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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

ESTATÍSTICAS E SONDAGENS


O governo da República Portuguesa, actualmente em fase de mera transição, ficou indisposto com as recentes estatísticas sobre o desemprego, isto é, custou-lhe a provar do seu próprio veneno. As quais estatísticas, como se sabe, lhe são muito favoráveis porque mascaram – não por culpa dos técnicos responsáveis – uma realidade bem mais grave que os anunciados 12,4 por cento. Estes números escondem o elevadíssimo número de cidadãos chamados “desempregados de longa duração”, que nem sequer estão registados nos centros de emprego e muitos deles já nem procuram trabalho; omitem as percentagens escandalosas de trabalho precário, uma actividade esclavagista que vale como emprego, atacando forte e feio a dignidade do trabalho e do trabalhador; e remetem para outras parcelas estatísticas o quase meio milhão de portugueses que, durante os últimos quatro anos, tiveram de fugir do país – seguindo, aliás, as sugestões do primeiro-ministro em exercício – para matarem a própria fome e a dos seus.
Mesmo assim, o governo queixa-se. Queria, por certo, estatísticas ainda mais marteladas para poder jogar com elas manipulando os eleitores a menos de dois meses de eleições gerais.
O episódio é exemplar sobre o regime em que vivemos, não apenas em Portugal mas em toda a União Europeia. O regime dos números contra as pessoas, a vigência de uma realidade paralela que não poucas vezes, cozinhada com a propaganda, deturpa e mistifica a vida real. Misturem-se estatísticas com sondagens, temperem-se com doutos debates, sábias palestras e as irrepreensíveis conversas em família dos sociólogos e sabichões oficiais da nação e teremos um caldo de números que, se for preciso, nos faz ver o mundo ao contrário.
Não castiguemos os mensageiros por tão perversas mensagens. A culpa não é de quem elabora as estatísticas, de quem faz os trabalhos de campo nas sondagens. Obter números e empacotá-los em gavetas informáticas não é pecado. O problema está na maneira como essas gavetas são arrumadas e os seus conteúdos politicamente interpretados.
O ultraje existe no facto de um primeiro-ministro esgrimir com um décimo a mais ou a menos de um índice de desemprego quando as pessoas e as famílias atingidas por essa décima não lhe merecem o mínimo respeito, como se não existissem. O crime está no facto de uma décima a mais ou a menos numa sondagem poder vir a ser usada pelos que se acham com o direito eterno a governar como pretexto para refinar mentiras pré-eleitorais que depois se transformarão em aldrabices governamentais.
O regime em que vivemos, o do neoliberalismo – palavra que os praticantes começam a ter pudor em pronunciar – é o dos números. O regime dos números absolutos e muitas vezes virtuais contra as pessoas reais. É o sistema da frieza aritmética contra os direitos humanos.
Os números das estatísticas e das sondagens são armas de arremesso usadas pelo chamado “arco da governação” contra os cidadãos, o artifício de transformar as pessoas num imenso rebanho acéfalo conduzido por pastores tecnocratas que agem como burros à volta de uma nora.
Transformar um dado estatístico ou o resultado de uma qualquer sondagem num tema crucial de debate é um comportamento perverso, utilizado para desviar a política para os terrenos virtuais, furtando-a à discussão dos assuntos que dizem respeito às pessoas reais.

As estatísticas e as sondagens tal como são usadas pelos políticos dominantes são imitações reles da democracia. E há muito que o Sérgio Godinho nos adverte: cuidado com as imitações!

