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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A SÍRIA DEPOIS DE MUNIQUE


 
As centrais de propaganda postas em acção no âmbito do projecto de destruição da Síria, a pretexto da instauração da democracia, receberam os resultados da reunião internacional de Munique com inegável contrariedade e, desde então, lançaram uma onda de confusão e desinformação para abafar os passos no sentido da pacificação do país que foram dados na capital bávara.
Como se percebe olhando as páginas dos principais diários e semanários europeus, e dedicando alguma atenção aos serviços noticiosos radiofónicos e televisivos, os russos passaram a ser os maus da fita, violadores ostensivos de um pretenso cessar-fogo. Bachar Assad reapareceu como o demónio a quem os russos sustentam e, para que conste, os grupos terroristas como o Estado Islâmico e a Al-Qaida quase parecem pobres vítimas da clique de Damasco.
Passemos então em revista os resultados da reunião do Grupo Internacional de Apoio à Síria realizada há dias em Munique e as suas repercussões no teatro de guerra.
O grupo integra 17 países, designadamente os Estados Unidos e a Rússia, as principais potências da União Europeia, a Turquia, Israel, Qatar e Arábia Saudita. A reunião reafirmou a validade das resoluções 2253 e 2254 do Conselho de Segurança da ONU e também o acordo de Genebra de 2012, que determinam como objectivo a formação em Damasco de um governo de união nacional estabelecido por consenso mútuo – isto é, ao contrário do que países como a França e a Arábia Saudita continuam a insistir, o presidente em exercício, Bachar Assad, deverá ser parte da solução. O que Munique veio clarificar foi a exclusão dos grupos terroristas do processo de união nacional, uma vez que não depuseram as armas; pelo contrário continuam a recebê-las e a engrossar em número de mercenários, devido aos apoios logísticos e financeiros incessantes da Turquia e da Arábia Saudita.
Em termos práticos, a reunião de Munique entregou o processo negocial ao secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e ao ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov. O negociador da ONU fica, de facto, sob a tutela destes; ao secretário-geral adjunto da ONU, Geoffrey Feltman, é retirado o dossier sírio. Esta decisão é da máxima importância: Feltman foi um dos ideólogos golpistas da Ucrânia e, como representante dos falcões neoconservadores de Washington, tem usado o cargo para sustentar, sem excepção, os grupos terroristas introduzidos na Síria. Por isso, na reunião de Munique foi deliberado que os apoios humanitários a desenvolver a partir de agora serão apenas isso: humanitários. Feltman utilizava-os para abastecer os grupos terroristas, Estado Islâmico incluído, o que está abundantemente provado.
A decisão de Munique que tem merecido os favores mediáticos como objecto de confusão, de modo dar a impressão de que as tropas russas e de Damasco estão a violá-la, é a declaração da cessação de hostilidades prevista para dentro de dias.
