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sábado, 18 de abril de 2015




PRIMÁRIAS E PARTIDO ÚNICO

Senhoras e senhores vai começar o grande leilão, o negócio da compra, venda e troca dos votos dos cidadãos capaz de garantir que o imenso mercado universal continue a engordar, o alibi quadrienal que encobre os maiores crimes e atrocidades globais em nome daquilo que o sistema geral de propaganda pretende impor como democracia.

As primárias para as eleições presidenciais norte-americanas ainda não estão no terreno mas há muito que se jogam nos bastidores sujos e viciados do sistema de poder dos Estados Unidos da América. Primárias que servem de inspiração e exemplo para as tendências da moda da política do pacovismo europeu, sempre pronto e disponível para aceitar o que os ventos sopram do outro lado do Atlântico como normas – ordens é o termo mais provável - adequadas à estabilização dos mercados, afinal o fim supremo da democracia, ao que consta.

Nos Estados Unidos da América as eleições primárias destinam-se a escolher o agente político que num dado momento e determinadas circunstâncias melhor serve os interesses do complexo militar, financeiro e industrial que governa o país. Será também o candidato a quem esses interesses pagarem mais, o que conseguir a melhor frase de propaganda, o que distribuir mais chapelinhos e pins, o que acenar com mais elegância e treinar a voz mais modulada, o que sorrir mais branco no retrato da família feliz, o que soltar mais balões, o que lançar mais confetti. Presume-se que os dois sujeitos ou sujeitas que cheguem à final sejam antagonistas quando, em boa verdade, não passam de dois bicos de um mesmo cacete que é o partido único.

E na Europa? Na Europa as primárias correspondem ao significado da própria palavra, se entendida como o primeiro passo para a subversão do sistema de partidos como base da democracia. Fazer primárias é como beber do fino, é fazer parte do arco da governação, ou arco da austeridade, ou arco da exploração mesmo para aqueles que dizem estar fora dele mas gostam de esbracejar na sua espuma, numa triste e desoladora babugem, convencendo-se que enganam outros uma vez que deixaram de enganar a si mesmos.

As primárias são uma finta soez à democracia, porque é praticada em falta. Onde se diz acrescentar transparência contaminam-se vontades; onde se promete alargar pluralismo afunilam-se escolhas; onde se garante esclarecimento cultiva-se propaganda. Isto são as primárias à europeia, parentes pobres e ambíguos das congéneres americanas, onde tudo se faz em grande até à burla final, na qual os cidadãos escolhem sem ter escolha nenhuma. É, no fundo, isto que se pretende com as primárias na Europa.

Parece exagero? Não se iludam. Os partidos, por definição, representam partes de uma sociedade com interesses diferentes, quantas vezes antagónicos. Ora nas primárias os partidos abrem-se às escolhas dos alegados simpatizantes, conceito suficientemente vago para nele caberem eleitores de outros partidos ou de partido nenhum numa mistela entre os cadernos eleitorais nacionais e os do partido. Não é abertura que se pratica, é contaminação; os partidos perdem identidade, abdicam dela. Não é por acaso que os partidos praticantes das primárias deixaram de ter personalidade, fundidos no venenoso caldeirão neoliberal, irmanados no arco da exploração.

Acresce que tais partidos não se contentam em apagar quaisquer vestígios das suas origens e história em nome da modernidade supostamente trazida pelas primárias. Querem impô-las como lei aos outros partidos, os que não se deixam levar pelo discurso mistificador. Não conseguem, de facto, disfarçar o seu encanto pela política única; não disfarçam o quanto foram acometidos pela mentalidade de partido único.

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