sábado, 1 de agosto de 2015

BANDO DE MALFEITORES


Poderia ter acontecido em Portugal, na Estónia, em Itália, em qualquer outra nação da tão democrática e incorruptível União Europeia, mas desta vez foi em França. Poderia ter sido obra de uma gestão da direita, de uma administração socialista, mas desta feita o desprezo por bens públicos e a reverência ante os mais poderosos do dinheiro é obra conjugada das duas ideologias fundidas na ideologia do lucro, interpretada por verdadeiros bandos de malfeitores.
O caso desenvolve-se à volta da frequência audiovisual analógica terrestre no canal 23, entregue gratuitamente pelo Estado francês para criação da TVous Diversité, que logo mudou de nome para Numero 23 e vai cair agora nas mãos do terceiro homem mais rico de França, um dos donos de L’Express, Libération e respectiva irmandade sob o nome de Next RadioTV (por enquanto). Pela história passam nomes ligados às administrações Sarkozy e Hollande, ex-ministros e ex-conselheiros presidenciais, um oligarca russo cujo dinheiro chegou a Paris via Chipre, dirigentes e funcionários dos partidos do chamado “arco da governação”.
As frequências audiovisuais são bens raros e públicos, que deveriam ser geridos pelos Estados – como representantes dos cidadãos – ao serviço da informação, cultura e diversão destes. Sabemos que entre a teoria e a prática vai uma longa distância nas sociedades que se dizem modernas; ainda assim, a situação é tão escandalosa que não merece ir para a conta das indiferenciadas.
Em Julho de 2012, o Conselho Superior do Audiovisual de França, organismo estatal que gere as frequências de rádio e televisão, entregou o canal 23 a uma candidatura encabeçada por um lobista da fina flor do capital parisiense, Pascal Houzelot, que surgiu em cena acompanhado por Valérie Bernis, ex-colaboradora do ex-primeiro ministro Balladour e ocupando uma posição de topo na administração do império GDF Suez; e David Kessler, um gestor de vários e conhecidos meios de comunicação trabalhando então na campanha eleitoral de Hollande, de onde transitou para conselheiro de comunicação social do novo presidente. O projecto por eles apresentado, a TVous Diversité, uma televisão “aberta ao mundo e às outras culturas”, segundo as palavras de Kessler, mereceu desde logo os maiores encómios da comunicação agindo como propaganda bem-falante.
A frequência foi entregue gratuitamente à candidatura encabeçada por Houzelot, a qual, quase sem se dar por isso, passou a chamar-se Numero 23, deixando de lado não apenas a designação TVous Diversité como a própria multiculturalidade. Além de congregar parte da casta financeira parisiente em torno do seu projecto, Pascal Houzelot – que sempre navegou bem tanto em gestões socialistas como de direita – contou ainda com o apoio financeiro do oligarca russo Alicher Uzmanov, a 71ª fortuna mundial pelas contas da revista Forbes. Para que os trâmites decorressem de acordo com as normas europeias, o dinheiro russo foi previamente lavado em Chipre.
Exactamente dois anos e meio depois, o período estabelecido por lei para que seja possível a transferência de mãos de uma frequência audiovisual, a Numero 23 foi vendida ao grupo Next RadioTV de Alain Weill (Radio Monte Carlo Info, por exemplo) por 88,5 milhões de euros, 48,5 milhões dos quais em dinheiro vivo, nos termos de um negócio acordado muito tempo antes e que apenas esperou pelo período de nojo imposto por lei para ser anunciado. Isto é, o projecto TVous Diversité, recebido gratuitamente das mãos do Estado francês, rendeu 88,5 milhões limpos aos seus financiadores, sendo que Pascal Houzelot transitou directamente para a administração da Next RadioTV.
Ao revelar a venda, Houzelot argumentou que optou pelo negócio com Alain Weill por ser um “grupo independente” entre os tubarões da comunicação social. Porém, ainda as assinaturas do contrato estavam frescas e já a Next RadioTV passava para as mãos de um desses tubarões, Patrick Drahi, a terceira fortuna de França, que a engolirá gradualmente até 2019. Drahi representa um conglomerado onde avultam nomes como a Societé Française de Radiofusion (SFR), L´Express, Libération, Strategies e mais uma dúzia de revistas, os serviços por cabo Numericable, vários meios de comunicação e uma empresa de telefones móveis israelitas.