Na verdade, essa trégua ainda não está em vigor. Por outro lado, o acordo de Munique não só legitima a intervenção russa, iniciada em 30 de Setembro do ano passado e que alterou profundamente os dados da guerra, como salvaguarda a continuação da guerra contra quatro grupos terroristas: Daesh ou Estado Islâmico, Al-Nusra ou Al-Qaida, Ahrar el-Sham (Movimento Islâmico dos Homens Livres da Síria) e Jaysh El-Islam (Exército do Islão). O Ahrar el-Sham é apoiado pela Turquia e o Qatar, treinado por instrutores paquistaneses e tem ligações aos talibãs afegãos; O Jaysh El-Islam está subordinado à Arábia Saudita, os seus instrutores pertencem ao exército privado norte-americano Blackwater-Academi e tem ligações à Al-Qaida.
Perante este jogo de interesses percebem-se as ameaças proferidas precisamente pela Turquia e a Arábia Saudita, cujos governos se declaram prontos a invadir a Síria. O primeiro-ministro turco disse nas últimas horas que “não permitirá” a “queda” de cidades sírias fronteiriças nas mãos do exército de Damasco. Isto é, uma potência estrangeira, por sinal da NATO, declara-se disposta a impedir militarmente que o exército de um país restaure a soberania e a integridade desse país. Esta sim é uma violação grosseira do direito internacional e dos acordos já negociados sobre a Síria.
O acordo de Munique e a reafirmação da validade do acordo de Genebra de 2012 só foram possíveis com a alteração da relação de forças no cenário de guerra, decorrente da intervenção russa iniciada em 30 de Setembro e da ofensiva terrestre do exército sírio lançada em 6 de Janeiro deste ano. Em quatro meses, os aviões russos destruíram a maior parte das fábricas de armamentos e munições usadas pelos grupos terroristas, dos bunkers subterrâneos, dos depósitos de combustíveis e meios de contrabando de petróleo, centros de comando e comunicações do Estado Islâmico e da Al-Qaida. A ofensiva terrestre síria libertou várias frentes, aeroportos, vilas e aldeias na maior parte do país, com excepção dos bastiões terroristas do nordeste.
Os resultados da ofensiva russa fizeram ruir o boicote contra o acordo de Genebra de 2012, montado pelos neoconservadores norte-americanos sob a designação de “amigos da Síria”, apoiados por Alemanha, França, Reino Unido, Turquia, Israel, Arábia Saudita, Qatar e também pela Exxon-Mobil, a Blackwater-Academi e pelo fundo de investimento KKR. São fáceis de perceber a ambiguidade e mesmo a contrariedade manifestadas pelos países citados, com destaque para a França, a Arábia Saudita e a Turquia, perante o protagonismo da Rússia e dos Estados Undos chancelado na reunião de Munique, e que traduz uma pronunciada guinada da administração Obama perante o problema sírio. Esta viragem da Casa Branca não é mais do que o alinhamento com o parecer do poderoso grupo de pressão Rand Corporation, que já no Outono de 2014 chegara à conclusão de que a integridade territorial e a pacificação da Síria, com um governo estável em Damasco, é a solução mais favorável aos interesses dos Estados Unidos.
Não é a Rússia que viola os acordos que vão sendo estabelecidos sobre a Síria; é a União Europeia que, mais uma vez, está a perder o comboio, atrelando-se desta feita às ditaduras islâmicas da Turquia, Arábia Saudita e Qatar e, na prática, aos seus ramos terroristas em acção. Entretanto, o primeiro ministro de François Hollande, Manuel Valls, conseguiu inscrever o estado de emergência na Constituição do país da “liberdade, igualdade e fraternidade”. Diz ele que é para “combater o terrorismo”.
 

