito bem que por ele não passaram, por exemplo, a Educação, as trapaças do Tratado Orçamental, os beija-mãos à senhora Merkel; da Saúde deitaram-se uns pozinhos para os olhos, da Justiça cruzes credo, t’arrenego, Agricultura, Indústria e Pescas que é delas – em boa verdade não deve falar-se de coisas que foram devastadas pelas duas tão aconchegadas famílias. Para o desemprego e a segurança social guardaram-se as piruetas estatísticas, investimento público nem pensar porque é público, logo ofensivo do mercado. Quanto à troika, parece que a tão famosa “ajuda” foi renegada agora que se aproxima a hora de as vítimas da austeridade terem uma palavra a dizer, porque afinal ninguém a chamou. O dr. Coelho diz que foi o eng. Sócrates; e o dr. Costa, que não consegue sequer pronunciar o nome do eng. Sócrates, se calhar ao tempo trabalhava apenas como porteiro no Largo do Rato.
Enfim, a campanha oficial vai ser um desdobramento d’”O Debate” em doses sucessivas, de maneira a que as propostas elaboradas por outras forças políticas que não as do arco da governação sejam esmagadas por um tenebroso aparelho de mistificação que se entretém a fingir que discute o passado por não ter a coragem e a frontalidade de assumir que pretende mais do mesmo para o futuro do país: austeridade, submissão, desigualdade, arbitrariedade, miséria, emigração.
“O Debate” foi histórico, sem dúvida. Demonstrou como os impérios da propaganda travestidos de comunicação – com os respectivos tentáculos multinacionais e imperiais – protegem os seus agentes na política, de maneira a que os momentos potencialmente incómodos, como é o caso de umas eleições gerais, sejam ultrapassados sem danos e até com proveitos acrescidos.
 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

UMA ATERRADORA TRAMA DE CRISES


 
Desde que se tornou pasto da tenebrosa máquina de manipulação em que se transformou a comunicação social dominante, a chamada “crise dos refugiados” está a ser deliberadamente desfocada do seu centro nevrálgico, a questão humanitária, mediante o recurso aos artifícios habituais onde se movem os pescadores de águas turvas, os oportunistas de grosso calibre e, sobretudo, os barões político-militares para quem o mundo é um vasto tabuleiro de guerras e rentáveis oportunidades.
Nas últimas horas, aviões de guerra franceses e britânicos, os mesmos ou gémeos dos que há três anos deixaram a Líbia no caos, começaram a sobrevoar a Síria com o objectivo proclamado de combater simultaneamente o regime de Bachar Assad e o Estado Islâmico, coisa em que ninguém acredita, nem os próprios. A prová-lo está o caricato anúncio de um exercício de tiro britânico já realizado em território sírio para liquidar terroristas que, imagine-se, projectavam abater essa nobre dama que é a rainha de Inglaterra. Em suma, à boleia da “crise dos refugiados”, a NATO entrou directamente na guerra contra a Síria, como os mais falcões dos atlantistas há tanto desejavam.
Descodifiquemos os factos. Depois de o presidente francês Hollande ter declarado que acolher todos os refugiados seria “fazer a vontade ao Estado Islâmico”, aviões franceses e ingleses, logo da NATO (por inerência) entraram em acção num país soberano, sem mandato da ONU nem autorização do governo legítimo, para intimidarem não apenas esse governo como (alegadamente) um grupo que o combate, neste caso o Estado Islâmico, protegido e criado por países aliados de França e do Reino Unido como são Israel e os Estados Unidos da América. Continuando a descodificação, lembro que esse mesmo Estado Islâmico não é mais do que uma consequência directa do desmantelamento do Iraque, da Líbia e da guerra civil síria. Prosseguindo ainda a descodificação, recordo que países como o Qatar e a Arábia Saudita, tão aliados de França, do Reino Unido e da NATO como são os Estados Unidos e Israel, desempenham papéis preponderantes nas situações de caos que geraram a avalanche de refugiados na Europa, sendo que nenhuma dessas monarquias torcionárias do Golfo está disposta a acolher um único refugiado que seja.
Apesar de a teia ser complexa, não é impossível detectar que a actual crise dos refugiados tem o dedo dos Estados Unidos da América e da NATO, como reconhecem, aliás, os serviços de informações militares da Áustria, pelo que, assim sendo, não será novidade para qualquer país da União Europeia.
Porém, não se vejam apenas desvantagens europeias neste fluxo de seres humanos desesperados, fugindo a guerras fomentadas também por potências europeias. Ouçamos o senhor Ultich Grillo, todo-poderoso patrão dos patrões alemães, à cabeça da Federação da Indústria (BDI). “Como país próspero e também pelo amor cristão ao próximo a Alemanha deve permitir-se acolher refugiados”, declarou. Tal como está a acontecer, e logo a um ritmo que permite prodigalizar enfáticos e universais elogios à senhora Merkel. “Devido à nossa evolução demográfica”, acrescenta o senhor Grillo, “asseguramos o crescimento económico e a nossa prosperidade graças à imigração”. Descodificando – será que é mesmo preciso? – desgraçados maduros para aceitar trabalho escravo como quem entra no paraíso são como pão para a boca para os barões da indústria alemã e pangermânica, como outrora foram tão úteis os degredados em campos de concentração.
Assim sendo, nestes dias observamos países que criaram guerras e desmantelaram nações, dando origem a uma vaga de refugiados para a Europa - compartimentando este continente entre cercas e muros com tonalidades concentracionárias -, partirem para novas fases das mesmas guerras, agora sob o pretexto de travarem o movimento de fuga combatendo grupos terroristas que são seus cúmplices e em cuja criação e desenvolvimento participaram. São assim, senhoras e senhores, os dirigentes políticos, militares e económicos que nos governam. Mentirosos irresponsáveis ao serviço de patrões e interesses que ganharão sempre com a tragédia de milhões de seres humanos, sejam quais forem os desfechos das sucessivas crises.
 