Assim se vão partilhando os lucros obtidos através de um bem público que o Estado francês, supostamente em nome dos cidadãos, alienou sem nada obter em troca a não ser – na verdade está aqui o grande segredo da teia de perversidades – a garantia de poder contar com um aparelho de propaganda ao serviço de um falso pluralismo transformado em ideologia única e absoluta.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O IMPÉRIO ENTRA A GANHAR


Os anexos bilaterais do chamado acordo 5+1 estabelecido entre as principais potências mundiais e o Irão já começaram a fazer efeitos.
Não, nada disso, os êxitos militares contra os facínoras do Estado Islâmico (ou Isis ou Daesh) obtidos no âmbito da esfera norte-americana são apenas conjunturais ou mitigados, nada que impeça o grupo de prosseguir a transferência para zonas russas ou russófonas. Existem, é certo, algumas ideias negociais relacionadas com a pacificação da Síria; no Líbano movem-se pedras no sentido de clarificar o assassínio do anti presidente Hariri, cuja inspiração foi atribuída – contra todas as evidências – ao regime de Damasco e que tem sido o único pretexto para acusar a Síria da prática de terrorismo. No entanto, estes processos estão ainda no início e, embora inseridos no ambiente criado pelos acordos, não é certo que prossigam no sentido de acabar com as mistificações e fazer valer a realidade dos factos e o direito internacional.
O primeiro grande efeito do acordo Estados Unidos-Irão é a queda do Sul do Iémen, com a capital em Aden, nas mãos da chamada Força Árabe Comum, uma entidade que é, na prática e à luz entendimento entre Washington e Teerão, uma coligação militar encabeçada pela Arábia Saudita e Israel. Esta “santa aliança” – e como é apropriada a designação! – não é novidade: tem funcionado, por exemplo, no apoio ao Estado Islâmico contra a Síria e pelo desmantelamento do Iraque; sabe-se também que pilotos israelitas combatem aos comandos de caças sauditas na guerra civil no Iémen.
O facto é que esta coligação tomou conta de Aden, expulsando os xiitas fiéis a Mohamed Huti, presidente em exercício em Sanaa, a capital. Na sequência do triunfo, a coligação reinstalou Abd Mansour Hadi como presidente, para já na capital do Sul do país. E se Huti chegara ao poder por golpe de Estado a legitimidade de Hadi – o protegido da Arábia Saudita – não é maior, porque o prazo de validade do seu mandato terminou há muito.
A presença da Força Árabe Comum no Sul do Iémen significa a reinstalação da NATO na região, assumindo o controlo absoluto do estratégico Estreito de Bab el Mandeb, que separa a Península Arábica e a Ásia de África. Esse controlo quer dizer domínio militar e petróleo, muito petróleo, não apenas no Sul do Iémen mas também na região do Ogaden, na Etiópia.
Não se pense, porém, que o triunfo militar da santa aliança se deve aos seus muitos méritos. A razão principal é a saída de campo do Irão, que sustentava os xiitas Hutis na guerra civil iemenita. Teerão abandonou o terreno para cumprir o acordo estabelecido com Washington.
A chegada da coligação entre a Arábia Saudita e Israel à região meridional iemenita significa também que já não existem obstáculos para que a petroditadura de Riade e o regime confessional de Telavive transformem em realidade o projecto de construção da ponte sobre o estreito, ligando Aden a Djibuti, no extremo do Corno de África, na prática uma colónia francesa sob administração militar da NATO, logo norte-americana.
A adjudicação da imponente obra já foi feita. Ignora-se se houve concurso, mas isso são formalidades dispensáveis e irrelevantes. Quem construirá a ponte sobre o Estreito de Bab El Mandeb será o Ben Laden Group da Arábia Saudita. Não, não se trata de uma coincidência: é o grupo da família de Bin Laden, o terrorista-mor, dirigido por um irmão deste. 11 de Setembro? Tanta água passou já por debaixo das pontes, mesmo as que ainda estão por construir…
O marcador apenso ao acordo entre os Estados Unidos e o Irão já funcionou. Império, 1 – Irão, 0.