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

TERRORISMO VERBAL




 
O presidente dos Estados Unidos da América aconselha o presidente da Rússia a “focar-se” nos ataques ao Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh, ou Al-Nusra ou Al-Qaida; o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, propôs que haja uma frente internacional contra o terrorismo.
Disseram-no com ar de grandes estadistas possuidores das soluções para os males do mundo.
Barack Obama queixoso pelo facto de as forças aéreas e navais russas actuando na Síria parecerem “mais preocupadas” em defender o regime de Assad, ao que diz sem poupar os alibis bonzinhos de Washington, Paris, Londres e NATO - a meia dúzia de terroristas “moderados” que servem de interface para abastecer com armas, munições e dólares os terroristas “extremistas”. “Moderação” em que deve confiar-se piamente, sobretudo sabendo que um dos principais fundadores operacionais do grupo foi o chefe em exercício do Estado Islâmico no Magrebe, Abdelhakim Belhadj.
Netanyahu, por seu lado, convencido de que o mundo não conhece a sua generosidade para com o Estado Islâmico ao ceder-lhe os Montes Golã – ocupados à Síria – como rectaguarda, ao facultar-lhe hospitais israelitas para cuidar os terroristas feridos com maior gravidade.
Procurei uma qualificação adequada à gravidade e à irresponsabilidade destas declarações de dois aliados, que se confessam unidos haja o que houver, e só encontro uma: terrorismo verbal. Porque as suas palavras não passam de manobras de diversão que desviam as atenções da essência do terrorismo; porque mentem sobre a realidade gerando propaganda que, em última análise, serve o terrorismo; porque pretendem fazer crer que estes dois seres nada têm a ver com os grupos sanguinários que fingem combater. Obama e Netanyahu aconselham soluções mas continuam a ser a parte essencial do problema.
As forças militares russas colaboram com as forças armadas sírias no combate ao terrorismo? Não existe outra maneira legal de o fazer nos termos da Carta da ONU. A Síria é um Estado soberano, não é um território neutro onde qualquer um pode fazer operações militares quando e como lhe apetece, muito menos invocando argumentos distorcidos. Como é o caso do Pentágono que directamente – agora com tropas no terreno – ou por interpostos terroristas afirma ter como objectivo combater simultaneamente o Estado Islâmico e Bachar Assad, patranha em que nem os autores acreditam porque sabem, melhor que ninguém, que o objectivo é mudar o regime sírio e desmantelar o país. Por isso a “guerra” que Washington e aliados têm alegadamente conduzido contra o Estado Islâmico há mais de um ano deixou os terroristas mais fortes, mais armados, mais endinheirados; à Rússia, porém, bastou pouco mais de um mês para destruir centenas de centros de comando e outros alvos estratégicos do Daesh, libertar aldeias, vilas e aeroportos, estando agora em vias de cortar o eixo terrestre que garante a ligação terrorista entre a Turquia e o Iraque. Até a França, a duras penas, é certo, parece entender que essa é a maneira certa e credível de combater os grupos mercenários, pelo menos tem-no feito nos últimos dias. Sem complexos de coordenar esforços com Moscovo, ou de que tais operações sustentem Assad, na verdade um dos ódios de estimação de Paris. Aliás, a nova opção francesa parece ser a mais eficaz e certeira. Porque, segundo fontes citadas pela imprensa dos Estados Unidos, o ataque gaulês contra o Estado Islâmico lançado no dia seguinte ao dos atentados de Paris, feito ainda em coordenação com sistemas de informações norte-americanos, destruiu várias clínicas e um museu na cidade de Raqqa como sendo assustadores alvos terroristas.
O Obama dos conselhos e acusações à Rússia é o mesmo que contribuiu para destruir a Líbia, que desencadeou a guerra civil na Síria com recurso a mercenários de todos os matizes, que tornou praticamente irreversível o desmantelamento do Iraque. E que agora, de braço dado com Netanyahu, tolera limpezas étnicas no norte do território sírio para criar aí um Estado curdo artificial que lhes garanta o controlo dos manás petrolíferos de uma região que se estende ao país que já se chamou Iraque.
Quanto a Netanyahu e aos seus apelos contra o terrorismo, não há que gastar muito espaço. O mundo sabe que o seu nome se tornou um sinónimo desse mesmo terrorismo.
 

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

NATO MOBILIZA-SE EM DEFESA DO ESTADO ISLÂMICO


 