 

domingo, 6 de setembro de 2015

NA VIA DA FRAUDE ELEITORAL



Em Portugal, aquilo a que chamam campanha eleitoral degenerou em fraude eleitoral enquanto a Comissão Nacional de Eleições faz papel de morta para condizer com o estado da democracia.
Fraude eleitoral, sim, senhoras e senhores. Não apenas por causa do magno “debate”, “O Debate”, como lhe chamam, uma gigantesca burla mediática em que se associam os maiores impérios censórios da nação numa desavergonhada operação de propaganda do chamado “arco da governação”. Chamar-lhe “O Debate” é um insulto à inteligência dos portugueses, porque não passa de uma luta encarniçada de galos pelo poleiro que o sistema lhes reservou por suposta inerência, esgrimindo com promessas mentirosas e êxitos virtuais para que tudo continue na mesma, a bem do “mercado” e das suas viciosas necessidades de engorda.
Fraude eleitoral, sim, senhoras e senhores. Uma consequência natural do estado de podridão a que chegaram os órgãos de soberania da nação, entretidos com tricas entre castas que vivem do saque dos bens, dos medos e angústias dos cidadãos, gigolos de um processo mediático-judiciário em que os tempos e os espaços daquilo a que chamam justiça contaminam tudo o que deveria ser a concentração da atenção nos reais problemas dos portugueses, em que os “sound bites” vomitados pelos estrategos de marketing publicitário temporariamente contratados pelas “máquinas partidárias” ditam aquilo que vai ser repetido até à exaustão pelos criados ao serviço dos impérios da propaganda.
Isto não é uma campanha eleitoral, senhoras e senhores. Isto é uma monstruosa lavagem ao cérebro com um requinte que nem Orwell imaginaria, ele que previa a atribuição a porcos de actividades que, afinal, foram entregues aos sacerdotes tecnocratas da modernidade, a cavalo nas mais delirantes tecnologias – para acabarem prosaicamente a entrevistar entregadores de pizas.
As leis eleitorais ditam que todas as entidades que apresentam candidatos ao Parlamento, partidos ou coligações, devem ser objectos de um tratamento igualitário, de modo a que os cidadãos tenham conhecimento de todas as propostas para o futuro do país e possam decidir de acordo com as suas consciências assim esclarecidas. Que se danem as leis! O que à partida ficou estabelecido é que existem dois candidatos a sério, que a opção dos eleitores é apenas entre “este” ou “aquele”, sendo que “este” e “aquele” matam o tempo entre jogos de palavras para depois, como sempre, acabarem no colo um do outro ora arrulhando ora arrufando consoante as conveniências, para que o rebanho siga ordeiro a sua via-sacra triste, penosa, sem horizonte nem fim à vista. Os outros candidatos existem, que remédio, para que se cumpra a democracia, mas não vale a pena gastar cera com tão ruins defuntos
O aparelho de propaganda, que substitui com visíveis vantagens e uma eficácia exponencial os lápis azuis dos velhos coronéis, alimenta o festim rapinante entretendo os eleitores com o que fazem ou deveriam fazer “este” e “aquele” até à hora do voto. Para isso existe “O Debate”, transmitido directamente e em cadeia, como uma velha jornada futeboleira, pelas principais estações de televisão. Os outros, os debates organizados para que se finja cumprir a lei eleitoral, vão para os canais das segunda e terceira divisões televisivas, a que nem todos têm acesso, trocando-se assim uma audiência de milhões, tornada obrigatória e sem concorrência, por sessões facultativas ou proibidas dedicadas a alguns milhares – e para quem é bacalhau basta, dirão os enfatuados herdeiros dos coronéis.
Entretanto tempera-se tudo com estatísticas e sondagens vertidas à medida “deste”, “daquele” ou dos dois, para que em vez da vida das pessoas se discutam virtualidades numéricas que demonstram uma coisa e a sua contrária, consoante a perspectiva de que são olhadas ou interpretadas pelos doutores da propaganda.
A fraude eleitoral, em suma, é a maneira de dizer aos eleitores que os problemas da vida que é a sua não são aqueles que eles sentem na pele, na carne e no sangue, mas sim aquilo de que falam “este” e “aquele” e lhes é mostrado por aquelas caixas falantes e coloridas que irremediavelmente os hipnotizam.
A campanha eleitoral em Portugal não é alegre, esclarecedora, sequer uma campanha. É uma burla oficial.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O RETORNO DA MORDAÇA FRANQUISTA