terça-feira, 28 de julho de 2015

OBAMA DA TRISTE FIGURA


Há quem diga, com um sentido de benevolência que entra sem apelo no terreno da cumplicidade ideológica, que o actual presidente dos Estados Unidos da América tem um desempenho no segundo mandato que ficará para a História.
Até pode ser que isso aconteça. Barack Obama é, sem qualquer dúvida, o autor do maior número de execuções extrajudiciais de que há memória, através das suas ordens de tiro ao alvo com drones, e se a História o registar como tal não poderá dizer-se que seja pelos melhores e mais humanistas dos motivos.
O homem que fez a sua primeira campanha eleitoral, já lá vão quase oito anos, prometendo o encerramento do campo de concentração de Guantanamo e que recentemente anunciou, mais uma vez, um programa para o desactivar, é o mesmo que iria extinguir a chamada “guerra contra o terrorismo” inventada por George W. Bush, e apenas lhe trocou os nomes.
Síria, Líbia, as mistificações que ficaram conhecidas como “primavera árabe”, Bahrein, Iémen, Egipto, o adiamento constante dos direitos palestinianos, a criação do bando de mercenários do Estado Islâmico, Ucrânia, expansionismo permanente da NATO são exemplos do tal bom desempenho no segundo mandato de Obama.
Todos esses casos ilustram a mentalidade terrorista do presidente norte-americano, enovelada cada vez mais nas contradições do que ele qualifica como uma estratégia contra o terrorismo.
Há poucos dias, no Congresso de Washington, o secretário da Defesa da administração Obama, Ashton Carter, reconheceu que o programa para treinar mercenários “moderados” supostamente para combater o Estado Islâmico na Síria, orçado em 500 milhões de dólares, não conseguiu mais do que 60 recrutas dentro de um objectivo de 3000 até final deste ano e de 5400 anualmente. Passemos sobre a módica quantia de 10 milhões de dólares por cada terrorista “moderado” e entremos no fulcro da questão. Esta ideia dos “moderados” está associada ao chamado Exército Livre da Síria, uma coisa criada pelos Estados Unidos inicialmente para combater e derrotar o regime sírio dirigido pelo presidente Bachar Assad. Durante os anos de existência até agora, os mercenários deste grupo não têm feito mais do que combater ao lado da Al-Qaida e do Estado Islâmico – sendo este reconhecidamente apoiado também por Israel. Ultimamente, à medida que se ia aproximando o acordo entre Washington e o Irão, os “moderados” foram também encarregados de combater o Estado islâmico, isto é, em teoria, obrigados guerrear em duas frentes.
No mesmo debate no Congresso, aparentando uma desilusão longe de ser genuína, o senador neofascista McCain, também conhecido por ser o controleiro do Estado islâmico (há fotos que o provam), admitiu que 60 “moderados” não chegam para as encomendas; para conseguir mais recrutas, sugeriu, é preciso dar-lhes a garantia de que não seriam atacados pelo exército regular sírio. Como? Compete aos Estados Unidos fazer com que as tropas de Damasco não tenham condições para atacar os “moderados”, de modo a que estes se entretenham com o ISIS. Curto e grosso: o senador McCain quer que as tropas norte-americanas intervenham para derrubar Assad enquanto os “moderados” fazem cócegas ao Estado Islâmico, acabando por se fundir com este.
Dir-se-á: McCain tem feito oposição a Obama. Pois, mas toda a política de Obama no Médio Oriente e na Ucrânia, para não ir mais longe, tem dado um jeitão aos mais conservadores dos conservadores e belicistas internos, rivalizando com eles para ver quem é mais trauliteiro.
A verdade é que Obama, no segundo mandato tal como no primeiro, deixa um rasto de guerra e sangue onde toca. Há poucos dias, o presidente da Nigéria, marginalizado por Washington por causa de alegadas violações dos direitos humanos, denunciou a administração de Washington por apoiar, na prática, os facínoras do Boko Haram.
Quando não se tem princípios na gestão do bem público é natural que se entre na roda vertiginosa dos sem-princípios. Foi a escolha de Obama, esperando-se que a História não venha a absolvê-lo.