A seita terrorista e sanguinária conhecida por “Estado Islâmico”, que também poderá designar-se Al-Qaida, Al-Nusra e Exército Livre da Síria – tiradas a limpo as consequências da existência deste – deixou de estar impune. Praticamente incólume desde que há um ano o todo-poderoso Pentágono anunciou que ia fazer-lhe guerra, bastaram-lhe agora uns dias sob fogo cerrado russo para entrar em pânico. Ou a aviação e a marinha da Rússia têm mais pontaria que as suas congéneres dos Estados Unidos da América e da NATO, o que é bastante improvável tendo em conta que não existem discrepâncias de fundo entre as tecnologias de ponta ao serviço destas potências, ou a diferença está simplesmente entre o que uns anunciam e os outros fazem. Diferença simples, mas de fundo, entre ser contra o terrorismo ou ser seu cúmplice.
De acordo com dados divulgados por fontes moscovitas, a Aviação e os mísseis de cruzeiro disparados de navios da Armada da Rússia destruíram já 112 alvos do Estado Islâmico instalados em território sírio ocupado, danos que incluem centros de comando, centrais de comunicação, bases de operações antiaéreas, além de estarem a provocar deserções em massa e um ambiente de pânico entre os terroristas. Propaganda de Moscovo, dirão muitos, mas sem razão. A desorientação entre os mercenários recrutados através do mundo e infiltrados na Síria a partir do Iraque, da Jordânia e, sobretudo, da Turquia está à vista de quem tem olhos para ver, principalmente os espiões atlantistas, bastando-lhe acompanhar a guerra em directo transmitida pelos satélites.
Esta realidade parece ser tão crua que, para surpresa de tantos que ainda acreditam em histórias da carochinha, induz os dirigentes norte-americanos, incluindo Obama himself, a esquecer-se das aparências e a deixar escapar uma sentida indignação com tanta eficácia russa, capaz de, numa simples semana, ter mais êxito que os seus exércitos num ano inteiro.
Será mesmo isto que os preocupa? Talvez não. O que os responsáveis políticos e militares dos Estados Unidos alegam é que os russos, ao fazerem uma guerra tão certeira contra o terrorismo, estão a “ajudar o regime de Assad”. De onde pode deduzir-se que eles tratam o terrorismo com meiguice para não ajudar Assad, se possível para conseguir até que os bandos de assassinos a soldo derrubem Assad. Não é novidade, aliás, porque Julien Assange e Edward Snowden o revelaram através do WikiLeaks, que os Estados Unidos e os seus parceiros da NATO decretaram em 2006 o derrube do presidente sírio. Pelo que, imagine-se o atrevimento, os russos não estão a combater criminosos sanguinários mas sim a desobedecer a um decreto emanado há nove anos pelos que se olham como senhores do mundo – e dos mercados, claro está.
Quando seria de supor, levando a sério o discurso antiterrorista que se ouve de Washington a Paris, de Londres a Bruxelas, que a NATO iria conjugar esforços com Moscovo para liquidar de vez o Estado Islâmico tanto na Síria como no Iraque, o que acontece? A aviação norte-americana provoca um banho de sangue num hospital dos Médicos Sem Fronteiras no Afeganistão, certamente um albergue dos mais fanáticos islamitas; as forças especiais de operações do Pentágono para a Síria (CJSOTF-S), que têm estado no Qatar, receberam ordem de transferência para a base da NATO de Incirlik, na Turquia, de modo a acompanhar de perto o treino de terroristas a infiltrar na Síria, terroristas “moderados”, claro, assim definidos depois de uma exaustiva avaliação pelos profilers de serviço; análise essa tão exaustiva e competente que todo o grupo de assassinos cujo treino acabou em 12 de Julho se transferiu logo depois, com bagagens e armas, para a Al-Qaida, percebendo-se agora a irritação de Washington com a eficácia russa: lá se foi o investimento em tão acarinhados terroristas, sem dúvida uns “moderados” acima de qualquer suspeita. Como se não bastasse, a NATO prepara-se para reforçar o contingente de agressão na Turquia a pretexto de supostas violações do espaço aéreo turco por aviões russos, apesar de não se lhe ouvir um pio quando caças turcos fazem operações quase diárias na Síria há vários anos. Fica assim claro que a mobilização da NATO em território turco é em defesa do terrorismo islâmico, e não para o combater.
Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita e o Qatar, aliados preferenciais da NATO, praticamente ao mesmo nível que Israel, perdem o amor a mais uns milhões de petrodólares para tentar rearmar o Estado Islâmico e outros do mesmo jaez, agora tornados vulneráveis pela ofensiva russa. Têm boas razões para isso, além de muitas cumplicidades: os grupos de mercenários activos na Síria e no Iraque gerem um mercado negro de petróleo através do qual se financiam e de que tiram chorudos lucros, como exportadores, não apenas as ditaduras do Golfo mas também Israel e a Turquia.
A ofensiva russa não acabou apenas com a impunidade do Estado Islâmico e outros bandos de mercenários; põe em causa a hipocrisia da guerra oficial “contra o terrorismo” proclamada pelos Estados Unidos e a NATO – que tem como exemplos mais trágicos as situações no Iraque, na Líbia e na Síria.
 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

A HORA DA VERDADE, SR. OBAMA


 