 
O senhor Mariano Rajoy é o franquismo sem Franco, é um herdeiro mal polido dos golpistas de 36, a mistura tenebrosa de Escrivá de Balaguer com Milton Friedman, um fantasma errante do Vale de Los Caídos que continua a assombrar os espanhóis, um rasto fedorento da Santa Inquisição.
É sabido que os fascismos ibéricos souberam prontamente cobrir-se com os mantos do pluralismo político de maneira a recuperarem as condições para restaurarem as essências dos velhos poderes em versões modernizadas, imitações cada vez menos fiéis da democracia. Como se não tivesse havido uma revolução em Portugal ou uma “transição” em Espanha. Não é difícil identificar onde se acoitaram as mentalidades fascistoides em Portugal e em Espanha. Sendo que neste país, por não ter havido um corte revolucionário, o Partido Popular nem precisou de se travestir de “centrista” ou até de “social-democrata”; bastou-lhe sinalizar que era de “direita democrática” para os franquistas nele pousarem os olhos e se acomodarem.
Agora, como sinal dos tempos em que se torna cada vez menos necessário invocar a democracia porque esta e a “liberdade do mercado” se tornaram sinónimos, o senhor Rajoy e o seu PP nem se dão ao trabalho de disfarçar a veia onde lhes corre o sangue do autoritarismo, assim activada porque os sinais de que a vontade popular e o Partido Popular são como azeite e água, não se misturam, são cada vez mais evidentes.
O senhor Mariano Rajoy, feito poder que pretende eternizar-se a par de uma monarquia corrupta que é ilegítima há pelo menos 80 anos e, quiçá, como o próprio Generalíssimo, aproveita o seu poder parlamentar para se armar com leis que minam o poder democrático. A mais recente, entrada em vigor a 1 de Julho, é a que inclui medidas para garantir a “segurança do Estado” – esse Estado reduzido ao desempenho penoso das funções que os senhores privados e a igreja não desejam, por não serem negócios lucrativos – e que, pelo seu conteúdo, ficou popularmente conhecida como “lei da mordaça”.
“Mordaça” porque inibe os cidadãos de expressarem publicamente as suas opiniões sobre os comportamentos das entidades policiais. Em boa verdade é mais do que uma “lei da mordaça” – é um hino ao Estado policial. Uma mulher que publicou no Facebook uma fotografia de uma viatura policial estacionada abusivamente num lugar para deficientes foi multada em 800 euros; um historiador teve problemas com as autoridades por ter declarado, no uso do seu direito de crítica e de liberdade de expressão, que serviços policiais se comportaram como “uma casta de desocupados”. Nos termos da nova lei é proibido convocar manifestações através das redes sociais – foi assim que nasceu o movimento Podemos – e fazer concentrações junto de lugares públicos, como o Parlamento e as instalações de poder local. E ai de quem publicar fotografias de agentes policiais em acção!
Apesar dos incentivos à eternização no governo que tem recebido como recompensa pela submissão aos credores e aos gangs da especulação financeira, mau grado a muralha de autoritarismo atrás da qual se tem barricado, o senhor Rajoy, mestres e lacaios têm pela frente povos de um país a quem ainda devem uma República, a quem continuam a pretender negar a plena afirmação dos seus direitos nacionais, povos cansados de desemprego, de arbitrariedade, de manipulação e dos medos cultivados para os acorrentar.
Pense-se nesta “lei da mordaça”, nas tentativas de restauração de um Estado policial, comparem-se com a ira crescente dos povos de Espanha e não será difícil deduzir que os sinais dados pelo governo neofranquista são mais de desespero que de força.
Os povos de Espanha estão longe de se conformarem frente a estes franquistas tão mal disfarçados que nem o bigode lhes falta.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