domingo, 26 de julho de 2015

BODO AOS RICOS


Dizem as notícias que o governo de Portugal se prepara para pagar mais 53 milhões de euros aos colégios privados, em cima dos milhões que já esbanja, para que criem mais de 600 turmas, em cima das que já existem, destinadas a acolher alunos do sistema de educação pública. O senhor ministro Crato é um homem generoso e de bem, visivelmente preocupado com o futuro dos jovens portugueses, os seus dotes para a equitação e outras práticas de bom-tom almejadas pela generalidade das famílias.
Acrescentam as notícias que muitas dessas turmas funcionarão em estabelecimentos privados vizinhos de escolas públicas, as quais ficarão cada vez mais vazias de professores e estarão desde já condenadas a um presente penoso e a um futuro sem futuro.
Quem quer educação que a pague, é o lema do governo e do seu ministro das escolas privadas. Embora o pagamento, eventualmente, não seja suportado na íntegra pelos pais, sê-lo-á, em última análise, pelos contribuintes, sujeitos a uma carga fiscal criminosa para que se desenvolvam processos de engorda do sector privado, onde nem sequer está assegurada a qualidade da educação. Porque a parte formada por meia dúzia de instituições com nível aceitável, vocacionadas para acolher os filhos da elite financeira e da corrupção, não passa de um ilhéu no meio de um oceano poluído de escolas e escolinhas criadas para viver à custa das tetas do Estado, com a agravante de, em muitos casos, imporem ensino confessional num país que é oficialmente laico.
Esta situação é mais uma pincelada forte no retrato degradante do Portugal dos tempos que correm. O governo em exercício, como parte de um dito “arco da governação” temente à senhora Merkel e às hordas financeiras cujos interesses ela manda aplicar, não descansará enquanto todo o Estado não for privatizado, enquanto os elementares serviços a prestar aos cidadãos não sejam pagos e a bom preço para nutrir as contas dos donos de Portugal bem acondicionadas no estrangeiro, de preferência em paraísos fiscais.
A Constituição da República, no quadro do respeito estrito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, determina o direito de todos à saúde e à educação. O governo em exercício, atacando ostensivamente a Constituição, vem degradando a saúde a níveis anteriores ao Sistema Nacional de Saúde e, por vias indirectas, vai expulsando das escolas aqueles que são os filhos das famílias – esmagadoramente maioritárias no todo nacional – vítimas da cruel austeridade.
O recurso do governo ao ensino privado não é uma medida supletiva decorrente de circunstâncias existentes e destinada a suprir carências. Nada disso: é uma opção ideológica praticada em prejuízo do Estado e dos contribuintes, em benefício de uma clientela que medra à sombra do sistema corrupto de privatização do país. Enquanto isso, o governo ataca os professores como se fossem párias, obrigando as multidões de desempregados e desempregadas a mendigarem trabalho em escolas privadas, onde serão sujeitos às epidemias da moda desde o trabalho precário ao jogo sinistro da ameaça do despedimento arbitrário e do desemprego. A provar esta opção está o facto escabroso de o governo pagar turmas em colégios privados situados nas imediações das escolas públicas, assim deixando uma dica importante: multipliquem-se escolas privadas, onde quer que seja, porque o Estado não deixará de as abastecer.
Este ano serão mais de 600 novas turmas e mais 53 milhões de euros do nosso dinheiro deitados para o lixo. Imaginem quantas turmas serão para o ano e quantos mais milhões serão inutilizados se uma qualquer versão do “arco da governação” for reabastecida com o combustível do voto popular.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