O início das operações militares antiterroristas das forças da Organização do Tratado de Segurança Colectiva (OTSC), de que a Rússia é a mais importante potência, em território da Síria representa, sem dúvida, um movimento novo e de grande importância no combate às organizações mercenárias que se reclamam do islamismo.
Em termos meramente teóricos poderia escrever-se que só agora começou a verdadeira guerra contra o terrorismo na Síria, e provavelmente também no Iraque; o que tem acontecido até ao momento, pelas mãos dos Estados Unidos e dos principais membros da União Europeia, não passa de um simulacro de combate, à mistura com a proliferação de guerras e alianças com terroristas, culminando na destruição de nações e na hecatombe dos refugiados.
Porém, a resposta de Washington, Paris e Londres aos primeiros bombardeamentos russos contra campos terroristas na Síria revela intrigante inquietação com a situação dos bandos de mercenários. Em vez de saudarem a iniciativa de Moscovo, os porta-vozes norte-americano, britânico e francês que se pronunciaram até agora lamentam que, afinal, ao contrário do que alegadamente dissera o Sr. Putin, os bombardeiros russos não atingem apenas o Estado Islâmico. Pois não: infligiram pesados danos a outros grupos e grupinhos terroristas que partilham o mesmo terreno, designadamente a Frente Al-Nusra e o Exército Livre Sírio. Al-Nusra é a designação da Al-Qaida na Síria; o Exército Livre Sírio é o menino bonito das potências ocidentais, os chamados “moderados” que, conforme reconhecem dirigentes norte-americanos e da União Europeia, têm funcionado como entreposto no tráfico de armas fornecidas pelo Ocidente ao Estado Islâmico.
De modo que se coloca neste momento uma grande interrogação: de que lado estão os Estados Unidos, a França e o Reino Unido, e a Alemanha também? A favor ou contra grupos como a Al Qaida e Estado Islâmico? Por detrás dos primeiros pronunciamentos dos dirigentes ocidentais depois dos ataques russos, o que espreita é uma real inquietação com o novo quadro: a de que, a partir de agora, não mais será possível fazer confusão entre quem está a favor ou contra o terrorismo. Por exemplo, fica decretado o fim da falácia alimentada por Washington – e pela NATO, como é óbvio - de que as iniciativas atlantistas na região visam combater ao mesmo tempo o regime sírio e os bandos terroristas. A única vítima, claro, tem sido Damasco.
A confissão deste incómodo está no facto de as potências ocidentais acusarem a Rússia de fazer os bombardeamentos na Síria para defender “a ditadura de Bachar Assad”. Mais uma falsidade: a Rússia não está a defender Assad mas a proteger-se a si mesma. Há muito que o Estado Islâmico e outras Al-Qaidas se estão a organizar para, em aliança com o Qatar, a Turquia e centrais nazis europeias, desestabilizar e minar a Rússia, sobretudo a partir da Ucrânia. Foi na Ucrânia, em Ternopol, que nasceu em 2007 a “Frente-Anti-imperialista” contra a Rússia, mistura de grupos nazis e terroristas islâmicos cujos dirigentes são recebidos com grandes honras pelo presidente Erdogan na Turquia. Como resultado desse patrocínio da Turquia fundamentalista (membro da NATO, como se sabe), está a instalar-se em Kherson, também na Ucrânia, a Brigada Muçulmana Internacional, cujo objectivo é a desestabilização da Rússia a pretexto da Crimeia e apoiando o terrorismo islamita no Cáucaso, especialmente na Chechénia. Não é segredo que militares norte-americanos e a NATO apoiam e treinam em território ucraniano todas as organizações que proclamem a intenção de combater a Rússia.
A Rússia não está na Síria, e prestes a intervir também no Iraque, para defender os governos destes países mas para combater o terrorismo, com autorização dos seus governos e sob cobertura das decisões aprovadas na ONU contra o terrorismo – legalidade que nem sempre tem preocupado os que agora preocupados estão com a iniciativa russa.
Uma coisa parece certa: se as forças da OTCS (Rússia, Bielorrússia, Arménia, Casaquistão, Tajiquistão e Quirguistão) e os poderes militares dos principais países da NATO se juntarem contra o terrorismo, o Estado Islâmico, as Al-Qaidas e afins não terão vida fácil, provavelmente não conseguirão transferir-se para outros lados, talvez percebam finalmente que, sem os habituais tutores entre “os infiéis”, nem sobreviverão.
Parece ter chegado a hora da verdade na tão falada “guerra contra o terrorismo”. É o momento de o Sr. Obama se definir: ou luta de facto contra o terrorismo ou continua a ser seu cúmplice, no mínimo através de uma guerra que tem sido de faz-de-conta. Talvez a chegada deste momento da verdade seja aquilo que o Sr. Obama não consegue perdoar ao Sr. Putin. As coisas estavam a correr tão bem…