INTRODUÇÃO À TEORIA DO CAOS


 

É provável que nenhum dirigente da União Europeia ou de Estados membros tenha alguma vez ouvido falar da “teoria do caos”, lançada e burilada no pós-guerra pelo filósofo Leo Strauss, da elite política judia e do establishment dos Estados Unidos, continuada até hoje pelos seus discípulos - e financiada pelo Pentágono. Raros são também os jornalistas que a integram nas suas investigações e análises, sujeitando-se a ser imediatamente rotulados como seguidores lunáticos das chamadas teorias da conspiração.
Em poucas palavras, a “teoria do caos” de Strauss estabelece que a melhor maneira de os Estados Unidos da América impedirem a criação de países ou blocos rivais e beneficiarem de matérias primas baratas e com acesso desregulado é através da instauração de situações de caos governamental e social em diferentes países e regiões, de maneira a que Washington delas possa tirar proveito praticamente exclusivo. Para Leo Strauss, a criação de situações de caos favoráveis aos Estados Unidos deveria ser um fim, nunca um meio.
A “teoria do caos” de Strauss teve desenvolvimentos no início dos anos noventa do século passado, quando Washington tratou de fazer vingar a unipolaridade disfarçada de multipolaridade a seguir ao desmembramento da União Soviética. Por iniciativa de George Bush pai nasceu então a “teoria Wolfowitz”, que deve o nome a Paul Volfowitz, discípulo de Strauss, igualmente membro da elite judia norte-americana, arquitecto da política externa de George Bush filho e da invasão do Iraque. Também foi presidente do Banco Mundial. Regressou à sombra depois de conhecidos os escândalos através dos quais rateava cargos públicos entre os amigos neoconservadores, familiares e namoradas.
Em poucas palavras, a “teoria Wolfowitz – ainda secreta mas parcialmente revelada pelo New York Times e pelo Washington Post em Março de 1992 – estabelece que a supremacia global norte-americana exige o controlo militar, político e económico sobre a União Europeia, para que esta não se torne uma potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Aliada sim, mas nunca em plano igualitário.
Suponhamos então que a teoria de Strauss e a sua sucessora delineada por Wolfowitz não passam de delirantes teorias da conspiração. Suponhamos até que o seu gestor financiado pelo Pentágono, Andy Marshall, não se reformou apenas no ano passado, já com 92 anos, e nunca existiu. Nem foi nomeado em 1973 – sucedendo a Leo Strauss, por morte deste – por Richard Nixon e confirmado por todos os presidentes até Obama.
Ignoremos então esses supostos delírios e olhemos para a Europa, em especial para a União Europeia e respectivo percurso desde o início dos anos noventa do século passado. Reflictamos sobre as consequências do mergulho suicida no neoliberalismo, da submissão à NATO como braço operacional do Pentágono, do envolvimento em guerras desencadeadas pelos Estados Unidos, desde o Afeganistão à Síria e à Líbia, onde aliás as principais aventuras militares foram confiadas à França de Sarkozy/Hollande e ao Reino Unido de Cameron. Observemos o que está a acontecer na Europa, sobretudo na União Europeia, com a tragédia dos refugiados resultante dessas guerras.
Não será disparatado concluir que a hecatombe humanitária, política e económica dos refugiados resulta das situações de caos criadas no Afeganistão, no Iraque, na Somália, na Líbia, no Mali, na Nigéria, na Síria, no Iémen. Antes destas guerras com a marca do Pentágono, arrastando os mais importantes países da NATO em condições de subalternidade, o problema dos refugiados na Europa não atingira nunca uma dimensão sequer próxima da que agora se regista.
A Europa está há longos anos mergulhada numa crise disparada a partir dos Estados Unidos e que se alimenta a si mesma pelos erros sucessivos cometidos pela União Europeia ao pretender ser um espelho do modelo do lado de lá do Atlântico, mas sem voz própria militar e económica. Crise essa que se agrava através da submissão reforçada com o acordo de comércio livre (TTIP) e, sobretudo, com o problema dos refugiados decorrente das situações de caos que estão para lavar e durar nas zonas e países atrás citados. A gravidade da crise dos refugiados é o veículo que transporta o caos para o interior das fronteiras europeias, potenciado de maneira desagregadora pelo recrudescimento do terrorismo nazi-fascista.
A “teoria do caos” será uma miragem, mas o caos real vai provocando os efeitos desejados pelo complexo militar, político, económico e financeiro que domina o mundo sob as bandeiras dos Estados Unidos e da NATO.