A DÍVIDA E O PAI NATAL


O primeiro ministro de Portugal em exercício, mais o seu vice, mais o resto do governo, mais os ex-governantes e respectivos deputados, enfim, o “arco da governação” que chamou e alimentou a troika continuam a querer fazer de todos nós imbecis. É que a dívida pública portuguesa, além de ser parte de uma dívida soberana incobrável, no que não difere da situação grega mais milhar de milhão menos milhar de milhão, continua a subir como um míssil - mas em absoluto descontrolo - enquanto os responsáveis pelo fenómeno trocam culpas e acusações exigindo às vítimas que continuem a lançar os seus cada vez mais minguados rendimentos para um poço sem fundo.
Portugal é diferente da Grécia? Será… Mas apenas por enquanto, porque para lá caminha e outros se seguirão se os candidatos a imbecis, que somos todos nós vivendo dentro da União Europeia e da Zona Euro, não lhes dissermos que já chega.
Não se pense que os dados demonstrativos de que a dívida trepa sem cessar resultam de contas distorcidas elaboradas por mal-intencionados economistas de esquerda, como o “arco” e seus cúmplices gostam de argumentar. Os números são do Banco de Portugal, e se a instituição em si mesma, ou pelo menos quem a dirige, não deva ser considerada de confiança, os valores parecem sê-lo, porque se fossem alvo das conhecidas marteladas estatísticas não apareceriam tão nus e crus ante os nossos olhos.
Pois revela o Banco de Portugal que num só mês, de Abril para Maio, a dívida pública portuguesa cresceu 3777 milhões de euros, atingindo a soma astronómica de 229204 milhões de euros, uma coisa que chega quase aos 20850 euros por cada português – um pouco mais porque, como sabemos, as elites estão dispensadas de participar neste “esforço nacional”. Ou seja, só num mês a dívida pública portuguesa cresceu quase cinco por cento do valor total da “ajuda” da troika, como se sabe no valor de 76 mil milhões e que tinha como objectivo proclamado pelos governos responsáveis pagar uma dívida que cresce…Cresce… Cresce…
Recordando um pouco os argumentos dos últimos primeiros-ministros portugueses, sempre indispostos para renegociar a dívida, o que, segundo eles, seria coisa de “caloteiros”, os caminhos para sermos uns devedores bem comportados estão bifurcados em austeridade e competitividade, panaceia esta que nos transformaria em bons exportadores e menos bons importadores, assim se virando a balança comercial a nosso favor. Pois bem, ou mal, neste caso, sobre os efeitos da austeridade na vida dos cidadãos, provocando ainda o caos no tecido económico nacional, estamos conversados; quando à balança comercial, eis o que também nos diz o Banco de Portugal: nos cinco primeiros meses deste ano o défice foi de 911,1 milhões de euros, contra um balanço também negativo de 776,1 milhões no mesmo período do ano passado. A panaceia fracassou, como se sabia e o governo contrariava a pés juntos com base em meros e episódicos afloramentos positivos.
O Banco de Portugal, que por esta via não tardará a engrossar as “forças de bloqueio” apontadas a dedo pelo primeiro-ministro em exercício e seu excitado vice, diz-nos ainda que as contas externas do país registaram de Janeiro a Maio um défice de 103 milhões de euros, um valor que – reparem nisto – traduz uma degradação de 471,6 milhões em comparação com os primeiros cinco meses de 2014.
Eis pois, senhoras e senhores, o país saudável e recuperado, como ele gosta de dizer, que o senhor primeiro-ministro de Portugal nos deixa a menos de três meses das próximas eleições gerais. Ele, coitado, diz-se enganado pelo governo anterior, e por isso teve de aumentar brutalmente os impostos quando prometera diminuí-los, carregou selvaticamente na austeridade quando jurara acabar com ela, expulsou quase meio milhão de portugueses depois de garantir que viria aí emprego e crescimento económico. Enquanto a dívida soberana, de 102 por cento do PIB há quatro anos já passou por cima dos 130 por cento e assim continua a galope.
Pois se ele se diz enganado pelo anterior governo, os cidadãos foram burlados por ambos e também por quantos os antecederam até ao primeiro – já lá vão décadas – que resolveu ajustar contas com o 25 de Abril a coberto dos interesses malfeitores que gerem a União Europeia e a moeda única.