terça-feira, 28 de julho de 2015

OBAMA DA TRISTE FIGURA


Há quem diga, com um sentido de benevolência que entra sem apelo no terreno da cumplicidade ideológica, que o actual presidente dos Estados Unidos da América tem um desempenho no segundo mandato que ficará para a História.
Até pode ser que isso aconteça. Barack Obama é, sem qualquer dúvida, o autor do maior número de execuções extrajudiciais de que há memória, através das suas ordens de tiro ao alvo com drones, e se a História o registar como tal não poderá dizer-se que seja pelos melhores e mais humanistas dos motivos.
O homem que fez a sua primeira campanha eleitoral, já lá vão quase oito anos, prometendo o encerramento do campo de concentração de Guantanamo e que recentemente anunciou, mais uma vez, um programa para o desactivar, é o mesmo que iria extinguir a chamada “guerra contra o terrorismo” inventada por George W. Bush, e apenas lhe trocou os nomes.
Síria, Líbia, as mistificações que ficaram conhecidas como “primavera árabe”, Bahrein, Iémen, Egipto, o adiamento constante dos direitos palestinianos, a criação do bando de mercenários do Estado Islâmico, Ucrânia, expansionismo permanente da NATO são exemplos do tal bom desempenho no segundo mandato de Obama.
Todos esses casos ilustram a mentalidade terrorista do presidente norte-americano, enovelada cada vez mais nas contradições do que ele qualifica como uma estratégia contra o terrorismo.
Há poucos dias, no Congresso de Washington, o secretário da Defesa da administração Obama, Ashton Carter, reconheceu que o programa para treinar mercenários “moderados” supostamente para combater o Estado Islâmico na Síria, orçado em 500 milhões de dólares, não conseguiu mais do que 60 recrutas dentro de um objectivo de 3000 até final deste ano e de 5400 anualmente. Passemos sobre a módica quantia de 10 milhões de dólares por cada terrorista “moderado” e entremos no fulcro da questão. Esta ideia dos “moderados” está associada ao chamado Exército Livre da Síria, uma coisa criada pelos Estados Unidos inicialmente para combater e derrotar o regime sírio dirigido pelo presidente Bachar Assad. Durante os anos de existência até agora, os mercenários deste grupo não têm feito mais do que combater ao lado da Al-Qaida e do Estado Islâmico – sendo este reconhecidamente apoiado também por Israel. Ultimamente, à medida que se ia aproximando o acordo entre Washington e o Irão, os “moderados” foram também encarregados de combater o Estado islâmico, isto é, em teoria, obrigados guerrear em duas frentes.
No mesmo debate no Congresso, aparentando uma desilusão longe de ser genuína, o senador neofascista McCain, também conhecido por ser o controleiro do Estado islâmico (há fotos que o provam), admitiu que 60 “moderados” não chegam para as encomendas; para conseguir mais recrutas, sugeriu, é preciso dar-lhes a garantia de que não seriam atacados pelo exército regular sírio. Como? Compete aos Estados Unidos fazer com que as tropas de Damasco não tenham condições para atacar os “moderados”, de modo a que estes se entretenham com o ISIS. Curto e grosso: o senador McCain quer que as tropas norte-americanas intervenham para derrubar Assad enquanto os “moderados” fazem cócegas ao Estado Islâmico, acabando por se fundir com este.
Dir-se-á: McCain tem feito oposição a Obama. Pois, mas toda a política de Obama no Médio Oriente e na Ucrânia, para não ir mais longe, tem dado um jeitão aos mais conservadores dos conservadores e belicistas internos, rivalizando com eles para ver quem é mais trauliteiro.
A verdade é que Obama, no segundo mandato tal como no primeiro, deixa um rasto de guerra e sangue onde toca. Há poucos dias, o presidente da Nigéria, marginalizado por Washington por causa de alegadas violações dos direitos humanos, denunciou a administração de Washington por apoiar, na prática, os facínoras do Boko Haram.
Quando não se tem princípios na gestão do bem público é natural que se entre na roda vertiginosa dos sem-princípios. Foi a escolha de Obama, esperando-se que a História não venha a absolvê-lo.