É oficial: se daqui dois meses e picos os portugueses aceitarem ir pelos mesmos caminhos é porque acreditam no pai natal e outros mitos mágicos. 

terça-feira, 21 de julho de 2015

CAMERON, OS SEUS PARCEIROS E A ESCRAVATURA


O Ministério britânico do Interior teve uma espécie de rebate de consciência. Uma ousadia propagandística insuficiente, tardia e que, no limite, tem o efeito perverso de uma prática enganosa.
Decidiu o aparelho policial e de segurança às ordens do senhor Cameron, por delegação de Sua Majestade, lançar uma campanha contra aquilo a que chamou a “escravatura dos tempos modernos”, campanha essa destinada a sensibilizar para os abusos contra os direitos humanos cometidos por redes que traficam pessoas para serem exploradas na prostituição, ou no serviço doméstico ou em alguns trabalhos clandestinos, designadamente em actividades rurais.
Este tráfico é uma realidade nua e crua em todos os países da União Europeia, e outros ditos civilizados; ora se o governo do senhor Cameron organiza uma campanha a propósito de tais aberrações, aparentemente manifesta o desejo de ir mais longe que todos os seus homólogos, os quais assobiam para o ar porque as suas preocupações são outras e bem mais importantes, por exemplo ajudar os credores a especular em liberdade com as dívidas soberanas.
Claro que o senhor Cameron se limita a uma campanha de sensibilização, como quem pede “meus senhores e senhoras, por favor sejam gentis, não explorem tanto essas pessoas, é chato e pode dar mau aspecto”. Combater de facto esses tráficos de escravos, mobilizando o sistema policial e de segurança para reprimir e eliminar tais práticas, é objectivo que não aparece nos horizontes do governo de Sua Majestade. O mais certo é que depois de esgotado o prazo de validade da campanha tudo continue na mesma e sejam marteladas mais umas estatísticas dando contas de supostos êxitos tão transitórios como esta inócua inquietação perante crimes abomináveis.
A campanha não passará, na verdade, de um exercício de propaganda. O tráfico de seres humanos que se pratica na União Europeia, e em todo o mundo dito civilizado, não é mais do que um fruto da mentalidade dominante, que coloca o lucro e os negócios acima das pessoas e dos direitos humanos. A “escravatura dos nossos dias”, para usar a expressão escolhida pelo Ministério britânico do Interior, não se resume ao funcionamento de redes clandestinas que comercializam pessoas para serem exploradas até aos limites das suas capacidades e resistências. As migrações não desejadas por quem é obrigado a sujeitar-se-lhes, por razões de sobrevivência, traduzem um tráfico encapotado, são uma forma de escravatura de sempre - e também de hoje. E que dizer do trabalho precário, dos despedimentos a eito, dos salários miseráveis e em redução permanente, da abolição de pensões e subsídios, das cargas horárias determinadas tão só pela ganância de quem as impõe, protegido pelas cumplicidades governamentais e legislativas? Tudo isto integra o lote das práticas de “escravatura moderna” que, além de não serem alvo de quaisquer denúncias ou campanhas governamentais, fazem parte dos comportamentos tolerados, encorajados e legislados pelos próprios governos.
O tráfico de pessoas para a prostituição, o serviço doméstico, a exploração nos campos caracteriza-se por afrontar deliberadamente as leis, ser clandestino e passível de combate policial, desde que haja vontade política e humanitária para isso. O facto de outras imposições próximas da escravatura como o trabalho sem direitos, a chantagem com o desemprego e, no fundo, “a liberalização do mercado de trabalho” se desenvolverem de acordo com as leis não as torna menos gravosas ou menos exploradoras. Pelo contrário, faz dos que as aprovam e permitem tão escravocratas como os traficantes de pessoas. Com uma agravante: institucionalizando essas práticas impedem que sejam combatidas ou alvo de campanhas oficiais, assegurando assim a imunidade e a impunidade aos donos “dos escravos dos tempos modernos”

A campanha do senhor Cameron é um ardil, porque a escravatura legal “nos nossos dias” é bastante mais insidiosa que a praticada ilegalmente.