domingo, 7 de junho de 2015

LINHA DE MONTAGEM TERRORISTA


Oficiais e armas norte-americanas chegaram à base militar da NATO de Incirlik, na Turquia, e a uma pequena base na Jordânia durante o mês de Maio para que se iniciem a selecção e o treino da “nova geração” de mercenários do Exército Sírio da Liberdade, a entidade que os Estados Unidos e aliados inventaram para derrubar o presidente sírio, Bachar Assad, e que tem servido como uma das pontes para alimentar a Al Qaida e o Estado Islâmico.
O argumento invocado pelos autores desta estratégia, segundo a qual a operação se destina a combater em simultâneo o exército regular sírio e o Estado Islâmico, tem provocado sorrisos e dichotes no Quartel-General da NATO em Bruxelas. Como pode um grupo inventado do nada, e cuja ligação à Síria não passou originalmente de alguns dissidentes comprados por meia dúzia de patacos entre membros do exército sírio, pode ambicionar uma guerra em duas frentes e contra adversários tão poderosos como as tropas de Damasco e o Estado Islâmico (EI)?
A verdade é outra. A CIA e afins continuam apegadas à estratégia de criar e alimentar redes terroristas cuja utilização vai variando conforme os objectivos em determinado momento e circunstâncias. Nas vésperas da assinatura de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão tornou-se claro que o Estado Islâmico, organização cujo comportamento é de pura selvajaria e de cruel banditismo, integra o processo acordado entre Washington e Teerão, com o envolvimento de sectores israelitas, de partilha do Médio Oriente em esferas de influência. O “califado” islâmico proclamado pelo Estado Islâmico em partes contíguas dos territórios da Síria e do Iraque, juntamente com a possível criação de um Estado curdo no Curdistão Iraquiano, fazem parte desta operação de partilha, pelo que o argumento norte-americano de que a “nova geração” dos “moderados” sírios irá combater o EI é pura ficção, uma deliberada mentira.
Círculos de espionagem afectos às estruturas da NATO asseguram que os Estados Unidos estão a preparar um “rigoroso processo de selecção” dos mercenários de “nova geração” de modo a que não sigam as pisadas dos anteriores, isto é, irem engrossar os bandos da Al Qaida e do EI. Para isso prevê-se que os candidatos sejam filtrados através de informações existentes na miríade de bases de dados da espionagem norte-americana criadas pelas acções da NSA através de todo o mundo, tal como foram denunciadas por Edward Snowden. A Turquia e a Arábia Saudita, por sua vez, pretendem ter voz activa nessa selecção, o que deitaria imediatamente por terra, se elas existissem, as intenções da CIA de não recrutar gente muito chegada às teses do radicalismo islâmico.
Na prática, o que está a acontecer – como sempre – a coberto das operações de treino de “combatentes da liberdade” nas bases da NATO na Turquia e em instalações do mesmo tipo na Jordânia, é a criação de bandos terroristas que irão engrossar os já existentes e que alimentam cada vez mais situações de conflito em zonas críticas do globo. Criar grupos terroristas é, no fundo, a essência da chamada guerra contra o terrorismo.
As aberrações são de tal ordem que, no meio delas, se perdeu nos escombros do tão esquartejado direito internacional este princípio básico e ostensivamente caído em desuso: com que legitimidade alguns países se arrogam o direito de fundar grupos armados com o objectivo declarado de ir derrubar um governo de um Estado soberano? Para que conste, as eleições que sufragaram o chefe de Estado da Síria foram bastante mais livres e democráticas que as organizadas pelos Estados Unidos e aliados em países como a Ucrânia, o Iraque e o Afeganistão.
Arrasar o direito internacional invocando o direito internacional é, ao fim e ao cabo, mais um elemento da estratégia dominante de alimentar o terrorismo a coberto de combater o terrorismo, de violar os direitos humanos em nome do respeito pelos direitos humanos.